Do alto dos meus dezessete anos eu não tinha meu futuro planejado, mas não almejava uma vida extraordinária. Confesso que as vezes me pegava imaginando como seria se eu namorasse e me casasse com Lucas Sttein.

Moreno claro, cabelos castanhos , olhos esverdeados e porte atlético. Um alvo inatingível.

Ele morava em frente à minha casa, mudou-se para lá meses depois de meus pais comprarem nossa casa ali, morávamos em um dos bairros mais tranquilos de Alana, uma cidade pequena, pouco mais de 7000 habitantes,as eram casas amplas e bem arquitetadas.

Os vizinhos não costumavam ser muito abertos a maiores intimidades, com os Sttein não era diferente, apenas os cumprimentos primordiais. Não bastasse sermos vizinhos, estudávamos no mesmo colégio, eu no segundo e ele no último ano do colegial, esse era outro ponto forte que nos distanciava ainda mais.

Todos esses motivos ajudaram a fortalecer toda a minha surpresa quando ele me convidou para o baile dos veteranos.

Costumava passar horas na sacada de casa, observando como um paparazzi as mais diversas atividades praticadas por ele, desde tarefas simples como lavar a Mercedes vermelha dos seus pais, até as garotas que às vezes ele levava para seu sobrado azul piscina.

Perdi a conta de quantas foram as vezes em que me peguei chorando por ele, depois fui me acostumando,tanto com as garotas quanto com o fato de meus devaneios com Lucas não passarem de, bem, devaneios.

Era fim de tarde, o vento chacoalhava as arvores como se quisesse levá-las para brincar, o cheiro de folhas frescas fez com que eu aspirasse o ar com mais entusiasmo, eu estava em pé na sacada já tinha algum tempo, meus pensamentos estavam perdidos nos mesmos lugares de sempre. Olhava o sol se pôr quando ele apareceu.

Lucas parou em sua calçada, colocou uma das mãos no bolso da calça jeans desbotada, notei que ele olhava para mim.

O sol já havia baixado e os raios restantes refletiam nos telhados das casas causando efeitos divertidos na paisagem, na posição em que ele estava a impressão era de que os raios alaranjados brilhantes saiam de suas costas, senti minhas pernas amolecerem.

—Samantha?! — Ouvi meu nome ser chamado por ele.Sua voz era mais grave do que eu imaginava, e meu nome pareceu mais bonito do que eu achava realmente.

Por alguns segundos acreditei se tratar de uma ilusão, tudo fruto da minha mente insana, eu teria compreendido perfeitamente isso não fosse por escutar novamente Lucas me chamar.

"Anda, não seja idiota, finja que não está passando mal só porque ele falou seu nome"- Me insultei baixinho.

Eu não sabia o que fazer.

—Ah... Lucas, oi. -Falei enquanto me debruçava um pouco na sacada para poder vê-lo melhor, estava tão perdida que certamente parecia boba.

Ele colocou a mão sobre a testa tentando fazer sombra sobre seus olhos, aquele mínimo esforço fez com que cada músculo de seu corpo ficasse em evidencia, foi o bastante para que eu perdesse o domínio sobre minhas pernas.

— Será que daria pra você descer aqui um pouquinho? Eu queria te perguntar uma coisa. -Ele falou totalmente tranqüilo como se fosse habitual,como se manter comigo um diálogo por mais de um segundo fosse algo rotineiro.

Imaginava que não seria nada importante, talvez ele quisesse reclamar dos latidos do meu cachorro, O Barth andava mesmo impossível, a questão era que de qualquer forma, ele sabia meu nome.Sem hesitar respondi que já estava indo e sem mais me virei pra correr escada à baixo ao seu encontro, não conseguia raciocinar direito.

O quê ele poderia estar querendo me perguntar? Como estava meu cabelo? Praguejei-me por não estar com um batom nos lábios, mesmo assim não podia perder um segundo se quer tentando me ajeitar.

Antes de abrir a porta dei- me uma olhada no espelho da sala, precisava checar se estava apresentável. Shorts branco, camiseta velha e rabo- de- cavalo, não era um visual propício pra uma boa primeira impressão, mas, não podia fazer nada, pelo menos se ele questionasse o fato do meu rosto estar da cor de um tomate maduro eu colocaria a culpa em minha exposição ao sol, isso me confortou um pouco.

Respirei fundo e abri a porta, Lucas já não estava mais em frente a sua casa, dei um passo para frente e então como uma miragem lá estava ele, encostado em meu muro, braços cruzados em seu peito, sorrindo seu sorriso mais bonito.

—E então?O que você quer me perguntar? -Tentei parecer desinteressada enquanto gritava por dentro.

Ele caminhou como se desfilasse em uma passarela, o corpo ereto, o maxilar contraído, ele era sensual sem fazer esforço.havia um pau- brasil em frente a minha casa, ele encostou no tronco escuro e aproveitou a sombra que a copa verde projetava.

Pude notar que gotinhas de suor se acumulavam sobre seus lábios.

Estaria ele nervoso ?

—O baile, você sabe? De boas vindas... -Lucas começou a dizer enquanto encolhia os ombros.

Fiquei sem entender, era óbvio que eu sabia sobre o baile, aliás, era só do que se falava no colégio, tudo girava em torno deste baile.

—Sim, o baile. O que é que tem? -Perguntei verdadeiramente curiosa enquanto como uma tola não sabia o que fazer com as minhas mãos, de repente elas pareceram enormes.

Lucas sorriu mais uma vez, desta vez um sorriso mais tímido. Como se alguma coisa pudesse mesmo intimidá-lo...

—Bem acho que você sabe que sou do último ano, e que é minha turma é quem está organizando essa festa, então nós decidimos que cada um da minha sala pode ter como par, um aluno do segundo ano, imediatamente eu pensei em você. -Ele finalmente concluiu.

Enquanto meu cérebro tentava assimilar o que estava acontecendo, tive a sensação de estar dentro de um sonho, de repente as imagens começaram a sair de foco como se eu fosse apagar. Pisquei com força e lá estava ele, me olhando um pouco intrigado. Decididamente não se tratava de um sonho.

—Você está me convidando para ir ao baile?Ser seu par? -Perguntei incrédula e deixando transparecer minha euforia.

Mais uma vez ele me olhou de forma diferente,o vento soprou e ele estreitou os olhos para protegê-los da poeira que vinha da rua.-Claro... isso se você já não tiver planos com outra pessoa. -Ele se preocupou.

Eu queria pular em seu pescoço e gritar quer sim, no entanto tive de me conter, eu já estava dando foras de mais, temi que Lucas se arrependesse de estar me convidando.

—Na verdade recebi alguns convites, não dei resposta a nenhum, então... — Menti, estava tentando parecer pouco disponível. -Acho que seria legal ir com você.

—Fico feliz que você tenha aceitado,vai ser legal! -Ele comemorou com menos empolgação do que eu gostaria, ainda assim eu estava nas nuvens.

"Legal? Vai ser um máximo, com certeza a melhor noite da minha existência!" Era tudo o que eu pensava.

—Tenho certeza que sim. -Limitei-me a dizer, temendo demonstrar algum excesso.

Sem maiores detalhes ele se virou em direção a sua casa, enquanto eu o seguia com meus olhos. Quando ele já estava entrando me virei para fazer o mesmo, deixaria para gritar de alegria quando ele não pudesse mais me ouvir.

—Samantha, só mais uma coisa... — Sua voz me fez voltar.

—Claro, o que é? -Perguntei muito contida.

—Vou dar a você dois convites, assim pode levar sua irmã, quanto mais conhecidos melhor. -Ele voltou a sorrir.

"Levar minha irmã? Era só o que me faltava. Por que é que eu tenho que levá-la?"

—Nossa, é... Muito legal da sua parte, vou ver se ela pode ir, de qualquer forma obrigada. -Tentei fingir que não estava irritada com a sugestão.

—Tenho certeza de que ela vai querer ir. -Lucas afirmou piscando, e depois foi embora.

Ao entrar em casa olhei ao redor um pouco atordoada, não avistei ninguém, a área estava limpa para minha crise de histeria, mas ao contrario do que eu imaginava, não gritei, nem pulei, sequer consegui organizar dentro da minha cabeça tudo o que tinha acabado de acontecer, então fiquei largada no tapete do pé da escada, sem coragem de subir para meu quarto.

Pensei e repensei milhares de vezes se levaria Sarah ou não.Eu tinha vários motivos para não fazê-lo, e não era só a diferença de idade, ela era quase dois anos mais nova, pelo menos era o que a certidão de nascimento alegava.

Minha irmã sempre foi mais esperta do que eu, tínhamos pontos de vista sempre divergentes, isso acabava nos distanciando, mesmo assim estava tentada a convidá-la, eu sabia que ela estava louca para ir àquela festa.

Depois do jantar, que foi um fiasco, já que minha mãe estava em greve de fala com meu pai eu nem me lembro porque, chamei Sarah para meu quarto.

— O queeeeeeeê? Você tem um convite extra para o baile?Um convite extra? -Sarah pulava de um lado para o outro como se tivesse recebido a melhor notícia do mundo, isso porque eu ainda nem havia dito que daria à ela, mas como sempre, deduziu que sim.

No final das contas acabei me sensibilizando, percebi que aquilo era muito importante para ela, então não tive dúvidas de que havia feito à coisa certa, Sarah estava muito feliz.

—Quem foi que disse que vou te dar esse convite? -Perguntei séria, só para me divertir um pouco.

No mesmo segundo Sarah parou, parecia que alguém acabava de tirá-la da tomada.

—Sam, você não teria coragem de fazer isso comigo, não é? -Ela choramingou com os olhos caídos e veio sentar ao meu lado na cama.

Por alguns instantes permaneci séria, mas ela estava tão afetada que explodi numa gargalhada.

—Você é tão hilária Sarah, até parece que este baile é o acontecimento do ano. -A recriminei pelo excesso.

—Pra mim é. — Ela falou levantando-se. -Estou de olho num garoto do último ano, essa pode ser minha grande chance, você sabe, estando em trajes de festa e bem arrumada, pode ser que ele não resista. -Ela continuou mais para ela do que pra mim.

Fique observando Sarah bem na minha frente, ela não precisava de nada para chamar a atenção de algum garoto.

Em meio a meus pensamentos uma questão me deixou realmente curiosa.

—Sarah, quem é o garoto? -Fui abusada ao perguntar já que esse tipo de conversa não era mantida por nós.

Ela sorriu com o canto dos lábios, um sorriso malicioso.

—Só falo se você me disser quem te convidou. -Ela propôs.

Que chantagista ela era, mas nada feito, eu não diria nem sob tortura. Balancei a cabeça numa negativa, Sarah encolheu os ombros já indo em direção a porta.

—Não me importo, no dia do baile eu vejo quem é. -Ela foi convicta.

— Bem lembrado, eu também espero até lá. -Desafiei.

Ela riu.

—Quem sabe, se tudo der certo, não saímos os quatro pra uma esticada depois do baile? — Sarah foi pra seu quarto, ela era tão autoconfiante que chegava me causar inveja.

Fiquei praticamente a noite toda acordada, ou melhor, sonhando acordada.

Nos dias que antecederam a festa eu evitava ao máximo ficar no mesmo ambiente que Lucas, tinha medo de que de repente ele voltasse atrás ou se arrependesse de ter me convidado, afinal, os convites não haviam ainda sido entregues.

Faltando apenas uma semana para o dia tão esperado, percebi um envelope em baixo da porta quando eu saia para a escola, do lado de fora do envelope branco meu nome em letras mal desenhadas. Abri, eram os dois convites, sorri satisfeita e fiquei por alguns segundos alisando a escrita do envelope.

O medo de sua desistência acabara naquele instante, já era hora de começar apensar no meu vestido.

Já no colégio, fiquei procurando por Lucas para agradecer, fui o caminho todo ensaiando o que diria, como me portaria diante dele, esperava que esse encontro fosse mais acalorado que o anterior. Passei por todos os lugares onde geralmente ele ficava mas não o encontrei, talvez ele estivesse muito ocupado organizando alguma coisa.

Não fiquei preocupada com isso, afinal, oportunidades não me faltariam.

Corri para a sala de química, naquela manhã tínhamos um trabalho em dupla, minha parceira, Melissa Castano, já me aguardava ansiosa. Nos conhecíamos há anos, não diria que éramos melhores amigas, afinal eu nunca gostei desse tipo de rótulo, por algum motivo oculto eu não gostava de confidenciar amores, problemas e tudo mais que melhores costumam fazer.

De qualquer forma ela era muito legal, conversávamos bastante, íamos, ao cinema, caminhar, passear com nossos respectivos cachorros. Eu até ouvia com atenção quando ela queria me confidenciar alguma coisa, dava meu ponto de vista, aconselhava, afinal meu problema era falar sobre mim, quanto a ouvir, tudo bem.

Melissa era bonita, morena, olhos e cabelos castanhos, alta, mas não exageradamente, era ótima jogadora de vôlei, daquelas que sempre são as primeiras escolhidas para jogar nas aulas de educação física, mas nem com tudo isso ela era privada das decepções amorosas, nessa área ela não tinha muita sorte.

—Sam, fui convidada para o baile. -Ela cochichou em meu ouvido numa distração do professor. -Depois eu te conto tudo, com detalhes.

Apenas sorri, Melissa adorava contar tudo com mínimos detalhes, quando eu estava bem humorada nem pedia pra ela resumir, aquele dia ela estava com sorte.

Durante o intervalo ela me contou empolgadíssima que Alex Benjamim, um casinho do passado que havia a feito derramar baldes de lágrimas por passar a sair com outra garota, acabara de convidá-la para o baile.

Alex era do último ano também, não tão popular quanto Lucas mas era bonitinho, muito branco e magro, parecia um vocalista de Boy Bands, isso já era o bastante para deixar a maioria das garotas babando. Muito convencido pro meu gosto, já Melissa o achava um sonho, isso acabou justificando o fato dela ter aceitado acompanhá-lo mesmo depois de tudo o que ele havia feito meses antes.

Ela ainda quis saber se alguém tinha me convidado, cheguei a pensar em contar a ela sobre Lucas, mas no fim, apenas me restringi a dizer que estava estudando umas propostas.

—Bem, de qualquer forma você vai, não é Sam? -Melissa perguntou enquanto bebia um gole do meu refrigerante.

—Sim, de qualquer forma acho que vou acabar aparecendo. -Falei fingindo desinteresse. -Sarah também vai.

—Sério?Quem a convidou? -Mel, ficou curiosa.

Eu não podia dizer a verdade.

—Não sei, ela não quis me dizer, sabe perfeitamente como minha irmã é, só sei que ela ficou dando pulos de alegria por poder participar desse baile.

—Claro que deve ter ficado, esse baile é um dos mais esperados, acho que por ser restrito somente a alguns alunos, isso faz nós nos sentirmos muito importantes. -Mel concluiu com empolgação.

O restante das aulas passou bem rápido, levando em consideração que as palavras mais ouvidas eram vestidos, garotos e tudo mais que girava em torno de uma festa.

Quando cheguei a casa Sarah também já estava lá, sua escola era bem mais perto que a minha.

—Sarah, o que você vai fazer mais tarde? -Perguntei enquanto jogava minhas coisas em cima do sofá.

Sarah continuou olhando para TV enquanto assistia uma de suas séries preferidas.

—Não sei, por quê? -Ela mostrou todo seu desinteresse.

Detestava ter que pedir qualquer coisa para ela mas, naquele caso era realmente preciso, Sarah tinha muito bom gosto e estava sempre antenada com a moda.

—Quero ir ao shopping para ver se compro meu vestido. -Falei me sentando ao seu lado.

Ela se virou para mim.

—Quer que eu vá junto? -Perguntou espantada.

Sabia que ela ficaria surpresa, afinal nós quase não saíamos juntas.

—Pensei que talvez você também fosse comprar algo, e, não quero ir sozinha. -Falei com sinceridade.

Eu poderia ter chamado Mel, sei que ela iria, mas naquele dia a cota do nome Alex estava esgotada, e ainda restava mais uma semana para ouvi-la falando dele.

—Hum... Não sei, se eu for é só de companhia mesmo. Eu não vou comprar vestido não, tenho um novinho, aquele vermelho que fui no casamento da nossa prima Sabrina, lembra? -Ela parecia superior enquanto falava.

—Lembro seu vestido vermelho, realmente é lindo, se o meu vestido do casamento da Sabrina ainda existisse, talvez eu pudesse ir com ele. -Lamentei ao me lembrar do final trágico do meu lindo vestido prata.

—Se o seu lindo cachorro não tivesse comido seu vestido, ele seria perfeito para o baile, aliás, foi umas das únicas escolhas boas no quesito roupa que você fez. -Ela riu com maldade, e então colocou a mão no queixo com uma expressão vitoriosa. -Lembrei!Fui eu quem escolheu seu vestido, eu fui com a mamãe comprá-lo.

—Há,há,há, como você é engraçada. -Falei sarcástica, porém, o pior é que era tudo verdade, foi Sarah quem comprou meu vestido.

Barth, meu cachorro, um bull terrier, que me custou meses de insistência com meus pais, já que em casa todos tinham aversão a animais. Eu era a única diferente, era apaixonada por animais e tive que brigar muito para conquistar o direito de ter um bichinho de estimação que não fosse um peixinho beta. Barth tinha apenas 45 dias quando eu o comprei, na época do casamento de minha prima, ele estava com uns quatro meses, uma fase terrível onde tudo era comestível para ele. Depois da festa, tirei o vestido e o deixei em cima da cama, Barth estava no meu quarto comendo, afinal era um filhote, fui para o banheiro e quando voltei, lá estava ele em meio a tiras prateadas, com um pedaço de tecido ainda na boca. O que eu poderia fazer? Como disse, ele era apenas um filhote, mas não parou por aí, até Barth atingir sua fase adulta, foram chinelos, camisetas, bichos de pelúcia, entre muitas outras coisas devoradas por ele.

Bem, já era tarde para lamúrias, então, eu realmente precisava de um vestido novo.

Percebi que Sarah estava em dúvida se iria ou não, então decidi dar uma.

forcinha.

—Ah, eu já ia me esquecendo. -Fui falando enquanto pegava minha mochila. -Sabe o que eu tenho aqui dentro deste envelope?

Sarah arregalou os olhos mantendo-os fixos em minha mão em quanto eu balançava o envelope branco.

— Não me diga que são os convites? -Perguntou incrédula saltando do sofá.

—Ahãm. -Confirmei com a cabeça.

Sarah arrancou o envelope das minhas mãos com tanta rapidez que quando vi, ela já estava beijando os papéis impressos.

—Ai Sam, você é a melhor irmã do mundo! -Dizia enquanto mudava o foco de seus beijos, eles eram em mim.

Fiquei surpresa com o poder que aqueles pedaços de papel tinham.
—Claro que vou com você, por algum tempo não vou conseguir te dizer não, além do mais, eu não quero que minha adorável irmã vá mal trajada ao baile, ficaria ruim pra mim, imagine as pessoas dizendo: "Olha a Sarah Nesser, acaba de chegar com aquela garota fantasiada para o halloween."-Ela divertia-se.

—Sabe, eu deveria brigar com você depois destas observações, mas não vou fazer isso. -Falei indo em direção a cozinha. -Não quero estar de mau humor no dia em que vou comprar meu vestido.

—Sei,o que você não quer é perder minha consultoria de moda. -Sarah ainda continuou sua provocação.

Procurei alguma coisa para comer, tinha que esperar minha mãe chegar pra poder pegar o carro, embora não tivesse carteira de motorista, meus pais deixavam que eu dirigisse, achavam que eu era mais responsável do que muitos motoristas mais velhos.

Já eram quase quatro da tarde quando Elisabeth Nesser resolveu aparecer, com os cabelos diferentes, o que não era novidade já que minha mãe mudava de cabelo como quem muda de roupas.

—Olhem queridas, o que acharam do meu novo visual? -Perguntou acariciando suas madeixas louras.

Sarah cercou seu rosto com as mãos e depois riu incrédula.

—De novo mãe?Não seria mais fácil adquirir perucas? -Perguntou voltando rapidamente sua atenção à TV.

Ela fingiu ignorar o comentário de Sarah.

—E você querida, o que acha? -Mamãe perguntou enquanto sentava-se comigo à mesa.

Não interrompi minha alimentação, havia preparado uma salada maluca que estava uma delícia, minha mãe continuou sentada esperando por minha opinião.

—Eu gostei. -Fiz uma pausa, ela sorriu feliz. -Da idéia das perucas. -Concluí.Pude ouvir as gargalhadas de Sarah na sala.

—Vocês são tão desnaturadas. -Ela reclamou magoada. -Podiam pelo menos fingir só pra me agradar, lembrem-se que sou a mãe de vocês.

Diante das lamurias Sarah resolveu juntar-se a nós.

—Sabe mãe, é muito complicado criar vínculos afetivos com alguém que nem ao menos tem uma aparência fixa, cada dia você está de um jeito. -Ela ironizou.

Desta vez fui eu quem gargalhou, Sarah realmente tinha um humor peculiar.

Quando os ânimos se acalmaram pedi o carro emprestado, ela concordou sem que eu precisasse insistir, afinal naquele resto de tarde ela teria ocupação, ficaria em frente ao espelho, auto examinando seu novo visual, descobrindo com qual cores de roupas o novo tom de cabelo combinava e assim por diante.

Troquei apenas de blusa e Sarah já estava arrumada, o que me economizou algum tempo. Tinha que me apressar, não gostava de dirigir a noite, seguimos então para o shopping.