Meu Milagre
22 Capítulo XXI
Notas iniciais
—Você é a responsável por ela. – Diz o médico enquanto analisa a paciente. – Você é a enfermeira mais qualificada.
—A Raquel adoraria ficar no meu lugar. – Respira fundo tentando manter a calma. – Eu não vou cuidar aqui.
—Robertha. – Ele levanta a cabeça e olha para a mulher à sua frente. – Eu sei muito bem que Beatriz é sua filha. – Aproxima-se da enfermeira. – Mas eu não me importo com seus problemas pessoais, somente com a saúde dela.
—Mas eu não me importo. – Sustenta o olhar do médico. – Por mim ela já estaria morta.
—Podemos resolver isso agora. – Vai até a jovem deitada na cama. – É só desligar os aparelhos e pronto. – Ele tira o tubo de oxigênio da boca da jovem. – É só dizer que ela teve uma parada respiratória.
Robertha olha assustada e surpresa para o médico. Não acreditando no que ele está fazendo – o olhar frívolo assusta Robertha – vê Beatriz se debatendo na cama, tentando buscar ar para respirar e o médico permanece com a mesma postura, apenas observando a enfermeira a sua frente.
—Ela está morrendo. – Desesperada é a palavra que define Robertha nesse momento. – Pare com isso. Está matando-a.
—Se importa? Achei que era o que queria, afinal não a ama. – Dizia numa calma sobre-humana. – Ninguém vai saber que a matamos.
—NÃO. – Sem pensar Robertha arranca o tubo da mão do médico e tenta pôr de novo na Beatriz. – Não quero perder meu emprego e nem ser presa.
—A Robertha que estou vendo aqui não é a enfermeira e sim a mãe. – Calmamente ele pega o tubo da mão de Robertha e põe novamente na boca de Beatriz. – Você a ama, não negue. Se realmente a odiasse como diz teria deixado ela morrer.
—Não sou uma assassina. – Afasta-se do médico. – Não vou estragar minha vida por causa de uma coisa como ela.
—Sabe o que ocorre quando o paciente não acorda? – Pergunta retoricamente. – Caso ela não acorde os pais terá que assinar a autorização para desligar os aparelhos. – Analisa minuciosamente a mulher à sua frente. – Mas você já a matou em vida mesmo.
—Não se meta na minha vida, Dr. Silvestre. – Diz rudemente. – Não tem esse direito.
—Então seja uma profissional. – Anda até a porta e abre a mesma, mas antes de sair olha para Robertha. – Cuide da paciente e eu não me meterei em sua vida. – Sai do quarto sem esperar uma afronta.
—Até assim você causa problemas. – Esbraveja irritada. – Devia ter deixado ele te matar. Maldita.
Uma coisa é certa, Robertha tem conflitos consigo mesma e isso não ajuda ela ver a verdade diante de seus olhos.
Agora como responsável pelos cuidados da filha tem que cuidar da mesma – algo que nunca fez – uma parte de si deseja matá-la, mas a outra deseja vê-la acordada. Robertha realmente não sabe como lidar com esses conflitos internos.
Olha mais uma vez para a menor — a pele alva, agora mais para uma cor doente, os cabelos negros espalhados pelo travesseiro e o tubo em sua boca — seu coração falha uma batida ao perceber o quão frágil a jovem se encontra.
—Eu não vou cair em seus truques. – Engole o bolo preso em sua garganta. – Eu odeio você. – Respira fundo e segue para porta, mas olha uma última vez para a jovem. – Morra de uma vez. – Sai do quarto deixando a porta entreaberta.
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Natália adentra o quarto e para na porta — olha para Beatriz com pesar — não gostava de ver a amiga assim, sabia que a jovem não merecia isso.
Vai até a amiga e deposita um beijo na testa da mesma. Senta na ponta da cama tomando cuidado para não machucar a amiga.
—Boa tarde. – Olha para a amiga e sorri. – Hoje faz sete dias que você está internada. – Seu sorriso some. – Mas eu sei que você vai acordar. – Desvia o olhar para a janela. – O Chard precisa de você, ele tem estado tão triste. Você é a luz que faltava na vida dele. – Balança os pés, que estão suspensos no ar. – Ele realmente gosta de você, acho que é bem mais que gostar.
Natália observa seus pés indo para frente e para trás como se fosse a coisa mais interessante do mundo, mas ela apenas queria se distrair e não pensar na amiga.
De todas as pessoas que estão envolvidos a Natália é a mais otimista e esperançosa, sempre tentando animar todos, mas no fundo ela quer apenas chorar e mostrar o quanto está frágil e triste.
—Não quero que você morra. – As lágrimas caem pela face de Natália. – Você é a única amiga que eu tenho de verdade e não quero te perder. – Limpa a face com o dorso da mão. – Eu sei que sua vida não é fácil, mas agora você tem a mim e a minha família.
Natália debruça sobre a barriga de Beatriz e deixa as lágrimas saírem – de todos fora a única que não tinha chorado – e agora sozinha, sem nenhum familiar por perto podia chorar em paz. Não queria que ninguém soubesse de sua fraqueza, queria continuar sendo forte para o irmão.
A porta é aberta e por ela passa Denise, que para assim que ouve os soluços da filha, sabia o quão forte a mesma é e vê-la assim é sinal de que a dor é maior do que Natália demonstra. Devagar aproxima-se da filha e com cuidado põe a mão nas costas da mesma, fazendo uma caricia.
—Acalme-se, minha filha. – Acaricia os fios castanhos da filha. – Ela irá ficar bem, tenha fé. – Segura a filha pelos ombros e a afasta de Beatriz. – Eu sei que gosta dela, mas ela não gostaria de ver você assim. – Desce a filha da cama e a envolve em um abraço. – Os médicos já fizeram tudo que podiam, agora é a vez dela de reagir.
—Isso é injusto. – Esconde a face no peito dá mais velha. – Deus não pode fazer isso, há tantas pessoas más que merecem isso. – Diz entre soluços. – Como Deus pode fazer? Ela é um anjo.
—Não fique assim. – Deposita um beijo no topo da cabeça da filha. – Lembre-se que só partimos quando cumprimos nossa missão e se for a hora dela, ninguém poderá fazer. – Aperta a jovem contra seu corpo. – E se for a hora dela, só podemos rezar para que tenha uma morte rápida.
—O Chard finalmente encontrou a luz que faltava. – Desfaz o abraço e olha para a mais velha. – Como ele vai ficar agora? Ele está abacado, a Sra. viu.
—Calma. – Segura o rosto da menor com as duas mãos. – Nós não podemos deixar isso nos abater, temos que ser forte por ela. – Limpas as lágrimas dá face da menor com os polegares. – Deus salvará ela.
Natália desvencilha das mãos da mais velha e a abraça novamente, deixando as lágrimas rolarem por sua face. Doía muito mais que aparentava, mesmo que fosse pouco tempo a amizade que tinha para com Beatriz, não sabia explicar o quanto a jovem é importante não só para si, mas para sua família também.
Denise olha para Beatriz tentando achar alguma solução para sua melhora, mas não conseguia. Sabia que o dinheiro que tinha não lhe servia de nada nesse momento, só tinha que se manter forte para poder cuidar de seus filhos.
—Melhor irmos. – Desfaz o abraço. – Não podemos ficar muito tempo aqui. – Faz uma leve caricia na face da menor. – Se despeça dela.
—Está bem. – Limpas as lágrimas de sua face. – Desculpe-me por isso. – Disse ao se virar para Beatriz. – Não ou uma menina chorona, só que me sinto impotente. – Sorri triste para a amiga. – Eu tenho que ir, tenho muito deveres do colégio. – Revira os olhos. – Amanhã ainda é sexta-feira. – Dá um leve tapa na testa. – Lembrei de uma coisa. – Se inclina, aproximando do ouvido da amiga. – Chard mandou dizer que conseguiu aquele panda do parque de diversão. – Se afasta da mesma e sorri. – Às vezes ele é tapado.
—Nós temos que ir, Beatriz. – Segura nos ombros da filha. – Amanhã o Richard vem te ver. Não desista.
—Não mesmo. – Beija a bochecha da amiga. – Nós te amamos.
Denise conduz Natália até porta e a abre, deixando a filha passar primeiro – olha uma última vez para Beatriz e sorri triste – sai em seguida fechando a porta devagar. Ambas só podiam rezar agora.
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Robertha caminha em passos rápidos pelos corredores do hospital – havia sido escalada para a madrugada – indignada é como se sente. Há anos que não trabalha no turno de madrugada e abi quem é culpada por isso.
Desde que Beatriz deu entrada no hospital, não tem mais sossego, sempre ouvia os outros funcionários do hospital comentando sobre o estado de Beatriz ou como é injusto a jovem estar assim, mas na cabeça de Robertha, Beatriz merecia coisa muito pior.
Ainda sentia raiva por Miguel ter ido visitar a jovem – isso causou uma briga entre o casal – só queria que Beatriz morresse. Ainda tentava encontrar um motivo para ter impedido a morte da jovem, queria a morte da jovem desde que estivera entre a vida e a morte na gravidez da mesma. É despertada de seus pensamentos pelo celular vibrando em seu bolso, retira o mesmo do bolso e atende sem olhar de quem se trata.
—Alô, quem fala? – Atende rudemente. – O que você quer, Miguel? – Vira à direita no final do corredor. – Não quero ouvir suas desculpas. – Respira fundo para controlar a raiva. – Você já fez sua escolha. – Não estava com raiva do esposo e sim de Beatriz. Em sua mente Beatriz sempre era a culpada por tudo. – Quando eu chegar nós conversamos. – Para em frente ao leito onde Beatriz se encontra. – Também amo você. – Deliga o celular e o guarda no bolso.
Robertha não queria ter que ver a filha novamente, já estava mais que exausta de ter a mesma sensação no peito ao ver a filha inconsciente, porém tinha que fazer seu trabalho e com esse pensamento adentra o quarto. A jovem parece estar em um sono profundo, mas ela sabia que não era nada disso.
—Aonde eu errei com você? – Fecha a porta e vai até a cama. – Sua irmã é tão diferente de você, ela é mais parecida comigo. – Passa os dedos na cama, parando próximo à mão da filha. – Você parece a Clara e ter uma lembrança de alguém que foi importante para o Miguel, me irrita. – Olha para a face serena da filha. – Não quero que ele lembre de quanto sou diferente daquela mulher. – Esbraveja irritada. – Ela é perfeita, assim como você. – Passa as mãos nos cabelos em sinal de nervosismo. – Você devia ser mais como eu e não como ela. – O ódio exala dos poros dá mais velha. – Por que Beatriz? Por que nasceu como a sonsa da Clara? Por que se parece tanto com ela? É um castigo isso?
Robertha engole o choro preso em sua garganta – não iria chorar agora – olha para o monitor cardíaco e depois para a filha e de repente uma ideia surge em sua mente.
—Já sei. – Um sorriso maldoso surge em seus lábios. – O Dr. Silvestre tinha razão, se eu te matar vão achar que foi uma parada respiratória ou cardíaca. – Põe a mão no tubo de oxigênio da menor. – A morte vai vir mais cedo para você. – Aproxima-se do ouvido da menor. – Mande lembranças ao Diabo. – Afasta-se e encara a face serena. – Adeus. – Ela puxa o tubo, mas bem na hora seu pulso é segurado pela mão de Beatriz que abre os olhos e a olha assustada e perdida.
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