Meu Milagre
27 Capítulo XXVI
Notas iniciais
Desde que contará a verdade para todos, não saia da cama para nada – sua saúde havia piorado, não conseguia levantar para nada – agora dependia de seu pai e seu irmão para fazer qualquer coisa.
Hoje completa três dias desde que havia falado com Richard. Queria poder ver os olhos alegres do namorado, o sorriso bobo que o mesmo sempre dava quando estavam juntos e sente-se incompleta.
Robertha não tinha ido lhe ver e mau tinha noticias de sua mãe, mesmo a matriarca não sendo uma boa pessoa a jovem queria saber o estado emocional da mais velha. Beatriz queria poder conversar com a mais velha, antes da morte lhe levar.
Poucas pessoas sabiam de sua morte – não queria ser o assunto da cidade – e de todos aqueles que sabiam apenas alguns haviam escolhido ficar ao seu lado. Sua consciência agora leve, mas seu coração mais pesado.
O hospital – a pedido do Dr. Dawnson – havia dispensando Robertha para cuidar da filha, mas a matriarca recusa-se a cuidar da mais nova. Em casa fazia qualquer coisa menos ver a filha.
Deitada em sua cama, apenas olhando o teto, queria poder levantar-se e fazer alguma coisa, mas suas pernas não obedecem aos comandos do seu cérebro. Sua barriga doí de fome e sua cabeça lateja de dor, seu corpo pede por água, porém não consegue fazer nada e nem tinha a quem pedir ajuda.
Um suspiro sofrido e melancólico sai pelos lábios da jovem. Seu olhar cai sobre a fotografia em cima da cômoda – a única foto que tinha com seus pais – um sorriso fraco surge nos lábios da jovem.
— Eu sei que agi mal. – Começa uma conversa com Deus. Algo que para a jovem já havia virado uma rotina. – Mas gostaria de pedir ao Senhor algo muito importante. – Seu olhar volta para o teto do quarto. – Não quero que eles sofram, conforte-os e façam que eu apenas seja uma lembrança em suas mentes. Nunca quis fazer eles sofrem. – Finas lágrimas descem por sua face. – Obrigada Senhor, principalmente por me proporcionar momentos felizes. – Entrega-se as lembranças felizes que teve ao lado de Richard.
Doía muito não poder ver seu amigo e companheiro – que a essa altura a jovem já não sabe se ainda são namorados – agora seus dias haviam voltado a ficarem negros e doloridos. Nunca imaginou que passaria por um momento tão difícil como esse, sentia que esses dias serão os mais dolorosos que já tivera em toda sua vida.
— Com licença. – A voz tira a jovem de seus pensamentos. – Vim cuidar de você. – Raquel fecha a porta e caminha até a jovem. – Por que não me contou?
— Obrigada. Por medo. – Estende a mão para a mais velha que a pega de imediato. – Não devia estar no hospital?
— Hoje é minha folga. – Senta ao lado da jovem. – E vim cuidar de você. Como está se sentindo? Está com dor aonde?
— A dor física não é nada comparada a dor emocional que estou sentindo. – Diz em um fio de voz. – Eu magoei pessoas que amo por egoísmo.
— Durante anos vi você sendo magoada por erros alheios e ninguém nunca se colocou no seu lugar e nem se desculpou também. – Acaricia a face da jovem. – Eu sei que você está se sentindo sozinha, mas nunca se esqueça que você tem pessoas que te amam.
— Eu nunca vou esquecer isso. – Finas lágrimas descem pela face da jovem. – É que...bem...eu...eu...eu acabei magoando o Richard, ele não merecia isso. – Limpa a face com o dorso da mão. – Ele agora me odeia e não quero morrer sem conseguir o perdão dele.
— Acalme-se. – Aproxima-se da jovem e envolve em um abraço apertado. – Ele só precisa de um tempo. Se não está sendo fácil para você imagina para ele. – Beatriz aconchega-se ainda mais nos braços da mais velha. – Eu sei que o que vocês tem é bem mais que uma paixão e que irão resolver isso em breve.
— Eu só queria aproveitar esses últimos meses sem magoar ninguém. – Afasta-se da mais velha. – Achei que ele era só mais uma brincadeira dele, por isso não contei a verdade. Não queria magoar ele.
— Em prometo que vou conversar com ele depois. – Deposita um beijo na testa da jovem. – Agora temos que cuidar da sua saúde. – Levanta ficando em pé ao lado da jovem. – Está sentindo o quê?
— Minha cabeça está doendo muito, estou com fome e sede e minhas pernas não estão respondendo. – Encara a mais velha.
— Vou te ajudar a se banhar e depois vamos comer alguma coisa. – Tira a coberta de cima da jovem. – Não precisa ter vergonha, eu faço isso todos os dias. – Põe as duas pernas da jovem para fora da cama. – Sua mãe já veio falar com você depois do ocorrido?
— Não. – Com ajuda da mais velha Beatriz consegue ficar de pé. – Acha que ela me ama? – Com auxilio da mais velha ela consegue a andar.
— Eu não sei. – Diz com sinceridade. – Talvez sua mãe precise de tempo. – Abre a porta banheiro e ajuda à jovem adentrar o local. – Você é a cópia perfeita da sua mãe e acho que isso a deixa irritada. – Põe a jovem sentada na privada. – Talvez ela não queira que você acabe como ela. – Prende o cabelo em uma rabo de cavalo. – Sua mãe vai mudar de ideia e vai acabar dando tudo certo.
— Eu não sou a filha que ela desejou. – Sua voz sai falha. – Eu quase a matei e por minha culpa ela não pode ter mais filhos. – Esconde a face chorosa entre as mãos. – Eu mereço esse castigo. Minha mãe tem razão eu destruo tudo que toco. – Soluços preenchem o local.
— Não diga isso. – Agacha diante da jovem, retirando as mãos da mesma da face. – A Robertha não tem razão em nada no que ela lhe disse. – Ergue a face da menor fazendo seus olhos se encontrar com o seu. – Você é um anjo.
Beatriz tenta sorrir – é o que sempre faz para esconder a sua dor – mas falha, vendo o desespero da menor, Raquel a abraça, tentando tomar a dor da jovem para si. Queria muito poder ajudar à jovem que carrega um fardo desde antes de seu nascimento, mas parecia que nada que dissesse ou fizesse ajudaria a jovem a sentir-se melhor.
Porém o que elas não imaginam é que alguém havia escutado toda a conversa e que essa mesma pessoa não parara de chorar desde que entrará naquele quarto. As barreiras já não estão mais de pé, mas algo a impede de sentir quaisquer sentimento bom.
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Raquel zela o sono da menor – que dorme desde tarde – não podia ir embora e deixar a jovem sozinha com a mãe. Vendo que a jovem não acordaria por agora – por causa dos remédios – decide dar uma saída.
Põe o livro em cima da cadeira, que estava sentada sendo atrás, e caminha para fora do quarto da jovem, indo em direção a cozinha. Ao adentrar a cozinha vê a matriarca da família passando um café.
— O que quer? – Robertha vira-se para encarar Raquel.
— Conversar com você, não quero brigar com você. – Diz seriamente. – Não agir assim e nem se comportar como uma criança imatura.
— Não admito que me ofenda na minha própria casa. – Dá as costas para Raquel e continua passando o café. – Se já cuidou daquela coisa, pode ir.
— Aceito seu café. – Raquel puxa a cadeira e senta na mesma. – E não adianta me expulsar, que eu não vou embora.
— O que quer comigo? – Vira-se para Raquel com a garrafa de café na mão. – Eu já sei que ela vai morrer. Finalmente vou me livrar dela.
— Parece que não está feliz com isso. – Raquel pega uma xícara, que Robertha acabará de colocar em cima da mesa. – Eu sei que você passou por momentos difíceis e que foi doloroso para você descobrir que não poderia ter mais filhos.
— Você e todos não sabem de nada. – Robertha senta de frente para Raquel. – Não sabe o inferno que eu passei e passo ao lado dela.
— Ela parece você. – Bebe um pouco do café. – Não só fisicamente, mas em espírito também. – Olha para a outra por cima da xícara. – É por isso que a odeia, tem medo dela acabar igual a você. – Deposita a xícara em cima do pires. – Principalmente depois que ela começou a namorar.
— Não fale bobagens, Raquel. – Sua expressão permanece séria. – Aquela garota não parece comigo. – Diz entre os dentes. – Ela não devia ter nascido.
— Você colocou todas as suas expectativas naquela gravidez, não é? – Pergunta retoricamente. – Achou que daria ao Miguel um menino, mas nasceu a Beatriz e a odiou por isso. – Sustenta o olhar gélido da amiga. – Miguel sempre fez de tudo por você e quando você teve a chance de dar a ele um filho, acabou falhando. É isso que você pensa e não negue.
— Já terminou com as suas suposições tolas? – Pergunta raivosa. – Você não sabe de nada. Aquela coisa acabou comigo, tirou de mim...
— O amor do Miguel. – Raquel completa a frase da amiga. – Acha mesmo isso? Sabe o quanto isso é infantil? – Pergunta perplexa.
— Vai embora. – Levanta furiosa. – Você não sabe de nada.
— Saiba de uma coisa. – Bebe o que sobrou do café. – São amores diferentes, Miguel lhe ama como mulher e companheira. – Levanta e põe a cadeira no lugar. – Já Beatriz ele ama como filha, não confunda as coisas. – Caminha até a pia e deposita a xícara e o pires na mesma. – Sua filha está morrendo e se não mudar suas atitudes com ela vai acabar perdendo muito mais do que imagina. – Caminha para fora da cozinha, mas para na porta da mesma. – Obrigada pelo café, estava muito bom. – Sorri e retira-se em seguida.
Robertha permanece como olhar na cadeira, que Raquel estava segundos atrás, ainda tentava processar tudo que havia ouvido. A matriarca deixa as lágrimas banharem sua face – já não conseguia ser forte – não queria chorar, mas quanto mais tentava resistir, pior ficava.
Raquel adentra o quarto – seu sorriso demonstra o quanto está feliz em saber que havia deixado a amiga abalada – perdida em pensamentos não percebe os olhos verdes em si. Beatriz havia acordado a pouco e apenas esperava a mais velha.
— Tudo bem, Raquel? – A mais velha olha assustada para a jovem. – Desculpe-me, não quis assustá-la. – Tenta se redimir.
— Não é sua culpa, eu que estou meio distraída. – Sorri sem graça. – Como está se sentindo agora? – Senta na ponta da cama.
— Estou melhor, obrigada. – Arruma-se na cama. – Mas agora você tem que ir para casa. Precisa descansar um pouco.
— Estou bem. – Segura na mão da jovem apertando a mesma levemente. – Eu só vou embora depois que seu pai ou seu irmão chegar.
— Obrigada por tudo. – A jovem abraça a mais velha.
Raquel acolhe a jovem em seus braços. Sabe o quanto a menor é carente de amor materno e que qualquer demonstração de afeto deixa a jovem feliz – seu coração dói em ver que mesmo no final de sua vida a jovem ainda tem o desprezo da mãe – vê o quanto a vida é injusta.
Raquel é como qualquer pessoa da pequena cidade onde mora – inclusive em relação à fé – é uma serva do Senhor, mas em momento como esse acaba se questionando sobre os verdadeiros planos de Deus em relação à Beatriz. Uma jovem tão bondosa e caridosa como ela não merece um castigo tão cruel assim.
Todos nós questionamos Deus quando algo de ruim acontece com uma pessoa boa e acabamos nos perguntando se Deus realmente é piedoso com seus filhos. Muitas vezes acabamos tendo nossa fé abalada e até a perdemos quando as coisas saem de nosso controle.
Já com Beatriz é completamente diferente – claro que ela questionou Deus quando descobriu de sua morte, afinal ela é humano – mas agora já havia se conformado e em sua reza pedia para Deus cuidar e confortar os corações das pessoas que ama. Sua fé está mais forte que nunca.
Miguel adentra o quarto e ao ver a filha com um sorriso nos lábios seu coração aquece – não sabia explicar, mas a jovem conseguia lhe deixar calmo – aproxima da filha, fazendo a mesma lhe olhar.
— Oi papai. – O sorriso fica maior ainda. – Como o Sr. está?
— Oi minha filha. – Diz com orgulho. – Estou bem. – Seu olhar vai para Raquel. – Como ela está Raquel?
— Bem. – Diz ao levantar-se. – Agora que você já chegou, eu já vou indo. – Deposita um beijo no topo da cabeça da jovem. – Cuide muito bem dela. – Sorri para o mais velho. – Até amanhã. – Dá um aceno com a cabeça e sai logo em seguida.
Miguel senta ao lado da filha sem desviar dos olhos da filha. Queria poder voltar no tempo e mudar todos os erros que cometeu e da forma como agiu com a filha, mas sabe que isso é impossível e tentaria compensar o tempo perdido.
— Tudo bem, papai? – Pergunta ao notar os olhos marejados do pai.
— Sim, meu anjo. – Acaricia a bochecha rosada da filha. – Só estou lhe admirando.
— O Sr. já comeu? Como foi no trabalho hoje? – Pergunta mudando de assunto.
— Ainda não comi. Igual como sempre. – Encosta na cabeceira da cama, ao lado da filha. – Está com fome? – Puxa a filha para deitar em seu colo.
— Não, papai. – Sorri ao sentir as caricias do pai em sua cabeça. – Eu te amo.
Miguel sorri emocionado – sabe que a filha é muito carinhosa, mas ainda é algo novo para ele – e beija o topo da cabeça da filha. Beatriz havia demonstrado nesses últimos três dias o quanto o amo – algo que seus outros filhos raramente fazia – e não se achava merecedor desse amor.
— Eu também te amo. – Limpa as lágrimas que descem pela sua face. – Obrigado.
— Pelo o que, papai? – Vira a cabeça e encara o mais velho.
— Por existir, por me amar e por me perdoar. – Deposita um beijo casto na testa da filha. – Você é meu orgulho.
Beatriz não contém as lágrimas e as deixam descer por sua face, Miguel a abraça de imediato. Não queria ver ela chorando nunca mais, queria que ela tivesse só momentos felizes e que sempre estivesse com um sorriso nos lábios.
O tempo não iria voltar, não tinha como mudar o passado, mas teriam tempo para construir momentos felizes e únicos. Beatriz queria que todos tivessem apenas lembranças boas de si, para que depois de sua morte eles pudessem rever esses momentos. Porém Miguel quero muito mais que isso, queria tomar a doença da filha para si – para o mais velho esse castigo tinha que ser seu – e queria poder ver ela realizar todos os seus sonhos.
Nunca é tarde para se arrepender, mas quando a morte está próxima o arrependimento acaba sendo tardio. Não tendo como mudar o passado e nem planejar o futuro, só restava eles aproveitarem o presente.
Miguel deita ao lado da filha, fazendo a mesma deitar a cabeça em seu peito. Para eles não precisava de mais nada, só estarem juntos já preenchia toda a falta que um fez ao outro durante quinze anos. O amor entre pai e filha nunca havia sido quebrado, apenas tinha enfraquecido e agora está mais forte que antes e ambos sabem que irá durar.
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