Meu Mundinho

1 Meu Mundinho


Notas iniciais
Boa leitura!

Breve esta vida que temos, não é? Este pensamento me é recente.Aos 14 anos os 70 pareciam tão longínquos...Mas agora que estou aqui,do que devo reclamar? Estou vivo e em paz.
Sabe,tenho alma velha.Dessas que a gente resgata aos poucos.Tenho um mundinho também.Quase todos os dias sonho com ele.É um tesouro que guardo ás 7 chaves.É meu escape,meu arrego.Pensarei na possibilidade de levá-los até lá.
Preciso acrescentar outro fato sobre os de alma velha: vivemos em crises constantes.Queremos parar o tempo,fazer o impossível.Ao nosso redor,assim como de qualquer um,tudo se desenvolve, tecnologias para cima e para baixo...Peço socorro aos céus.O mundo se esqueceu de como viver! (tento sufocar ao máximo as palavras estridentes para que vocês, leitores,não me considerem louco)Onde estão nossos valores? O mínimo de educação? Compreensão? Aceitação? O próximo não pode ser como bem quer, nós que ditamos o que o outro deve ser.Respeito? Palavra rara.Há medo para tudo.Fobia disso,daquilo...O pior mesmo,é o medo de sofrer.Geração de preguiçosos!Tudo está virado!
Bons tempos,quando me sentava na calçada ás 6 da manhã ,quando não tinha barulho,só os pássaros cantavam(hoje,só se ouve buzinas de desesperados),na velha "cadeira de fibra", como dizem os chiques.Uma xícara de café recém-passado,quentinho,exalando aquele aroma da manhã.Eu,como ser limitado,não tenho capacidade suficiente para agradecer de forma decente a Deus pela oportunidade de poder sentir o cheiro da manhã,o seu friozinho,porém, tendo a certeza de que em poucas horas o sol estará rachando em nossas cabeças.Esperava,também,Jagunço(o jornaleiro) passar,trazendo consigo os papéis carregados de notícias do mundo.Não mentirei aqui,senhores.A melhor parte do jornal,para mim,sempre foi o folhetim.Muitos ainda julgam esse meu interesse: " Mas e as notícias,os artigos? " logo respondia: "Leio-as,de má vontade.Só registram as notícias calamitosas.Quem deseja começar o dia com desgraças? Porém,estou certo de que não devemos fugir da realidade.Por isso,leio,mas prefiro os folhetins".
Ultimamente, as crônicas de Raquel têm abraçado meu coração.A forma como fala dos problemas sociais (me informo mais lendo suas crônicas do que com as próprias notícias) e de como a sociedade mudou com a tecnologia.Me identifico muito com suas reações acerca dos absurdos dos jovens.Quem porventura já obteve a oportunidade de ler alguma de suas crônicas,sabe do que façanhas estou falando.
Algum tempo depois,lendo e dando goladas de café,começava o movimento.Dona Jussara varria,passava o lixeiro,as crianças passavam correndo e gritando ultrapassando as mães indo para a escola...O bairro sempre foi tranquilo, exceto pela época ditatorial(que apesar de não ter mexido com os nervos da vizinhança, fez bagunça nos arredores).Sou um dos poucos por aqui que foram contra o teatro de horror.Fazem 5 anos,mas ainda restam muitas feridas para cicatrizar.

Lembram que prometi pensar se os levaria ao meu mundinho? Pois então,pensei.Decidi que vamos.E sem demora.Porém,antes de irmos,uma coisa: que esteja sempre na sua mente o fato de que é um mundinho,portanto,obviamente,pequeno.Então,não reclame se a viagem for breve.Agora informados,vamos com isso.

* * *

Estamos em uma serra.Verdinha e fresca.Minha casa fica logo ali,ao lado daquela árvore de pequena copa.A rua que pisamos é de pedra,o que acaba sendo um problema;já levei muitas topadas.O céu tem um azul-cinza tímido;as nuvens tomam boa parte do espaço.Vêem como está o sol? Luz humilde...Acho que é por educação ás visitas.Sentem a brisa?

Aqui as casinhas são bem parecidas com a minha,entrelaçadas por árvores e flores perfumadas,que se abrem e se fecham ao longo dia.Vejam,esta é minha humilde residência.Mais tarde passaremos aqui de novo para tomar um cafezinho,mas antes,preciso que vejam a cachoeira Libélula que temos aqui perto.Que beleza da natureza Deus nos deu!

A água,sempre fresquinha,só não parece transparente por causa das pedras e da pouca luz solar.Quando tomo banho aqui,acho que até os pecados saem junto! Cada mergulho e respirada é mais um alívio para o coração.A experiência de boiar e sentir essa almofada gelada cobrir todo o corpo,como um escudo,nos faz sentir seguros nos braços do Pai.De vez em quando,aparecem uns macaquinhos,não se incomodem.

Temos também o restaurante da vizinhança.É diferente dos que encontramos por aí,com mesas isoladase suas respectivas cadeiras.Há somente uma mesa,redonda,onde todos sentam.O bom,é que não tem escapatória: se você andou de maus olhares com alguém,será obrigado a sentar com ele.Nisso,acaba-se fazendo amizade.É uma beleza!

Lamento se não estou sendo o mais excepcional guia...Não sou bom em contar detalhes.Me preocupo mais com o que a situação me passa ao coração.Falar nisso,lembrei-me de uma vez que estava discutindo com minha bisneta sobre sentimentos.Imagine como foi difícil tentar explicá-la que os sentimentos vinham do cérebro e não do coração...

Estamos quase no fim.Me resta levá-los de volta para tomar um café(pensam que esqueci?).

* * *

Disse que a viagem seria curta(nem doeram as pernas).Porém,apesar de curta,espero que tenham sentido o que senti.Essas maravilhas me fazem bem como nada mais me faz.Saber que o Pai nos deu esse paraíso é gratificante.Pena que nem todos cuidam desse tesouro.O ser humano é realmente um ser tolo...Chegamos.Daqui a pouco,Asenate,minha velha,trará um cafezinho para nós.

Gostaram do passeio? Espero que sim.Nunca apresentei esse mundinho a ninguém(se sintam privilegiados).Foi uma boa experiência.Quem sabe,algum dia,vocês possam mostrar a alguém como é o seu mundinho.Mas,não para qualquer um.Compartilhe com quem mereça a chave para seus pensamentos.

Aí está! O café.Beba devagar.Bom,não é? Agora,no fim dessa viagem,quero deixar uma mensagem para que pensem.Pensem com carinho.

A partir de agora,sintam,respirem.Sei que o mundo é turbulento,mas tudo é possível Nele,para aquele que tem fé.Acalmem,pensem,aproveitem.Não percam tempo com estresses formigueiros ou aborrecimentos migalhados.Olhem para o céu,tenham esperança.A alegria virá pela manhã.Talvez não com Jagunço entregando o jornal ou dona Jussara varrendo a calçada,mas tenha certeza,ela virá.As coisas do tempo, acabam quando a noite chega,e toda noite acaba,pro dia que chega.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!