Meu Melhor Amigo
17 Não estou confiando muito em mim mesmo nesse momento
Notas iniciais
Eu acordo ainda meio cansado, meus olhos parecem ainda arder pelas eventuais lágrimas compulsivas antes de dormir. Eu vou até o banheiro e me olho no espelho. Meu cabelo está completamente bagunçado, mas isso se deve mais ao fato de ele estar grande do que de eu ter acabado de acordar. Meus olhos estão muito vermelhos e minha pele não poderia estar mais pálida, resumindo eu estava horrível.
Tomo um bom banho e me arrumo para descer. Hoje era domingo e eu geralmente tomava café na mesa com os meus pais e minha irmã. Eu desço a escada e me dirijo até a cozinha. Minha mãe está de costas, ainda aprontando o café, meu pai está sentado à mesa lendo o jornal e Lilly estava do lado oposto a ele, arrumando a mesa.
–Bom dia. –eu digo e todos respondem olhando para mim e sorrindo. Estava tudo tão normal, eu não estragaria isso contando sobre o que aconteceu, eu teria outras oportunidades para isso.
–Alguma novidade?-pergunta Lilly quando me sento à mesa.
–Não. –minto e sei que ela percebe, mas apenas vira a atenção para meu pai.
–Pai, vai trabalhar hoje?-ela pergunta.
–Não. Por quê?-ele pergunta tirando os olhos do jornal que agora se encontrava abaixado no seu colo.
–Será que podemos sair hoje? Estou me sentindo sufocada sem fazer nada nessas férias.
–Acho que sim, querida. Algum problema, Sara?
–Nenhum. –minha mãe responde e percebo que eu poderia fugir do encontro com Dale, mas eu queria ir, não podia mais adiar isso. Além disso, minha curiosidade sobre a conversa que ele teve com Eduardo era acima do normal.
–Na verdade, eu pretendo sair às seis, mas acho que podemos voltar antes, não é verdade?
–Voltaremos antes disso então. –meu pai diz e minha mãe traz o café e se senta à mesa. –Algum lugar específico, filha?
–Eu estava pensando no zoológico. –comenta Lilly.
–Então vamos para o zoológico! –fala meu pai com uma animação acima do normal.
O café passou rápido e agradavelmente, com muitas conversas amistosas e divertidas. Minha mãe soltava algumas perguntas sobre o Eduardo uma vez ou outra e eu tentava me esquivar ao máximo delas, assim como o meu pai. Depois de um tempo descobri que meu pai já sabia sobre a mãe do Eduardo e também queria manter segredo, agradeci por isso.
Quando terminamos, eu e Lilly ajudamos minha mãe a arrumar tudo enquanto meu pai vai ver o carro. Lilly fica calada e sei que ela está esperando eu dizer o que eu tenho de errado. Minha mãe diz que já podemos ir pra ela fechar a casa. Essa era oficialmente nossa primeira saída em família desde que contei a eles tudo.
–Você não vai me contar mesmo, não é?-Lilly pergunta, seus olhos cor de topázio implorando por uma explicação.
–Depois. Quando parecer certo. –eu digo e ela apenas concorda com a cabeça.
O caminho até o zoológico é silencioso, o que apenas faz com que meus pensamentos parem no Eduardo novamente. Percebi que nós nunca tivéramos um encontro de verdade, como ir ao zoológico. O que faz com que eu descubra que nós não aproveitamos o suficiente o sentimento que sentíamos um pelo outro, isso só me deixa mais triste.
–Eu juro que se pegar você chorando de novo te bato até você me contar o que aconteceu. –Lilly fala baixo o suficiente para nossos pais não ouçam. Apenas percebo que estou chorando quando passo minha mão na bochecha e sinto a lágrima se desfazendo.
–Desculpa, não foi proposital. –falo e olho para a paisagem além da janela.
Meus pais agora conversam algo nos assentos da frente e me pergunto se não estou calado demais. Tentarei falar um pouco mais enquanto estivermos vendo os animais, já que já havíamos chegado agora. Saímos do carro e seguimos para dentro.
Eu me surpreendo ao ver como era o zoológico. Não me lembrava da última vez que vira com os meus pais, mas sei que faz bastante tempo. Todo o zoológico parecia uma floresta, onde se seguia por trilhas e no meio das trilhas se encontravam as jaulas.
–O que acha desses macacos? –pergunta minha mãe quando passamos em uma jaula gigante, onde se encontravam mais árvores dentro e macacos pulavam pelos galhos. Eram macacos cebus, com pelos brancos na proximidade da cara e no resto do corpo eram pretos.
–São engraçados, ainda mais pelo seu tamanho. –digo, já que eram pequenos e pareciam traiçoeiros.
–E as cobras?-ela pergunta depois.
–Elas me assustam um pouco. –digo e ela ri de mim.
A maior parte do dia passou assim, com conversas sobre os animais e minha opinião sobre eles. Eu não precisava falar tanto, o que era bom e ver os animais me distraiu bastante. Não queria voltar ao vazio que era lembrar dele. Lá dentro havia um restaurante, então comemos lá mesmo. Eu estava começando a ficar ansioso com o meu encontro com Dale.
Depois de ver desde lagartixas até tigres e leões, meu pai avisou que estava na hora de irmos. Eu gostei tanto do passeio que relutei na ideia de ir logo, mas logo lembrei que faltava apenas duas horas para dar o horário do meu encontro. Então fomos embora do zoológico.
O caminho de volta para casa é bem mais tranquilo e leve. Falamos das nossas partes preferidas do passeio e quais animais nos chamaram mais atenção, é mais fácil de rir quando converso com eles. Tento não me concentrar na ideia que encontrarei Dale logo depois, eu realmente não sabia o que faria.
Chegamos em casa quando ainda falta um pouco mais de uma hora para Dale aparecer na minha porta, decido tomar banho e me aprontar logo. Eu não sabia o que esperar desse encontro, ele simplesmente não falou nada sobre e eu estava ficando muito curioso. Além disso, sei que não seria fácil ficar com Dale sem me lembrar do Eduardo.
Eu espero inquietamente por Dale no meu quarto. Quando faltam apenas dez minutos para o horário marcado, eu olho pela janela e vejo que o sol já começa a se pôr. O pôr do sol é uma das coisas que eu mais gostava de apreciar, o fim de mais um dia, o fim de um dos insignificantes finitos que existiam dentro desse infinito que chamamos de universo.
–Como você adivinhou que eu estaria aqui?-eu ouço e me assusto muito para variar. Acabo por pular para longe da janela, eu não tinha a mínima ideia de onde aquela voz vira. –A surpresa foi tão boa assim?
No meio aos meus batimentos descontrolados, consigo assimilar a ideia de que era Dale que estava entrando no meu quarto pela janela. Ele entra por completo e dá aquele sorriso brilhante que só ele conseguia fazer, aquele que me aquecia por dentro, como um fogo amistoso. Mas uma recordação distante vem à tona, a recordação do dia em que tudo começou, e as lágrimas brotam, escorregando pelo meu rosto incansavelmente, eu não poderia ser uma pessoa pior por fazer aquilo com Dale.
–Você não gostou? O que aconteceu?-pergunta Dale que agora me abraça e fala no meu ouvido com uma voz tranquilizante. –Você quer que eu vá embora? Acha que ainda não está preparado?
–Não! –eu digo. E o abraço com força, me segurando a sua presença, precisava me ancorar em algo para essa dor não me levar para o abismo do sofrimento. –É só algo que eu lembrei, algo que me recorda ele. Me desculpa, me desculpa mesmo.
–Tudo bem. –ele diz e ficamos mais um tempo abraçados, sem dizer nada. Dale estava me ajudando de tantas formas diferentes que não havia como eu agradecer.
–Vamos, para onde você vai me levar? –falo, enxugando as lágrimas de vez e encarando aqueles lindos olhos azuis que eu tanto conhecia.
–Eu tenho um lugar que quero que conheça. –ele diz apenas e segura a minha mão. –Tem algum problema em seus pais verem que eu já entrei?
–Acho que eles já se acostumaram com essas coisas. O maior problema será a minha irmã. –digo sorrindo e ele abre a porta para sairmos. –Por falar nisso, tem algo sobre a sua irmã que temos que conversar.
–Isso pode esperar. Vamos, se não iremos perder... –ele diz animado e descemos a escada com pressa, mesmo eu não entendendo o que poderíamos perder.
Passamos com facilidade pela minha mãe e por sorte ela é a única a nos ver. Apenas digo que vou sair com o Dale e eles se cumprimentam sorridentes, vejo que minha mãe gosta dele. Saímos pela porta da frente e Dale continua me puxando pela mão, como se fôssemos perder algo extremamente importante. Depois de um tempo percebo que estamos indo na direção da casa do Eduardo, meu coração bate mais forte.
–Espero que isso não atinja muito você, mas podemos nos aproximar um pouco da casa dele, mas não tanto. –Dale comenta e eu apenas sigo andando rápido, a esse ponto estamos praticamente correndo.
Entramos na rua onde a “base” se encontra e as minhas lembranças do local parecem me dar um soco no estômago. Por que tudo me lembrava ele? Era como se a minha vida tivesse apenas existido depois dele. Dale passa dois prédios da base e parece querer entrar em mais um dos prédios abandonados da rua, mas esse é bem mais alto que o hospital, com no mínimo quinze andares.
–Aqui é o meu refúgio, se quiser chamar assim. Venho aqui desde os oito anos. –ele diz e eu fico paralisado, nossas vidas eram tão entrelaçadas de uma maneira distante que eu fico assustado. Dale sempre esteve perto de mim, querendo ou não, o que me faz perguntar o que o destino realmente estava me dizendo com isso.
–Vamos subir?-pergunto quando entramos no hall de entrada e percebo que aqui era um hotel. Tudo está vazio e poeirento, mas tirando isso parecia ser um bom lugar.
–Sim, mas precisamos ir pelas escadas, a eletricidade não pega aqui. –ele diz e concordo.
Passamos a subir os muitos degraus, primeiramente andando normalmente, mas Dale acelera o passo a cada minuto. Seja lá o que ele não queria perder, era algo muito esperado por ele. Eu fico bem cansando depois de um tempo, contudo não paro até chegarmos ao objetivo de Dale, que era o terraço. E eu não poderia me surpreender mais.
Tudo era tão lindo. Ao chegarmos, o vento da noite atinge o meu rosto, gelado e forte. As estrelas aparecem um pouco daqui, apesar da conturbação na minha visão graças à poluição. O imenso céu já se encontra de um tom azul tão escuro que parece um tremendo paredão preto, lindo e infinito. Andamos até a beirada e o vento é tão agradável que me inclino um pouco para frente, eu poderia ter meus pontos fracos, mas altura não era um deles.
–O que achou?-Dale pergunta e eu demoro a decifrar suas palavras, porque estou ocupado demais apreciando o momento.
–Nossa, Dale! É lindo! – eu falo alto e ouço minha voz ecoar no vazio da noite.
–Que bom que gostou, mas o melhor ainda está para vir. –ele diz e eu fico realmente curioso. –Logo ali tem umas almofadas que há muito trouxe pra cá, e um telescópio também.
–Um telescópio?!-falo sem acreditar. Vamos para o lado direito do terraço e vejo um grupo de almofadas de diversas cores juntas em cima de um grande quadrado de madeira, parecia um pequeno altar confortável e logo na beirada havia um telescópio branco já apontando para o céu. Eu me aproximo do telescópio e toco nele, a princípio, impressionado. –Posso?
–É claro. –ele diz sorrindo e eu me arrisco a dar uma olhada.
Eu espero meu olho se acostumar à lente e é impossível não se maravilhar com a imensidão colorida. Estrelas brilhavam mais forte do que um dia eu poderia ter visto, planetas tomavam forma e faixas de cores se espalhavam pelo infinito; eu via alguns cometas e as estrelas piscavam para mim, era simplesmente incrível.
–Luke?-Dale pergunta e eu reluto em deixar de observar minha nova admiração. –Acho que vai querer ver isto.
Eu paro de olhar pelo telescópio e vejo que Dale está sentado nas almofadas, contemplando o sul, e eu finalmente percebo o que ele quis dizer. Ao sul, no céu, havia algo do mesmo nível de coisas que eu nunca esqueceria ou até mais inesquecível do que a imagem do telescópio. Era como se as estrelas tivessem resolvido cair todas ao mesmo tempo, passando como flashes, brilhoso e rápido, riscando o céu. Era tão lindo que não sei por quanto tempo fiquei parado de boca aberta observando.
–É lindo, não é?-só me dou conta de que ele está no meu lado quando ele realmente fala, mas não sei por quanto tempo esteve lá.
–Eu não sei nem o que falar. –digo e vejo que o fenômeno começa a parar.
Dale pega a minha mão, e eu não resisto, estava encantado demais com o momento para isso.
–Luke, eu sei que esse último dia tem sido um dos piores para você e eu realmente não queria estar fazendo isso, mas eu simplesmente não posso mais. –ele diz e eu olho intensamente nos olhos dele, olhar para ele era como se perder no meio de um oceano. Uma sensação de frio na barriga me atinge e sei que esse momento é mais especial do que eu pensaria que seria. –Eu quero ter você perto de mim. Quero você para mim.
Sua outra mão pega a minha e ficamos completamente frente a frente. Seus olhos são um poço enigmático que eu nunca decifraria, mas suas mãos não tremiam, ele estava convicto do que falava. As palavras me somem e meus pensamentos são tão confusos que eu não sabia o que fazer. A dor continuava ali, assim como o impulso de fugir dali, mas por alguma razão minha vontade de ficar era maior. Eu queria Dale, se nesse mundo infinito, em algum lugar do universo, pudesse existir um amor tão intenso sentido por duas pessoas, eu estaria enfrentando isso agora. Eu poderia não querer admitir para mim mesmo, mas eu amava Dale e agora já não restava nenhuma dúvida. Só restava eu seguir em frente com o amor que eu tinha em frente e esquecer um pouco aquele que ainda me fazia sofrer.
–Eu te amo. E se há alguma coisa ou alguém que ainda me faz feliz hoje é você, Luke. –ele diz e me entrego ao seu beijo apaixonado.
No fundo, minha parte que amava Eduardo relutava em me entregar completamente, mas percebo que era o meu todo que amava Eduardo. Mas o meu todo também amava Dale, contudo, eu não poderia ser dois. Era como se a minha completa indecisão no amor tivesse se misturado e revirado, tornando-se uma só. O que eu faria para separar e desembaraçar tudo isso... Não fazia a mínima ideia.
Seu beijo é salgado e quente. Seus lábios são macios e pareciam se encaixar com tanta perfeição nos meus que a minha única opção era não parar. Sua mão passa pela minha nuca e eu sinto um choque dentro de mim, Dale libertava alguns desejos profundos meus que Eduardo não conseguia, ele me deixava em êxtase.
Quando dou conta de mim mesmo, estamos em cima das almofadas. Dale passa as mãos pela minha cintura, por debaixo da minha camisa. Eu não conseguia me controlar mais, a onda de sensações que me atinge me surpreende novamente e quando vejo estou retirando a camisa de Dale. Apesar do frio da noite, eu estava mais quente do que nunca. Dale beijava meu pescoço agora, provocando arrepios que eu nunca ousara ter antes.
De repente, ele para e me vejo encarando seus olhos de baixo dele. Suas mãos encontram-se ao lado do meu rosto. Seus olhos são tão intensos que pareço ser perfurado por eles. Ele sai de cima de mim e se deita ao meu lado. Viro apenas meu rosto e o encaro, lindo e ofuscante na escuridão da noite.
–Você me causa sentimentos que eu teria vergonha de descrever. –ele diz e passa a observar o céu.
–Eu acho que sinto o mesmo. –digo, ainda ofegante.
–Não precisamos ir tão rápido, apesar de estar lutando contra mim mesmo nesse momento. –ele fala e sorri.
–Concordo. Então, acho melhor eu voltar para casa, não sei se aguentarei ficar aqui por muito mais tempo. –digo sentando. –Não estou confiando muito em mim mesmo nesse momento.
–Então vamos. –ele diz ainda sorrindo, seu sorriso é tão contagiante que acabo por sorrir também.
Ele põe a camisa e levanta. Eu não sabia onde isso ia parar, mas sinto que esses sentimentos que Dale libertava em mim já me confirmavam o exato lugar. Se eu estava preparado, acho que ninguém sabia.
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