Meu Jeito
29 Capítulo 29 – Mudança de Ares
Era início de abril. O grama de Hogwarts rebrotara por completo e os Jardins estavam repletos de pontos coloridos. Parte das flores ainda estava em botão, parte já desabrochara. As pesadas capas de inverno foram guardadas nos malões e as janelas do castelo passaram a ficar abertas com freqüência.
Safira resolveu aproveitar esse maravilhoso ar de primavera em uma quinta-feira na qual Sprout os liberou mais cedo para o almoço. Todos seguiam em direção ao castelo, enquanto ela ia em outra direção. Notando isso, Sirius se aproximou.
—Saf? – chamou – Não vai almoçar?
—Depois. Quero andar um pouco. – ela respondeu
—Se importaria… se eu fosse com você?
—Não. – Safira balançou a cabeça sorrindo com os olhos
Não andavam rápido, nem devagar.
—Sirius, sabe se tem algum treino de Quadribol agora?
—Acho que não. – ele respondeu – Geralmente não marcam treinos na hora do almoço.
—Ótimo.
A moça foi em direção ao campo de Quadribol e subiu na arquibancada da Grifinória. Uma vez lá em cima, ao chegarem à beirada do muro, começou a soprar um vento que fez os cabelos deles esvoaçarem.
Safira fechou os olhos se deliciando e respirou como há tempo não fazia. Certamente não era a mesma coisa… mas lembrava a brisa da praia perto de Avezzano batendo em seu rosto.
—Ah, como eu quero voltar para a Itália… — ela suspirou
Sirius sentiu um peso no estômago. Ela iria embora…
—Achei… que gostasse de Hogwarts… — ele falou hesitante
—Eu gosto.
Ela virou-se para ele e notou a alteração nos traços de seu rosto. A última coisa que queria era chateá-lo.
—Eu realmente gosto daqui. – garantiu – O castelo e as pessoas que encontrei nele são encantadores pra mim, — ela continuou, seus olhos transbordando sinceridade – apesar das circunstâncias que me trouxeram para cá. É que… — os olhos dela abaixaram e ficaram perdidos no horizonte – essas circunstâncias me sufocam todo dia, e a Itália foi o último lugar onde me senti livre. Desde setembro tenho de tomar cuidado até com cada palavra que digo… Sempre me escondendo. Por tantas vezes me senti uma intrusa, uma estranha, uma espécie de farsa. Vocês eram tão sinceros no que faziam, falavam, no jeito de serem. Eu posso ver isso. É claro que às vezes me engano, não sou legimente, mas no geral isso é visível pra mim. E eu não podia pagar na mesma moeda, não podia ser assim tão franca. Isso não é uma troca justa. Com toda honestidade, não me lembro de ter mentido para vocês, mas era tanto que tinha de omitir que era como se eu fosse outra pessoa.
—Não se sente mais assim?
—Há quase uma semana não. Vocês ficarem sabendo desse segredo, especialmente você, tirou uma parte do peso das minhas costas.
—Só uma parte?
—Não vou ter sossego até essa votação acabar.
—Vai voltar para a Itália quando acabar Hogwarts? – ele perguntou em um tom meio triste
—Vou. – ela respondeu
—Vai voltar a morar lá ou… ou só para visitar?
—Não sei… Começo a pensar em ir antes dos resultados dos N.I.E.M.s. Quando eles chegarem, vejo o que faço, quais opções tenho. – querendo de alguma forma se justificar, acrescentou – Tudo aconteceu tão rápido, a mudança pra cá foi tão repentina, não tive tempo de me despedir de nada, nem de ninguém… Eu preciso voltar.
Sirius não gostava da idéia de ela ir para tão longe, mas entendeu.
—Vai fazer falta quando for embora. – ele falou
Saf voltou a olhar para ele e sorriu discretamente.
—Obrigada por ser tão gentil… apesar de tudo.
—De verdade, você vai fazer falta.
Ela se aproximou e, ficando na ponta dos pés, o abraçou.
Quando se separou dele, o rapaz a viu olhando diretamente para seus olhos. Os olhos dela estavam de novo como se mais abertos… como no dia em que dançara com ele. Afinal o que significava aquilo? E, de novo, não durou muito. Uma ou duas piscadas depois, e tudo tinha voltado ao normal.
Ou quase… Tinha caído sobre os olhos dela um véu triste. Algo mais estava sendo escondido… Porém, tudo em Saf era discreto, e Sirius não pôde perceber isso.
… … … … … … … …
À tarde, durante a aula de Transfiguração, Saf alternava seus pensamentos entre Transfiguração Humana Avançada e Sirius. O que, diga-se de passagem, não era algo muito sensato. A matéria não era nada fácil e faltavam pouco mais de dois meses para os N.I.E.M.s. Por outro lado, não era como se ela pudesse evitar, para começo de conversa.
É crucial que se tenha muito claro na mente em que será a transformação… Droga, isso não era pra ter acontecido. Segurem as varinhas com firmeza… Como tinha deixado acontecer…?
—Professora?
—Sim, senhorita Knight?
—Poderia, por favor, repetir a última parte? Não consegui ouvir direito daqui de trás.
—Pois não. Eu dizia para girar e sacudir a varinha, tomando muito cuidado para não tremer no caminho.
—Obrigada, professora.
“Concentra, Safira, concentra.”, disse a si mesma.
No começo daquela noite, ela entrou no dormitório feminino contando estar sozinha e sentou em sua cama expirando com peso. Logo viu que tinha se enganado quando Lily saiu de um banho após o estágio na Ala Hospitalar.
—Saf, aconteceu alguma coisa? – a ruiva perguntou passando o pente na ponta nos cabelos molhados
—Por assim dizer. – ela respondeu
—Alguma coisa com seus pais?
—Não. – Saf chacoalhou a cabeça – Não tem nada a ver com toda aquela história que vocês ficaram sabendo outro dia.
—O que foi, então? – Lily sentou na ponta da cama – Se você puder, quiser contar…
Após uma pausa, Saf respondeu:
—Acho que estou gostando de alguém.
—E por que isso te deixa triste? A não ser que esteja gostando de Edgar Flint talvez?
—O quê? Não!
Lily riu seguida da amiga.
—Por favor, me interne se algum dia eu disser que gosto daquele sonserino atrevido e prepotente.
Lily não perguntaria quem era, e Saf percebeu isso.
—Sirius. – ela acabou por responder
A ruiva sorriu.
—Ainda não entendo por que isso te deixa triste.
—É que…
…
—Talvez… — Lílian não terminou a frase
—O quê?
—Pode não gostar de ouvir… — ela ponderou
—Pode falar.
—Talvez você esteja exagerando.
—Eu sei, Lily. – ela concordou – Mas com motivos.
—Eu sei.
—Vou só fingir que nada está acontecendo, – Saf se levantou prendendo os cabelos – e vai ficar tudo bem.
Não encontrando mais o que dizer, Lily apenas a viu pegar uma toalha, roupas e entrar no banho.
… … … … … … … …
Tarde daquela noite, restava apenas Lily no Salão Comunal. Como tantas vezes, tinha o caderno apoiado sobre os joelhos dobrados, o tinteiro aberto sobre o tapete em frente à lareira e a varinha iluminando o que escrevia.
Sentiu um beijo no alto da cabeça e alguém lhe disse:
—Boa noite.
—Oi, Tiago. – ela respondeu sorrindo quando o rapaz sentou a seu lado – Não consegue dormir?
—Não. E você, não está com sono?
—Ainda não.
Tiago sorriu.
—Lily, posso pedir uma coisa?
—O quê?
—Posso ler alguma coisa que você escreveu?
Ela demorou um pouco a responder avaliando o pedido.
—Só um trecho. – ele acrescentou
—Está bem. – ela acabou por responder e passou a folhear seu caderno
—Pensando bem, você leria um trecho pra mim? – ele perguntou
—Leria… mas qual a diferença?
—Quero ver mais de perto o que ouvi da sacada do seu quarto quando você contava histórias para sua prima. – ele respondeu em uma voz apaixonada
Lily chacoalhou a cabeça ainda folheando o caderno sem pressa.
—Tem esse. – ela falou parando em uma determinada página – Foi depois que saímos da sala de Dumbledore:
“Guardar um segredo de segurança… o quanto solitário isso pode ser? Esconder não só essa informação como qualquer outra que possa dar pistas para ela.
Carregar um peso que ninguém mais tem de carregar e ninguém pode ajudar a levar. Sendo a pessoa diferente do grupo e tendo de fingir que é como todos… despreocupada como todos, livre como todos…
Firme como uma carvalho, delicada como cristal. Carregando nos olhos essas duas características contrastantes e sendo a discrição em pessoa.”
Quando ela terminou de falar, Tiago se inclinou e a beijou.
—Lindo, como quem escreveu.
Lily abaixou a cabeça corando, tendo o rosto ainda próximo ao dele.
—Eu disse que vou pedir para você me contar histórias todos os dias… — disse ele passando o braço pelas costas dela e Lily apoiou a cabeça em seu ombro
—Hum, e eu posso escolher a história? – perguntou ela mirando algum ponto acima da lareira
—Pode, eu deixo. – ele brincou
—Vamos ver… Era uma vez uma poção que tinha sete ingredientes…
—Ah, Lily, essa não vale. – ele protestou
—Claro que vale. – disse levantando a cabeça para olhá-lo – Estamos cada vez mais perto dos N.I.E.M.s.
—Eu tinha pensado em alguma história menos… líquida. – ele falou
Lílian riu por um instante. Em seguida, com um sorriso discreto e com uma voz suave começou, mantendo os olhos fixos nos dele:
—Era uma vez encantadores olhos castanhos que conquistaram a confiança de... chamativos? olhos verdes…
—Doces.
—O que? – ela perguntou quase em um sussurro
—Doces olhos verdes. – ele falou com o rosto muito próximo ao dela e a beijou novamente
…
Apenas quando Lily insistiu no fato de que eles teriam aula no dia seguinte, cada um subiu para seu dormitório.
… … … … … … … …
Todavia, nem tudo estava tão bem… Maia andava mais quieta e pensativa nos últimos dias. Tinha ficado esgotada com sua última discussão com Guilherme. Por que tudo tinha ficado tão pesado? Por que mesmo que estivessem lado a lado estavam tão distantes?
Ana dizia que ela nem era mais a mesma… Supirou. Não era mesmo. O tempo todo com medo de falar ou fazer alguma coisa errada, constantemente chateada por uma briga…
Até que um dia, em um sábado à tarde, quando os dois conversavam em um corredor no primeiro andar, Guilherme repentinamente usou sua voz ríspida:
—Por que você está olhando atrás de mim?
—O quê? – fez Maia confusa
Os dois estavam de frente um para o outro e, cansada, a moça apenas desviara os olhos do rosto dele para o fim do corredor por um momento.
—Não é a primeira vez que você faz isso. – ele continuou – Está procurando alguém?
—Guilherme, chega disso! – disse ela com a voz dura, porém sem subir o tom de voz
—Eh? Por quê?
—Porque não existe. Não sei de onde você tira essas coisas.
—Você diz que não existe.
A fisionomia de Maia mudou. Guilherme insinuou que ela estaria mentindo?
—Estou exausta de discutir. – disse ela com a voz cansada – Talvez a gente devesse parar por aqui.
—É, vai dormir. – ele falou com a voz impaciente – Amanhã você vai estar mais calma e conseguimos conversar.
—Não. – ela respondeu em tom supostamente calmo – Todo dia é a mesma coisa, a brigas estão cada vez mais frequentes. Por que a gente não acaba por aqui? De uma vez?
—Por quê? Tem mais alguém nessa história?
—Não, não tem! – ela elevou o tom de voz – Abre os olhos! Se olhasse um pouquinho menos pra você, ia ver que eu ainda gosto de você, mas não aguento mais viver desse jeito. Pra mim chega. – ela abaixou a voz
—Você vai mudar de idéia.
—Ou não.
—Vai. E aí pode ser tarde.
—Boa tarde, Guilherme.
Maia queria chegar ao dormitório o mais rápido possível, queria chorar, desabafar, mas tinha um autocontrole impressionante. Saiu dali com o rosto impassível, sem andar mais rápido ou mais devagar.
Don't need you to tell me I'm pretty to make me feel beautiful
Don't need you to make me strong cuz I'm strong all on my own
Não preciso que me diga que eu sou bonita para que eu me sinta bonita
Não preciso que me faça forte, porque eu sou forte por mim mesma
Quando chegou ao dormitório, qualquer olhar minimamente atento perceberia que havia algo errado. Por isso, foi só Saf bater os olhos nela para perguntar preocupada:
—Maia, o que aconteceu?
A resposta dela foi apenas se jogar nos braços da amiga e começar a chorar.
Ana entrou em seguida e, levantando as sobrancelhas, perguntou com as mãos e os ombros o que tinha acontecido. Saf respondeu com o rosto que não sabia.
—Ei, o que foi? – Ana pos a mão nas costas dela
Maia se separou de Saf para responder triste:
—Terminei com Guilherme.
Pouco depois, Lice e Lily também estavam no dormitório e as quatro tentavam, de alguma forma, consolar, animar, ou o que fosse, embora nenhuma delas soubesse bem o que dizer. Até porque, apesar do sofrimento da amiga naquele momento, achavam que tinha sido melhor assim.
—Não vai resolver o problema, mas em situações assim, costumávamos tomar sorvete em Avezzano. Posso ir buscar na cozinha se quiser. O que acha, Maia?
—Ah, acho que não, obrigada.
—Claro que quer. – Ana a interrompeu – Você adora sorvete.
—Chocolate? – Saf perguntou
—Flocos. – Lily respondeu
—Saf, você sabe onde fica a cozinha? – Lice perguntou
—Não, mas Pedro estava lá embaixo quando subi. Ele com certeza sabe.
—Fica no primeiro andar. – Lily disse – Mas ele vai saber explicar melhor.
—Certo. – fez Saf – E não se preocupe, Maia, se alguém perguntar, digo que Ana está dando um tempo no regime.
—Nah, melhor pensar em outra desculpa, ninguém vai acreditar que parei um regime. – falou Ana
—Pode ir, Saf. – fez Lice – É uma desculpa absolutamente plausível. – Lice aumentou o tom de voz ao pronunciar a última palavra
—Hei! – Ana reclamou
Meio rindo, Safira saiu do dormitório e desceu para o Salão Comunal. Pedro ainda estava de fato ali… não só ele… Droga de coincidência. Sirius não podia estar, sei lá, pescando com a Lula Gigante naquele momento? Saf alternava seus pensamentos entre querer vê-lo e achar melhor não vê-lo…
—Oi, meninos. – cumprimentou – Pedro, sabe onde fica a cozinha?
—Claro.
—Pode me dizer como chegar?
—Posso. Sabe o corredor…
—Eu te levo até lá. – Sirius o interrompeu
—Ah, não precisa.
—Eu faço questão. – disse ele se levantado – É bem mais interessante visitar os elfos do que decorar ingredientes de poções.
Não tendo como recusar, Saf saiu pelo Buraco do Retrato na companhia dele, e os dois seguiram pelos corredores.
—Procurando alguma coisa específica na cozinha? – ele perguntou depois de um tempo
—Sorvete.
—Por que subitamente quis tomar sorvete? – ele estranhou
—Não é bem pra mim, na verdade.
—Pra quem é, então?
—Digamos que Ana está fazendo uma pausa do regime.
—Ana não faz regime de verdade. – ele argumentou
Saf fez uma pausa antes de responder:
—Você vai acabar sabendo cedo ou tarde, mas como não é sobre mim, eu me sentiria fazendo fofoca se te contasse.
—Justo. – ele meneou a cabeça.
Pouco depois paravam em frente a um quadro de frutas. Sirius fez cócegas na pêra e girou a maçaneta, indicando que Saf entrasse primeiro.
—Senhorita, Senhor Black, em que podemos ajudar? – falou a vozinha aguda de um elfo
—Poderia nos trazer sorvete de…? – falou Sirius
—Flocos, se possível. – Saf completou
—Claro, só um minuto. – e o elfo saiu de perto deles
—Os elfos o conhecem pelo nome? – Saf perguntou
—Bom, costumamos visitar a cozinha com alguma frequência… — ele respondeu
—Visivelmente.
—Será que… teria tempo para um pedaço de bolo de chocolate antes de voltar ao dormitório?
—Não posso. – ela falou com o coração mais rápido – Tenho de entregar o sorvete.
—Certo… Fica me devendo um bolo de chocolate, então.
—Está bem. – ela disse com um sorriso
—Aqui está, senhorita. – o elfo havia voltado e entregou um pote de sorvete à moça
—Muito obrigada. – ela respondeu gentil
Um pouco mais tarde, Maia pediria a Lice e Lily que contassem a notícia a Frank e os Marotos, evitando que ela precisasse tocar no assunto. As amigas assim o fizeram naquele mesmo dia.
De noite, sentada em sua cama, com o cortinado fechado e a varinha acesa, Lily escrevia:
“O coração é frágil. Por isso o protegemos com tanto vigor. Nós o abrimos tão raramente e porque significa tanto quando o fazemos. Alguns corações são mais raros do que outros, puros de certa forma, como cristal em um mundo de vidro. Até a maneira como se despedaçam é bonita.”
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