Meu Milagre
24 Capítulo XXIII
Notas iniciais
—Bom dia. – O médico diz o adentrar o quarto. – Como está a minha paciente preferida? – Sorri ao olhar para menor.
—Bom dia Dr. Dawson. – A jovem retribui o sorriso. – Estou bem, graças a Deus.
—Apesar de tudo você ainda continua com sua fé inabalável. – Senta-se na cadeira ao lado da cama da jovem. – Hoje você voltará para casa, como se sente em relação a isso?
—Um pouco preocupada. – Desvia o olhar para a janela. – Mas confesso que estou com saudades de casa, apesar de tudo.
—Eu ainda não acredito que seus pais te tratem assim. – A jovem volta o olhar para o médico. – Achei que eles iram tentar se redimir com você e que teriam pelo menos algumas semanas tranquilas. – Segura na mão da jovem. – Mas pelo menos você tem pessoas que te amam e que estaram ao seu lado.
—Dr. Dawson, eu quero lhe dizer uma coisa. – Puxa a mão afastando-se do médico. – Tenho medo e isso me fez agir de forma irracional.
—O medo é algo comum. – Olha com ternura para a jovem. – Mas enfrente-o, assim se sentira melhor.
—Alguns não podem ser vencidos. – Diz com pesar. – Não tenho medo de morrer, tenho medo do que ficará quando eu for.
—Diz isso por causa dos seus pais ou do Richard? – Percebe o olhar triste da jovem. – O Richard irá ficar bem, ele ainda é jovem e seus pais sofreram afinal são seus pais.
—O Richard logo encontrará outra e meus pais não vão dar importância. – Suspira frustrada. – Meu medo é de ser esquecida. De que daqui a dez anos não ser mais lembrada por aqueles que amo.
—Nunca será, tenha certeza disso. – Diz com convicção. – Você tem um brilho único e nunca será apagado depois de sua morte.
—Eu só queria não ter envolvido outras pessoas nisso. – Seus olhos enchem de lágrimas. – Por minha causa pessoas inocentes iram sofrer.
—A vida é assim mesmo. – Sorri miúdo para a jovem. – Leucemia não é uma doença fácil de combater. – Sua expressão fica séria. – Nenhuma doença é fácil. Tem batalhas que entramos como perdedores.
—Só tenho que esperar a minha hora chegar. – Oferece um sorriso triste para o médico a sua frente. – Obrigada por tudo.
—Eu não fiz nada. – Diz ao levantar-se. – Eu ainda vou achar uma cura para sua doença. – Diz esperançoso.
—Para a morte não tem cura. – Seu olhar se torna triste e sem brilho. – Só peço a Deus que conforte os corações das pessoas que amo.
—Deus nos abençoou com um anjo. – Acaricia de leve os cabelos da jovem. – Mas infelizmente você terá que voltar para o lado do Senhor. – Deposita um beijo no topo da cabeça da jovem. – Descanse um pouco. – Retira-se do quarto logo em seguida.
Beatriz fixa seus olhos no teto do quarto, deixando seus pensamentos vagarem nas últimas semanas que lhe trouxeram até o atual momento – pergunta-se internamente o que ocorrerá para merecer um castigo tão doloroso – mas não conseguia achar uma resposta.
Seus pensamentos lhe trazem a voz de Robertha – a única que consegue arrancar o pouco de alegria que a jovem carrega dentro de si – as palavras ditas alguns dias atrás faz a jovem abraçar a escuridão que sempre lutou para vencer.
Sua mente lhe acusará a todo o momento – chamando-a de mentirosa e egoísta – sabia que estava sendo egoísta e mentirosa, mas não sabia como revelar a verdade. O medo de perder o pouco que ganhara fazia agir de forma irracional.
—Com licença. – A voz grossa ecoa pelo quarto fazendo Beatriz despertar de seus pensamentos. – Nós podemos conversar, minha filha?
—Sua bênção padre. – Senta direito ao ver o mais velho.
—Deus lhe abençoe. – Faz o sinal da cruz diante da jovem. – Não tivemos tempo para conversar depois que você acordou e gostaria de fazer isso o quanto antes. – O mais velho tira o chapéu, pondo o mesmo em cima da cama. – Já contou a verdade para todos?
—Ainda não, padre. – Abaixa a cabeça tentando fugir do olhar interrogatório do mais velho. –Não sei por onde começar e nem como dizer. Tenho medo, padre.
—Você não pode continuar com essa mentira. – Aproxima-se da jovem. – Quanto mais você demorar pior será. Você está brincando com os sentimentos de muitas pessoas. – Olha sério para a jovem a sua frente. – Você mais que ninguém sabe que isso dói.
—Eu sei disso. – Levanta a cabeça,encarando o mais velho. – Mas não quero perde-los, não quero perder o pouco que tenho. – Finas lágrimas descem pela face da jovem. – Não quero morrer sozinha e sendo odiada por todos.
—Você não vai. – Põe a mão no ombro da jovem, tentando lhe passar conforto. – Quem te ama de verdade não vai te deixar. Pense bem. – Aperta levemente o ombro da jovem. – Você não é como eles.
—Todos nós somos iguais perante a Deus. – Retira a mão do mais velho de seu ombro e a envolve em suas mãos pequenas. – Eu não sou e nunca fui diferente dos outros.
—Você é diferente, sua luz é diferente. – Desvilha das mãos da jovem. – Você é um ser único, com um coração repleto de bondade. – A olha com ternura. – Por isso sei que vai tomar a decisão certa.
—Eu ainda tenho tempo para mudar essa decisão. – Diz mais para si do que para o mais velho. – Obrigada por sempre me ouvir e me aconselhar.
—Alguns anos atrás uma jovem teve uma morte igual a sua. – O mais velho nota o olhar surpreso e confuso da jovem. – E três meses depois morreu sozinha no hospital e só não foi enterrada como uma desconhecida por causa do antigo padre. – Analisa cada gesto da jovem, percebendo a inquietação da mesma. – E descobri que você tem muitas coisas em comum com a jovem.
—Não estou entendendo, padre. – Beatriz olha perdida para o mais velho.
—Apenas estou comentando o que conversei com alguns moradores antigos. – Sorri para a jovem. – Sabe como nós velhos somos. – Pega o chapéu o pondo na cabeça em seguida. – Eu tenho que preparar algumas coisas para a missa de hoje a noite. – Dá um sorriso singelo para a menor. – Nos vemos depois.
—A bença, padre. – Diz envergonhada.
—Que Deus lhe abençoe. – Faz o sinal da cruz diante da jovem. – Até mais Beatriz. – Retira-se em seguida deixando a jovem sozinha.
Beatriz respira aliviada, a jovem ainda se encontra confusa com as palavras ditas pelo mais velho – não havia entendido o porquê daquele assunto repentino e o que isso havia consigo – sua mente agora estava mais confusa que antes.
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O silêncio do quarto faz à jovem repensar suas decisões, refletir sobre suas escolhas e em como isso afeta a todas as pessoas em sua volta – principalmente seus pais – por mais que tentasse esquece-los ou deixa-los de lado, não conseguia por eles serem as pessoas que mais ocupa o seu coração.
Durante seus 15 anos de vida sempre procurou agir como a bíblia diz e a igreja prega – tentando alcançar a perfeição, mesmo isso sendo impossível para um ser humano – mas ela sabe que nunca alcançaria a perfeição, porém acreditava que se fosse alguém boa receberia em troca o amor.
—Beatriz? – A voz grossa e frivola ecoa por todo o quarto fazendo a jovem despertar de seus pensamentos. – Já está pronta?
Beatriz olha atônita para o homem a sua frente – um homem alto de cabelos negros como a noite, de olhos negros como que o carvão e a pele mais branca que o papel, suas vestes escondidas pelo sobretudo negro e com uma bengala na mão esquerda – a jovem respira com dificuldade.
—Disse que veria lhe buscar. – Seu olhar opaco faz a menor se encolher na cama. – Já está pronta?
O homem anda em passos lentos até a jovem – a mesma o olha com receio e medo – nunca em toda a sua vida havia visto esse homem á sua frente e nem sabia o porquê dele estar em seu quarto .
—Achou mesmo que eu iria te deixar aqui? – Para ao lado da cama da jovem. – Não posso deixa-la aqui.
Beatriz sente uma mão lhe tocando – um toque quente – fazendo a mesma piscar freneticamente os olhos e subir o olhar para o dono do toque.
—Pequena? – Richard a olha com um misto de preocupação e confusão. – Beatriz, olha para mim. – A segura pelos braços dando uma leve chacoalha na mesma . – O que houve, pequena?
Beatriz olha para Richard ainda perdida e confusa, tentando processar o que acabará de ver e ouvir.
—Você está bem? – Leva a mão até o queixo da namorada fazendo a mesma olhar em seus olhos . – Fala comigo, por favor.
—Ri...Richar...chard? – Pergunta confusa e assustada. – Ca...cadê? Aon...onde e...ele es...est...tá?
—Ele quem, pequena? – Acaricia a face da namorada. – Não estou entendendo nada.
Beatriz abraça Richard, o rapaz retribui – mesmo estando confuso – abraça a namorada com força, passando-lhe toda segurança e conforto que a jovem precisa.
—Eu estou aqui, pequena. – Faz carícias suaves nas costas da namorada. – Não tem mais ninguém aqui, além de nós dois.
—Es...esto...tou com me...med...do. – Diz entre soluços. – Per...per...dão.
—Não diz mais nada. – Beija o pescoço dela. – Você não fez nada. – Desfaz o abraço e a olha com carinho. – Você deve estar vendo coisas, por causa dos medicamentos fortes.
—Pode...demos ir em...embo...bora? – Limpa as poucas lágrimas de sua face.
—Vou perguntar ao Dr. Dawson. – Diz ao levantar-se, ficando ao lado da namorada. – Eu já volto.
—NÃO. – Grita desesperada. – Não me deixa aqui sozinha. – Segura a mão do namorado e o puxa fazendo o rapaz sentar-se novamente na cama. – Fica comigo, por favor.
—Está bem. – Puxa a namorada para mais perto de si. – Descanse um pouco, você fez muitos exames hoje.
—Só não me deixa aqui sozinha. – Deita a cabeça no colo do rapaz. – Obrigada pot cuidar de mim. – Diz ao fechar os olhos.
—Eu que agradeço por tudo. – Faz leves carícias na cabeça da namorada. – VocŅ tem me ensinad tantas coisas. Não sei o que seria de mim sem você. – Deposita um beijo na cabeça da namorada. – Ainda está me ouvindo?
—Sim. – Responde meia sonolenta.
—Eu sei que lhe fiz muito mal e que você merece alguém melhor. – Suas carícias descem para o braço da namorada fazendo a mesma arrepiar-se. – Mas eu quero ser esse alguém, quero melhorar para lhe dar não somente o agora, mas o amanhã também. – Tira os cabelos da face da jovem. – Eu quero cuidar de você e estar no seu futuro.
—Eu quero lhe diz... – Abre a boca em um bocejo. – Preciso contar uma coisa. – Levanta do colo do rapaz e o fita. – Você tem sido a melhor pessoa e tenho que ser sincera com você. – Segura na mão do rapaz. – Só não sei por onde começar.
—Depois você me conta. – Levanta da cama ficando em pé ao lado da namorada. – Agora você precisa descansar. – Deita a namorada na cama. – Eu vou ficar aqui até você acordar. – Cobre a namorada e deposita um beijo na testa da mesma. – A gente conversa depois.
—Obrigada. – Fecha os olhos devagar. – Obrigada por tudo.
Richard senta na cadeira ao lado da cama e põe-se a observar a namorada – segura na mão da mesma – sorri ao contemplar a face serena dela. Ficaria ao lado da jovem até ela não o querer mais.
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O sol já se punha, dando lugar a lua e as estrelas – uma noite quente – como de costume, já que na maior parte do ano a pequena cidade tem o clima quente.
Da janela do quarto Beatriz observa as estrelas – a jovem gostava de observa-las desde pequena – deixando a brisa adentrar o local.
Desde mais cedo Beatriz tem sentido uma sensação estranha – que fazia arrepiar até sua espinha – um medo havia instalado em seu coração, lhe deixando ainda mais preocupada. A jovem sabe que tem algo de errado, mas não sabia o que e nem conseguia imaginar.
Richard adentra o quarto, mas para na porta ao ver a namorada em pé na frente da janela – o vento brinca com os cabelos da jovem, fazendo os mesmos balaçarem de uma forma suave – sorri ao notar a melhora da namorada.
—Já está pronta? – Beatriz dá um pulo ao ouvir a voz do namorado. – Desculpa, não quis te assutar. – Desculpa-se ao notar o que fizera.
—Você é muito silencioso. – Vira-se para o namorado, oferecendo um sorriso para o mesmo. – Richard, podemos conversar?
—Claro, pequena. – Aproxima-se da namorada e segura a mão da mesma e a conduz até a cama. – O que houve? – Diz ao sentar-se.
—Eu nunca quis te magoar. – Põe a mão na face do namorado e fazendo uma leve carícia na bochecha do mesmo. – Meus exames saiu e eu estou com leucemia...
—Eu sei. – Interrompe a namorada. – E não vou deixar você. A medicina evoluiu muito e juntos vamos vencer essa doença. – Segura a face da namorada com ambas as mãos. – Eu não vou deixar você, prometo.
—Eu vou morrer. – Fecha os olhos deixando as lágrimas rolarem por sua face. – Vou morrer e não podemos fazer nada.
—Não diga isso. – Grossas lágrimas descem pela face do rapaz. – Você não vai morrer. – A puxa envolvendo-a em um abraço caloroso. – Promete não me deixar?
—Pro...prome...meto. – Diz entre soluços e lágrimas. – Ri...richar...chard?
—Eu vou sempre estar ao seu lado. – Desfaz o abraço e segura nas mãos da namorada. – Prometo ficar ao seu lado até o seu último suspiro.
Os olhares tristes se encontram – o medo é nítido em ambos – o sorriso trsite surge nos lábios de Richard, queria passar confiança para a namorada, mesmo não tendo muita. Queria poder ser mais forte para poder passar mais segurança para a namorada, porém sabe que é apenas um adolescente em amadurecimento.
Cada dia que se passa o sentimentos que tem um para com o outro fica mais intenso e forte, mas até quando esse sentimento vai durar?
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