Meu Milagre
20 Capítulo XIX
Notas iniciais
A chuva caia sem cessar – uma chuva repentina que pegou todos de surpresa, claro que chovia na cidade, porém a surpresa fora por ser uma tempestade – não é uma simples chuva e sim uma tempestade. O céu coberto por nuvens negras, deixando o dia cinzento e gelado e a cada minuto que se seguia a tempestade fica pior – trovoadas altas e assustadoras e raio que ilumina a cidade toda – o dia de hoje parecia mais um filme de apocalipse do que uma simples tempestade.
A cidade está em caos, todos os colégios estavam fechados, estabelecimentos não tinham sido abertos, algumas pessoas não tinham ido ao trabalho – Miguel e Robertha, por exemplo – os cidadãos nunca haviam visto a cidade dessa forma, casas enchendo de água, hospital cercado pela água e ventos fortes.
Ao meio de todo o caos havia alguém que está alheia a todo aquele ocorrido – Beatriz- a jovem havia acordado com dores no corpo e a cada minuto sua febre aumentava e para piorar a situação a jovem vomitava sangue, porém tinha que se cuidar sozinha, sabia que seus pais não iriam lhe ajudar.
Seu corpo não responde aos comandos de seu cérebro, largada no chão do banheiro tentando recuperar as forças. Havia passado a maior parte da madrugada gemendo de dor e vomitando, não sabia o que estava acontecendo com seu corpo, mas suspeitava que tinha haver com os sintomas de sua morte.
Ouvia seu celular tocar sem parar, já havia perdido as contas de quantas vezes o mesmo tinha tocado. Queria atender, mas suas pernas doíam e não respondiam aos comandos, queria gritar por ajuda, porém sabia que não seria ouvida – o medo a domina – não queria morrer agora.
—Beatriz? – Um grito abafado a desperta de seus devaneios. – Está tudo bem? O Richard acabou de me ligar, disse que você não está atendendo ele.
Beatriz abre a boca tentando falar, mas nada saia – isso a deixou mais assustada – queria pedir ajuda, gritar por socorro, porém sua voz se fora. Olhou ao redor tentando achar uma maneira de pedir ajuda, mas seu corpo fraco não lhe ajudava nem a pensar direito.
—Beatriz? – A voz soa preocupada. – Senhor, que minha irmã esteja bem. – Suplica angustiado. – Onde você está, menina? – Dizia para si mesmo.
Beatriz ouvia o irmão, mas não conseguia se mover – a voz angustiada de seu irmão lhe corta o coração – reúne todas as forças que resta e se levanta, apoia na parede e em passos arrastados caminha para a porta, se concentra para não perder o equilíbrio ou cair pela falta de força.
—Ar...Ar...thur. – O chama assim que abre a porta. – Ar...thur. – A voz falha e cansada chama a atenção do mais velho, que se assusta ao ver a irmã encostada no batente da porta com os cabelos emaranhados, roupas sujas de sangue e a pele pálida. – Me a...aju...da. – Diz antes de cair abruptamente no chão.
—Beatriz, o que houve? – Corre até a irmã e a pega no colo. – O que eu faço? – Pergunta perdido andando em círculos, com a irmã nos braços. – Já sei. – Corre para fora do quarto.
Sabia que a ideia era arriscada, porém não tinha para onde correr ou para quem pedir ajuda. Ao chegar na sala dá de cara com os pais deitados no sofá assistindo algo na televisão e a irmã no celular. Respira fundo reunindo forças para prosseguir.
—Mãe? – A voz desesperada faz Robertha dar um pulo do sofá e olha-lo preocupada. – Me ajuda, por favor. – Os olhos marejados denuncia o quão angustiado ele se encontra.
Os três paralisam ao ver Beatriz inconsciente nos braços de Arthur – a cena é de cortar qualquer coração – a jovem não parece nada com a moça que viam sempre.
—Mãe, por favor. – As grossas lágrimas caem sem cessar, caindo na face da irmã. – Ela está queimando em febre.
—Não me importa. – Recobra os sentidos e volta para o lugar que estava segundos atrás. – Que morra, eu não me importo.
—Pai, por favor. – Sua voz soa embargada. – Não seja cruel.
Miguel olha para a cena com um pesar – seu coração falha miseravelmente ao ver não só a filha sofrendo, mas o filho também – ele dá um passo, mas para ao sentir a mão de sua esposa o segurando e lhe impedindo de prosseguir. Arthur sente a fúria se misturar com a angustia, a dor e o medo.
—Não façam isso. – Tenta não perder a cabeça. – Mãe, por favor. – Súplica mais uma vez e vendo que não nenhum lhe ajudara, anda rumo para porta.
—Aonde vai? – Robertha pergunta ao ver o filho abrir a porta. – Está chovendo muito, você pode ficar doente.
—Não importa. – Olha para matriarca com raiva. – Não ligo de morrer se for para a minha irmã sobrevir. – Sai sem esperar a resposta da matriarca.
A chuva forte impede que Arthur veja qualquer coisa à sua frente, descarta a possibilidade de usar o carro para leva-la ao hospital – sua mente lhe tortura para obter uma resposta – sua irmã inconsciente podia morrer se não recebesse os cuidados necessários e em pensar ele corre para portão a fora, procuraria ajuda para sua irmã e não se importava se estava sendo molhado ou se pegasse uma gripe.
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Não sabia a quanto tempo estava caminhando pelas ruas da cidade, mas já sentia suas pernas doerem, porém não iria desistir agora, sua irmã gemendo de dor em seus braços lhe dava forças para prosseguir.
A chuva forte lhe impedia de ver onde estava, mas sabia que o hospital ainda estava longe e não sabia para quem pedir ajuda. Já estava achando que tinha sido uma loucura sair com a irmã sem um rumo, mas não podia voltar e nem queria.
—Eu vou morrer. – Beatriz dizia em meio aos delírios. – Vou morrer.
—Não vai. – A abraça tentando aplacar o frio da irmã. – Iremos achar ajuda. – Ao levantar a cabeça avista a igreja. – Aguenta mais um pouco. – Corre em direção a igreja.
Sabia que o padre não negaria ajuda e saberia o que fazer para ajuda-los. O coração dele se apertava cada vez que a ouvia gemer, suas lágrimas já haviam se misturado com a chuva e só Deus sabia o quanto ele estava tentando não fraquejar.
—PADRE ANGELO? – Grita ao chegar na porta da igreja. – PADRE, ME AJUDA. – Esmurra a porta com dificuldade por estar com Beatriz em seus braços. – POR FAVOR. PADRE, ME AJUDA.
A porta é aberta revelando um padre confuso, ao vê-los debaixo da chuva dá passagem para Arthur que entra rapidamente. Em silêncio o padre o conduz até os fundos da igreja – sabia que era algo sério, pois Arthur não estaria ali debaixo daquele temporal se não fosse – ao abrir a porta Arthur adentra o quarto, revelando um ambiente com apenas uma cama, uma cruz na parede e uma mesinha com uma cadeira e um armário ao lado da porta.
—Coloque-a na cama. – Arthur atende a ordem do mais velho e deita a irmã na cama. – O que faz com ela aqui?
—Ela está queimando em febre e desde que a encontrei não acorda. – Começa a andar em círculos. – Minha mãe não quis ajudar e tive que sair atrás de alguém.
—Acalme-se. – Pega uma toalha do armário e entrega para Arthur que a pega de imediato. – Ligue para o Dr. Dawson, ele irá lhe ajudar.
—Meu celular está em casa. – Seca os cabelos. – Não quero que ela morra.
—Nem eu. – O padre olha com pesar para a jovem. – Com licença. – Se retira do quarto, deixando um Arthur confuso.
Arthur puxa a cadeira para de junto da cama e se senta na mesma. Com cuidado começa a secar a irmã que treme de frio e geme de dor – ele vê algumas manchas roxas nos braços, pernas e pescoços – a cada minuto que se passava sua irmã demonstrava sinais de piora.
—Sabe quando ele volta? – O padre fala ao telefone ao adentrar o quarto. – E a enfermeira Raquel? – Para ao lado de Arthur e o olha sério. – Posso falar com ela? É urgente. – Deposita a mão no ombro do rapaz. – Espero sim, obrigado.
—O que está fazendo? – Volta a olhar a irmã.
—Raquel irá nos ajudar e quando a chuva cessar levaremos a Beatriz para o hospital. – Ouve uma voz do outro lado do telefone. – Deus lhe abençoe. – Sorri fraco. – A Beatriz está inconsciente e ardendo em febre. O que faço? – O padre sentia um aperto no peito e não sabia o motivo. – Passar toalhas frias no rosto, no pescoço e nas axilas. – Repetia junto com a enfermeira. – Ela está delirando. – Anda em círculos, mostrando claramente seu nervosismo. – Está bem, assim que a chuva cessar levaremos ela para o hospital. – Abre a porta, mas para e olha para Arthur. – Deus lhe abençoe. Obrigado. – Desliga o telefone. – Vou pegar as coisas necessárias. – Sai do quarto sem esperar uma resposta.
—Calma, vai ficar tudo bem. – Pega a mão da irmã. – Deus não vai lhe abandonar. – Levanta o olhar, encarando o crucifixo na parede. – Senhor, não a deixe morrer. Ela não merece isso.
—Arthur. – O chama em um sussurro. – Eu amo você.
—Também amo você. – Levanta e deposita um beijo na testa da irmã. – Aguenta, iremos descobrir o que está acontecendo com você.
—Estou morrendo. – Tenta abrir os olhos, mas suas pálpebras pesam. – Achei que demoraria mais.
—Vai demorar. – Acaricia a face da irmã. – Não diga essas coisas.
—Eu não quero morrer. – Sua cabeça tomba para o lado.
Arthur corre para fora do quarto, passando pelo padre que carregava uma bacia, mas ele só queria correr para pedir ajuda – não e importava com a chuva – corre para fora da igreja e a chuva volta a molha-lo, porém ele não e importa. Corre entre tropeços, não sabia se estava fazendo certo, mas iria fazer.
Arthur tropeça em algo e cai com tudo no chão – esbraveja irritado – sente algo quente escorrer pelo seu rosto e passa a mão vendo a mesma suja de sangue e de repente tudo fica escuro.
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