Meu Protetor-Degustação
2 Surpresas
—Este ficou lindo!Perfeito. -Sarah, finalmente havia aprovado um vestido depois de eu ter provado no mínimo uns vinte.
Virei de costas para analisar melhor, realmente não estava ruim, era um modelo bonito, meio dourado e da cintura para baixo era feito em um tecido leve e fosco, já a parte de cima o mesmo tecido tinha um brilho sutil, um ombro só, feito com um babado delicado que caia sobre o braço, havia ficado bem em mim, então já exausta decidi que seria aquele mesmo.
O vestido custou quase metade da minha mesada, mas eu só pensava que não poderia fazer feio com Lucas, tinha que estar à sua altura. Paguei e então fomos embora rapidamente.
Meu final de semana passou sem maiores novidades, na manhã de sábado tentei dar uma organizada em meu quarto, depois do almoço, dei banho e levei Barth passear na rua do lago, um lugar próximo de casa onde havia um lago de uns dois quilômetros de extensão rodeado por uma pista de caminhada, além de espaços gramados , bancos e um parque com brinquedos de madeira para as crianças, bem arborizado, era o lugar da cidade que nos dava mais contato com a natureza.
Em geral era fácil encontrar o pessoal da escola por lá, exceto aos sábados,nos finais de semana o lugar mais freqüentado era Alta Avenida, uma longa rua rodeada por barzinhos da moda, eles colocavam as mesas na calçada, alguns tinham bandas locais tocando músicas conhecidas, mas na maioria das vezes o predominante era o som exageradamente alto que vinha dos carros estacionados, parecia até um concurso.
No final da noite aquilo parecia um mar de gente, minha irmã adorava aquele lugar, mas meu pai só a liberava se eu fosse junto, por isso as vezes eu era obrigada a ir, não era nem de longe meu programa favorito, mas eu até acabava me divertindo.
Naquele final de semana Sarah nem quis ir para a lá, disse que estava poupando sua imagem para causar impacto no dia do baile. Fui dormir mais cedo então.
No domingo minha missão foi ficar na sacada para tentar ver Lucas, o que não aconteceu, não havia nem sinal dele, deduzi que ele estava fora de casa pois faltava um carro na garagem.
Estava quase anoitecendo quando Melissa me ligou para jogar conversa fora, ficamos por quase uma hora tagarelando.Resolvi dormir depois de tomar um longo banho.
No dia seguinte durante a troca de aulas, fui surpreendida ao ouvir uma voz masculina chamar meu nome, ao me virar dei de cara com Lucas, lindo como de costume.
—Oi, como vai Samantha? — Perguntou se aproximando de mim.
Olhei em minha volta, queria ver se alguém estava prestando a atenção em nós, não nego que fazia bem para meu ego ser vista junto dele.
—Bem, obrigada. -Respondi sem conseguir imaginar algo mais original.
—Então, tudo certo para o baile? -Perguntou enquanto passava a mão pelos cabelos curtos.
Seria um sinal de nervosismo?
—Tudo certo, e por falar nisso, obrigada por deixar os convites em minha casa. -Consegui dizer sem gaguejar, o que já era bom.
—Não foi nada além da minha obrigação. — Ele respondeu encolhendo os ombros. -E sua irmã, vai poder te acompanhar?
—Sim, Sarah adorou ter sido convidada. -Omiti o fato dela quase ter soltado fogos de artifício de tanta felicidade.
Lucas sorri e eu tive que me segurar para não agarrá-lo ali mesmo.
—Que bom. -Ele pareceu empolgado. — Então vejo vocês na sexta.
Achei que ele fosse combinar a que horas nos pegaria em casa, mas ele não tocou no assunto, sequer me disse tchau antes de dar as costas para mim. Apesar de ter sido desconcertante em todos os sentidos, aquele encontro serviu para eu saber que teria que me virar quanto a forma que iria até a festa.
Nossos encontros estavam sendo um pouco decepcionantes, queria muito que ele me pegasse em casa, levando em conta que nos meus devaneios eu me via entrando no carro com Lucas, chegando com ele ao baile de mãos dadas enquanto metade da escola ficava boquiaberta. Porém era apenas um detalhe e não iria estragar a magia daquela noite.
Não preciso nem dizer que os dias se arrastaram lentamente, ansiosa como eu estava mal conseguia dormir durante as noites que antecediam a tão esperada sexta-feira.
Sarah também se mostrou ansiosa um dia antes, isso me confortou um pouco, depois de muita conversa e negociação, meu pai liberou o carro para eu mesma ir dirigindo, afinal ele concordava que seria muito infantil ele nos levar e nos buscar.
Estava com a cabeça tão pesada e cheia de pensamentos que ao contrário dos dias anteriores, deitei e antes de dar duas piscadas adormeci.
Finalmente era sexta-feira, foi o que pensei ao abrir meus olhos e ver que já se passava das dez da manhã, naquele dia não houve aula, eles precisavam da escola livre para que pudessem arrumar o salão do baile, então, só me restava esperar.
Comecei a me aprontar umas duas horas antes do que eu havia programado sair. Depois que tomei banho, sequei meus cabelos, os deixei lisos como eram naturalmente. Fiz uma maquiagem bem leve,até porque não tinha tanta experiência em me pintar.
Cuidadosamente coloquei meu vestido que me pareceu mais bonito do que no dia em que comprei,calcei sandálias pretas de salto alto, lindas e tão delicadas quanto o vestido, finalmente me coloquei em frente ao espelho pra me ver inteira.
—Samantha Nesser, você está linda. — Afirmei para mim mesma, realmente
acreditando naquilo.
Eu estava muito apreensiva, meu coração parecia que sairia pulando no meio do meu quarto, já tinha me olhado no espelho mais umas quinhentas vezes enquanto esperava Sarah terminar sua produção. Ela estava trancada há horas em seu quarto e não deixou ninguém entrar. Finalmente ouvi o barulho da porta e em um segundo ela apareceu em meu quarto, linda em seu vestido vermelho, não cheguei a me sentir mal, mas, mais uma vez ela parecia ser mais velha do que eu.
—Olha que maravilha!Você esta linda, Sam. -Falou-me parecendo sincera.
—Acho que posso dizer o mesmo de você, talvez as garotas do último ano se rasguem de inveja. -Tentei ser tão confiante quanto Sarah era.
Ela me lançou um sorriso satisfeito, seguimos então para a sala onde estavam sentados cada um em uma ponta do sofá, meu pai e minha mãe.
—Oh meu Deus, meninas vocês estão maravilhosas. -Mamãe falou correndo até ficar em nossa frente, meu pai virou-se para nos olhar, ficou alguns segundos em silêncio e então também se levantou ficando ao nosso lado.
—Bem, pelo menos em alguma coisa nós dois acertamos, Beth. — Ele falou olhando para minha mãe. -Nossas filhas são lindas.
—Elas têm a quem puxar. -Respondeu orgulhosa.
Meu pai voltou sua atenção novamente para Sarah e eu.
—Samantha, você sabe que sexta a noite é um dos dias em que não gosto de entregar o carro em suas mãos certo? -Ele estava começando mais um de seus sermões habituais, antes de me entregar as chaves do carro. -Porém como o colégio fica há poucos minutos daqui, fico mais tranqüilo, mas não se esqueça que é da festa para casa, sem desvios e a respeito de bebidas, não preciso nem falar.
—Pode confiar em mim, pai, não vou fazer nada errado. -Assegurei.
Minha mãe já estava seguindo em direção a mesa onde estava sua bolsa para pegar as chaves de seu carro quando para meu espanto meu pai jogou outras chaves para mim.
—O que é isso? -Perguntei incrédula quando percebi que eram as chaves do Peugeot que ele havia comprado há dois meses, novinho, e que eu nunca me atrevera pedir para sequer dar uma volta no quarteirão.
—Confio mais no meu carro, o da sua mãe já passou da hora de ir para uma revisão. -Ele se explicou.
Pude ver minha mãe fazendo uma careta enquanto Sarah vibrava.
Senti aquelas chaves pesaram uns dez quilos em minhas mãos, até pensei em desistir de ir dirigindo e pedir para que um dos dois nos levasse, mas, a idéia não me pareceu tão boa, afinal , o que poderia dar errado? Dirigir um carro novo era como dirigir qualquer outro carro, talvez até melhor.
Quando eu já estava adaptando o banco do motorista para meu porte físico que era bem diferente de meu pai, ele me fez mais uma recomendação: Ficar de olho em Sarah.Como eu não podia prometer, então nada respondi, acelerei calmamente para me adaptar ao carro, e quando virei a esquina ainda vi meus pais parados em frente a nossa casa.
No estacionamento do colégio haviam mais pessoas que carros, todos muito bem arrumados e sorridentes, um frio me correu a espinha quando muitas pessoas focaram-se em nosso carro enquanto eu manobrava para estacionar, queriam saber quem estava chegando.
Sarah foi a primeira a descer enquanto eu fingia procurar alguma coisa em minha bolsa tentando ganhar algum tempo. Que covarde eu era, estava morrendo de medo de descer do carro, de deixar que as pessoas me vissem e principalmente de encontrar Lucas.
Respirei fundo e desci ativei o alarme e ignorei minha visão periférica, naquele momento estava procurando minha irmã que já estava reunida com um grupo de garotas, segui até elas. Ao me aproximar percebi que se tratavam de algumas conhecidas, vi que Melissa também estava ali, nunca me senti tão feliz em vê-la como naquela noite.
—Sam, você está linda! -Mel repetiu o que eu já ouvira de muitas pessoas aquela noite, um fato bom mas que não serviu para acalmar meus ânimos.
Melissa vestia um longo escuro, colado a seu corpo esguio, isso a fazia parecer ainda mais alta, estava com os cabelos presos no alto, bem maquiada, bonita como sempre foi, porém mais requintada.
—Você é que está um arraso garota. -Elogiei. — Mas... Onde está seu par?
—Deve estar lá dentro, eu ainda não entrei no salão, estava esperando alguém conhecido chegar para ir comigo.
—Então, acho que posso ir com você. -Ofereci-me louca de vontade de me encontrar com Lucas.
Minha adrenalina aumentava a cada passo que eu dava em direção ao salão, eu sequer conseguia manter minha atenção no que Melissa falava.
A música ia ficando cada vez mais alta e quando coloquei meus pés na entrada não precisei gastar sequer um segundo procurando meu alvo, lá estava ele, brilhando em meio às luzes coloridas.
Fiquei paralisada por uns instantes enquanto ele oscilava de azul, para verde, lilás, roxo, pink. De tão embriagada por sua beleza, não percebi que Mel já não estava mais junto a mim, olhei para os lados e nada dela, ao voltar minha atenção para Lucas ele também não estava mais lá.
Caminhei entre as pessoas que dançavam animadas, corria meus olhos para cada uma delas, queria que ele me visse, queria mostrar que eu estava à sua altura.
Com o canto dos olhos, consegui avistar Mel, sorridente dançando com seu Alex, sorri por dentro realmente feliz por ela.
Percorri o salão todo, não parava para falar com ninguém, sabia que não conseguiria me concentrar em nada, pensei que talvez ele estivesse no estacionamento esperando por mim , resolvi sair então para ver se de fato Lucas estava lá.
Muitas pessoas ainda se reuniam no estacionamento, o grupo onde Sarah havia ficado também permanecia no mesmo lugar, menos ela, lembrei-me das palavras de meu pai a respeito de ficar de olho nela, caminhei até o grupo e perguntei se sabiam para onde Sarah havia ido.
Os risinhos contidos e cochichos entre elas me devam uma vaga idéia do que estava se passando. Decidi não perguntar mais nada.
Dividida entre procurar Lucas ou Sarah, caminhei pelo estacionamento meio desorientada, o som afastado de vozes me fez mudar o rumo, parecia a voz de Sarah, e vinha da área dos carros.
Cautelosa, caminhei praticamente sem fazer barulho, quando me posicionei em um bom lugar tive a confirmação que queria, Sarah estava lá, praticamente de frente para mim, do ângulo em que eu estava o rapaz, de costas para mim, acariciava seu rosto, Sarah sorriu e em uma fração de segundos ele já se beijavam. Afastei-me um pouco para evitar ser vista, mas ainda de forma que pudesse enxergá-los, não podia negar que estava curiosa para saber quem era seu acompanhante.
Como se lesse meus pensamentos o rapaz deu uma leve virada com a cabeça, o bastante porém, para que meus pulmões deixassem de liberar ar e que meus ossos das pernas tornassem-se borracha. Reuni todas as forças para sair dali, tentando ser o mais silenciosa possível para que os dois não pudessem me ver, se isso acontecesse, eu não teria a mínima idéia do que fazer.
Quando tive certeza de que estava fora da área de perigo, foi que meus pensamentos começaram a se organizar, então como em flashes claros vieram as imagens das cenas que eu acabava de ver, Sarah e Lucas juntos, trocando beijos calorosos e rindo felizes.
Entrei praticamente em estado de choque, estava tão entorpecida com tudo aquilo que nem pensei, tudo o que queria era sair o dali o quanto antes. Não enxerguei mais nada em minha frente a não ser o carro de meu pai, estava cega de ódio, não de Lucas muito menos da minha irmã que nunca poderia imaginar o que eu sentia por ele, realmente estava com ódio de mim, da minha estupidez.
Liguei o carro e pisei fundo no acelerador, precisava recuperar meu ar, ali seria impossível. Dirigi sem orientação nenhuma de onde estava indo, finalmente algumas lagrimas começaram a rolar por meu rosto, menos do que imaginava, mais do que deveria, afinal se eu não tivesse me iludido de tal forma nenhuma lágrima seria derrubada.
Culpada. Era o que eu afirmava em pensamentos, eu era a única culpada de tudo, Lucas nunca demonstrou sinal nenhum de interesse, ao contrario, sempre manteve uma postura política, nunca insinuou nada, era tudo coisa da minha cabeça.
Enquanto continuava perdida em meu julgamento mental onde a ré e a acusação eram a mesma pessoa, atentei-me tarde de mais a uma buzina estrondosa, arregalei os olhos e a luz clara de um farol foi a única coisa que pude enxergar antes de sentir o impacto de algo atingindo a lateral do meu carro me fazendo chacoalhar rapidamente. Lá dentro, enquanto aquela seqüência de barulhos de ferro se amassando irritava meus ouvidos senti o carro se chocar em mais alguma coisa, o som do vidro quebrando foi a ultima coisa que ouvi antes de apagar nem sei por quanto tempo.
Lutei com todas as forças para conseguir abrir meus olhos, quando o som de uma sirene ao fundo fez com que eu retomasse os sentidos. Eu não sentia nada, dor nenhuma, não entendia o que estava acontecendo, meus pensamentos estavam lentos, literalmente não sabia o havia me atingido.
Tentei respirar, e mais uma vez o ar faltou, dessa vez de outra forma, mais profunda, era uma falta de ar real, senti gosto de sangue em minha boca, assustada consegui abrir os olhos, eu queria ver como estava, acreditava que ficaria ali por pouco tempo já que sentia a presença de alguém.
Minha visão estava afetada, tudo estava turvo e escuro, um rosto masculino foi se revelando bem próximo de meu, ele me olhava curioso. Sua fisionomia era perfeita, e o que mais me marcou foram seus olhos extremamente azuis, pareciam luzes me olhando, sua expressão era tão profunda, quase de dor, imaginei que eu estivesse muito mal.
Quando seu rosto aproximou-se ainda mais do meu, fui tomada por uma onda de tranqüilidade sem igual, inexplicável, tentei não fechar os olhos, não queria deixar de vê-lo mas estava muito difícil, a dor começou a parecer em todas as partes do meu corpo, algo que eu não podia suportar, queria pedir para ele ficar ali comigo, mas nesse momento meu corpo todo foi tomado por um formigamento, em poucos instantes apaguei.
Fale com o autor