Disse aos meus pais que iria dar uma volta com o pessoal da aula de violão, e depois de muitas recomendações de cuidado, eles deixaram. Andrey havia combinado de pegar o carro e me esperar na esquina de casa.

Quando sai, olhei para o lugar combinado, ele não estava ali, em segundos milhares de coisas passaram pela minha cabeça, uma delas foi a hipótese de tudo ter sido mais uma vez um delírio. Avisei para mim mesma que se Andrey desaparecesse mais uma vez, iria pedir naquela mesma noite para que meus pais me internassem num sanatório.

Incrédula, esfreguei os olhos para me certificar de que o que via era real, o carro amarelo vinha em minha direção com a capota aberta, lá estava ele. Poderia sim ser só uma ilusão, afinal, a cena era perfeita demais, no entanto quando ele parou ao meu lado tive certeza de que era verdade.

Ele ia descer pra abrir a porta para mim, antes disso, eu mesma o fiz.

—Não se importe com isso. -Falei enquanto me sentava no banco ao seu lado.

—Então?Para onde vamos? -Andrey perguntou com um lindo sorriso no rosto.

Ele não me faria mal, uma voz interior me dizia.

—Qualquer lugar que não demore mais de vinte minutos para voltar. — Respondi, ainda não acreditando no que estava fazendo.

Sem mais ele acelerou o carro com cautela.

As coincidências eram tantas que eu estava meio boba, o rosto, depois o carro, assim eu já sabia onde ele morava. No dia anterior eu estava lá cobiçando seu carro, antes disso aquela casa com placa de venda, era estranho ela ter chamado minha atenção daquela forma.

Tudo era tão misterioso e tão perfeito ao mesmo tempo.

—Andrey, eu realmente estou sem saber o que falar com você, toda esta situação está me deixando totalmente desconcertada. -Foquei em seu rosto para dizer aquelas palavras, sabia que não era isso o que deveria fazer, mas com ele tudo fugia das regras, eu estava tão à vontade que parecia que éramos íntimos.

—Eu não vejo motivo, me veja como um amigo, me fale sobre você. -Ele parecia estar ainda mais confortável do que eu.

—Vamos começar pelo básico então. Sua idade? — Eu realmente queria saber.

—Quantos anos aparento ter? -Ele perguntou sem tirar os olhos das ruas, prudente no transito, já era mais um ponto positivo.

—Hum, acho que dezenove no máximo e... Dezenove no mínimo. -Brinquei.

Ele riu mais alto.

—Então acho que você está correta. Dezenove, esta é minha idade. -Ele concordou, parecendo estar afirmando para ele também.

—Sério?Você não me pareceu estar convencido disso. -Questionei.

—É que na verdade, faz apenas... -Ele pausou, desviando agora seus olhos para o painel do carro, mais precisamente para o relógio. -Faz exatos trinta e sete minutos que tenho dezenove anos, ainda não me acostumei.

Demorou um minuto para eu entender o que ele queria dizer, Andrey balançava a cabeça, fazendo força para não rir.

—Ah, não!Então você faz aniversário no primeiro dia do ano? É meio triste, levando em consideração que nesse dia todas as atenções estão voltadas ao réveillon.

—Não é bem assim. -Ele aproveitou o sinal vermelho para me encarar. -Você acha mesmo que todos aqueles fogos de artifício eram só pelo ano novo?Não me subestime.

Fiquei olhando para ele sem reação, era incrível alguém tão bonito ser ainda tão bem humorado, sem contar em como era agradável. Qualidades de mais para um humano.

—Pare o carro. -Pedi, sem ter muita ideia do que iria fazer.

—O quê?Parar o carro? -Andrey assustou-se com o meu pedido.

—Por favor, pare só por um instante. -Choraminguei.

Ele deu sinal e encostou-se em frente a uma casa de onde vinham vozes e uma música alta. Abri a porta e desci.

—Venha! -Chamei para que ele me acompanhasse.

Andrey meio relutante fez o que pedi.

Em um segundo, ele estava parado em minha frente, me encarando. Tive certeza de que não estava deixando uma boa impressão a ele mas, mesmo assim continuei sendo eu mesma, sem jogos.

—Não pense que sou louca. -Caminhei para mais perto dele. -Eu só queria ser a primeira a te desejar um feliz aniversário. -Dizendo isso, num impulso, envolvi meus braços ao seu redor, aquilo realmente o pegou de surpresa, Andrey enrijeceu ao meu toque.

Ao invés de recuar, permaneci daquela forma aproveitando aquele aconchego, queria que ele me abraçasse de volta, coisa que ele não fez. Sua respiração estava rápida de mais, a minha também.

—Obrigado. -Disse com voz suave, quebrando assim o silêncio, mas não a magia do momento.

Lutando contra mim mesma, afastei-me dele. Seus olhos de mar azul, estavam grandes e brilhantes, tão atraentes que quis me afogar neles.Deveria estar envergonhada com minhas atitudes inéditas, mas não estava.Tive esperanças de que a Andrey me repreendesse, quem sabe assim voltaria à mim, mas ele não fez isso, ao contrario de tudo o que eu podia esperar,ele não fez nada, ficou sem ação.

—Certo, diga alguma coisa. -Pedi.

—Sam... Quero que saiba que não poderia receber melhor presente que esse. -Ele balançou a cabeça parecendo tentar sair do transe em que estava.

Na hora nem percebi, mas depois quando já estávamos de volta ao carro, me pareceu no mínimo estranho ele me chamar de Sam. Em momento algum eu havia citado este apelido à ele, de qualquer forma não me pareceu um motivo pra interrogatórios.

Enquanto dirigia, um sorriso contido não saia de seus lábios, não dissemos nenhuma palavra mais durante o trajeto de volta para casa, eu também nem via necessidade para isso, minha mente parecia estar inebriada, era difícil pensar em qualquer coisa, tudo o que sabia era que se pudesse, passaria a noite toda com ele, mesmo que fosse para ficar apenas o olhando.

Quando paramos em frente de casa percebi as luzes ainda acesas, mas na rua já não tinha ninguém.

—Acho que esta é minha deixa, fico por aqui. -Falei já abrindo a porta para descer. Queria evitar constrangimentos com meus pais, se eles me vissem saindo daquele carro desconhecido, quem passaria a madrugada num interrogatório seria eu.

—Então, nos vemos mais tarde. -Ele agora sorria com todos seus lindos dentes à mostra. Aquilo havia sido uma afirmativa e não uma pergunta, era como se estivesse mesmo convicto do que dizia.

Não respondi, apenas sorri e corri para dentro de casa, ele esperou que eu entrasse para então partir.

Meus pais estavam sentados na sala assistindo TV, desejei boa noite aos dois. Troquei meu vestido por pijamas, e depois de relembrar tudo o que acabara de acontecer, senti meu estômago revirar, dormi então.

De manhã, antes de abrir meus olhos, a primeira coisa que me veio à cabeça foi Andrey, tive medo de que tudo fosse apenas um sonho. Corri para o banheiro, tomei um banho rápido e quando sai Sarah já estava esperando para usar.

—Bom dia, irmãzinha querida. -Falou já fechando a porta, sem nem me dar chance de responder. Desde que havia começado a namorar Lucas, havia se tornado ainda mais desatenta às coisas.

Voltei ao quarto para trocar de roupa, estava tão inquieta que nem bem vi o que vesti, a ansiedade para ver Andrey novamente era sufocante. Pensei em esperar até o entardecer e como quem não quer nada, passar em sua rua, quem sabe ele não estaria por lá, me pareceu uma boa ideia, então, por que esperar?

Corri pegar o Barth, era bom ter um companheiro para este tipo de coisa.

—Vai levar o cachorro passear já cedo? -Meu pai perguntou enquanto eu passava por ele na mesa do café.

—Sim, ele se estressou muito com todos aqueles fogos. -O quê era uma verdade. -Quero recompensá-lo. -Isso já não era tão verdade assim.

—Mas não vai tomar café? -Ele ainda insistiu apontando a mesa repleta de coisas.

—Tomei um suco, estou sem apetite. -Disse saindo para encerrar a conversa mais rapidamente.

Estava nervosa, e Barth pareceu parar mais vezes para marcar território do que o comum. Quando cheguei à esquina da casa de Andrey, achei que fosse desistir, mais uma vez meu estômago revirou, mas, ao lembrar-me dele sorrindo, uma força maior me impulsionou a seguir em frente.

O carro estava estacionado em frente a casa, como da primeira vez que passei por lá.

"Ele deve estar dormindo", pensei, então que mal haveria?Eu só estava passeando com meu cachorro pela vizinhança, era minha rotina.

Quando cheguei bem em frente à sua casa, minhas desconfianças se concretizaram, não havia ninguém, tudo estava quieto, as portas fechadas, uma ponta de decepção surgiu em mim. "Quem sabe mais tarde?", tentei me reconfortar.

Passei pelo carro e pareceu tão irreal lembrar que estive lá dentro há pouco tempo atrás. Na verdade havia algum tempo que as coisas deixaram de ser reais para mim, só que ali, toda a falta de sentido me agradava, me fazia feliz.

—Bom dia! — Dei um pulo ao ouvir uma voz rouca me felicitando.

Andrey estava dentro do carro.

Enquanto ele descia os vidros, a luz do dia fez seus olhos parecerem ainda mais bonitos do que eu imaginava, no geral ele era bem melhor do que minha memória havia arquivado. Aquilo me fez perder o ar momentaneamente.

—Você dormiu aí dentro? -Brinquei apenas para ganhar tempo. Pela primeira vez estava me sentindo constrangida perto dele, uma vertigem correu pelo meu corpo, pensei então que finalmente estava voltando ao normal.

—Quase. -Ele me respondeu já se colocando ao meu lado. Estava enjoando novamente. -Na verdade, estou aqui há algum tempo, não sabia ao certo que horas você viria, então, preferi me prevenir.

—Como sabia que eu viria?Quero dizer, eu só estou passeando com Barth, faço sempre este trajeto. -Realmente estava em meu estado normal, tive vontade de cavar um buraco e me enterrar, não acreditava que estava sendo tão declarada.

—Barth? -Ele perguntou segurando visivelmente seu riso, estava clara minha clara falta de tato com aquela situação.

—Sim, Barth, como o dos Simpsons. -Aproveitei para afagar sua cabeça, ele estava se comportando tão bem que por breves instantes, havia me esquecido de sua presença.

—Hei Barth, podemos ser amigos? -Andrey esticou a mão para tocá-lo.

—Não!Ele não é assim... -Eu ia dizer que meu cachorro não era tão amigável, mas antes de conseguir terminar a frase, ele já tinha sua mão toda babada pelas lambidas de Barth que agia como se fossem velhos conhecidos. Fiquei boquiaberta.

—O que foi Sam? — Andrey agora ria deliberado.

—Bem... É só que ele não costuma agir assim, é um pouco ríspido nos primeiros contatos.

—É que ele sabe reconhecer os bons. -Ele se gabou. -Vamos ser grandes amigos.

Absorta pelo que meus olhos registravam, pensei que aquilo merecia uma foto, se tivesse uma máquina fotográfica em mãos com certeza o faria.

—Então, o quê vamos fazer agora? -Ele perguntou encostando-se em seu carro e ficando em minha frente.

—O quê vamos? -Questionei feliz com o plural usado.

—Claro, ou você acha que vou ficar fora de suas aventuras de hoje?

—Não acho que passear com meu cachorro chegue a ser uma aventura. -Sorri.

—Digamos que para mim é o programa perfeito. -Ele falou encolhendo os ombros.

—Colocando as coisas desta maneira, posso convidar você para nos acompanhar. -Sugeri, queimando por dentro.

—Posso? -Ele apontou para a coleira.

Ele queria guiar Barth, fiquei receosa a princípio, mas vendo que não houve nenhuma relutância vinda do meu cachorro, relaxei.

Caminhamos pelos lugares em que eu estava acostumada, ele mostrou-se tão paciente quanto eu com as paradas de Barth, na verdade pareceu nem perceber. Conversamos mais sobre mim do que qualquer outra coisa, e quando eu tentava questionar algo sobre ele a pergunta se voltava para mim.

Estar com Andrey era como estar com um velho conhecido, as vezes eu me surpreendia com frases minhas completadas por ele, a impressão que me dava era que ele sabia mais de mim do que eu mesma.

Já havia se passado mais de uma hora desde que começamos a caminhar juntos, presumi que meus pais já estavam loucos à minha espera para o almoço.

—Acho que tenho que ir para casa. -Parei em sua frente. -Almoço.

—Já? -Ele pareceu estar triste com a notícia.

Passou naquele instante pela minha cabeça deixar meus pais esperando mais umas doze horas, ao mesmo tempo me repreendi, afinal, almoços com todos reunidos estavam em extinção.

—Estão me esperando, na verdade, já era para eu estar lá. -Peguei de volta a coleira de Barth. -E você?Não tem ninguém à sua espera?

—Na verdade não. -Ele afirmou juntando as sobrancelhas como se refletisse sobre aquilo.

—Como não? -Seus pais, onde estão? -Insisti em saber.

—Viagem de negócios, eu sei que é triste passar ano novo e aniversário sem minha família, mas... -Ele encolheu os ombros.

Andrey acabava de dizer tudo o que eu estava pensando, fui tomada por um sentimento estranho, queria cuidar dele.

—Vamos, almoce com minha família. -Convidei sem nem pensar em todas as explicações que teria de dar depois, caso ele aceitasse.

—Não, obrigado, tenho comida suficiente para alimentar este bairro inteiro. -Ele pareceu conformado.

Não insisti, seria mesmo muito estranho.

—Tudo bem, mas se precisar de qualquer coisa, sabe que pode contar comigo. -Me coloquei de pronto.

Ele deu um sorriso largo.

—Quer dizer que posso bater em sua casa se precisar de alguma coisa?

—Claro!Vizinhos são para estas coisas. -Imitei minha mãe falando.

Mais uma vez Andrey sorriu, agora como se estivesse sabendo de algo que ninguém mais sabia.

—Então, acredito que em breve vou aparecer por lá. -A expressão misteriosa continuava em seu rosto.

—Isso significa que você está precisando de alguma coisa? -Desdenhei.

—Isso significa que vou precisar. -Ele estreitou os olhos.

—Então me diga e eu vejo se posso te ajudar. -Comecei a ficar preocupada.

Andrey baixou a cabeça e fixou seu olhos no chão.

—Vou precisar da sua companhia, de ficar com você. -Ele me encarou, parecia estar querendo ver o efeito de suas palavras. -Este tipo de solidariedade deve estar no manual de boa vizinhança.

Se sua intenção era me causar uma parada cardíaca, ele estava de parabéns. Eu não consegui pensar em uma resposta à altura, lembrei de uma frase que dizia:''Quem cala, consente.", foi o que fiz, preferi deixar meu silêncio como resposta, disse adeus e sem conseguir conter minha cara de boba, fui para casa.

Estava sem apetite nenhum, mexi com a comida no prato para ver se aquilo me animava a comer, mas não obtive resultado. Sarah contava empolgada detalhes de sua noite anterior, claro que ela estava editando algumas partes e mesmo assim, meu pai não parecia estar contente com o assunto. Apesar do tempo em que estavam juntos,ele não conseguia agir com naturalidade quando se tratava de Lucas.

—E você Sam, não foi pra lugar nenhum depois da queima de fogos? -Sarah perguntou, mostrando um interesse atípico em minha vida social.

—Nada de tão interessante. -Tomei um gole de suco, era o máximo que conseguia. -Dei umas voltas com Mel.

—Com a Melissa? -Ela mostrou-se surpresa.

—Qual o problema? -Irritei-me.

—Problema nenhum, é que eu a vi ontem. -Ela estampava um sarcasmo em seu rosto. — Junto com ela, um esquisito cheio de brincos e piercings, você eu não vi.

Que droga!Praguejei por minha falta de sorte, antes que as perguntas começassem a me metralhar, tentei reverter a situação.

—Sarah, será que você estava realmente atenta? -Lancei-lhe um olhar tão expressivo, que ela imediatamente entendeu.

—É verdade, claro, eu realmente tenho andado distraída. -Ela entrou no jogo.

Me senti aliviada, afinal as coisas pareceram tão naturais, já que Sarah realmente andava detraída, que nem deu tempo de meus pais perceberem nada.

Quis sair da mesa o mais rápido possível antes que outro imprevisto acontecesse, Sarah fez o mesmo.

Enquanto subia as escadas, os passos atrás de mim fizeram-me gelar.

—Acho que alguém esta me devendo uma. -Sarah colocou-se em minha frente.

—Obrigada. -Limitei-me a dizer já sabendo que aquilo não acabaria ali.

—Só isso? -Ela fez o que eu previa. -Acho que mereço saber de tudo.

—Tudo?Que tudo? -Fingi não entender.

—Não se faça de boba Sam, com quem você estava esta madrugada? -Ela foi bem direta dessa vez.

De uma coisa eu tinha certeza, se eu não contasse uma boa história para Sarah, ela não me daria sossego, por outro lado contar a verdade não era uma boa opção, as coisas no mínimo soariam loucas.

—Escute, na hora certa, quando eu estiver entendendo melhor as coisas conto tudo pra você. -Prometi.

—Como assim?Entendendo melhor as coisas? -Ela ainda insistiu.

—Confie em mim, é só que peço, por favor. -Minha expressão devia estar tão desesperada que ela me safou de sua insistência e fez um sinal positivo com a cabeça. Intimamente agradeci.

Acabei por ficar trancada em meu quarto um bom tempo, precisava pensar. Sentei em minha cama e contrariando minha mania, joguei longe o controle da televisão para não correr o risco de ligá-la, não queria me distrair.

A forma com que estava me sentindo contrariava tudo o que eu havia prometido para mim mesma, interessar-me por alguém não estava nem de longe em meus planos. Aos poucos o que tinha passado com Lucas voltou a assombrar meus pensamentos, toda a tristeza que senti e como minha vida havia mudado, eu não queria aquilo novamente. O pior era que o simples fato de pensar em não ver mais aquele rosto, não mais ouvir aquela voz rouca e acolhedora, me fazia estremecer.

Estar afetada daquela maneira em tão pouco tempo, ou melhor, em tempo recorde, não me parecia saudável, ainda mais por eu nunca ter acreditado em amor a primeira vista e coisas do gênero, também naquele momento não admitia que fosse isso, mas de qualquer forma, dizer que não era nada, também não seria justo.

Passaram-se menos de quatro horas desde que Andrey e eu estivemos juntos, parecia muito mais tempo. Cheguei até a cogitar repetir meu feito de mais cedo, mas voltei atrás achando que pareceria desespero de mais, lembrei do que ele havia me dito, Andrey estava tão convicto de que nos veríamos que isso que me deu esperança.

Imaginei Andrey realmente batendo em minha porta, e apesar de querer estar com ele eu realmente estava fugindo de questionamentos, decidi descer e ficar em frente minha casa olhando a paisagem. Apesar não ser comum fazer aquilo, ninguém desconfiou das minhas verdadeiras intenções.

Como a rua estava deserta sentei-me na guia aproveitando a claridade, fiquei observando tudo que havia a meu redor. Antes de conseguir me distrair com qualquer coisa, lá estava ele, caminhando graciosamente em minha direção. Tomada por uma felicidade tão grande que me aturdiu em imediato, coloquei-me em pé antes que ele estivesse parado em minha frente.

Antes mesmo de conseguir me recompor, aquele olhar encantador estava fixado no meu, pude me ver em seus olhos e isso me fez sentir dominada, era como se naquele momento nada de mal pudesse me acontecer.

—Então você realmente cumpre suas promessas. -Afirmei sorridente.

—Estou me esforçando. -Ele respondeu encolhendo os ombros, seu sorriso estava mais contido.

Naquele mesmo momento percebi minha pretensão, talvez ele estivesse apenas passando lá por acaso e não exatamente para me ver, certamente meu rosto deve ter se avermelhado de vergonha.

—O quê foi? -Ele fez um ar de preocupação.

—Nada, eu só me achei pretensiosa agora. -Falei a verdade, o que me pareceu o melhor a se fazer.

Ele riu mais alto jogando a cabeça para trás, parecia estar se divertindo com a minha situação embaraçosa.

—Sam, você não está errada, eu realmente vim aqui por você, eu te avisei que viria. -Ele ainda ria. -Vim te convidar para dar um passeio comigo.

—Agora? -Perguntei já pensando no que diria para meus pais, Barth já não podia ser meu álibi.

—Na verdade, eu queria ter vindo há umas quatro horas atrás, mas, consegui me segurar, então... acho que tem que ser agora. -Ele falava num tom mais baixo como se me contasse um segredo.

—Sendo assim, acho que vou lá dentro inventar qualquer coisa e já volto. -Falei me inclinando em sua direção, imitando seu tom baixo de voz.

Minha mãe foi a primeira que avistei, então foi mais fácil, disse que iria dar uma saidinha rápida com um amiga e que logo estaria de volta. Para minha sorte ela apenas disse para estar de volta antes do jantar.

—E então, para onde você vai me levar? -Ele me perguntou enquanto aproximava-me dele.

—Já conheceu o lago?Fica bem perto daqui. -Foi o lugar mais original dentro das minhas condições para oferecer.

—Não, mas acho que vou conhecer agora. -Afirmou.

Seu senso de urgência era um dos fatores que me deixava ainda mais atraída.

Durante todo o caminho nossa conversa correu naturalmente, Andrey mostrava-se uma pessoa culta sobre vários aspectos, porém ao mesmo tempo a impressão que eu tinha era de que ele queria obter o máximo de informações sobre mim, mesmo as coisas mais simples como minha vida em família, amizade e coisas do meu cotidiano atraíam sua atenção.

Quando chegamos na rua do lago, como a grande maioria das coisas naquele dia, estava praticamente vazia não fosse por um casal de meia idade que observava duas crianças, possivelmente seus filhos, brincando no escorregador, e mais uns poucos casais caminhando em torno do lago.

—Nossa este lugar é um achado! -Andrey se mostrou empolgado.

—Eu gosto muito daqui. -Falei, enquanto abaixava-me para sentar na grama em torno do lago.

As águas estavam escuras, o que fazia tudo ali parecer ainda mais misterioso. Andrey sentou-se ao meu lado.

Ficamos por um grande tempo em silêncio ouvindo as gargalhadas das crianças e todos os outros sons daquele pequeno pedaço de natureza, fixei meus olhos nas águas mas com minha visão periférica percebi que Andrey me olhava.

—O quê está tentando ver? -Perguntei encarando-o.

—Eu... eu também não sei. -Ele respondeu sem desviar seu olhar, sua voz era suave, quase um sussurro.

Senti meu coração disparar.

—Às vezes acho que isso tudo não passa de uma grande loucura. -Confessei.

—Você se refere a mim? -Andrey perguntou num tom angustiado.

—Refiro-me a tudo. -Voltei a olhar as águas. -Na realidade, desde aquele acidente minha vida parece ter saído fora do contexto.

—Acidente?Que acidente? -Ele fez-se interessado.

—Uma bobagem, eu só destruí o carro novo do meu pai. -Fiz uma pausa para rir. -Do mais, não quebrei nem uma unha.

—Você tem um jeito tão peculiar para contar as coisas que às vezes não sei se devo rir ou chorar. -Ele balançou a cabeça descrente.

—Mas é verdade, o acidente em si foi uma bobagem, mas depois é que as coisas começaram a ficar estranhas. -Confessei enquanto Andrey ouvia tudo atentamente.

—Então você preferia sua vida da maneira que era antes? -Ele questionou inclinando-se em minha direção.

— Não! -Afirmei sem ter que pensar. -Apesar de tudo estar fugindo do meu controle, agora é que me sinto viva de verdade. -Minha respiração estava rápida, também inclinei meu corpo para ficarmos ainda mais próximos. Achei que ele fosse recuar, mas isso não aconteceu.

—Ainda não sei como, mas, tenho certeza de que você tem grande parte nisso.

Nossos lábios estavam separados por menos de três centímetros, sua respiração também estava ofegante, talvez mais ainda que a minha, mais um vez me vi refletida em seus olhos e aquilo só aumentou ainda mais meu êxtase. Se agisse a favor de meus impulsos teria o beijado naquele mesmo minuto, mas um pouco de ponderação ainda me pertencia, desejei com todas as minhas forças que ele o fizesse.

Andrey piscava lentamente como se lutasse para que nada interrompesse sua visão, e, apesar de ansiar por seu beijo tudo estava tão espantosamente perfeito que poderia ser interminável. Tudo o que sentia naquele momento nem de longe se igualava ao que sentira por Lucas.

Que bobagem a minha, de repente aquilo me pareceu tão pequeno perto do que sentia por Andrey que não tive como não sorrir.

—O quê foi? -Ele sussurrou sem mexer nem um milímetro sequer.

—Nada, ou melhor, tudo. -Respondi ainda embriagada com seu hálito.

Percebi uma sutil mudança de expressão, Andrey parecia não ter entendido bem o que eu estava dizendo, mas isso também não tinha muita importância. Eram coisas que eu estava revelando para mim mesma.

Andrey se moveu por milímetros e o que parecia impossível aconteceu, meu coração conseguiu bater seu próprio recorde e acelerar ainda mais. Senti minha garganta secar, fechei meus olhos para esperar que meus sonhos se realizassem e que minha fome fosse sanada quando sentisse aqueles lábios perfeitos encontrando com os meus, mas diferente disso, o que senti foram seus braços quentes, mais que o normal, laçando meu corpo enquanto sua cabeça repousava em meu ombro.

—Se você tivesse a mínima idéia de como me sinto a seu respeito, certamente suas teses de pós acidente estariam ainda mais complexas. -Ele decretou.

Desta vez foi eu quem não entendeu o significado exato daquelas palavras que mais pareciam uma confissão, mesmo assim fiquei feliz, compreendi que de alguma forma eu era importante para ele.

O sol já estava se pondo quando conseguimos nos separar, permanecemos ali sentados em silêncio até que o sol cedesse lugar a lua. Em tanto tempo aquela foi a primeira vez que eu havia parado para ver aquele milagre, valeu pena pois o vi com outros olhos.

Todo o encanto foi quebrado pelo toque urgente do meu celular.

—Acho que tenho que ir. -Falei com pesar.