Meu Melhor Amigo
10 Se é assim que você quer chamar...
Notas iniciais
Acordo com uma dor de cabeça tremenda. As consequências de pensar demais finalmente chegaram mais uma vez. O relógio me diz que ainda é cedo demais para levantar e decido ficar na cama. Pego meu celular e fico jogando algo para o tempo passar. Alguém bate na porta.
–Luke, tem uma pessoa atrás de você. –fala Lilly.
–Diz que eu estou indo. –falo levantando da cama e coloco uma bermuda jeans e uma camiseta qualquer.
Deveria ser Dale. Ele disse que viria aqui para falar as novidades da “investigação”. Desço a escada com pressa e me deparo com uma garota baixa de cabelo moreno, comprido e liso. Seus olhos são azuis claros e me parecem familiares. Seu nariz arrebitado, sua pele branca e a maquiagem mais forte que o normal dão a ela um ar de patricinha. Quando chego na frente dela, lembro que ela é Celeste, irmã de Dale.
–Podemos conversar em particular?-ela pergunta com uma voz mais fina do que eu imaginava, ela parecia uma criança do primário, mas pelo que lembro, ela tem treze anos.
–Claro. –respondo. E saímos para conversar do lado de fora. Fecho a porta e espero ela começar.
–Eu sei o que está acontecendo entre você e o meu irmão. –ela fala e a minha ideia de ela ser uma criança inocente se vai completamente. Seus cílios puxados para cima e a sombra rosa faz seus olhos me fitarem de um modo sinistro. –E não vou aceitar ter um irmão gay. Isso seria horrível para a minha reputação. Pena que a Lilly não sabe que todas falam dela nas costas por sua causa. Enfim, fica longe do Dale.
–Ou o quê?-pergunto. O que aquele projeto de pessoa poderia fazer?
–Eu conto para os meus pais. E não. Eles não sabem sobre Dale. Eu sei a bastante tempo, mas enquanto podia esconder de todos não me importava. Agora, se ele se envolver com o irmão da Lilly não vou mais poder esconder. –ela fala e a cada palavra venenosa dela eu sentia mais vontade de levantá-la com os meus braços e ver o quão longe ela ia se eu a jogasse para a rua.
–Eu não tenho nada com o Dale. –digo e ela sorri.
–Nem pode ter. Nunca mais vá a minha casa e nunca mais beije meu irmão. Se chegar perto dele de novo, sofrerá. Meus pais não são os tipos de pessoas que vão aceitar isso fácil. E se isso ajuda, você também não precisará mais me ver. –ela diz e olha diretamente para mim, em sinal de desafio.
–Claro. –falo em sinal de raiva. Não é possível que alguém do tamanho dela fosse me atrapalhar. –Pelo menos não tenho mais que olhar para a sua cara de palhaça.
–Adeus, Luke. –ela fala e vira para ir embora. Sua saia é mais curta do que o necessário e uma bolsa dourada fica ao lado da cintura.
Entro em casa e fico por alguns segundos encostado na porta pensando no que fazer. Dale não poderia me dar as informações e o fato de não poder vê-lo não era algo que eu queria, já estava acostumado com a presença dele. A ideia de tê-lo longe soava aterrorizante.
–O que a Celeste queria?-pergunta Lilly.
–Alguma coisa sobre o irmão dela. Nada importante. –digo. –Mas não mencione nada da próxima vez que falar com ela.
–Tudo bem. –Lilly fala.
Tenho que ir para algum lugar, que não seja meu quarto, para pensar. Acho que eu já sabia aonde.
***
A base estava vazia e abandonada, como sempre. Vou até o quarto onde eu e Eduardo geralmente ficamos e sento no colchão. Me apoio na parede e fico ali por bastante tempo. Não sei o que fazer. Eu poderia ficar muito bem com o Eduardo agora que o Dale estava distante por um tempo, mas não era o que eu queria. Porque ficar com Eduardo porque o Dale se afastou será um sinal de que estou abandonado Dale, e não é o que estou fazendo.
Minha decisão se tornava mais difícil a cada segundo. Minha paixão por Eduardo se tornava cada mais convicta, sim, eu tinha certeza que o meu sentimento por ele era desse nível, eu estava apaixonado por ele e nunca senti isso por alguém antes. Porém o sentimento que eu sentia pelo Dale era do mesmo tamanho, forte e ofuscante, como uma chama; eu não estava apaixonado, mas me sentia aconchegado perto dele, como se a presença dele já bastasse para eu ficar bem e feliz.
Como sempre, meus pensamentos me impedem de sentir as presenças a minha volta e, não sei por quanto tempo, Eduardo está encostado na lateral da porta me observando. Ele sorri, quando eu olho para ele e se aproxima de mim para sentar na minha frente.
–Oi. –ele diz simplesmente e fica calado.
–OI. –falo de volta, porque não tenho o que falar e não quero perdurar com o silêncio.
–Eu queria falar com você. –ele comenta e as suas mãos seguram as minhas, juntas.
–Pode falar. –digo.
–Eu falei com o Dale, ontem, depois de ter falado com você. –ele diz e minhas mãos se apertam um pouco mais. –Ele disse que gosta muito de você e que se você o quisesse, não se importaria em aceitar. A mesma coisa que eu penso. Ou seja, a decisão é toda sua.
–Vocês não podem simplesmente colocar tudo isso em cima de mim. Eu não quero decidir. –digo, minhas mãos já doem de tanto apertar meus dedos contra a palma.
–Mas você também não pode ficar com nós dois. Ou ficar com ninguém... Você não quer ninguém? É isso?-ele pergunta meio nervoso.
–Não. –digo. –Eu gosto muito dos dois e sinto que somente meu coração pode fazer essa decisão. Mas não quero tomá-la agora.
–Eu te entendo. –Eduardo tenta soltara minha mão, mas eu o seguro.
–Não. Eu ainda não falei o que devia falar. –eu digo e me aproximo mais do rosto dele, nossos rostos estão tão próximos um do outro que o ar poderia não ser suficiente. Não sei o porquê, mas parecia que seria injusto se eu não fizesse isso com ele, como se ele estivesse perdendo a competição. –Eu estou apaixonado por você.
No momento em que eu sinto os lábios quentes dele nos meus, toda a tensão da decisão que precisava tomar se fora. Ele se entrega completamente ao beijo e passa a sua mão pelo meu pescoço. Não resisto quando a língua dele pede passagem e tenho o segundo e melhor beijo da minha vida. Eu me afasto para respirar, mas o oxigênio não parece suficiente quando eu o inspiro para dentro dos meus pulmões.
Eduardo sorria sem vergonha de esconder sua felicidade e seus olhos verdes pareciam pulsar de tão alegres. Eu não consigo me conter e empurro Eduardo para ficar em cima dele. De repente, já não havia mais o que decidir. Eu percebo que a pessoa que eu queria estava ali, na minha frente. Eu gostava do Dale, mas não era tão forte e verdadeiro quanto o sentimento que eu sentia pelo Eduardo.
Eu selo mais um beijo nele, enquanto ele passa suas mãos no meu cabelo, meus dedos passam delicadamente pela pele da bochecha dele. Ao nos separarmos novamente, nossos olhos se encontram e um segundo depois estamos sorrindo juntos. Eu o abraço e ele sussurra em meu ouvido:
–Não existe mais ninguém que eu queira depois de você. . –ele diz e me afasto para sentar novamente. Ele parece pensar um pouco sobre a situação e não fica calado. -Isso tudo foi uma resposta?-ele pergunta ainda deitado, olhando para o teto.
–Sim. Eu escolhi você. –falo e ele levanta para sentar na minha frente novamente.
–Então, somos namorados agora? –ele pergunta sorrindo.
–Se é assim que você quer chamar... –eu falo e levanto. –Então, sim.
–Mas e o Dale?-ele pergunta já em pé.
–Escolher já é muita coisa para um dia, certo?-pergunto e ele concorda sorrindo. Ele me abraça novamente e não perde a oportunidade de me beijar.
–Você tem que ir?
–Sim. –respondo e ele se afasta um pouco. Meu peito estava acelerado e não era porque tudo isso tinha acabado de acontecer. Algo estava estranho. –Vai falar com o Dale?
–Não. Ainda tem uma história complicada que eu preciso resolver para poder falar com ele. Mas estou com uma estranha sensação de que tenho que ir para casa. –eu falo.
–Tudo bem. Vou ficar mais um pouco. –ele diz e se senta no colchão novamente.
–Até logo. –falo quando já estou na porta. Não recebo resposta, mas o sorriso estampado na cara dele já diz tudo.
Saio da base e a sensação forte no peito de que tinha que estar em casa aumenta. Espero que todos estejam bem. No caminho até a minha casa, o vento parece mais frio que o normal para um dia ensolarado e as árvores balançam estranhamente ao meu lado. Meus passos saem mais rápido a medida que meu coração fica mais apertado e a minha cabeça mais nervosa. Já estou praticamente correndo quando chego à frente da minha casa.
A porta da frente está aberta e saio à procura de alguém na casa. Encontro minha mãe sentada sozinha no sofá. Ela parecia apreensiva e o telefone estava fora do gancho e penso imediatamente no que poderia ter acontecido.
–Aconteceu alguma coisa com o papai? –pergunto rapidamente e sento do lado dela. Meu pai era policial e não era a primeira vez que vejo minha mãe assim, então pensei logo nele.
–Ele estava trabalhando normalmente hoje. Até que foi chamado para uma emergência em uma casa aqui perto. Uma tentativa de homicídio com uma bala na cabeça. –ela diz. –Ele só percebeu que era a casa do Wayne, quando estacionou logo na frente.
–Mas quem foi baleado? –pergunto. Não é algo bom para se pensar, mas ficaria feliz se fosse o Wayne. Embora ainda haja o irmão e mãe do Eduardo que também poderiam ser vítimas.
–Lucas. –ela responde.
–Quem? Quem fez isso? Ele está bem?-eu pergunto e ela nega com a cabeça.
–Ninguém sabe. A casa estava vazia, só ele estava lá. –ela responde. –Você pode me ajudar?
–Claro. Com o quê? Mas você não respondeu se ele estava bem. -eu pergunto e começo a ficar preocupado. Lucas estava morto?
–Seu pai pediu para ir ao local do crime e esperar pela família. –ela fala e vira para mim. –Eles vão querer saber que o Lucas está em coma e estado grave no hospital.
A bala poderia ter até atingido Lucas, mas dói, dói também em mim. Eduardo. Ele já teria voltado para casa? Eu tinha que me apressar. Dou um beijo na testa da minha mãe e saio de casa, sem me importar em dizer se ia ou não ajudá-la. Quem poderia ter feito isso? Lucas era bom com todos e todos gostavam dele, ele não tinha inimigos. Um pequeno flash de memória vem na minha cabeça e lembro algo que pode finalmente fazer sentido nisso tudo.
A lista. Lucas estava na lista e agora poderia morrer. Não podia ser coincidência. Wayne havia tentado matar o próprio filho. Minha acusação era enorme e ainda não tinha provas, mas eu estava convicto do que eu acabara de descobrir. Lucas poderia ter sido baleado pelo próprio pai... Eu precisava de ajuda e no momento, só penso em uma.
–Dale?-pergunto, quando alguém atende o celular.
–Oi? Luke?-ouço a voz dele do outro lado da linha e fico feliz.
–Sou eu. –respondo e continuo andando até a casa do Eduardo. –Aconteceu algo grande, definitivamente importante para o que estávamos investigando. Eu preciso de você e do nerd da informática dentro de você.
–Claro. Onde você está?-ele pergunta.
–Me encontre na casa do Eduardo de novo. –respondo.
–Tudo bem. –ele fala e desliga.
Ouço uma multidão de pessoas amontoadas ao redor da casa. Vários carros da polícia se encontram impedindo a passagem e vários policiais também. Chego mais perto e fico um pouco ao lado da casa para esperar por Dale, ou Eduardo, caso ele aparecesse. Na pior das minhas hipóteses, Wayne havia atirado no filho e ido embora para fingir que não estava em casa. A única testemunha estava à beira da morte, era o crime perfeito. A não ser é claro, por uma coisa, Lucas poderia sobreviver.
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