Meu Milagre
19 Capítulo XVIII
Notas iniciais
Sentada em sua cama a jovem se encontrava concentrada em seu diário — seu único confidente, o que sabe todos os seus segredos — relata tudo que estava acontecendo desde a descoberta de sua morte.
Marcava cada dia a menos que tinha e pelas suas contas não faltava muito para morrer – 55 dias para ser mais exato – queria que seus pais soubessem como era sua vida.
Já havia escrito uma carta para ser entregue aos seus pais quando morresse e uma para cada um que havia lhe acolhido. Não queria fazer ninguém sofrer, e já havia tomado uma decisão — partiria daqui algumas semanas — morreria longe das pessoas que ama.
Concentrada em seus devaneios não perceberá o momento em que Arthur adentrou o quarto — o mais velho é silencioso como um gato — observa a irmã que olha para o vazio. Cada dia que se seguia via e percebia que a caçula não é só bonita por fora, mas por dentro também — sentia orgulho — e queria que os pais também sentissem.
—O que está fazendo? – Diz ao se aproximar da irmã. – Que fotos são essas? – Percebe algumas fotos espalhadas na cama.
—Estava escrevendo no meu diário. – Fecha o diário e olha para o irmão. – As fotos que mamãe jogou fora.
—Suas fotos? – Pergunta surpreso e curioso ao mesmo tempo.
—São, as únicas que a mamãe não jogou fora. – Levanta da cama e começa a recolher as fotos. – O que quer de mim?
—Quero lhe cha... – Para de falar ao ver uma foto onde a irmã está no colo do pai. – Não sabia que tinha uma foto do dia que saiu do hospital.
—Foi o Dr. Dawson que me deu. – Pega a foto da mão do irmão. – Não me disse ainda o motivo de estar aqui. – Anda até a cômoda e abre uma das gavetas, pondo as fotos e o diário, em seguida trancando a gaveta.
—Que tal irmos almoçar fora e depois podemos ir ao cinema. — Senta na ponta da cama. — Hoje é domingo e você não gosta de ficar em casa.
—Vou ter que recusar. – Diz receosa. – Estou esperando o Richard, combinamos de ir no parque. – Senta ao lado do irmão.
—Posso ir com vocês? – Segura na mão da irmã. – Quero ficar mais tempo com você.
—Então vamos. – Um lindo sorriso se abre nos lábios da jovem. – Liga para a Sabrina.
—Às vezes acho que você ainda é uma criança. – Beija a testa da irmã. – Vou ligar para ela agora.
—Fica à vontade. – Levanta da cama. – Vou ver se o Richard já chegou. – Dito isso ela sai do quarto, o deixando à vontade.
Beatriz caminha em passos rápidos pela casa – tentando evitar seus pais e sua irmã – e queria evitar discussões.
Ao adentrar a cozinha avista seus pais fazendo o almoço – mas nenhum dos dois percebe a jovem, pois a mesma está escondida – apesar de tudo admirava o amor dos dois.
A cozinha exala uma áurea alegre, as risadas da matriarca ecoavam por todo o ambiente – parecem um casal recém-casados – e sempre fora assim entre eles, exalavam amor, paixão, alegria e cumplicidade.
—Quer ajuda? – Miguel diz ao se acomodar atrás de sua esposa. – Já terminei a minha parte.
—Eu consigo cortar as verduras sozinha. – Diz risonha. – Sei muito bem suas reais intenções.
—Você é minha esposa. – Ele apoia o queixo no ombro dela. – O Arthur daqui a pouco vai sair e a Bianca nem está em casa.
—Mas ainda tem aquela coisa. – Seu tom muda drasticamente agora é de puro desprezo. – Eu a odeio, ela destruiu tudo. Ela quase me mata.
—Robertha? – A segura pela cintura e a vira, fazendo seus olhos se encontrarem. – A Beatriz é nossa filha, fruto do nosso amor. Arthur tem razão, a gente não pode culpa-la por algo que ela não tem culpa.
—Está do lado dela? – Tenta se soltar das mãos do esposo, mas o mesmo aperta com força. – Me solta.
—Robertha, a Beatriz é nossa e precisa de nós. – Afrouxa o aperto da cintura da esposa. – Não sente nada por ela?
—Sinto ódio, desprezo, asco. – Empurra o esposo com força, fazendo o mesmo largar sua cintura. – Ela foi o pior erro que cometi na minha vida. Quero que ela morra.
Beatriz corre, não aguenta ficar ouvindo as palavras de desprezo de sua mãe. Cada palavra fazia seu coração se quebrar mais ainda, as palavras da matriarca eram as que mais ficam gravadas em sua cabeça – e as que mais torturam a jovem – o amor que sente por seus pais é inacreditável.
Sai de casa e senta na calçada apoiando sua cabeça em seus joelhos e abraçando suas pernas – podia ser covardia ou sinal de fraqueza chorar, mas a jovem só estava limpando a alma – sua consciência pesava por esconder sua morte de seus pais, mas quando ouvia palavras de desprezo sabia que estava fazendo a coisa certa.
—Beatriz? – A voz conhecida soa um pouco distante.
Ao ouvir a voz do namorado, a jovem trata-se de levantar e limpar as lágrimas de sua face, não queria que ele se preocupasse ou arrumasse confusão. Sente alguém lhe abraçando e reconhece de imediato aquele calor e cheiro.
—Tudo bem? – Richard deposita um beijo demorado na bochecha da namorada.
—Sim. – Respira aliviada por sua voz não ter saído falha. – O Arthur e a Sabrina vão conosco, tudo bem para você?
—Não. – A segura pela cintura e a vira para olhar em seus olhos. – Por que estava chorando? O que houve? – Sua expressão e torna séria.
—Não quero falar disso agora. – Abraça o namorado, escondendo sua face no peito do jovem. – Obrigada por ser tão bom comigo e por cuidar de mim.
—Eu sempre cuidarei de você. – Aperta ela contra seu corpo. – Você agora faz parte da minha vida.
Arthur assistia aquela cena de longe, queria ir cuidar da irmã, mas agora sabia que a jovem já tinha alguém para lhe dar proteção e cuidado e pela irmã tentaria aceitar Richard. O dois não se importavam se estavam na rua e se todos estavam vendo e comentando, ambos só queriam aquele abraço.
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O carro para em uma das vagas do estacionamento improvisado. Richard e Beatriz são os primeiros a tirarem o cinto e descer do carro, ele segura na mão da namorada. Em seguida Sabrina e Arthur descem do carro e param diante do outro casal.
—Vocês podem irem se divertir. – Arthur segura na mão da namorada. – Mas estejam aqui perto do carro as 19:00 em ponto, estamos de acordo?
—Sim, Arthur. – Beatriz solta a mão de Richard e se aproxima do irmão. – Obrigada. – Fica nas pontas dos pés e beija a bochecha do mais velho. – Se divirtam.
—Qualquer coisa eu te ligo. – Richard pega na mão da namorada novamente. – Até mais tarde. – Sai correndo arrastando a jovem, sem dar tempo de Arthur protestar.
O parque havia acabado de chegar na cidade vizinha da onde eles moravam e Richard sabia que a namorada nunca havia ido em um e queria lhe agradar e por isso propôs um passeio no parque.
O parque se encontra cheio – famílias, amigos e casais – uma diversão para todas as idades, com diversos brinquedos. Montanha-russa, roda-gigante, carrinho de bate-bate, trem fantasma, carrossel, entre outros e também algumas barracas com jogos como pescaria, tira ao alvo entre outros e também havia barraquinhas de comidas.
Beatriz olha com admiração, seus olhos brilham ao passar por cada lugar do parque. Parecia uma criança que acabará de ganhar um presente novo, mas ela ainda é uma criança não tinha tido infância e tudo lhe parecia tão mágico que tinha medo de ser mais um de seus sonhos.
Param em frente a uma barraquinha de tiro ao alvo, com diversões brindes – o objetivo é acertar o alvo em movimento – Richard paga ao homem que lhe fornece uma arma.
—Não vou machucar ninguém. – Dá um selinho na namorada. – Vou ganhar aquele panda para você. – Se posiciona assim que o homem liga os alvos. – Vai ver como sou bom nisso.
Beatriz deposita um beijo na bochecha de Richard, fazendo o mesmo corar pela atitude repentina da namorada. Ele volta sua concentração para os alvos e dispara o primeiro tiro, errando ferio – Beatriz ri da careta de desgosto do namorado – ele atira mais uma vez e volta a errar, arrancando outra risada da namorada. Mais um tiro e ele erra novamente, seu sangue já fervia de raiva de si mesmo e ele atira de novo, mas dessa vez acerta. Agora animado com o acerto e empolgado dá o último tiro, mas acaba errando.
—Merda. – Esbraveja irritado. – Vou tentar de novo.
—Não Richard. – Segura na mão dele. – Não precisa, você foi bem. – Lhe dá um selinho fazendo ambo corarem pela atitude. – Eu só preciso de você.
—Mas antes de irmos eu volto aqui para te dar aquele panda. – Põe a arma em cima do balcão. – Agora vamos comer. – Caminham para procurarem um lugar para comer. – Devíamos ter comido antes de vir por parque.
—É bonito aqui. – Olha admirada para cada canto do parque. – É diferente do que eu imaginava.
—Iremos em todos os brinquedos e barracas. – Sorri para ela. – Quero sempre te ver com esse sorriso e com esse brilho nos olhos. – Ele avista uma cabine de fotos. – Vem comigo. – Sai arrastando ela.
—Para onde vamos? – Pergunta confusa. – Não íamos comer?
—Depois comemos. – Pisca para a namorada. – Quero guardar esse momento para sempre. – Para ao chegar na cabine. – Temos muito tempo ainda. – Adentra a cabine junto com ela e sentam um banco. – Duvido você fazer uma careta bem engraçada.
Beatriz olha sério para o namorado, mas logo volta a olhar para a frente – ele aperta as bochechas dela e mostra a língua, assim sai a primeira foto – os dois dão risadas.
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Iriam embora em breve, mas queriam dar uma volta na roda-gigante. Haviam ido em todos os brinquedos, mas deixaram a roda-gigante por último, queriam ver o pôr-do-sol do alto. Adentra uma das cabines e se acomodam um do lado do outro.
O dia havia sido divertido, comerem todos os doces que podiam, ganharam alguns brinquedos – menos o panda – Richard havia arrumado confusão com um outro rapaz, só por ele ter dado um oi para a Beatriz, mas conseguiram escapar dos seguranças do parque.
Beatriz se sentia feliz, parecia que não havia problemas em sua vida – mas por hoje ela esqueceu de todos – quando Richard estava ao seu lado o mundo parecia ganhar um novo rumo, parecia não existir dor. Porém sua consciência vinha lhe cobrar a verdade – ela queria dizer, mas não tinha coragem – não queria perder ele, mas também não queria mentir.
Sabia que em breve sua partida chegaria, mas queria arrumar uma solução para terminar com Richard – mas não queria ficar longe dele – cada dia que se passava seus sentimentos ficavam mais intensos e doía só de imaginar ele longe.
—O que foi? – Richard pergunta ao perceber o quão calada a namorada está desde que adentraram o brinquedo. – Está passado mau?
—Não, estou bem. – Encosta a cabeça no ombro dele. – Obrigada por hoje.
—Eu que agradeço. – Acaricia a palma da mão dela com o polegar. – Você me faz bem. Nunca me senti assim por nenhuma outra garota.
—Você é muito importante para mim. – Ela desencosta a cabeça do ombro dele e o olha. – Eu nunca vou me esquecer de você e de tudo que estamos vivendo.
—Se um dia a gente terminar, você vai continuar sendo minha amiga? – Segura o rosto dela com as duas mãos.
—Serei eternamente sua amiga. – Finas lágrimas descem por sua face. – Me perdoe. Não quero que sofra.
—Você nunca faria isso comigo. – Ele limpa as lágrimas da face dela com os polegares. – Você é o ser humano mais puro que conheço.
—Não diga isso. – Ela coloca ambas as mãos no rosto de Richard. – Promete se cuidar e não fazer nenhuma loucura?
—Prometo. – Ele beija a ponta do nariz da namorada. – E prometo nunca te abandonar.
Richard se aproxima ainda mais de Beatriz, selando seus lábios em um beijo apaixonado e puro – livre de qualquer sentimento sujo – um beijo calmo e suave – uma promessa selada.
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