Meu Melhor Amigo
14 O que existia entre nós acabou
Notas iniciais
Os dias após o funeral do Lucas se passam tão rápido que não tenho como narrá-los. Mas depois de uma semana falando com Connor, finalmente começo a encaixar todos os dados da investigação. Não foi fácil mudar meu foco para a Sra. Collins, mas consegui perceber que, no fim, fazia todo o sentido.
–Vamos do início. –fala Connor. Estamos no meu quarto, ele tem passado os dias aqui.
–Giulia, mãe do Lucas, é uma apostadora. Ela é viciado em cassinos e jogos. Após passar anos ganhando a vida nisso, ela decidiu mudar sua conduta e conheceu Wayne, seu marido agora. Eles tiveram dois filhos e foram felizes. Mas após alguns anos de casamento, as coisas foram piorando para eles e Giulia voltou a jogar para se distrair. –eu falo e ele balança sua cabeça para confirmar. –Em um desses jogos, ela perdeu muito dinheiro e não queria contar para Wayne, então tenta resolver isso sozinha, falando com alguns homens perigosos da máfia. Ela consegue fazer com que eles matem o devedor, porém a cobrança deles também é muito grande. Quando não tem ninguém em casa, ela tenta pegar tudo de valioso na casa para vender, mas Lucas vê tudo e pergunta a ela o que aconteceu. Ela se sente obrigada a contar para ele e realmente conta. Os mafiosos descobrem que Lucas sabe sobre eles e são obrigados a agir. Giulia, sabendo que eles matariam seu filho, fala com ele e diz que vai se matar para protegê-lo. Lucas não aceita a proposta e na primeira oportunidade se mata para acabar com tudo e salvar sua mãe.
–Está tudo correto, exceto por uma coisa. –Connor diz e levanta da cama. –Mas ainda não posso falar porque ainda é uma especulação.
–Tudo bem, mas me fale quando tiver certeza. –eu falo e digito tudo que falei no meu computador. –Quando poderá levar essas provas até a polícia?
–Só quando conseguir uma confissão da mãe e tiver certeza dessa última especulação. –ele fala e anda de um lado para o outro do quarto. Seus olhos focam em um único ponto e ele parece hipnotizado pelos próprios pensamentos.
–Eu não posso falar para ninguém? –pergunto.
–Apenas para o seu amigo bonitinho que veio aqui ontem. –ele diz.
–Então se interessou por ele?-pergunto sorrindo e me viro para ficar de frente para ele na cadeira do computador. Ele havia conhecido Dale ontem.
–Ninguém disse isso. Só falei que ele é bonitinho. –ele diz meio envergonhado enquanto ainda finge estar pensando sobre o caso.
Nessa semana que passei com Connor, nós acabamos ficando muito próximos e descobri que ele também é gay. Foi uma grande coincidência, na verdade. Eu contei para ele sobre a minha história com o Eduardo, mas evitei falar sobre Dale, a única coisa que ele sabe sobre Dale é que ele é meu amigo e que sabia sobre a minha suposição de Wayne ser o assassino. Ele me contou como descobriu o que era e como foi difícil aceitar sem ter ninguém para conversar; e também falou sobre suas aventuras na faculdade, ele acabou se tornando um grande amigo.
–Que tal sairmos para comer alguma coisa? –proponho.
–Eu aceito. Mas quem paga sou eu.
–Por mim, nenhum problema. –digo e rio depois.
Falamos para a minha mãe que vamos sair e decidimos ir até o shopping. Connor me leva no carro dele, que era bem bonito e parecia ser caro. Ele põe um CD para tocar e eu pergunto de quem era, ele fala que era de uma banda chamada “Arctic Monkeys”; então vamos o caminho todo ao som de Arctic Monkeys, ele canta algumas músicas e acabo rindo da cara dele dizendo que ele não canta bem, o que é uma completa mentira. Ao chegarmos e sairmos do carro, ele me pergunta algo que eu evitava falar por dias.
–Você acha que o Eduardo vai conseguir se recuperar? –ele pergunta.
Eu demoro a responder. Eduardo havia pedido um tempo para se recuperar da morte do irmão e eu aceitei. Agora já fazia cinco dias que ele não falava comigo e eu estava começando a ficar preocupado, mas decidi falar com ele apenas quando ele quisesse.
–Eu espero que sim. Acho que ele ainda precisa de um pouco mais de tempo. –digo.
–Ele precisa estar preparado quando a polícia prender a mãe dele. –Connor fala enquanto andamos até a entrada do shopping.
–Eu sei. Ele estará. –falo, mas parece que é mais para eu próprio acreditar do que eu realmente achava ser a verdade.
Procuramos um bom lugar para comer e terminamos em um restaurante de comida japonesa.
–O que você quer pedir?-ele pergunta.
–O que você quiser. –digo.
–Então, tenho uma ideia divertida. –ele fala e chama o atendente. –Sushis diversos, por favor.
–Você já veio aqui antes?-pergunto.
–Várias vezes. Costumava ser um lugar especial. –ele fala e parece se perder em memórias tristes.
–Você quer conversar sobre isso?
–Acho que não. Basta você saber que eu vinha aqui com alguém muito especial, mas essa pessoal traiu minha confiança de uma maneira imperdoável. –ele diz e olha para um ponto distante de mim, como se não conseguisse me olhar diretamente.
Ficamos calados até a comida chegar. Quando chega, descubro o que são “Sushis diversos”. É uma caixa dividida em compartimentos quadrados onde em cada quadrado há um sushi diferente, sem nenhuma identificação além das cores dos papéis.
–É a brincadeira é a seguinte: você pega um sushi e me dá para eu comer, depois sou eu, assim por diante. –ele fala sorrindo.
–Tudo bem. –falo e pego um com um papel vermelho porque parecia ser feito com pimenta.
–O primeiro a cuspir ou dar sinais de vômito perde. –ele completa e come o primeiro sushi.
–Hum. Pimenta. Muito bom. –ele diz e percebe que eu achava ter ido bem na escolha.
Ele pega um com um papel azul ao redor e tem o arroz em um tom marrom. Eu pego, observo por alguns segundos e coloco na boca. Meu primeiro instinto foi cuspir na mesma hora, mas não aceitaria perder o jogo tão cedo, então aguento como posso. E pelo sorriso, sei que ele já sabe quais sushis são os piores, desse jeito eu sofreria.
–Você sabe qual é qual. Feche os olhos quando for sua vez. –eu digo e pego um comprido e dou para ele.
–Tudo bem, mas se fosse para decorar eu teria decorado a posição também. –ele fala sorrindo e fecha os olhos ao comer tranquilamente o meu.
Continuamos a brincadeira. Tem algumas vezes que eu pareço acertar e acabo descobrindo que o fraco dele são os sushis laranjas. Mas ele também me dá uns bem ruins que me fazem querer desistir. Comemos tanto que não sei quanto tempo se passou, até que sobram apenas quatro. Ele pega um com papel azul e como sem maior problema. Havia apenas um laranja e resolvo deixá-lo para o final, lhe dou mais um vermelho e ele engole rapidamente. Tudo estaria perdido se ele pegasse o laranja.
–Tudo acaba aqui. –ele diz sorrindo e pega o laranja. Eu fico nervoso e pego da mão dele. –Veremos o quão forte você é.
Eu ponho esse último na boca e não consigo evitar a ânsia de vômito, a essa altura eu já havia comido tanto que não tinha mais como segurar. Cuspo para fora e percebo que perdi a brincadeira. Ele pega o último e come, para então dar um sorriso sarcástico e piscar para mim.
–Não vale, você já fez isso antes. –eu digo parecendo uma criança.
–E também já perdi antes. Então não é desculpa. –ele fala.
Depois de ele pagar a conta, nós andamos um pouco pelo shopping, mas nada chama nossa atenção. Quando decidimos sair, Connor me puxa para dentro de uma loja e se esconde atrás de algumas roupas.
–O que foi?-pergunto meio assustado.
–Só fique quieto. –ele diz e obedeço.
Ficamos mais algum tempo atrás das roupas e Connor continua apreensivo.
–Droga!-ele fala. –Me desculpa, Luke.
Ele faz o que seria a coisa mais louca do dia se eu soubesse naquele momento o que estava por vir. Ele me beija. Fico ali, esperando ele se afastar sem mexer um músculo. Ele também não me beija de verdade, apenas encosta seus lábios no meu e segura na minha cintura sem mexer após isso. Ficamos parados por um bom tempo.
–Connor?-um estranho pergunta, eu estou de frente para ele e fico surpreso quando Connor praticamente me joga para longe, acabo por esbarrar em uma prateleira e bater minhas costas. Ele merecia apanhar.
–Ryan? Eu não te vi aí. -Connor diz e logo percebo o que acabara de acontecer. Fico irritado por ter sido usado, mas descontarei nele depois que tudo isso acabar.
–Eu percebi. Você está bem? –o tal Ryan pergunta e parece me olhar por um momento, acho que ele não gosta de mim. Connor parece nervoso.
–Estou. Estava passando e vi você com esse... Garoto. –ele diz, dando ênfase no garoto de uma forma ruim. –É bom saber que me superou.
–Pois é. E você? Está com alguém?-eu não acredito que ele me excluiu da conversa dessa forma.
–Na verdade, estou. Mas é difícil de explicar. Que tal nos encontrarmos amanhã para conversar sobre as novidades?-ele pergunta e olha para mim. –Algum problema para você?
–Não. Nenhum. –falo surpreso por ele se dirigir a mim, já que eu estava brincando com um bichinho de pelúcia em uma prateleira próxima. Dirijo um pequeno olhar de ódio para Connor.
–Então estamos combinados. Eu te ligo para confirmar. Ainda é o mesmo número?
–Sim. –Connor responde.
–Ok. Foi bom te ver de novo. –Ryan diz e dirige seus olhos castanhos e penetrantes para mim. Pela primeira vez, olho realmente para ele. –Foi bom te conhecer também.
–O mesmo. –digo. Ele deveria ter a idade de Connor, tinha cabelo liso e preto. Sua pele era morena e sua estatura um pouco baixa. Mas no geral ele era bonito, parecia um pouco velho para mim, mas com certeza era o alguém especial que Connor falara anteriormente.
Depois que ele vai embora e já está longe o suficiente para ouvir, Connor parece se desesperar.
–Me desculpa. Me desculpa. Me desculpa. Eu nunca deveria ter feito aquilo. Sei que você tem namorado e nem me conhece direto, mas eu fiquei louco ao ver o Ryan e eu nem deveria porque sei que não gosto mais dele, mas não consegui. Me perdoa. Me perdoa...
–Connor!-falo um pouco alto. –Está tudo bem. Mas você me deve explicações.
–Eu sei que devo. Vamos. Precisamos voltar. –ele diz.
–Tudo bem. Quando chegarmos, você vai me contar todos os detalhes sobre o Ryan. -digo e ele parece apreensivo com a ideia.
Já é de noite quando estamos voltando para casa. Incrível como o dia passara tão rápido. Os carros passam ao nosso lado e o vento bate no meu rosto, a noite está fria e silenciosa. Olho para o meu celular e vejo que tenho uma nova mensagem. Ao ver que é do Eduardo meu coração bate mais forte. E a cada palavra bate mais ainda, até que estou chorando. Isso não podia acontecer.
–O que aconteceu, Luke?-Connor pergunta.
As lágrimas caem involuntariamente e tento falar para Connor, mas as palavras não saem. Eu fico paralisado, encarando as palavras a minha frente... Connor coloca sua mão na minha coxa em sinal de encorajamento e me olha suplicando para eu falar.
–É... É o Eduardo. –eu consigo dizer. –Ele disse: “Encontre-me na base daqui a uma hora. Mas não fique feliz. O que existia entre nós acabou.”
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