Jaejoong ouviu tudo sem se manifestar. Não podia se manifestar. Não tinha como protestar. Não havia mais o que dizer. Sentou-se na calçada, sem mais sentir os pingos gelados e incessantes, sentindo apenas o amargo das lágrimas em seus lábios trêmulos.

Os quatro amigos esperavam o espetáculo sentados em um banco, perto da entrada da festa. Não estavam totalmente expostos, podendo assistir tudo de camarote.

Junsu estava deitado no colo do irmão mais velho, que acariciava delicadamente as madeixas negras do jovem. ChangMin esparramou-se no canto do banco, e Kevin acabou ficando de pé.

- Kevin, senta aqui no meio das minhas pernas. Eu prometo que não vou te agarrar. – Riu o caçula.

- Ah, mas assim não tem graça. – Brincou o loiro, com um bico fofo.

Apesar de não querer admitir, ChangMin achava Kevin lindo, educado, extrovertido e brincalhão. Sabia que essa pose de intocável era só uma casca, que o verdadeiro Kevin estava apenas esperando a hora certa para despertar.

- Anda loirinho, senta aqui. – Sorriu o moreno.

Kevin não resistiu. Aliás, até agora não havia entendido como resistia tanto à ChangMin. Moreno, alto, forte, engraçado, bonito, gentil e safado. Tudo que ele gostava! Sorriu sem jeito e sentou-se em meio às pernas do maior, de costas para o mesmo.

Ventava um pouco, e ChangMin abraçou Kevin para se esquentar. O menor sentiu seu coração disparar, e seu corpo não expressar reação alguma. Não sabia o que fazer. A melhor maneira de desligar seu “alarme natural” era fazendo uma brincadeira.

- Assim eu gamo hein. – Rindo.

- Não precisa ficar nervoso loirinho. – Sussurrou no ouvido do menor. – Gosto de ficar perto de você. Não precisa me fazer rir.

Kevin engoliu seco. Não sabia como prosseguir. Sentia seu corpo tremer, mas não era de frio, mas sim de nervosismo. Nunca tinha passado por algo assim antes, e não sabia o que fazer. Respirou fundo, fechou os olhos e tentou relaxar. Suas mãos subiram inconscientemente de encontro às de ChangMin, segurando-as com delicadeza e receio.

O moreno sentiu-se mais seguro. Era estranho como sentia-se a vontade com Kevin. Talvez fosse pelo jeito como brincavam, com insinuações e promiscuidade, já que ninguém mais tinha coragem disso. Ou talvez fosse pelo seu sorriso meigo, suas raras, mas verdadeiras, demonstrações de afeto, ou até seu perfume suave de maçã verde. Fechou os olhos e apoiou seu queixo sobre o ombro esquerdo do menor, respirando profundamente seu cheiro delicado.

Kevin, ao sentir a respiração quente e calma do maior, teve a sensação de todo seu corpo arrepiado, como uma corrente elétrica. Seu coração acelerou e suas mãos começaram a suar. Teve a estranha vontade de abraçar ChangMin e assim ficar por um tempo indeterminado. Mas seus pensamentos foram interrompidos por um grito.

- É o Ajoo! – Gritou YooChun.

Todos se levantaram ansiosos, esperando o momento da verdade.

Ajoo saiu da festa sorridente, acompanhando por um lindo homem de cabelos negros, alto, muito bonito. Ao olhar para seu carro, o pavor imediatamente se estampou em seu rosto. Os olhos desesperados buscavam o culpado, uma explicação, a polícia, mas nada encontraram, com exceção de seu lindo bebê totalmente destruído. O homem que lhe acompanhava se aproximou do moreno, que reagiu com violência, o empurrando com brutalidade.

Pegou seu celular e discou um número rapidamente.

Em torno de 7 minutos, uma viatura da polícia estacionou atrás de seu “carro”. Um homem forte de meia idade saiu calmamente da viatura, mas foi assustado por um Ajoo totalmente enfurecido e louco. O moreno gritava e gesticulava muito, e o pobre policial analisava o carro.

Os quatro jovens, que choravam de rir, seguraram o riso e caminharam descontraidamente em direção ao acontecimento. Fingiram não perceber a função, mas Ajoo continuou o escândalo.

- FORAM ELES! ELES DEMOLIRAM O MEU CARRO! PRENDA ESSES IMBECIS. AGORA! – Ordenou para o policial, que o olhou com uma expressão de censura.

- Foram vocês que depredaram o patrimônio deste rapaz? – Indagou o homem, calmamente.

- Nós? Policial, nós nunca seriamos capazes de uma barbaridade dessas. – Respondeu Kevin, com a expressão santa, mas a voz debochada.

O policial saiu dali para anotar a placa do carro, a fim de levantar possíveis multas, pois o pobre homem já suspeitava que Ajoo fosse louco ou usasse drogas.

O loiro aproveitou o descuido do guarda para chegar sorrateiramente por trás do moreno e sussurrar em seu ouvido.

- Talvez o capô do seu carro saiba. Honey. – Apertando a bochecha do maior, que imediatamente se virou e segurou Kevin pela camiseta.

- Agora você vai aprender a não debochar de mim sua bicha nojenta. – Ameaçou entredentes, com o punho erguido.

ChangMin, ao perceber a cena, segurou o punho de Ajoo e o torceu, deixando o braço do jovem atrás de suas costas.

- Se você encostar no Kevin de novo, eu vou bater tanto em você que terão de te dar um mapa para você achar a sua boca. – Disse o caçula, com um tom ameaçador.

- Ei, o que está havendo? – Perguntou o policial, com censura.

- Nada. – Respondeu ChangMin, soltando o braço de Ajoo. – Só estava ajudando o meu amigo a se alongar. – Saindo de perto do moreno, levando Kevin consigo.

Ajoo prestou a atenção no capô de seu carro, e encontrou a doce mensagem de Jaejoong. Sua fúria foi tão imensa que o jovem desferiu um belo soco em seu carro.

- Você é maluco? – Indagou o policial.

- Eu acho que foi ele quem destruiu o carro e quis colocar a culpa em nós. – Disse Junsu.

- Se eu fosse o senhor, levava esse cara para a delegacia. Acho que está drogado. – Sugeriu YooChun.

- Ei, rapaz. Entre na viatura. – Ordenou.

- Mas por que? – Indagou Ajoo.

- Porque eu estou mandando. – Respondeu o policial, autoritário.

O moreno lançou um olhar ameaçador para os quatro jovens, que riram. Relutante, Ajoo entra na viatura e é levado para a delegacia no centro da cidade.

- Vocês viram a cara dele? – Perguntou Junsu, gargalhando.

- Eles demoliram meu carro. – YooChun o imitou de maneira engraçada, gargalhando também.

- Obrigado por me defender. – Kevin sorriu de maneira meiga e sincera.

- Eu faria muito mais se fosse preciso. – Respondeu o maior, sorrindo carinhosamente.

Os quatro jovens realizados seguiram em direção à casa do amigo. Precisavam contar a incrível cena à Jaejoong.

- Gente... Não está um pouco tarde? – Indagou Junsu, vendo o avermelhado no horizonte, indicando que não demoraria muito para amanhecer.

- Que nada! O Jae deve estar no maior love com o Yunho. – Respondeu o irmão mais velho.

Em meio a deboches e risadas, seguiram calmamente para a casa do ruivo.

- JAE! – Gritou ChangMin, parado em frente à casa.

- Cala a boca jumento! – Ralhou YooChun. – São quase seis da manhã!

Junsu aproximou-se da porta, batendo levemente.

- Jae. Jae, você está aí? – Não ouvindo resposta alguma. – Jae, eu vou entrar! – Comunicou o moreno.

Ao girar a maçaneta, os quatro estranharam, pois ela girou completamente e a porta se abriu.

- Que estranho. – Comentou ChangMin. – O Jae nunca deixa a porta destrancada.

YooChun foi o primeiro a entrar. Procurou a chave de luz ao lado da entrada, ligando-a em seguida. Após os segundos de cegueira devido ao surgimento repentino de luz, os quatro amigos deparam-se com Jaejoong encolhido no sofá, com o olhar perdido.

- Jae! – Exclamou Junsu, correndo em direção ao amigo.

- Meu Deus Jae, o que aconteceu? – Indagou ChangMin, ajoelhando-se ao lado do amigo.

- Jae, você está todo molhado! O que houve? – Disse Kevin, segurando as mãos gélidas e úmidas do amigo.

- Jae, fala, pelo amor de Deus. – Suplicou YooChun.

- Eu fui falar com o Yun. – Disse o jovem, sem desviar seu olhar do lugar nenhum.

- E por que você está assim? – Indagou Junsu.

- Disse que cansou de mim. Me mandou embora e bateu a porta na minha cara. – Explicou o ruivo, sentindo uma gelada lágrima lhe escapar sobre a face sem expressão.

- E por que você está todo molhado? – Perguntou YooChun.

- Eu fiquei sentado na chuva, tentando engolir o que ele me disse. – Sua voz não tinha emoção alguma.

- Jae, levanta. – Ordenou Kevin. – Você precisa tirar essas roupas molhadas e tomar um banho quente. Você vai ficar doente!

- E daí? – Indagou o jovem, sorrindo com tristeza.

- E daí que se aquele lindo imbecil não se importa com você, eu me importo! – Respondeu o loiro, firme. – Anda, levanta daí.

ChangMin ajudou Jaejoong a levantar-se e acompanhou Kevin até o banheiro.

- Eu e o Chang vamos ficar aqui te esperando. – Comunicou o loiro, na porta do banheiro.

Jaejoong apenas entrou e fechou a porta. Ao olhar-se no espelho, lembrou-se do ferimento do moreno, e chorou. Retirou suas roupas molhadas com dificuldade e ligou o chuveiro, ficando ali por longos minutos.

- Ele ligou o chuveiro. – Comunicou ChangMin, com o ouvido colado na porta.

- Bom, então vamos esperar. – Disse Kevin, sentando-se no chão.

- Você realmente ama o Jae, não é? – Indagou o maior, acomodando-se ao seu lado.

- Sim. – Respondeu o loiro, sorrindo. – O Jae me acolheu e me aceitou quando ninguém mais o fez. Sou grato a ele pelo resto da vida. – Sentindo uma lágrima lhe escapar dos olhos brilhantes.

ChangMin sorriu. Ergueu a mão e limpou a lágrima com a ponta do polegar, fazendo um tímido afago na linda face do menor.

- Eu gosto muito de você. – Disse o maior, sério, mas gentil.

- Eu também gosto de você Chang. – Sorriu Kevin. – Você é muito bom para o Jae, e isso faz de você uma pessoa muito especial.

- Kevin, não é dessa maneira que...

- Kevin! – Chamou Junsu.

- OI! – Respondeu em um grito.

- Vem cá! – Gritou o amigo.

- Pode ir. – Disse ChangMin, em um sorriso. – Eu cuido do Jae.

Kevin acenou positivamente com a cabeça e saiu. No caminho, recostou a mão sobre a delicada face, no lugar onde a mão de ChangMin havia lhe tocado. Um sorriso se formou em seus lábios, e um medo enorme se formou em seu peito.

- O que foi? – Despertando de seus pensamentos.

- O que foi isso!? – Disse Junsu, impressionado.

- Eu não faço a mínima ideia! – Exclamou o loiro. – Pelo que eu tinha entendido, o Yunho era apaixonado pelo Jae. Mas agora, o cara manda o pobrezinho embora e ainda bate a porta na cara dele!

- Gente, a coisa tá preta. – Comentou YooChun.

Jaejoong e ChangMin entram na sala, com o ruivo devidamente seco e aquecido, trajando uma calça moletom branca e um canguru da mesma cor.

Junsu correu na cozinha e trouxe um chá que havia preparado para o amigo. O ruivo sentou-se no sofá e teve seus amigos ao redor. Em um silêncio acolhedor, ali ficaram por algumas horas, antes de adormecerem.

Yunho acordou assustado. Havia tido um pesadelo, como sempre tinha quando estava triste ou brabo. Levantou-se lentamente e foi tomar um banho, aprontar-se para o primeiro dia na Universidade nova.

Ao olhar-se no espelho, viu as finas marcas das unhas de Jaejoong. O choro lhe veio à garganta, mas o moreno o engoliu com mágoa e orgulho.

- Gente, eu não vou à Universidade hoje. – Comunicou o ruivo, triste.

- Como não? Vai ficar aí curtindo a deprê? – Kevin estalou os dedos. – Sonha né meu bem.

- Você só não vai à Universidade, como vai lindo e estiloso. – Comunicou ChangMin, remexendo o guarda roupa do amigo.

- Olha... Eu agradeço por vocês estarem fazendo isso por mim... Mas eu não quero me encontrar com o Ajoo... Muito menos com... – A voz de Jaejoong falhou.

- Com o cara que mora do lado da sua casa?! – Disse o loiro com uma voz mesclando raiva e deboche. – A me poupe querido! Não quer mais ver o Yunho, fura os olhos e se muda.

- Kevin! – Ralhou YooChun.

O loiro demonstrou uma expressão de “ O que? Falo mesmo.” Antes de ajudar ChangMin com a escolha da roupa.

Coturnos pretos, calça skinny da mesma cor e camisa bordô com os primeiros botões abertos e as mangas dobradas. Fato 1: Jaejoong estava um arraso. Fato 2: A Universidade inteira parou para vê-lo passar. Fato 3: O cabelo levemente bagunçado fazia até os professores suspirarem pelo ruivo.

- Gente, estou até me sentindo meio mal. – Comentou Jaejoong. – Está todo mundo me olhando! – exclamou.

- Também. – Disse Kevin com uma voz óbvia, olhando para a bunda do amigo.

- Kevin, para de graça! – Ralhou Junsu.

- Por que?

Junsu apenas fez um sinal com a cabeça, indicando que Yunho acabara de chegar. Jaejoong ficou curioso com o movimento e virou-se, contemplando o sensual caminhar do moreno. Yunho trajava uma camiseta preta, calça jeans branca e All star preto. A mochila jogada sobre o ombro lhe dava um ar marrento, o que o deixava ainda mais sexy.

- BONITÃÃÃÃOO!! – Exclamou Kevin, correndo para abraçar o amigo.

Jaejoong engoliu seco e ficou sem reação. Queria gritar, fugir, correr, xingar, bater, mas nada fez.

Yunho abraçou o loiro com um sorriso. Ficaram a poucos metros de distância conversando, mas o moreno fazia questão de não olhar para o ruivo. A conversa animada foi interrompida pelo sinal da Universidade, indicando que as aulas começariam. Yunho despediu-se de Kevin e caminhou em direção ao prédio.

- Y-Yun. – Chamou o ruivo, receoso.

O moreno o olhou com tristeza. Ao ver o anel prateado vacilante ao peito do menor, sentiu a lágrima solitária fugir de seus olhos. Desviou o olhar e voltou a caminhar, mas seu braço foi puxado.

- Yun, espera. – Pediu Jaejoong.

Os quatro amigos foram quase correndo para suas salas, e em poucos minutos, apenas os dois jovens se encontravam no jardim da Universidade.

- O que você quer? – Indagou o moreno, magoado.

- Eu quero saber o que aconteceu com você! – A voz de Jaejoong começou a vacilar. — Onde está a sua ternura, o seu carinho, o seu sorriso, a sua gentileza... – O ruivo não segurou suas lágrimas.

- E desde quando você se importa Jaejoong? — Yunho segurava-se para não deixar suas lágrimas caírem. – Eu passei a minha vida toda te dando tudo isso e você nunca notou. E agora que você perde seu precioso namoradinho, volta para mim como se eu fosse seu prêmio de consolação? Eu tenho dignidade Jaejoong. – Engolindo a dor.

- Yun, olha... Me desculpa! Eu... Eu... Eu não sabia... – Desviando seu olhar para o chão.

- Não sabia o que? Que eu te amei por toda a minha vida, que eu nunca desisti de você, ou que eu não sou esse cafajeste que você faz questão de alegar que eu sou? – Desistindo de lutar contra o choro, deixando toda sua raiva se libertar.

- Amar? Você nunca me amou de verdade! – Disse o menor, sendo contagiado pela raiva. – Me abandonou como um brinquedo velho, sem dar notícias ou ligar. Esqueceu que eu existo! – Seu choro já tinha se transformado em pranto.

- Nunca amei? — O moreno riu. – Você se importa tanto comigo que nunca prestou a atenção. Te dei uma das coisas mais importantes para mim e você não teve a capacidade de sequer notar. Chega Jaejoong. Eu não quero mais sofrer. – Virando as costas.

- Mas eu te amo! – Gritou o ruivo, em desespero.

- Ah, é? – Indagou, debochado. – Pois eu pago para ver. – Indo para casa, pois não tinha condições de assistir a nada.

Só depois que o moreno o deixara sozinho, é que Jaejoong pôde refletir o que havia dito. “Te dei uma das coisas mais importantes para mim e você não teve a capacidade de sequer notar.”

- O que será que ele quis dizer com isso? – Refletiu.

Em um ato costumeiro, segurou o anel em seu peito e sentou-se. Após pensar por alguns instantes, o pavor lhe avisou algo que ele teve medo de ver. Relutante, observou o anel, só então percebendo a escrita interna que sempre esteve ali.

Kim Jaejoong. Meu anjo eterno.

- DROGA! MERDA! IMBECIL! IMBECIL! – Gritou o jovem, só então percebendo o quão idiota, egoísta e insensível havia sido todos esses anos.

YooChun, que sentava ao lado da janela em sua sala, observava o amigo berrar com ódio de si mesmo.

“ Ele finalmente percebeu.” Sorriu o moreno.