O corpo estudantil da Forks High School era composto por pouco menos de quatrocentos alunos; cada integrante era filho de um morador que, por sua vez, também havia estudado na mesma escola anos antes. A cidade de Forks, como um todo, girava como uma herança passada de geração para geração: os mesmos rituais, as mesmas famílias e apenas gerações diferentes. Apesar de termos nascido neste solo, Isabella e eu não vivemos tempo o suficiente para pertencer, de forma que seríamos as primeiras forasteiras da cidade desde a nossa própria mãe, mais de dezesseis anos antes.

Essa falta de pertencimento era uma bandeira hasteada em nossos próprios corpos: "as filhas do chefe de polícia, vindas diretamente da cidade grande". Nada poderia render mais atenção e assunto, e minha irmã sabia disso.

Meu plano era me misturar, marcar presença em um clube ou dois e conseguir companhia para o almoço, no máximo, no segundo dia de aula. Já Bella, não parecia disposta a receber qualquer atenção ou interação humana.

Como já esperado, a manhã estava extremamente gelada, daqueles frios intensos que nos fazem soltar fumaça pela boca como dragões. A vestimenta escolhida na noite anterior ganhou mais uma camada: uma blusa térmica preta que Renée me deu como presente de despedida. Isabella, no entanto, não parecia tão preocupada com o clima. Quando saiu de seu quarto, vestia o mesmo moletom cinza da noite anterior e a calça jeans que usava no inverno de Phoenix, quase como se a simples ideia de mudar seu guarda-roupas fosse uma traição ao sol do Arizona. A apatia dela parecia se afundar mais e mais a cada minuto.

Durante o café da manhã, Charlie se mostrou ainda mais amável, preparando uma generosa porção de panquecas, ovos e bacon para nós, além do tradicional café expresso à moda Swan. Ele fez um check list de tudo o que precisávamos saber, deu instruções claras sobre o caminho e nos desejou "boa sorte" para o primeiro dia, antes de se retirar para a delegacia. Logo após sua partida, não quis me demorar. Em um trabalho de equipe rápido e silencioso, limpamos toda a cozinha e fomos de encontro à nossa nova picape vermelha.

Assumi o volante, sentindo o ronco forte do motor que Jacob havia garantido.

— Como está se sentindo? — Questionei minha irmã pela primeira vez em vinte e quatro horas.

— Sobre o que exatamente?

— Sobre a mudança, a escola... sobre o papai — Mordi o lábio, sabendo que estava entrando em um campo minado.

Vi pelo canto do olho quando Bella, que assumia o banco de passageiros, tirou os olhos da estrada e os focou em mim. Para ela, nossa vinda a Forks era apenas um gesto de amor para que nossa mãe pudesse acompanhar o marido, Phil, nas viagens de trabalho.

— Me sinto estranha, deslocada, deprimida... — Desabafou. — O papai é ótimo! Ele está desempenhando um papel tão bom que me faz sentir uma cretina por me sentir assim.

— Sei que tomou a decisão certa — Confirmei, sentindo o volante tremer em minhas mãos. — Apenas dê tempo a você mesma, tudo bem?

Bella soltou um suspiro pesado, carregado de culpa, eu acho. Sua mente e seu corpo estavam cansados; sua vida havia mudado e, logo, enfrentaria um espetáculo pelo qual não ansiava.

A Forks High School era exatamente como Charlie havia descrito: uma construção modesta, com uma estética tirada de castelos medievais, envolta em uma névoa que impedia a grande passagem de luz para dentro de seus prédios. O estacionamento, apesar de pequeno, estava lotado de carros velhos e cinzentos que faziam oposição ao vermelho desbotado de nossa picape. Inevitavelmente, nossa chegada chamou a atenção dos demais presentes, transformando o emaranhado de conversas em um silêncio momentâneo e ensurdecedor.

— Evite o contato visual — Sibilou Bella, enquanto atravessamos o pátio em direção à sala da coordenação. As mãos agarradas na alça da mochila, como um guerreiro empunhando seu escudo.

— É apenas a escola, Bella. Não é como se fossem nos atacar; ninguém vai morder, nem nada assim — Tentei lidar com a situação de uma maneira tão leve quanto foi possível.

Os ombros de Bella estavam encolhidos, seus pés tropeçando em si próprios. Minha irmã teve pressa em fugir dos olhares curiosos da multidão e se abrigar na pequena sala da direção. Um cômodo modesto, composto por duas cadeiras vermelhas, um carpete rosa escuro e ornamentado por troféus de competições estudantis; o cheiro de mofo não era nada agradável e tornava o ambiente claustrofóbico e desagradável.

Atrás de um balcão extenso, feito em madeira de lei, estava postada uma loira rechonchuda com uma feição pouco simpática, como se a rotina de atendimentos aos alunos tivesse consumido sua animação. Destoando de seu humor, suas roupas eram vibrantes e elaboradas; um conjunto de alfaiataria com um terninho de corte perfeito que parecia muito fino para o tempo lá fora.

— As irmãs Swan, correto? — Rompeu o silêncio sem se incomodar em anteceder a frase com um "bom dia". — Deixei seus horários separados e a solicitação de inclusão na turma. Entreguem aos seus professores em cada uma das aulas e solicitem assinatura. Preciso disso ao final do dia. Entreguei para o chefe um mapa para cada uma no dia que ele as matriculou, então, acredito que não precisam de um novo.

Nossa chegada era esperada e a paciência de Kate (conforme constatei em seu crachá, posteriormente) era reduzida. Bella e eu nos limitamos apenas a pegar a papelada indicada por ela e agradecer, nos retirando sem qualquer questionamento adicional. De volta ao pátio, constatamos que Bella estaria durante grande parte da manhã no prédio de ciências humanas, enquanto eu estaria no de ciências biológicas, no extremo oposto. Nosso ponto de encontro seria o refeitório, localizado no vão central. Tão rápido quanto nos despedimos, tomamos nossos rumos.

O caminho até o laboratório de Biologia foi silencioso, diferente do que seria em Phoenix. A essa altura, Lisa, minha melhor amiga desde o primário, já teria compartilhado comigo todas as fofocas do final de semana. Pude notar os olhares voltados a mim e um comentário ou outro sobre as filhas do xerife, mas, diferente de Isabella, eu não me sentia incomodada e até entendia a curiosidade exacerbada sobre o assunto: cidade pequena, pouca novidade.

O laboratório era amplo, claro e mais aquecido do que todo o restante da construção do prédio. O professor, um velho barbudo de óculos com armação redonda (Senhor Turner), me deu as boas-vindas, assinou minha documentação e me orientou a sentar ao lado de um rapaz com cabelo em corte de tigela, indicando ser o último lugar livre. Estávamos no meio do semestre, todos já tinham suas duplas definidas e me restava ficar em qualquer canto que ainda estivesse disponível.

— Oi, muito prazer — Cumprimentei enquanto me acomodava na cadeira vaga. — Eu sou Renesmee. E, parece que seremos um time agora.

— Eu me chamo Alec — Seu tom era amigável. — Vai ser legal ter alguém para fazer par comigo. Você é a filha do chefe Swan, correto?

— Sim! Sou a caçula — Concordei. — Minha irmã e eu chegamos ontem de Phoenix.

— Você é muito pálida para alguém vinda de um lugar tão ensolarado — Brincou, me fazendo sorrir. — Seja bem-vinda! Se quiser companhia para o almoço, pode se juntar a mim e aos meus amigos. Eu também tenho uma irmã, Jane, ela é do segundo ano, e normalmente ficamos juntos.

— Ótimo!

Em Phoenix, sempre assumi o posto de uma aluna mediana; nem tão boa para ser um gênio e nem tão ruim para ser uma completa idiota. Em Forks, considerando o tema que o Senhor Turner estava abordando, eu poderia finalmente alcançar o grupo de elite. O conteúdo acadêmico parecia tão parado quanto o restante da cidade, sem grandes evoluções. Alec estava empolgado em me ajudar, então evitei soar esnobe e confessar que já havia tido aquele assunto no ano anterior, optando apenas em fingir me atentar às suas dicas.

— Fica tranquila! A próxima seção é sobre DNA e vai ser mais fácil de acompanhar — Ele cochichou.

— Obrigada, Alec — Sorri minimamente.

Enquanto a explicação seguia, minha dupla me apresentava seus resumos e considerações, mas, pelos cinquenta minutos seguintes, era em Isabella que meus pensamentos estavam. No Arizona, as aulas de Bella teriam se iniciado com a professora Moon, uma chinesa com pele de porcelana, que a adorava. Aqui, muito provavelmente, ela estaria sozinha na aula de História, forçada a interagir e, quem sabe, passar pelo ritual público de apresentação. Eu podia imaginar: seu capuz ligeiramente puxado, desejando ficar invisível dentre o mar de alunos. Senti uma pontada no estômago ao pensar em sua fragilidade.

O barulho da chuva tilintando nos grandes vidros do laboratório seguiu pelos dois tempos de Biologia que tivemos. Mesmo ainda não sendo um som familiar, me sentia reconfortada pela sinfonia ao fundo. Minha turma era silenciosa; pela primeira vez, estava cercada por adolescentes que respeitavam a figura de um professor. As mesas de mármore eram perfeitamente conservadas, assim como todo o material disponível ali dentro; o piso de porcelanato perfeitamente limpo e polido, como se lá fora não houvesse um amontoado de lama por todo o canto.

Mesmo com toda a camada de responsabilidade e educação de meus colegas, uma onda de alívio varreu a sala quando o sinal tocou, anunciando nosso horário de almoço.

— Como são seus amigos? — Questionei Alec enquanto seguíamos rumo ao refeitório.

— Sabe, somos um grupo misto — Ele sorriu, num gesto aberto e fácil. — Temos o Eric, que é responsável pelo jornal da escola junto com Jane, minha irmã. Mike e sua namorada Jéssica são tudo o que você imagina de um casal tipicamente americano, loiros, atléticos, olhos claros e sempre prontos para uma festa. Tem também a Angela, ela é mais na dela.

— Todos são do segundo ano?

— Mike, Jéssica, Eric e Angela, sim — Informou. — Jane e eu somos gêmeos, ela está no primeiro ano, assim como nós.

Seguimos com a massa de alunos famintos em direção ao vão central; uma caminhada de, aproximadamente cinco minutos, os quais Alec fez questão de preencher com uma enxurrada de informações que, muito provavelmente, eu não me lembraria com tanta exatidão. Sua companhia falante foi uma grata surpresa naquele dia.

O refeitório era um espaço de choque sensorial. Era amplo e gélido, suas luzes tão fortes e suas cores tão claras que me remeteram à sensação de estar dentro de uma sala de UTI. O cheiro forte de comida fez meu estômago roncar suavemente. O coro ensurdecedor de trezentos adolescentes falando ao mesmo tempo, misturado com o chacoalhar de talheres baratos, criava um caos sonoro. Por isso, a água que batia forte contra o telhado de louça era abafada, e sequer éramos capazes de ouvir o estrondo provocado pelo sistema central de aquecimento.

— Ali estão eles — Seu dedo estava apontando em direção a uma mesa localizada no canto sul.

Varri meus olhos pelo espaço procurando por Isabella. Notei-a se aproximando junto com o rapaz com o mesmo corte de cabelo de Alec, indo na direção que meu colega de turma havia apontado, segundos antes. Diferente do que eu pensava, minha irmã havia se enturmado, de uma forma ou outra e, por coincidência, dividimos o grupo de almoço.

Paramos a alguns centímetros da mesa e minha dupla se encarregou das apresentações. Bella parecia aliviada em me ver, encolhida em uma cadeira entre o rapaz que a acompanhava e uma loira que me indicaram como sendo Jéssica. De fato, era um grupo heterogêneo e coberto por uma camada de felicidade. Todos estavam muito curiosos sobre nossa vida e o motivo da vinda para Forks. Me acomodei junto com Alec e Jane, logo após escolher um bowl de salada com frango e uma maçã como refeição. Entre uma garfada e outra, fiquei encarregada de responder à enxurrada de perguntas dos meus colegas, dando à minha irmã um minuto de paz para sua refeição.

Eu fazia uma descrição do deserto de Phoenix quando a agitação do refeitório desapareceu; não diminuiu, ela simplesmente cessou. Levou um tempo de processamento para identificar a causa; precisei girar meu corpo numa angulação de quarenta e cinco graus para entender o que todos olhavam com fascínio. Até mesmo Isabella fazia parte daquele efeito hipnótico.

Eram cinco figuras ao todo; duas mulheres e três homens de uma beleza descomunal e destoante. Eles não se pareciam, nem uns com os outros, nem com os demais habitantes da cidade e, estranhamente, pareciam mais deslocados do que minha irmã e eu, mesmo com o excesso de atenção que recebiam. Possuíam uma pele assustadoramente branca, com um aspecto quase maciço. Alguns deles, como um garoto musculoso e uma loira com aproximadamente um metro e oitenta, pareciam ter sido esculpidos à mão, como estátuas gregas.

— Quem são eles? — Cochichou Isabella, rompendo o imaculado silêncio.

— São os Cullen — Foi Jane quem se pronunciou, o tom de voz tão baixo quanto o de Bella. — Da esquerda para a direita: Emmett, Rosalie, Jasper, Alice e Edward.

Nomes pouco usuais, populares em algum momento entre os anos dez e vinte, pensei.

— São os filhos adotivos do Dr. Cullen, responsável geral pelo hospital de Forks, e sua esposa — Complementou Jessica. — Tecnicamente, eles não vivem na cidade, já que sua casa está localizada na divisa. Mas, passaram a frequentar nossa escola quando o pai deles foi transferido de Seattle para cá há alguns anos. Estão sempre fechados, inacessíveis. Andam apenas uns com os outros e possuem algum tipo de relacionamento amoroso estranho entre eles. Jasper e Alice, Emmett e Rosalie. Apenas Edward parece estar sozinho.

— São lindos... — Bella parecia atordoada.

Por alguma razão, não fui capaz de compreender toda a fixação que meus colegas (e agora minha irmã) pareciam nutrir pela família. O oposto disso; suas presenças me causaram uma sensação gélida na base da espinha dorsal e um arrepio estranho na nuca. Não sabia dizer ao certo, mas algo na forma como se portavam me remetia um sinal de alerta interno, algo semelhante a um cervo enquanto um leão perigoso se aproxima.

Foi inevitável não fazer um paralelo entre a sensação reconfortante e familiar de estar na presença de Jacob na noite passada e o medo repentino que a família Cullen me causava, mesmo a tantos passos de distância. Todos os personagens ocupando o mesmo nível, sendo completos desconhecidos, mas, ainda assim, gerando sentimentos tão opostos.

Se Bella estava fixada na família, o rapaz de cabelo espetado e dourado, Edward, parecia especialmente hipnotizado pela minha irmã; não de um jeito bom, ou animado, mas como se ela estivesse lhe frustrando e gerando dor física. O semblante dele parecia o de alguém passando por uma crise de cálculo renal. Havia uma mistura de fascínio forçado e repulsa, presa no olhar dele.

O barulho do refeitório havia voltado, uma cacofonia abafada, mas a interação silenciosa entre Bella e o filho do Dr. Cullen era ensurdecedora. Debaixo da carranca do rapaz, era como se ele reivindicasse a posse de Isabella, enquanto ela, avessa à atenção, havia se tornado o centro da dele.

O alarme soou num estrondo que me fez pular da cadeira. E antes que qualquer aluno se levantasse, a família Cullen já estava do lado de fora, em uma velocidade estranha que parecia não ter sido percebida pelos meus colegas. Novamente, senti o alerta de perigo soar em meu íntimo, como se aquela simples ação indicasse algo de errado.

Fiquei aliviada ao constatar que Alec e Jane me acompanhariam em todos os horários seguintes; o falatório dos irmãos ajudava a aliviar a tensão gerada no horário de almoço. Me fiz uma nota mental para conversar com Bella sobre os episódios recentes e, claro, interrogar Charlie sobre o Dr. e a Sra. Cullen.

O restante do dia foi interessante, mas nada fora do esperado: nomes, apresentações, matéria já conhecida. Descobri que os gêmeos moravam próximo à Reserva Quileute e prometi fazer uma visita quando fosse encontrar Jacob, ao final daquela semana; outro fato interessante sobre eles é que nasceram na Itália, durante uma viagem de seus pais e, por isso, possuem dupla cidadania.

Encontrei Isabella no estacionamento junto à nossa picape; fui a última a chegar pois minha turma de Espanhol foi dispensada alguns minutos mais tarde e eu ainda precisei passar na secretária para deixar a papelada com Kate. Minha irmã parecia saída diretamente de uma montanha russa: tonta e enjoada. Sua coloração estava mais pálida que o habitual e os braços em torno da barriga, como alguém tentando proteger os órgãos vitais.

— Ei, Bells! — Cumprimentei enquanto a avaliava. — Você está bem?

— Sim — Mentiu. — Eu só quero ir embora logo.

Insistir não parecia o correto a se fazer.

Bella foi dirigindo o caminho de volta para casa, estava mais silenciosa que o normal e vi seus lábios tremendo algumas vezes, como alguém que prende o choro. Pensei em um milhão de possibilidades que poderiam estar aborrecendo ela, mas nenhum motivo parecia suficientemente forte.

O frio estava ainda pior do que nas primeiras horas da manhã, tornando o aquecedor do carro um item obrigatório. O ar quente fez eu me sentir aconchegada e, pela primeira vez naquele dia, me permiti relaxar de forma genuína e foquei minha atenção na floresta do lado de fora.


Notas finais
Olá a todos! É uma alegria enorme ver que, logo após a postagem do primeiro capítulo, vocês começaram a aparecer por aqui! Faz muitos anos desde que publiquei uma história e, inclusive, acabei perdendo o acesso à minha conta antiga, mas estou muito feliz em estar de volta e ser tão bem recebida. Esta fanfic é bastante especial para mim. Há muito tempo, tentei desenvolvê-la em conjunto com uma amiga, mas o projeto acabou não seguindo adiante. Por isso, poder dar vida a essa releitura de Crepúsculo agora é uma realização pessoal, e espero que vocês se apaixonem por essa nova dinâmica de Renesmee e Bella tanto quanto eu. Agradeço de coração a leitura e o apoio!