Meu anjo.
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Liz entrou no hospital com passadas largas e duras, estava decidida a contar toda a verdade para Israel, não podia e nem conseguia manter tudo aquilo em segredo. Bia era uma de suas melhores amigas, e Liz não aguentava mais ver a amiga sofrendo daquela forma. Escondendo seus verdadeiros sentimentos, o que sentia por Israel.
A garota parou na frente do consultório dele, pronta para bater na porta, o pulso firme pronto para chocar-se com a superfície de madeira, mas não foi isso que ela fez. Sua mão segurou firme a maçaneta e a girou, em seguida a porta se abriu. Israel estava sentado na sua mesa, lendo e assinando alguns papeis, nem a notou.
- Preciso falar com você. – sua voz soou forte e determinada. Ele ergueu o rosto rapidamente, encontrando-a de braços cruzados, e a feição impaciente da garota.
- Liz... O que faz aqui? – perguntou ainda surpreso por ela estar parada na sua frente, nas ultimas semanas ela só o evitará. – Meu anjo. – ele disparou. Rapidamente ela ergueu a mão, pedindo silenciosamente para que ele parrasse. – Ah, você quer conversar, claro. Desculpe-me. – ele levantou-se sem jeito. – Sente-se, por favor. – apontou para a cadeira a sua frente. Ela sentou-se e ele acompanhou cada movimento dela, em seguida sentou em sua cadeira.
- Não sei como começar, mas, não posso mais ver a Bia sofrendo. – disparou.
- Espera aí, o que a Bia tem a ver com isso? – perguntou o homem, surpreso e sem entender nada.
- Eu não sou a mulher que falava com você. – ela olhou para as mãos por frações de segundos. Respirou fundo e voltou a encarar o garoto de olhos verdes intensos. – Quem falava com você era a Bia, ela é o se anjo. E eu sei que ela não vai me perdoar, mas eu não posso fazer isso.
Israel levantou-se abruptamente, sua cabeça girava. Seus olhos estreitaram-se e sua boca formou um "O". "Ela é o seu anjo" repetia-se em sua cabeça. – Israel!! – Liz segurou forte o braço dele e gritou seu nome, mas ele ignorou, abriu a porta e saiu da sua sala correndo. Desceu as escadas e andou sem rumo pelo hospital.
[...]
Já era quase duas horas Manoel e Tina estavam preocupados e andavam de um lado para o outro, qualquer barulho que escutavam saiam na porta ver se era Israel. Ele já sofreu muito com o seu vicio, quase perdeu sua licença. Várias vezes quase teve uma recaída, o pai sabia quem verdadeiramente ajudou o rapaz a se manter firme. Também sabia que a garota estava evitando ele, e se preocupava que por causa disso o menino acabasse tendo uma recaída e ninguém pudesse ajuda-lo.
Tina jogou-se no sofá, enterrou o rosto nas palmas das mãos e soltou todo o ar suspenso no pulmão. Já havia tentado ligar para o filho e ele não tinha atendido.
- Onde esse menino se enfiou agora? – Manoel perguntou pela milésima vez, também em vão.
- Eu não sei. Estou com medo de ele cometer um erro e depois se arrepender, temos que procura-lo. – sugeriu Tina, também preocupada com Israel.
- Já sei. – Manoel atravessou toda a sala, parou na porta e olhou para Tina. – Vou falar com a Bia, você fica aqui, qualquer coisa dê um grito, eu venho correndo. – ela assentiu e Manoel saiu de casa. Abriu o portão e atravessou a rua, parando na frente da casa de Laura. Abriu o portão e entrou, bateu na porta e quem abriu foi Bia, que ainda não tinha pregado o olho.
- Seu Manoel? – falou surpresa. Olhou para o lado, onde seus olhos encontraram o relógio e os ponteiros marcando 01:58 da madrugada.
- Desculpe-me Bia, mas você é a única pessoa que posso pedir ajuda. – Bia notou que algo estava errado, tratou logo de perguntar o que ele precisava.
- Então diga, vou fazer o que estiver ao meu alcance. Aconteceu alguma coisa? – indagou.
- Sim, Israel saiu do hospital assustado hoje e até agora não voltou para casa, você sabe sobre o vicio dele, eu estou muito preocupado.
Bia sentiu medo, um enorme aperto no coração. E se ele estiver passando mal? Com quem ele vai falar? Perguntou-se mentalmente, altamente preocupada com o garoto.
- No que eu posso ajudar? – perguntou rapidamente, fazendo um sorriso de alivio surgir nos lábios de seu Manoel.
- Liz, eu sei que meu filho gosta dela. Você, por favor, poderia falar com ela. Pedir para ela ligar para meu filho? – a garota assentiu e correu até seu celular, discou rapidamente o numero da amiga e encostou o celular na orelha. Logo uma voz sonolenta a atendeu.
"Bia, aconteceu alguma coisa?" – perguntou Liz do outro lado.
- Sim. O Israel ainda não voltou para casa. Seu Manoel está muito preocupado. Israel gosta de você Liz. – Bia deu uma breve pausa, era dolorido falar isso, mas precisava da ajuda da amiga. – Poderia ligar para ele? Se ele escutar sua voz ele vai se sentir melhor. – explicou.
"Não posso Bia." – disse a garota e em seguida soltou um profundo suspiro. "Israel sabe que era você que falava com ele, eu contei. Ele sumiu e a culpa é minha. A única voz que ele quer ouvir agora. É a sua." – acrescentou Liz.
As pernas de Bia fraquejaram e ela sentou-se no sofá, assimilando cada palavra que Liz havia lhe falado.
- Filha, está tudo bem? — indagou seu Manoel, tirando-a de seus pensamentos.
"Desculpe-me Bia, mas não posso ligar para ele. Você é o anjo dele, é você que ele vai escutar." – depois disso a ligação ficou muda, Bia desligou o telefone e olhou para seu Manoel que a fitava com expectativas.
- Então ela vai ligar? — questionou o homem, Bia balançou a cabeça em negativa. – Meu Deus, mas o que essa garota pensa? – Manoel colocou as mãos na cabeça.
- Eu vou ligar. – Bia levantou com o celular na mão, discou o numero do rapaz e esperou. Depois de longos 20 segundos ele atendeu. – Israel... – murmurou.
"Bia?" – sua voz era vazia. – "Por que você não me contou a verdade? Por que não falou que era você que me atendia?" – sua voz dessa vez era cheia de mágoa e angustia.
- Me desculpe. Onde você esta, seu pai está muito preocupado com você. – disse com a voz profissional.
"Digo onde eu estou, mas apenas você pode vir. Promete que não vai contar para ele?" – Bia ponderou. Não sabia o que responder, sentia medo. Nunca foi a garota mais bonita, nunca gostou de si mesma, as piadinhas sempre a rondaram e agora sentia vergonha por Israel saber sobre a verdade. Porem, gostava dele o bastante para negar o pedido.
- Okay, onde você está? Estou indo para ai. – respondeu.
"Você jura que vem sozinha?" – questionou o rapaz.
- Sim, eu juro.
"Eu estou no clube, quando você chegar aqui eu acho você." – a ligação ficou muda.
- O que ele falou? – indagou Manoel que ainda estava muito preocupado com o filho.
- Eu preciso ir, mas, pode ficar tranquilo eu ligo lhe dando noticias. – Bia pegou a bolsa e um casaco e saiu da casa. Manoel a seguiu.
- Para onde você vai essas horas? Está tarde, sabia? – questionou.
- Seu filho disse para eu ir sozinha. – comentou.
- Mas, essa hora? Deixe-me lhe dar uma carona. – Bia pensou direito e então aceitou.
[...]
Manoel estacionou o fusca na frente do clube, Bia abriu a porta e rapidamente estava do lado de fora, fechou a porta e curvou o corpo, olhou para o homem dentro do carro.
- Deixe-me falar com ele sozinha. Depois eu saio e o senhor entra. – assentiu. Bia virou-se e entrou no clube. Andou por todo o lugar e ele ainda não tinha dado as caras. Estava parada no jardim e nem notará que ele a observava de longe. Israel andou com passos minuciosos até ela. Sem que Bia percebesse, parou atrás dela e esticou a mão pousando sobre o ombro dela, ela deu um pulo e soltou um grito.
- Hey. Hey. Não precisa se assustar, sou eu. – amenizou. Aos poucos a garota se acalmou. – Então, está melhor? – assentiu.
- Israel seu pai e sua mãe, eles estão muito preocupados, você tem que voltar para a sua... – Bia calou-se quando sentiu a palma da mão de Israel em sua bochecha o toque cheio de calor e carinhoso dele sobre sua pele. Uma onda elétrica passou por seu corpo, fazendo-a fechar os olhos e sentir o toque gentil do homem, ele sorriu vendo-a tão tranquila.
- Por que não me contou? – a voz rouca e grossa dele, fez a garota estreitar os olhos e em seguida se afastar.
- Por que era proibido falar nosso nome. – respondeu. Ele maneou a cabeça em desaprovação.
- Mas, e quando eu fui lá? Por que a Liz disse que ela era a garota? – questionou.
- É...Eu pensei que... – Bia sentiu-se nervosa, as mãos trêmulas e suadas. – Eu pensei que... — não conseguiu encara-lo, seu olhar vagou até o gramado verde e cravou naquela região. – Por que se você soubesse, ia fugir, não ia gostar de mim de jeito nenhum. Olha para mim. – apontou para si mesma. As lágrimas começaram a descer incontrolavelmente dos seus olhos, ela limpou com a manga do casaco, mas não resolveu, continuaram caindo naturalmente. Continuou com a cabeça baixa, apertando os olhos para bloquear as lágrimas. Nem notou quando ele se aproximou, apenas quando ele segurou seu queixo e ergueu seu rosto.
- Preciso olhar dentro dos seus olhos. – ele fitou os olhos dela por um longo tempo, seus olhos verdes brilhando intensamente. – Preciso todos os dias escutar a sua voz. – inclinou a cabeça depositando um suave beijo na testa dela. – Não me importo com nada. – deu uma breve pausa. – Meu anjo. – Bia não conseguiu segurar o sorriso que se alargou em seus lábios e instantaneamente refletiram-se nos dele.
- Sorriso. – ela falou o fazendo ampliar ainda mais o sorriso em seus lábios. – Mas, não posso. – afastou-se rapidamente, escutando a razão que tilintava em sua cabeça. – Preciso ir. – disse já saindo do local.
- Bia! – exclamou. – Por favor, volta. – um fio de suplica saiu junto com o grito agudo de Israel. Porem, ela ignorou. Saiu correndo do clube, pegou o celular e ligou para Laura, que não demorou e atendeu a irmã. Bia pediu carona, disse onde estava e rapidamente Laura já estava dentro do carro. Bia viu quando a irmã estacionou na frente do clube. Correu e entrou no carro.
- O que aconteceu? Você está chorando?! Por quê? – questionou a irmã mais velha.
- Vamos, por favor. – disse apenas. Laura voltou a dirigir. Ponderou o caminho inteiro e resolveu deixar a irmã quieta, ao menos por essa noite.
[...]
Bia acordou cedo, determinada, decidida a não chorar mais, entrou no banheiro e lavou o rosto. Ficou alguns segundos com os olhos fixos em seu reflexo, os olhos vermelhos e um pouco inchados demostravam o quão ruim foi a noite para ela. E o pior, Israel não saiu da sua cabeça por nenhum minuto.
Voltou para o quarto e se vestiu, casualmente como sempre. Amarrou os cabelos. Colocou seu óculos e passou um gloss de morango nos lábios. Não ia deixar que tudo que aconteceu atrapalhasse seu dia.
Durante o dia conseguiu manter a cabeça apenas no trabalho, nada a incomodou. Mas, na volta para casa, dentro do ônibus, instantaneamente seus pensamentos a traíram e novamente ela estava pensando em Israel. O ônibus parou e ela se apressou em descer.
Israel estava parado com os ombros apoiados no pilar do portão, estava de olho em todos os ônibus, quando a viu descer tratou logo de se apressar. Correu até ela e quando Bia o percebeu apressou os passos. Abriu o portão e agradeceu por ele não emperrar
- Bia! – exclamou ele. Ela permaneceu com a cabeça baixa, do outro lado do portão. – Precisamos conversar. – ela o ignorou novamente. Israel abriu o portão e entrou. Bia entrou na casa e quando ia fechar a porta, foi surpreendida por ele, que entrou na casa e fechou a porta.
- Mas, o que está acontecendo? – perguntou Vicente.
- Seu Vicente eu quero muito falar com a Bia, será que o senhor pode nos deixar sozinhos? – não demorou muito para Vicente assentir e sair da sala, se afastando ao máximo.
- O que você quer Israel? – Bia foi um pouco áspera e o rapaz percebeu.
- Você. – disse, Bia engoliu em seco, recuou o máximo dele, até sentir suas costas se chorarem com a parede solida.
- Você está errado, muito errado. Você é apaixonado pela Liz, lembra? Você pediu a minha ajuda, não pode falar isso agora. – explicou Bia.
- Eu pensava que a Liz era você. Eu estava errado, a garota que falava comigo era você e não ela. Eu fui um completo idiota. – cobriu as distancia entre os dois e parou a poucos cm dela. – Você é a garota, você é o meu anjo e é você que eu quero. – pousou as mãos nas bochechas frias de Bia, olhou intensamente nos olhos dela. Nesse momento Bia não tinha mais forças, apenas segurou na gola da camisa dele o puxando para mais perto, ele sorriu. Sabia que o desejo era mutuo. Aproximou o rosto do dela e plantou um beijo calmo e demorado em seus lábios. No fim, ele encostou a testa na dela, ambos ofegantes.
- Sorriso. – ela murmurou, fazendo os lábios dele se alargarem ainda mais.
- Meu anjo. – ele a beijou novamente. Tinha certeza do que estava sentindo pela garota e agora quebraria quantas barreiras fosse preciso para ficar ao lado dela.
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