Meu carcamano - Ema e Ernesto
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Aceito todo tipo de comentário construtivo.
“Você pensa em todo mundo, mas não se importa em apunhalar o meu coração me dizendo que vai se casar com outro.” Essas palavras não saem da minha cabeça. Como posso ter sido tão tola? Como posso ter me distanciado dele da forma que fiz? Meu carcamano. Ao menos é o que ele queria ser... Meu!
Um bom tempo já se passara desde que Ernesto proferiu essas palavras, por mais dolorosas que me tenham sido, eram a mais pura verdade. Eu pensei em todos, em cada pessoa ao meu redor. Pensei na felicidade da minha família, na felicidade dos meus amigos, mas fui negligente com a única pessoa que de fato merecia toda a minha atenção. Hoje eu só queria o luxo de ouvir sua voz, ainda que me falasse coisas dolorosas de ouvir. Porém, o vejo me escapando, dia após dia.
Estou sentada no carro do senhor Tibúrcio esperando o mesmo terminar de conversar com o dono do bar em que Ernesto trabalha, para então irmos finalizar os preparativos do casamento, que será dali duas semanas. Estou ao lado de Edmundo e ele fala algo sobre o casamento, mas ouço apenas palavras soltas como: “convidados”, “comportamento”, “seletivos”... Não importa, minha mente está vagando por lugares distantes, qualquer lugar que não aqui. Começo a sentir-me sufocar, minha mente passa a repetir inúmeras vezes frases e momentos. Começo a perder o folego e não sei o que está acontecendo, mas não consigo mais fica aqui dentro.
Abro a porta do carro e meu único impulso é correr para longe. Escuto Edmundo chamando por mim e a voz de seu pai em um volume mais alto perguntando o que está acontecendo. Lágrimas intrusas invadem meus olhos, impedindo que eu corra mais rápido. Quero me esconder, mas não consigo pensar em um lugar. Mil pensamentos passam por minha mente ao mesmo tempo, de forma que eu não consigo me concentrar.
Quando percebo estou sentada em um pequeno espaço embaixo da escada do cortiço, mas não faço deia de como consegui chegar aqui no estado em que me encontro. Todo o meu corpo treme e por mais que eu tente, não consigo ter o controle sobre ele. Ouço um som abafado de uma voz me chamando, mas não me movo. Só então sinto duas mãos, uma em cada braço meu, me sacodindo. Levanto o meu olhar e me deparo com aquela figura, a ultima pessoa no mundo que eu pensei que veria nesse momento, e ainda assim, a única que não me importa que me veja dessa maneira.
— Baronesinha, o que aconteceu com você? — ele pergunta enquanto segura meu rosto. Aquela voz, a única voz que me causa um alvoroço interno. Vejo dor e aflição em seus olhos, o que me faz chorar ainda mais. Quero falar, mas não consigo, não estou no controle do meu corpo. Percebendo o meu estado, Ernesto não me pergunta mais nada, me pega em seu colo e sobe as escadas enquanto soluço e escondo meu rosto em seu pescoço. Ao entrar no quarto, ele me senta na cama, coloca um lençol ao redor dos meus ombros e fica de joelho na minha frente.
— Ema, respira. – ele diz segurando minhas mãos.
— Vamos, Baronesinha, respira, expira. – fala, demonstrando e me fazendo repetir.
Repetimos por não sei quanto tempo, provavelmente muito tempo. Quando enfim me acalmo, ele se permite levantar e percebo que ele mesmo parece mais calmo.
— Edmundo me viu vindo para o cortiço? – pergunto ainda com a voz falha.
— Todos paralisaram quando você saio correndo. Ninguém entendeu o que estava acontecendo. Quando a vi correr daquela forma, eu vim atrás da senhorita o mais rápido que pude. – Ele diz. – Mas se a senhorita quiser, posso pedir para que alguém...
— NÃO!- Eu grito, cortando o que ele estava prestes a dizer.
— Por favor, não me mande embora, eu não consigo ir embora. – falo, já com lágrimas nos olhos mais uma vez.
Ernesto se coloca a minha altura, toca meu rosto, e seu toque é mais suave do que me lembro. Ele não fala nada por um tempo, e eu não ouso quebrar esse momento por nada nesse mundo. Em seus olhos eu vejo tudo o que necessito. Todas as palavras não ditas. Não é um silêncio doloroso, muito pelo contrário, era um silêncio contemplativo, e eu precisava desfruta-lo.
— Ema, o que aconteceu lá fora? – ele pergunta, e vejo tristeza misturada com medo, em seu rosto.
— Eu não sei, eu estava bem, mas comecei a pensar, e pensar, e quando vi estava fora de mim. – Não sei o que ele vê em mim quando digo isso, mas ele aperta um pouco a mão que ele segura.
— Sobre o que pensava? – Ele parecia saber exatamente sobre o que eu pensava, e eu podia ver isso em seus olhos. Aqueles olhos sempre tão sinceros, tão intrusos, eles penetravam no mais profundo da minha alma, me fazendo colocar para fora todos os meus pensamentos.
— Em você, Ernesto. Eu estava pensando em você. Em como eu fui burra, egoísta... Em como sempre esteve presente em todos os momentos. Desde que você apareceu algo em mim mudou, e eu tinha medo, tinha medo, pois eu não tinha controle sobre o que estava acontecendo, e eu não suportava não estar no controle. – agora que eu tinha começado, não conseguia mais parar. – Eu não estava pronta, Ernesto, eu não enxergava esse mundo do qual você sempre fala. Eu tinha certeza que eu não era à pessoa certa para você. Você merece muito mais, — sorrio ao me dar conta do que acabei de falar. — e eu não acredito que estou falando isso, eu, Ema Cavalcante.
Só agora que eu parei de falar e não obtive resposta alguma eu o olho, e ele está com aquele sorrisinho lateral me olhando.
— Vai ficar aí me olhando sem dizer nada, seu carcamano? – digo me irritando. Eu abro o meu coração e ele fica com esse sorrisinho debochado?
— Ihh, tava demorando em baronesinha? – ele diz, mas enfim sorri. – Será que você percebeu que falou tudo no passado? – Pergunta se aproximando, — “Eu tinha medo”, “eu não era a pessoa certa pra você”, “eu não estava pronta...”.
Quando termina de falar ele já está a centímetros do meu rosto, eu posso ver suas sardas, e passo meus dedos sobre elas, eu sei exatamente onde cada uma delas se encontra. Seus olhos me invade,, seus lábios estavam me convidando a sentir a suculência de seus beijos, mas antes que eu pudesse me mexer ele pergunta:
— E agora, você está pronta?
Estou pronta? Pergunto-me. Repenso todas essas ultimas semanas, lembro-me de como foi um martírio ficar longe dele, e pior, ter sua rejeição. Penso no dia em que o conheci, o dia em que Elizabeta estava desesperada a procura de Darcy quando as bombas destruíram a ferrovia, e eu não conseguia entender aquele sentimento afoito que ela estava sentindo. Olho para o meu interior nesse momento, em como eu me desesperei apenas com a distância de Ernesto, em como minha mente e meu corpo sofreram com sua ausência. Olho para esses olhos cor de terra que me fitam nesse momento, que me impulsionam a crescer.
Não respondo sua pergunta com palavras, me movo um pouco para frente e o beijo. Beijo como nunca o beijei antes, com paixão, com amor. Um amor que eu demorei tempo demais para perceber que estava aqui. Não demora muito e ele me beija de volta, acho que não esperava essa reação vinda de mim. Sinto todo o meu corpo tremer, mas dessa vez a sensação é boa, prazerosa. Seu beijo sempre suculento me causa espasmos nos lugares que eu nem sabia que era possível. Ernesto reluta, mas acaba se afastando.
— Baronesinha, eu não... Não consigo... – tenta falar, mas não consegue. – Ema, eu não consigo me controlar. Não com você desse jeito. – Ele fala com a voz baixa e rouca, lutando para se controlar. Isso me dá a certeza do que eu já sabia. Ele, e só ele seria capaz de amar alguém a ponto de coloca essa pessoa a frente do seu próprio desejo, mas não dessa vez, não mais. Hoje eu abriria mão do meu orgulho para dar lugar à paixão, ao amor.
— Eu estou pronta, estou pronta para ser sua, só sua... Seu carcamano.
Ele sorri da forma mais linda que eu já vi e toma meus lábios para si. Essa noite eu conheci um Ernesto totalmente novo, um homem que me mostrou o real significado do amor, que me mostrou todo o amor do qual eu duvidei um dia, mas essa não foi a única. Essa foi só a primeira noite do resto de nossas vidas. Esse é só mais um capítulo da história da baronesinha que se apaixonou perdidamente por um carcamano.
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