Meu Milagre É Você
2 Capítulo l - Verso e avesso
Notas iniciais
Quinn
Já era comum para mim entrar pelos corredores do McKinley e receber olhares de todos, porém dessa vez me senti incomodada, era obvio que todos estavam sussurrando sobre mim e, não era preciso nenhum poder sobrenatural para saber que eles estavam me criticando e me julgando, novamente. Rosnei internamente, bando de babacas idiotas, em pensar que ainda teria um longo ano convivendo com todos eles.
Fui até meu armário e peguei meus livros, olhei em meu relógio e faltava menos de 5 minutos para iniciar a aula. Quer saber, foda-se, eu iria matar o primeiro tempo e talvez até mesmo todos os outros, deixei os livros novamente no armário e fechei com pressão gerando um barulho alto que serviu para calar a todos em volta por um momento. Andei em direção ao pátio do colégio, a parte de trás do McKinley era realmente grande e com sorte eu encontraria um bom lugar para ficar sozinha, fumando e amaldiçoando minha vida.
Foi logo depois que acendi meu cigarro e o coloquei na boca que senti uma mão me tocar nos ombros, merda, eu vou estar muito encrencada, correr era uma boa opção, mas não era válida, me virei para encarar o meu problema, porém assim que vi quem era meus ombros caíram e coloquei novamente o cigarro na boca.
“O que faz aqui?” Perguntei com o cigarro na boca, traguei e soltei a fumaça bem no rosto dela que tossiu me fazendo ri “O que faz aqui Rachel?” Perguntei novamente.
“O que você faz aqui Quinn? Quer dizer, o que você fez com você? Eu não credito que você se transformou nisso” Joguei meu cigarro no chão e o apaguei com o pé, encarei Rachel de frente, olhando em seus olhos e com uma postura feroz, nós não éramos amigas e nem nada parecido, ela não tinha direito de me falar o que pensava e nem me cobrar algo.
“O que você acha que está fazendo RuPaul? Quem te disse que tem algum direito de se meter na minha vida?” Era perguntas atrás de perguntas, não existia respostas.
“Aonde você passou o verão? Eu te procurei por toda a cidade, você sumiu e volta assim, o que aconteceu?” Mais perguntas, porém dessa vez eu não sabia se tinha entendido direito, ela tinha me procurado?
“Você me procurou? Para que? Quando? Onde?” Parecia que os questionários não tinham fim, vi que Rachel petrificou um pouco com minhas últimas indagações, provavelmente ela acabou deixando escapar a informação de sua caçada a minha pessoa, afinal é o que acontece quando se fala demais “Então, me responda, por que me procurou?” A pressionei mais e ela abriu a boca para falar mais fechou novamente, eu tive vontade de rir, ela parecia hilária.
“Eu fiquei preocupada com você” Ela falou e um silêncio se fez presente, ela me olhava, porém eu encarava o chão e comecei a brincar de chutar meu cigarro recém jogado.
“Eu não preciso da sua preocupação” Olhei para ela a encarando e levantei os braços “Eu estou bem, está vendo? Já sou adulta suficiente para ter uma criança, então já sou adulta suficiente para me cuidar sozinha”
“Você não me parece bem” Eu ri de forma sarcástica.
“Você também não me parece muito bem” Devolvi seu argumento.
“Por que essas roupas e esse cabelo?” Ela perguntou e eu resolvi continua minha brincadeira.
“Por que essas roupas e esse cabelo?” Refiz a pergunta apontando para suas roupas idiotas e seu cabelo.
“Para Quinn” Ela gritou e eu me afastei um pouco assustada “Que merda” Ela disse e eu abri mais meus olhos, nunca tinha visto Rachel falar palavrão, ela era sempre madura e perfeita, jamais usava termos baixos “Você não é assim Quinn, essas roupas, esse cabelo, não é você” Ela disse me olhando e eu não sabia o que fazer, então ela continuou “Eu pensava que o pior era quando você vestia o uniforme das cheerios e agia como se fosse uma vadia sem sentimentos, eu sei como você é Quinn, eu sei quem é você. Você não é uma menina bonita e sem coração e tão pouco é uma adolescente rebelde” Eu a olhava incrédula, como ela podia ser tão petulante assim, não éramos amigas, ela não pode ficar me julgando assim.
“E você sabe quem eu sou?” Minha voz era regada de ironia.
“Sim” Ela sorriu e deu um passo para se aproximar de mim que por algum motivo surreal, não recuei “Você é Lucy, a menina que me protegia dos meninos maior quando estávamos na pré-escola, a menina que morava na rua ao lado da minha e sempre brincava comigo no parquinho.” Engoli um seco, eu sempre pensei que ela não se lembrava disso eu me mudei quando tínhamos seis anos, eu lembrava de Rachel sempre e, a reconheci quando entrei no McKinley, porém ela nunca demostrou saber quem eu era “Não importa se você agora prefere Quinn, o que importa é que você nunca foi uma vadia ou uma rebelde, você sempre foi doce e até tímida, suas roupas são só uma capa” Ela deu mais um passo se aproximando de mim e eu dessa vez dei dois para trás para manter distância “Por que você tem medo de ser como é de verdade? Eu vejo nos seus olhos que você continua a mesma menina de quando éramos criança”
“Você” Eu disse mais não consegui completar a frase “Você” Eu repeti mais segura dessa vez “Você não tem o direito de exigir nada, você não tem o direito de achar que sabe quem eu sou. Eu mudei, não sou mais aquela criança idiota”
“Você não mudou, você só se fantasiou e aquela criança, nunca foi idiota, ela sempre foi minha ídola, eu admirava como você era forte e me protegia, como não tinha medo de encarar a vida e não se escondia, mas agora, essa sim é idiota” Ela apontou para minhas roupas “Eu já não te admiro mais Quinn, você está se escondendo da vida, você está igual a uma idiota agora” Suas palavras estavam começando a me atingir, droga, eu tinha que sair dali.
“Não fuja de mim Quinn, deixa eu te ajudar” De alguma forma ela percebeu que eu estava planejando uma fuga, merda, não iria lhe dar o gostinho de sentir que conseguiu me abalar.
“Não estou fugindo de você e nem de ninguém”
“Então por que sumiu todo o verão? Eu te procurei em todos os lugares” Eu senti minha guarda se baixando e a olhei, Rachel era tão menor que eu, tão menor do que a maioria das pessoas, eu sempre senti a necessidade de a proteger quando éramos criança e agora, a olhando, parecia que eu precisava a proteger novamente, ou ao menos, não a machucar mais.
“Por que você me procurou?” Perguntei serena, eu realmente queria saber.
“Eu sabia que você deveria estar sozinha e precisava de alguém” Ela me sorriu “Eu sei que você me odeia, porém eu só precisava saber que você estava bem” Eu não a odiava, mas ela não precisava saber disso “Eu nem sei explicar o alivio que me deu quando te vi entrando no colégio. Eu fico feliz de saber que você está bem, apesar de tudo”
Ficamos em silêncio.
“Acho que temos que ir para a aula agora” Rachel quebrou o silêncio.
“Não estou afim de ir a aula hoje” Peguei um cigarro no bolso e acendi, Rachel me olhou enfezada, mas nada disse, dessa vez tomei todo cuidado de liberar a fumaça longe dela.
“Ual, já passou os dois primeiros tempo” Rachel conferiu a hora no celular, aparentemente conversamos por duas horas “Para aonde você vai?” Ela me perguntou e a olhei sem entender “Você disse que não ia assistir aula, então aonde vai?”
“Não sei” Dei de ombros “Andar por ai, ir para a casa mais cedo, não sei”
“Posso ir com você?” Ela perguntou timidamente.
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