Um Silêncio impiedoso era tudo o que alcançava meus ouvidos, que aos poucos foram se adaptando aos outros discretos barulhos daquele lugar. Tentei abrir meus olhos, esforço que pareceu exigir de mim uma força sobre humana.Tudo estava embaçado, como se as coisas estivessem fora de foco.

Nem ousei fazer qualquer outro movimento, imaginado o que poderia me causar aquele simples ato. Um teto branco com uma luz fluorescente bem no meu rosto era tudo que estava em meu campo de visão.

Voltei a fechar meus olhos, respirei fundo como se quisesse colocar em meus pulmões todo o ar cabível, como era bom poder respirar, pensei quando lembranças do ar faltando fizeram-se presentes. Eram memórias desnorteadas, sem seqüência certa, ora eram do baile, ora eu dirigindo sem rumo, de qualquer forma consegui chegar a uma conclusão, algo de muito errado havia acontecido comigo.

Eu não sabia onde estava nem o que acontecera, minha única certeza era de que qualquer, mesmo que mínimo movimento me causava uma inenarrável dor, mas ainda assim não consegui me desesperar, pelo contrário, estava tomada por uma paz gigantesca, e não importava o que estava acontecendo, eu não queria deixar de sentir aquilo.

Minha mente porém, parecia estar contra mim, em pouco tempo fez questão de me relatar tudo o que havia acontecido, minhas ilusões bobas, minha irmã aos beijos com o garoto dos meus sonhos, e o pior de tudo, o que realmente fez com que um frio corresse por minha espinha, o carro novo do meu pai.

Pensei que seria melhor permanecer adormecida, desligada, ou poderia simplesmente fingir que havia perdido a memória. Quem seria cruel o bastante para castigar uma pobre desmemoriada?Seria uma opção.

Ouvi a porta se abrindo e alguém se aproximando,estava curiosa, mas não o bastante para virar minha cabeça para ver. Não demorou muito até aqueles olhos claros e nervosos encontraram-se com os meus.

Era meu pai, pensei considerar a opção de falta de memória mas logo desisti, o melhor era assumir minha culpa.

—Eu estou pronta pai, pode dizer qual vai ser meu castigo. -Falei percebendo que minha voz estava irreconhecível, abafada e lenta.

Antes que ele dissesse uma só palavra, a porta novamente se abriu a família agora estava completa.

—Ela acordou! -Minha mãe quase gritou enquanto se debruçava sobre mim.

—Por favor, você quer me matar? -Continuei lutando com as palavras enquanto minha mãe me sufocava.

—Oh meu Deus, me desculpe amor. -Disse ela afastando-se.

Neste momento pude ver Sarah ao lado de meu pai, encarando-me com tristeza, sabia que ela não pularia em cima de mim, Sarah não lidava bem com estas coisas, ainda mais em um hospital, lugar o qual ela tinha horror. Eu não poderia me permitir sentir traída por ela, de nós três, Lucas, Sarah e eu, ela era quem estava isenta de culpa.

—Eu quero que saiba filha, que o seguro já esta me providenciando um carro novinho. -Meu pai inclinou-se para ficar mais próximo de mim, seu tom de voz era ameno, o que me tranqüilizou um pouco. -Eu peço que você não se preocupe com isso,foi apenas um acidente. -Ele completou enquanto acariciava meus cabelos.

Mesmo assim comecei a falar, novamente percebi minha voz diferente, me desesperei desta vez.

—Por favor, digam que todos os meus dentes estão intactos, que esta voz frouxa não é por eu estar banguela. -Implorei temendo a resposta.

Todos riram ao mesmo tempo.

—Você realmente teve grande sorte, a única coisa que você sofreu foram uns cortes superficiais nos braços e um mais profundo na canela esquerda. — Meu pai me explicava com calma.

—Não é o que me parece, sinto-me como se tivesse sido atropelada por um trator.

—Foi pelo impacto que o carro sofreu você estava sem cinto de segurança, foi o mesmo que estar em um liquidificador. -Agora era Sarah quem me falava já mais calma.

—E quando vou poder sair deste lugar? -Eu queria meu quarto, meu cachorro, respirar ares conhecidos.

—Estamos esperando o médico passar, ele estava esperando você acordar para avaliá-la, você ficou sedada por um tempo. -Minha mãe tentava me explicar, mas em seu rosto pude perceber que as lembranças a machucavam.

Fiquei imaginando como foi que eles foram avisados, o que sentiram a me ver desacordada e todas as coisas ruins que imaginaram, isso realmente doeu fundo em meu peito.

—Que dia é hoje? — Questionei sem ter a mínima noção de tempo.

—Domingo. Ontem você dormiu o dia todo, os médicos acharam melhor, para que você não sentisse tantas dores.

Fiquei aliviada, se um dia depois eu sentia meu corpo daquela forma, imaginei como teria sido um dia antes.

Houve um breve momento em que fiquei sozinha novamente, e em meio a todas as memórias que agora me alvejavam, uma em especial chamou minha atenção. Um rosto lindo foi uma das últimas coisas que lembrava ter visto, mas quem era ele?Seria mais uma vez minha cabeça me pregando uma peça? Posso afirmar que esse pensamento me consumiu um bom tempo.

Naquele mesmo dia recebi alta, tive expectativas de reconhecer a face em questão em alguém ali no hospital, o médico já fora descartado, bem mais velho e com muito menos cabelos do que o desconhecido, os enfermeiros também não se encaixavam nos aspectos que estavam arquivados em minha mente.

Quando fui colocada por meu pai, que me carregava desnecessariamente, em minha cama, olhei para meu quarto, meu refugio, descrever o quanto me fazia bem estar lá, era difícil. Pedi para que trouxessem Barth até mim, era incrível a falta que ele me fazia.

Quando ele me viu, percebi que também sentia minha falta, teria me lambido dos pés a cabeça não fosse meu pai impedi-lo, ele era um cão muito forte, e na situação em que eu me encontrava, qualquer um representava perigo para mim.

O telefone não parava de tocar, todos queriam saber como eu estava alguns por preocupação, outros por mera curiosidade, sem a mínima vontade de ficar dando detalhes sobre o acidente preferi evitar falar com quem quer que fosse.

Meu primeiro banho decente foi sob supervisão da minha mãe, a maquiagem ainda deixava vestígios em meu rosto, olhei-me no espelho para verificar se o estrago não era maior do haviam me informado, de fato tivera muita sorte, os pequenos cortes em meus braços eram sinais avermelhados, quase como picadas de inseto, já o da perna doía um pouco quando eu apoiava o pé no chão, não pude ver como estava, um curativo grande o cobria, contudo, eles não seriam problema para mim, nunca me deixei impressionar por sangue, cortes, nem nada disso.

Depois de ser medicada o sono começou a me rondar, como de costume, pulava de canal em canal com controle remoto, sem me concentrar em um programa em especifico, isso me ajudava a permanecer acordada, não queria dormir.

Com três leves batidas na porta Sarah anunciou sua chegada.

—Incomodo? -Perguntou encolhendo os ombros.

—Claro que não. -Falei sem encará-la, não por ela, mas temia que alguma coisa pudesse transparecer.

—Eu não sei se é uma boa hora, mas eu precisava te agradecer. -Disse sentando-se na beirada da minha cama um tanto sem jeito.

—Agradecer?Pelo que? -Não entendi seus motivos.

Ela parecia estar querendo me dizer algo muito importante.

—Sam, apesar do final trágico da noite de sexta, antes do acidente eu tive a melhor noite da minha vida. -Ela ponderou o tom de voz.

—E eu entro nisso em que parte? -Perguntei magoada, não estava conseguindo me segurar.

—Em praticamente tudo. -Ela se empolgou. -Você foi muito legal me levando ao baile, e ainda mais, mantendo segredo sobre Lucas, ele me contou que estava tudo combinado com você.

Tudo combinado comigo? Impossível o acidente ter levado somente esta parte da minha memória. Que cretino, pensei, porém, ao invés de desmenti-lo ali apenas concordei com um sorriso, afinal palavras já seriam um pouco demais.

—Não precisa me agradecer, irmãs são pra isso afinal. -Tentei manter a compostura.

—Lucas mandou que eu desejasse melhoras a você, ele até queria visitá-la no hospital, mas eu falei que era melhor ele esperar e vê-la aqui em casa.

Que ótimo, Lucas queria me visitar, não bastasse ele ser meu visinho e estudar na mesma escola, agora queria entrar em casa, mais propriamente em meu quarto. O que poderia ser pior?

—Vocês estão juntos? — Fingi naturalidade enquanto perguntava. -Quero dizer, namorando ou coisa assim.

—Bem, pelo menos tentando, ainda é muito cedo pra dizer, mas Lucas é maravilhoso, vamos ver no que dá. — Obtive então minha resposta.

As coisas ficariam sim piores, em pouco tempo ele estaria almoçando aos domingos em casa, depois de alguns meses passeando de cuecas pelo corredor no trajeto entre o quarto e o banheiro, e eu tendo que ser testemunha ocular de tudo isso.

—Que ótimo. -Foi tudo que consegui dizer.

Fui surpreendida quando Sarah sem mais me deu um abraço sincero.

—Eu te amo Sam, tenha uma boa noite. -Falou já saindo, sua voz estava embriagada. No final das contas alguém estava realmente feliz.

Um aperto em meu peito me fez ter vontade de chorar, eu me perguntava como podia ter deixado as coisas chegarem aquele ponto, por outro lado, teria que aprender a conviver com toda a situação, então naquela noite prometi a mim mesma que não iria me deixar afetar, eu quase perdera a vida por uma coisa que não valia a pena, decidi que mandaria nos meus sentimentos e que os usaria somente á meu favor.

Amor. Eu não precisava de um sentimento que deixa as pessoas patéticas, como eu havia ficado. Comecei a pensar em Mel, outra que estava sempre levando tapas na cara desse sentimento e nas inúmeras vezes que presenciei meninas trancadas no banheiro feminino, aos prantos por alguém que havia as magoado.

Até meus pais, viviam mais em guerra do qualquer outra coisa. Estava decidido, coração trancado e chaves jogadas fora. Isso evitaria mais sofrimentos.

—Assim vai ser bem melhor. -Falei para mim mesma.

No dia seguinte não pude ir a aula, o que não foi de todo ruim, porém a tarde foi inevitavel, os telefonemas continuaram e eu tive que atender as ligações, algumas de pessoas que eu mal conhecia, estava muito cansada para explicar como aconteceu, apesar de saber que o que elas queriam eram detalhes.

A única a quem dediquei mais tempo foi Mel, passei mais de uma hora falando com ela, claro que não contei nada sobre o verdadeiro motivo do acidente, isso seria uma coisa só minha, ela também não ficou me questionando sobre isso. Melissa era discreta, uma boa amiga afinal.

Ouvi atenta sobre sua noite maravilhosa com Alex, e apesar de estar desaparecido desde sábado, ela estava feliz.

Ao final do dia sentia-me como uma celebridade, havia dado mais entrevistas do que qualquer famoso num só dia.

Assim, sem maiores novidades, o tempo foi passando, as feridas externas estavam curadas antes de completar um mês do fatídico dia, já as feridas internas ainda estavam um pouco frescas, e mesmo quando se curassem deixariam cicatrizes, apesar de tudo, eu estava me saindo bem.

Quanto a visita, Lucas nunca chegou a fazê-la , mas no que dizia respeito às previsões que eu tinha feito, quase todas se concretizaram, os almoços de domingo, às vezes de sábado também, sem contar que todas as noites da semana Lucas e Sarah ficavam namorando na sala. No inicio era mais complicado, mas com o tempo tomei as rédeas da situação.

Não diria que me tornei uma pessoa fria, mas sim uma mais racional, calculista talvez.

Minhas rotinas não haviam mudado muito, a não ser pelo fato de não ter mais que acompanhar Sarah aos lugares. Continuava passeando com Barth quase todas as tardes, alguns sábados quando Mel insistia muito, íamos até a Alta Avenida, cinema as vezes, e passar meu tempo sentada na sacada da sala,vendo o sol se por ainda era meu passatempo favorito, a diferença era que não haviam segundas intenções neste habito.

Já haviam chegado as féria do meio do ano, sem as aulas sobrava-me mais tempo livre que o necessário, minha mãe estava mais uma vez sem falar com meu pai, o motivo: ela pintara o cabelo de preto e ele não percebeu a diferença.

Eu não podia reclamar de meu pai nesses últimos tempos, depois do acidente, pelo fato de eu estar dirigindo sem ter carteira de motorista, as leis me impediriam por um bom tempo de tirar a habilitação, mas graças a ele, houve uma vista grossa para este fato relevante, já que o guarda de transito que fez a ocorrência na época era cliente bancário do meu pai, que por sua vez, conseguiu aumentar, e muito, o limite do seu cartão de crédito.

—Eu já disse que por mim, compramos um carro para Samantha. -Minha mãe resolveu quebrar o greve de fala com meu pai para sair em minha defesa.

—Eu concordo com isso, mas o que está em questão é qual o carro. Tem que ser um popular, mais barato.

Eles discutiam por esporte, sequer perguntavam minha opinião, claro que se pudesse optar diria um new beetle amarelo conversível, não por luxuria, mas por achar um carro tão engraçado, eu diria bem humorado até, mas nem seria maluca de dizer isso aos meus pais.

Deixei a mesa sem que os dois percebessem, embora estivesse acostumada com aquelas atitudes haviam dias que aquilo se tornava incomodo para mim.

—Sortuda é a Sarah, que tem escapado dessas. -Falei sozinha enquanto subia as escadas, indo mais uma vez me refugiar em meu quarto.

Fazia tempo que as lembranças do acidente me perturbavam, mas naquela noite, aquele rosto insistia em aparecer em meus pensamentos. Pura perda de tempo pensar em alguém que poderia não passar de um delírio.

Precisava preencher minha cabeça com alguma coisa, pelo menos até o retorno das aulas, não faltava muito, só mais duas semanas no entanto, eu estava entediada.

—Aulas de violão? -Minha mãe perguntou surpresa enquanto tomávamos o café da manhã.

—É mãe, tem uma escola de música aqui pertinho, fica há uns quatro quarteirões, dá pra ir a pé.

—Mas em duas semanas você não vai aprender nem a como segurar um violão. -Ela argumentou.

—Eu sei, mas se gostar continuo fazendo as aulas, só que a tarde.

—Se você realmente quer tudo bem. Vá até a escola hoje e se informe, veja o que é necessário para a matrícula, então voltamos a conversar. -Ela concordou, aliás, era difícil não conseguir alguma coisa da minha mãe.

Depois do almoço fui direto para a escola de música, tocar violão não era nada que estava em meus planos, mas por outro lado, deveria ser legal saber tocar algum instrumento, além de que, eu realmente precisava ocupar minha cabeça, ver gente diferente. Fui caminhando, assim levaria mais tempo, encurtaria meu dia.

Por sorte eles aceitavam novos alunos ainda, um senhor simpático me explicou tudo direitinho, disse que a música alimentava a alma, e que todos os músicos são mais sensíveis, enxergam a vida com outros olhos. Na realidade esta parte foi a que menos me interessou, mesmo assim decidi que começaria já no dia seguinte.

Lá na escola mesmo vendiam os instrumentos, já havia até deixado separado um violão com detalhes dourados, bem feminino.

Na volta, uma casa com placa de vende-se chamou minha atenção, ficava próxima de onde eu morava, as vezes passeando com Barth passava por ali, mesmo assim não consegui me lembrar se eu conhecia os antigos moradores, não me importei muito, segui para minha casa.

Em casa ao contar que começaria as aulas já no dia seguinte,todos ficaram surpresos, ninguém se opôs.

Meu primeiro dia foi inesperadamente bom, haviam mais sete alunos, duas garotas mais ou menos da minha idade, Emily, e Carmem, um homem já de meia idade, que nem fez questão de se apresentar, os gêmeos de doze anos, Theo e Bob, Kevin, que a princípio achei muito estranho, talvez por seu jeito largado, cabelo cortado estilo moicano, brincos e tatuagem, mas que com o tempo se mostrou uma pessoa muito legal e finalmente Fred, quinze anos, parecia ter saído de um desenho animado, topete loiro, sempre combinando roupas com tênis, além de ser divertidíssimo, sem ele as aulas não seriam as mesmas, ele sempre tinha uma piada, sonhava em ter uma banda.

Surpreendentemente, acabei tomando gosto pela coisa, e não parei as aulas de violão, mesmo quando as aulas do colégio retornaram, deu para conciliar os dois tranquilamente. Parecia que com o meu tempo preenchido, minha mente me dava um trégua.

Próximo do final do ano, eu já fazia minhas aulas há quase cinco meses, não podia dizer que aprendera a tocar, mas já dedilhava algumas coisas, adorava tocar para o Barth, afinal ele não tinha como reclamar.

Sarah permanecia firme com Lucas, a fase da cueca de fato havia passado pela minha casa, isso até meu pai descobrir e proibir que ele ficassem trancados no quarto, isso que ele soubesse, afinal, foram inúmeras as vezes que Sarah fugia à noite e ficava na casa de Lucas, meu pai nem imaginava.

Ver os dois juntos já nem doía mais, eles estavam felizes tendo um ao outro, quem poderia se impor a isto?

No meu aniversário, 20 de dezembro, o pessoal do violão resolveu fazer um bolinho surpresa para mim, terminamos a comemoração em uma sorveteria perto da escola, naquele dia repeti duas vezes o meu preferido, milk shake de chocolate com marshimelow, não importava se estava frio ou calor, se fossemos lá eu tinha que tomar um desses.

No natal, a ceia teve mais integrantes que de costume, nos unimos a família de Lucas numa festa só. Para mim, tudo seguiu sem maiores traumas.

O tempo passava numa velocidade insana, finalmente aquele ano estava chegando ao fim, não que eu fosse daquele tipo de pessoa que costuma colocar a culpa de seus problemas em abstratos como o dia, o ano, o universo, mas de alguma forma começar um ano novinho, limpo, de alguma forma sem passado me parecia algo bom. Eu não estava infeliz, isso não seria justo dizer, mas mesmo sendo clichê, ano novo, vida nova.

Na antevéspera no réveillon, consegui reunir minha turma da escola de música, menos o senhor mal humorado, com minhas amigas de escola, Mel e Tereza, que depois de ter levado o fora de seu namorado, vivia com a gente. Eu não dizia nada a elas, mas via nós três como as campeãs em falta de sorte em questões amorosas, eu claro, era a primeira do pódio.

Naquela noite fomos todos para Alta Avenida, metade da cidade estava lá, aquela mistura de músicas vindas de vários lugares impediam que qualquer um pudesse identificar o que tocava, mas assim mesmo era lá que todos adoravam freqüentar. Quando Kevin bateu os olhos em Mel, senti que houve um grande interesse, ela por sua vez não se esquivou muito das investidas dele.

—Viu só a Mel?Parece que Alex, enfim é passado. -Tereza comentou apontando com a cabeça, enquanto Kevin a beijava.

—Bem, pelo menos por hoje. -Afirmei surpresa com a rapidez das coisas.

De repente me questionei se era eu quem estava atrasada no tempo.

—Ou quem sabe, ela se livra de uma vez por todas desse carma que é Alex em sua vida. -Tereza ainda completou.

Carma, a expressão me fez sorrir de desgosto, quem sabe então Lucas seria meu carma, afinal, de um jeito ou de outro estava impregnado em minha vida.

Procurei Emily e Carmem, mas elas já tinham engatado uma conversa com uma roda de rapazes, Fred, desaparecido pela multidão com os gêmeos. Só restavam as impares, Tereza e eu.

—Olha Tereza, eu peço que você tenha pena de mim, e não suma com o próximo motoqueiro que buzinar pra você. -Choraminguei.

—Sam, juro que ia te pedir a mesma coisa. -Ela falou passando os braços por meus ombros, ensaiando um abraço. -Eu não sigo a tese de que só um amor cura o outro.

Percebi amargura nas últimas palavras dela, realmente não devia estar sendo fácil se ver sozinha depois de quase um ano de namoro. Dava para perceber que ela tentava levar a vida o mais normal possível, mas mesmo quando sorria, seus olhos eram tristes.

Essas coisas só reforçavam minha decisão de não me envolver com ninguém, não importava como era o começo da estória, no final sempre um saia machucado. Balancei a cabeça para me livrar daqueles pensamentos.

—Gente, o que é que eu estou fazendo? -Mel vinha em nossa direção, com a boca visivelmente irritada de tanto beijar.

—Você é quem tem que saber. -Ironizei.

Estava contente em tê-la por perto, era como se o lugar ficasse mais aconchegante com Mel.

—Não fale assim, eu estou prestes a sair fugida daqui. Pedi para ele pegar alguma coisa para eu beber,só assim pra livrar sua boca da minha. -Ela dizia enquanto posicionava-se entre Tereza e eu.

—Estava bom ao menos? -Tereza quis saber.

Percebi um alto grau de curiosidade em sua voz.

—Digamos que ele não é bem o meu tipo, mas... -Mel preferiu terminar a frase com um risinho.

—O que foi? -Quis saber o que estava por traz daquele riso.

—Bem, Alex passou por nós e me viu com Kevin. -Falou entusiasmada. -vocês precisavam ver a cara dele!

—Como você é cretina! -Fiquei indignada. -Você esta tentando fazer ciúmes para o Alex?Isso é muito sujo.

—Não. Foi só coincidência. -Ela tentou se justificar. -Você me conhece Sam, sabe que eu nunca usaria uma pessoa.

—É melhor que seja assim. -Concluí.

Meus olhos estavam perdidos naquela multidão, meus pensamentos não estavam em lugar algum, em meio a toda aquela gente, me prendi em um par de olhos grandes, azuis como o céu em dias claros, eles olhavam direto para mim, meu coração reagiu, havia algo familiar naquele rosto, era impossível deixar de o olhar, mesmo sabendo que ele notava minha curiosidade, mesmo assim ele também não desviou seus olhos de mim, mesmo de longe estávamos olho no olho um do outro.

Sem pensar muito comecei a caminhar entre a multidão, por mais que soasse louco, eu precisava saber quem era aquela pessoa, não poderia novamente ser fruto da minha imaginação.

Caminhei o mais rápido que pude,ou que me permitiram,tentava não perdê-lo de vista, o bom é que talvez assustado como minha atitude, ele ficado paralisado pois não havia se movido um só milímetro, pelo menos até a ultima vez que eu havia olhado.

Quando faltava pouco para estar frente a frente ao estranho conhecido, fui tomada por uma onda de consciência.

O que eu lhe diria?Questionei-me, certamente ele me acharia uma louca, hesitei então.

Pensei em dar meia volta, ou, seria mesmo melhor acabar com aquela dúvida? Enquanto estava nesta briga interna, houve tempo bastante para que ele fugisse de mim, em seu lugar duas garotas riam juntas.

Odiei-me por aquilo, sempre aquela maldita indecisão, sabia que novamente ficaria perturbada. Ainda para conferir, dei uma volta pela região em que ele estava, mas nem sinal dele.

Mais uma noite sem dormir, aqueles olhos não saiam da minha mente, pareciam me conhecer, ou me dizer alguma coisa. Por outro lado, poderia nem se tratar da mesma pessoa, ou também poderia se tratar do mesmo delírio. Era muito surreal toda aquela situação, a inquietação me fez levantar duas vezes para beber água mesmo não havendo sede.

—Quem é você? -Perguntei em voz alta já sabendo que não obteria resposta.

Lembrei-me que não havia batido a cabeça no acidente, o que me confortava, não seriam seqüelas então.

Seria loucura?Era uma opção.

Não esperei nem bem o dia clarear e fui tomar um longo banho, depois de beliscar alguma coisa, coloquei coleira em Barth, fui andar com ele.

As aulas de violão estariam suspensas por apenas uma semana, mas já sentia saudades, resolvi passar em frente ao lugar.

Um carro amarelo estacionado em frente à casa que há meses atrás estava para vender me chamou a atenção, era o carro dos meus sonhos, olhei para os lados para ver se ninguém estava por perto, tendo a confirmação me aproximei para ver os detalhes. Era novinho, impecável, fiquei parada vislumbrando, então olhei para a casa sem placa. Novos vizinhos, deduzi. Segui em frente com minha caminhada.

—O que vamos fazer com você esta noite, hein Barth? -Perguntei me referindo aos fogos de artifício tão tradicionais na virada do ano. Barth simplesmente enlouquecia com o barulho, o que me dava pena. -Um jeito eu vou dar, posso deixá-lo em meu quarto, assim você pode ficar em baixo da cama, não é muito, mas...

A cidade já estava deserta, muitos haviam viajado, mesmo sendo véspera de feriado tudo estava calmo demais. Nós ficaríamos em casa mesmo, pelo menos até a meia noite seriamos nós quatro, depois Sarah sairia com Lucas.

Minha mãe passou o dia todo no salão de beleza, queria estar linda para o ano que chegava, uma exigência dela era que todos nós usássemos roupas brancas, inclusive meu presente de natal foi um vestidinho branco básico de alças, reto até a cintura e com um leve godê para baixo. Eu não tinha estas superstições,mesmo assim,evitava contrariar minha mãe.

Os ânimos entre meus pais estavam mais amenos, talvez fosse uma trégua de fim de ano, independente do motivo, era bem melhor assim. Tivemos um jantar agradável, depois disso os telefonemas se revezavam entre nós quatro, familiares e amigos, querendo desejar feliz ano novo.

—O que você vai fazer depois da virada? -Mel me perguntou do outro lado da linha.

—Acho que dormir. -Respondi sem animo. De fato não planejava nada.

—Ah, não, você precisa comemorar, vou sair com Kevin depois, passo aí pra te pegar. -Ao contrario de mim, ela esbanjava entusiasmo.

—Não!Quero dizer, vou pensar e qualquer coisa te ligo. -Menti.

—Então, eu vou esperar. Um beijo! -Disse antes de desligar.

Tive que rir.

O relógio acusava cinco minutos para a meia noite, sai na sacada da sala, alguns adiantados já queimavam alguns fogos, Barth já estava seguro em meu quarto.

Algumas pessoas já se aglomeravam na rua em frente de casa, entre elas, meus pais, Sarah e Lucas.

—Vem Sam, já vai começar. -Sarah gritou para mim.

Não podia negar que o céu se tingindo de varias cores brilhantes, era lindo, eu gostava de assistir a queima de fogos, desci e juntei-me a eles.

Alguém puxou a contagem regressiva, e todos acompanharam.

—10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2,1. Feliz Ano novo! -O coro gritou.

Assim o milagre se fez, era dia claro em plena madrugada, o colorido se refletia nos olhos de cada um ali, todos se abraçavam e desejavam os melhores votos.

Os braços vinham em minha direção e nem dava tempo de identificar quem era, os altos estrondos faziam com que as vozes ficassem sem distinção. Alguém me abraçou com força, ao se afastar percebi que era Lucas.Não senti nada, não foi nem um pouco estranho,tudo estava superado mesmo.

Caminhei alguns passos para longe do concentrado de pessoas,o céu ainda se coloria, fiquei como boba olhando para cima, não percebi que alguém se aproximou.

—Lindo, não é? -Me perguntava uma voz meio rouca, desconhecida.

Senti meu corpo congelara ao virar-me, pensei que entraria em estado de choque, agora os fogos já estavam quase cessando, mas ainda conseguiram clarear como flashes o rosto ali presente. Seus olhos azuis brilhavam como se fossem feitos de cristal,eram tão familiares que me senti em casa enquanto olhava para eles.

—Vo... Você?Quem é você? -Com muito esforço consegui fazer a pergunta. Estava confusa.

Ele sorriu singelo, mas foi o bastante pra me tirar de órbita, em qualquer outra ocasião eu sairia correndo de medo, mas ao contrario disso, eu queria mais.

—Candido, Andrey Candido. -Apresentou-se sem me estender a mão ou algo assim.

—Eu sou Samantha. -Respondi rápido. O que foi bom,levando em consideração a forma com que meu cérebro estava lento.

—Samantha, lindo nome, significa aquela que ouve. — Explicou.

Ele ainda sorria, aproveitei para olhar o restante dele, lutei para desviar meus olhos de seus olhos que eram como imãs.

Era alto, magro, tinha um corpo bem distribuído, seu rosto era indescritível, boca pequena, nariz bem projetado, cabelos escuros curtos, mas o mais impressionante eram aqueles olhos, enfeitiçadores.

—Eu não sabia isso sobre meu nome. -Mais uma vez foi só o que consegui dizer.

Como ele permanecia estático, fui em passos curtos me aproximando. Fiquei bem próxima dele que pareceu enrijecer, tive vontade de rir, estaria ele com medo de mim?

—Posso te perguntar uma coisa?

Ele arregalou os olhos, fazendo-os parecer ainda mais bonitos, colocou as mão nos bolsos da calça clara que usava.

—Espero poder responder. -Disse encolhendo os ombros.

Aquelas atitudes eram atípicas de mim, mas o fantasma das dúvidas tinham que me deixar, há quase um ano aquele rosto habitava meus pensamentos, não podia perder aquela oportunidade, tinha que entender o que estava acontecendo.

—Você, já me conhece?Já me viu antes? -Aproximei-me ainda mais ficando a poucos centímetro de seu rosto, percebi que sua respiração estava acelerada, se mentisse, eu perceberia.

—Na verdade, ontem a noite, acho que por uns instantes naquela avenida estava olhando para você. -Respondeu franco.

Quanto ao dia anterior eu tinha quase certeza, isso não era o que mais me intrigava.

—Antes disso? -Insisti.

Andrey deu um passo para trás, senti-me envergonhada, estava realmente muito próxima.

—Acredito que não. -Falou finalmente.

Não consegui detectar nenhuma hesitação, ou outro sinal de que ele pudesse estar mentindo. Pensei que ele não teria motivos para isso.

—Desculpe, acho que estou sendo insistente demais. -Afastei-me um pouco agora. -Você deve estar me achando uma louca.

—Na verdade não. -Ele riu. -Você me parece extremamente normal.

Ele estava mais calmo, e eu também, na verdade, estava tendo mais uma dose daquela sensação cálida de extremo conforto.

Como um estranho podia me fazer sentir assim?

—Então, você esta em férias aqui ou coisa assim? -Quis saber, estava com fome de informação.

—Na verdade me mudei ontem, estou morando bem próximo daqui.

—Espero que esteja gostando do bairro. -Disse sincera.

Achei um pouco idiota dizer aquilo, parecia algo que minha mãe diria, mas no momento não consegui pensar em nada mais original.

Mais uma vez ele sorriu. O que estaria pensando de mim?

—Bem, a vizinhança parece ser bem acolhedora. — Ele quebrou o silêncio.

Os estrondos dos fogos já não existiam mais, o que se incumbia agora em fazer barulho eram os carros buzinando e pessoas aos gritos que passavam pelas ruas.

Apesar de não querer, já não havia mais o que falar com ele, eu não poderia bombardeá-lo de perguntas e fazê-lo ficar mais nervoso do que já aparentava. Olhei em direção à minha casa, ainda haviam pessoas lá em frente, não quis esperar alguém vir conferir com quem eu conversava.

—Então... acho que já vou indo. -Falei olhando para baixo.

Andrey estava me encarando, parecia pensar no que dizer. Eu deveria estar absolutamente constrangida, mas não estava, sem pensar correspondi àquele olhar, ficamos olhos nos olhos mais uma vez.

—Você não quer dar uma volta?A cidade ainda parece estar bem animada. -Ele enfatizou.

Algo dentro de mim gritava bem alto que sim, mas isso não era racional, ele era apenas um desconhecido. O pouco que havia me dito poderia ser mentira, poderia até mesmo ser um maníaco, rapidamente pensei na manchete do jornal no dia seguinte: "GAROTA DESAPARECE JUNTO COM O ANO VELHO", me arrepiei só em pensar.

— Se for rápido, acho que não terei problemas. -Respondi contrariando minha própria consciência. Talvez,de fato estivesse ficando insana.