Meu Pequeno Anjo
6 Macarrão e bolo de chocolate.
Notas iniciais
Connor
Quando vi a morena na cozinha com o escorredor na mão nunca imaginei que ela se tornaria minha colega de apartamento. Eu tinha saído de onde estava por causa dos meninos, queria ficar só e agora moraria com duas mulheres. Duas tagarelas na verdade. Izzie e Angie não pararam de falar desde que saímos de casa. Eu ainda não entendia muito bem por que a loirinha tinha resolvido falar, mas agora não parecia disposta a parar. E eu particularmente preferia assim, ela sorrindo, falando e se expressando. Sendo uma criança.
— Con, você ouviu? — Angie quis saber e eu a olhei sem ter ideia do que as duas falavam.
— Acho que não, vocês estavam falando do quê?
— Do almoço, Con. A gente pode comer macarrão? — ela pergunta animada. — E chocolate?
— Não sei se essa é a melhor combinação.
Izzie ri e revira os olhos.
— Bolo de chocolate de sobremesa — a morena explica e sorrio. Ela cora e desvia os olhos. Ela fica linda corada e eu tenho certeza de que se continuar reparando nisso, nós dois teremos problemas.
— É Con, sobremesa! A Iz disse que não podemos comer doce antes do almoço. É verdade? — Angie definitivamente não liga se estamos no meio de um momento ou não. Izzie está sorrindo pra ela e só posso fazer o mesmo.
— É verdade sim, nada de doces antes da comida se não você não come direito.
— Ah... — seu desapontamento é quase palpável e eu sorrio da situação. Me lembro claramente de ficar exatamente igual depois da minha mãe dizer o mesmo pra mim.
— Mas sempre podemos comer depois! — Izzie garante a ela. — Se quer saber, Angie. A sobremesa é a minha parte favorita também.
— Eu não sei se gosto de sobremesa. Nunca comi. Eles não deixavam — ela dá de ombros e a morena me olha surpresa e eu quero matar os monstros que machucaram Angie assim. Onde o hipócrita do meu pai estava quando ela precisava dele? Aparentemente longe, muito longe. Respiro fundo e me abaixo para encará-la.
— Aposto que vai amar a sobremesa e vai poder comer sempre que quiser, Ok? É só pedir. Peça o que quiser, Angie.
— Posso? — ela pergunta surpresa, mas seus olhos brilham de empolgação.
— Pode. Tudo o que quiser — garanto a ela e como resposta recebo um abraço apertado e carinhoso. Envolvo meus braços ao seu redor e fico de pé trazendo a pequena comigo. — Vamos? — chamo Izzie que está parada encarando nossa pequena cena com os olhos marejados. Sua reação me assusta um pouco. Assim como no apartamento, ela está chorando outra vez. — Tudo bem?
— Sim — ela sorri limpando as lágrimas. — Só pensei em umas coisas. Desculpa. Vamos comer?
— Vamos! — é Angie quem responde animada e nós terminamos de chegar ao restaurante simples no fim da rua.
Entramos e Angie que já desceu do meu colo está correndo por entre as mesas.
— Angie, volta aqui! — digo meio desesperado. E se eu conseguir a proeza de perdê-la aqui? Izzie só assiste a cena sorrindo. Traidora.
— Vem, vamos arrumar uma mesa — ela diz divertida seguindo atrás da pequena.
Eu me limito a suspirar e ir atrás delas. Olha onde eu vim me meter.
Nos sentamos e felizmente não perdi Angie entre as mesas. As duas estavam concentradas no cardápio e eu sorri as assistindo. Pareciam irmãs. Não, essa não era a definição, talvez lembrassem mãe e filha, mesmo que fossem completamente diferentes na aparência. E falando do quão bonita era Izzie, eu realmente achei que ela fosse do tipo patricinha mimada, não precisava muito pra isso. Os cabelos longos, o rosto delicado, era surpreende que fosse uma garota normal.
Mas no instante em que falou com a pequena tão delicadamente e com um sorriso tão genuíno eu me dei conta de que era uma garota diferente. Aposto que o jeito que tratou Angie foi com mais carinho do que ela recebeu em muito tempo, por isso a pequena se encantou tanto com ela e isso me magoava. Não por Izzie tê-la tratado tão bem a ponto de serem melhores amigas em menos de duas horas. O que me machucava mesmo era saber que durante todo esse tempo, esse anjinho não recebeu todo o carinho que tinha direito. E o pior de tudo é que ela achava que não podia ou talvez nunca fosse tê-lo.
— Con! — a loirinha me chamou e pisquei voltando a realidade. Ela e Izzie me encaravam curiosas. — Você não estava ouvindo outra vez! — ela acusou e eu ri.
— Desculpe. Agora estou escutando. O que foi?
— A Iz tá com fome. Quando a gente vai comer?
— Eu? — a morena pergunta divertida. — Achei que fosse a sua barriga que estava roncando — ela diz fazendo cócegas na pequena que ri se contorcendo.
— Tá bom, Iz! Eu também quero comer.
— Melhor assim. Mas você não respondeu, Connor. Quando a gente vai comer?
— Quando pedirem. Eu ainda estou escolhendo — apontei o cardápio que nem tinha olhado ainda.
— Se é assim — Izzie olhou em volta e sorriu. — Garçom!
Elas pediram macarrão e é claro, bolo de chocolate. Eu pedi um bife com batatas fritas, não era a refeição mais saudável do mundo, mas eu não ligava e elas aparentemente também não.
— Con, já posso comer o bolo? — Angie quer saber com a boca suja de molho, seu prato de macarrão ainda está na metade.
— Só depois que terminar de comer.
— Não pode ser antes?
— Não — digo por fim vendo seu sorriso morrer, eu me sinto mal por isso. — Come só mais um pouco e depois passamos para o bolo, por ser?
— Eba! — ela comemora e Izzie sorri.
— Até que você demorou muito para ceder, achei que não aguentaria tanto.
— Não sei do que você está falando — desconverso o que só a faz rir ainda mais. Definitivamente ela fica mais bonita sorrindo. Perde um pouco da tristeza no olhar que definitivamente não combina com ela.
— Agora já pode? — Angie pergunta depois de engolir uma garfada particularmente grande de macarrão e sorrio.
— Pode — digo por fim. — Pode sim.
Pedimos ao garçom para trazer o bendito bolo, uma fatia para cada uma delas. Eu não aguento mais comer, não depois de terminar o prato de macarrão da Angie, sou totalmente contra desperdícios.
— Obrigada! — a pequena agradece animada assim que o garçom coloca o prato com o bolo a sua frente, ele serve Izzie também e depois sorri.
— A filha de vocês é linda — diz olhando para Angie que já atacou o bolo e não está mais prestando atenção. Mas Izzie ouviu e eu também.
— Ela não é nossa filha — digo por fim e ele nos olha surpreso.
— Ah, desculpe. É que eu achei que... Enfim, desculpe — disse constrangido e saiu. Eu e Izzie nos entreolhamos por um momento ela sorri olhando para Angie e depois se concentra em seu bolo. Não tenho certeza do que isso significa, mas por hora acho que tudo bem.
A morena dá duas garfadas no bolo antes de arregalar os olhos e correr em direção aos fundos do restaurante. Eu e Angie nos olhamos se entender.
— O que aconteceu, Con? — a loirinha pergunta olhando para onde Izzie correu.
— Não sei. Mas vem, vamos descobrir.
Seguimos atrás dela e encontramos Izzie saindo do banheiro com o rosto abatido.
— Iz o que aconteceu? — Angie pergunta e a morena se abaixa para encará-la.
— Eu acho que comi de mais. Só isso.
— Tem certeza? — pergunto com a sensação de que essa não é toda a verdade. Ninguém sai passando mal assim por causa de bolo e macarrão.
— Tenho — ela tenta sorrir e fica de pé. Não vou insistir por que não é da minha conta. Mas não acredito nessa desculpa esfarrapada, não mesmo. — Vamos terminar o bolo e ir embora, o que acham? Pra mim já de deu de comida.
Angie sorri pra ela e as duas voltam para a mesa e eu as sigo me perguntando o que acabou de acontecer. A pequena termina de comer, Izzie toma um copo de água e eu as observo até terminarem e voltarmos. Nosso apartamento é no segundo andar, então é apenas dois lances de escadas até estarmos outra vez na casa vazia e cheia de caixas.
— Onde estão as coisas de vocês? — Izzie pergunta voltando para suas panelas.
— Estão aqui — aponto para as duas caixas ainda empilhadas na sala. — E tem mais três no carro e a cama.
— Só isso? E as coisas da Angie, cadê?
— Boa pergunta — suspiro e ela me olha curiosa.
— Como é?
— Longa história, depois te conto.
A morena pretendia me dizer alguma coisa, mas foi interrompida pelo toque do meu celular. Sorrio para ela, murmuro um “Licença” e me afasto para atender.
— Alô?
— Ingrato! — é como Stuart me atende. — Como você sai sem nem dizer nada?
— Sem coração, é isso que ele é — escuto a voz de Jace ao fundo e sorrio.
— Precisa desse drama todo? Tô vivo ainda e vocês estavam desmaiados em seus quartos, não quis acordar.
— Desculpas e mais desculpas. Como vai a mudança? E a pequena, como está?
— Bem e bem. Acabamos de comer — decido que contar sobre Izzie pelo telefone não é a melhor opção. — Vocês vão sair hoje também?
— Você sabe que não. Domingo a gente se recupera pra aguentar o resto da semana. Hoje podia ser sexta outra vez.
Eu rio e reviro os olhos, Stu é o drama em pessoa. É super gente boa, mas nunca leva nada a sério.
— Sinto muito pelo seu fim de semana.
— Eu não. A festa ontem foi de mais e o Peter Pan esteve ótimo, não que eu vá falar isso pra ele.
— Deixe o Jace em paz e vá trabalhar por que aposto que tem coisas pra fazer. Tenho que terminar a mudança, mais tarde vou aí buscar a cama.
— Tudo bem paizão, já tô indo. Boa sorte com a mudança — desejou e desligou logo em seguida. Sorri guardando o celular e vi as garotas empenhadas em colocar as panelas no armário.
— Como vamos fazer isso? — pergunto a Izzie que me encara um minuto depois sem entender.
— Isso o quê?
— Morar juntos. Como vai funcionar?
— Como qualquer outros amigos dividindo o apartamento. Nunca morou com ninguém, não?
— Morava com dois amigos.
— E eu com uma amiga — ela sorri entregando as colheres para Angie que as está colocando na gaveta. — Então vai ser fácil. Cada um limpa o que sujar. As faxinas damos uma vez por semana e cada semana um de nós faz. De resto, vemos depois. Assim está bom pra você?
— Ótimo — sorrio. — Vou levar minhas coisas para o quarto.
— O do fim do corredor é meu, por que cheguei primeiro! — Izzie grita da cozinha e sorrio achando graça.
O quarto que ela disse ser dela é um pouco maior que os outros dois. Não é grande coisa e nenhum deles é uma suíte então não vejo problema em colocar minhas coisas num dos outros quartos. Encaro as caixas no chão e suspiro. Mesmo que a morena não tenho falado nada de fato, ela tem razão, isso não pode ser tudo que eu e Angie temos. Somos dois e temos cinco caixas e uma cama. A morena é só uma e tem mais móveis espalhados pela casa que tudo. Só no quarto vi mais caixas do que tudo o que eu e Angie temos juntos.
Definitivamente precisamos de umas compras, a pequena merece um quarto, pelo menos enquanto estiver aqui. Se mamãe pudesse ouvir meus pensamentos aposto que já estaria fazendo planos para quando Angie estivesse terminando a escola. Mas não é assim, são só algumas semanas, nada mais.
Desisti de pensar nessas coisas e comecei a arrumação, mas assim que abri a primeira caixa me dei conta de que tinha esquecido uma coisa bem importante. Meu guarda-roupa. Eu e Angie precisávamos de um monte de coisas e eu nem sabia por onde começar. Voltei à cozinha e agora elas guardavam as panelas.
— Angie, temos que ir ao outro apartamento. Se lembra dele? Precisamos buscar a cama.
Ela me olha curiosa.
— A gente não ia morar aqui com a Iz?
— Ainda vamos, mas a gente tem que ir lá na casa do Stu buscar a cama e o guarda-roupa.
— Ah... — ela olha para Izzie e depois pra mim. — Con, eu tô ajudando a Iz. Você volta, né? Posso ficar?
Seu pedido me surpreende, mas logo em seguida sorrio, com minha mãe foi a mesma coisa. Primeiro ficou tímida e logo depois já era “Vovó isso e aquilo”. Com a nova melhor amiga não seria diferente.
— Angie, a Izzie está ocupada. Que tal outra dia?
Ela suspira e Izzie sorri.
— Que tal hoje mesmo? Eu vou ficar sozinha e você está roubando minha ajudante. Como vou terminar de arrumar a cozinha e fazer bolo sem meu anjinho?
Seu tom é tão carinhoso que faz os olhos da pequena brilharem. Eu também sorrio, seu jeito delicado e sorriso encantador vão acabar me enlouquecendo.
— Pode agora, Con? A Iz deixou.
— Pode, pode sim. Mas se comporte e pelo amor de Deus, não saiam de casa. Izzie você poderia me dar seu número de telefone?
— Meu telefone? — ela pergunta surpresa e eu me dou conta de como a pergunta saiu.
— Para o caso de acontecer alguma coisa com a Angie. Só isso.
— Ah... — ela me olha parecendo quase desapontada, eu sorrio. Não seria ruim pensar em sair com ela. Mas isso só complicaria nossa situação e ainda tinha Angie no meio, isso não daria certo. No fim, acho que é melhor assim. — Anota aí.
Ela me diz seu número, eu digo o meu a ela. Dou mais algumas recomendações a Angie antes de lhe dar um beijo na testa, Izzie sorri com a cena e eu finalmente saio. É muita loucura deixar a pequena com uma pessoa que eu acabei de conhecer, mas Angie pareceu tão a vontade, não quis negar isso a ela, uma companhia feminina. Lá no apartamento só haviam eu e os garotos. E com mamãe e Izzie foi amor a primeira vista, de ambos os lados.
Peguei o carro e não demorei muito para chegar ao meu antigo apartamento. Tinham só três dias que eu estava com Angie, mas o silêncio absoluto no carro chegou a ser irritante, meia dúzia de vezes eu me virei para ver se a pequena estava bem no banco de trás. Os garotos diriam que eu estava ficando louco, mamãe que estava apaixonado. Sorri com a ideia e subi até o apartamento que eu morava até semana passada.
Abri a porta com a chave que ainda era minha só para encontrar Jace jogado no sofá assistindo Harry Potter pela milésima vez, ele era tão viciado que eu acabei aprendendo a gostar dos filmes também. Stuart estava na mesa da cozinha comendo cereal, isso mesmo, ele estava comendo cereal as quase duas da tarde. Esses eram os meus amigos.
— Olha se não é o ingrato que nos abandonou, Jace.
O loiro levantou a cabeça do sofá e sorriu, levantou um braço também e trocamos um cumprimento meio torto.
— Eai paizão! Cadê sua filha?
Stu olhou em volta parecendo notar pela primeira vez que Angie não estava comigo.
— Cadê a pequena? Já foi embora? O juizado a levou? — se o moreno não era o desespero em pessoa eu não sabia quem era.
— Ficou com uma... Amiga — isso, essa palavra é boa. — Lá no apartamento novo.
— Amiga? Desde quando você tem amigas, Connor? — Jace perguntou se sentando surpreso, Stu também pareceu não acreditar.
— É tão irreal assim que eu tenha amigas?
— Sim — dizem os dois juntos e fecho a cara.
— Haha muito engraçados vocês dois. Eu tenho amigas, Ok? E uma delas ficou com a Angie.
— Aham tá, e eu sei cozinhar — Stuart diz irônico e Jace cai na gargalhada.
— Cala a boca, Stu!
— Vai fala. O que está acontecendo? — é o moreno quem pergunta depois de uma colherada de cereal.
— Nada — garanto. Quero adiar o papo sobre Izzie o máximo que puder.
— Ninguém acredita nisso. Só fala, com quem a pequena ficou? – eles não vão me deixar adiar. Maravilha.
— Com a minha nova colega de apartamento, Ok?
— Sua o que!? — perguntam os dois juntos e suspiro, vai ser um longo papo.
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