Meu James

1 Meu não tão querido aniversário


Notas iniciais
Teste número um.

Tudo bem.

É hoje.

Sete de novembro.

Meu aniversário.

- Pronto, filhinho?

- Claro que não, mãe. Por que não posso me mudar mesmo?

- Porque, meu caro, você já retardou esse momento o máximo e se você continuar calado, ele acabará se casando com outra pessoa.

O maldito – e já conhecido – gosto amargo subiu pela minha bile. Odeio quando ela me lembra disso.

- Eu sei, mãe, mas-

- E você sabe também quem é o primeiro da fila. – senti todo meu sangue fugir do meu rosto. – Decida se irá falar ou deixá-lo descobrir.

- Descobrir?

- Ele praticamente mora em casa, vai acabar sentindo teu cheiro. Não tinha pensado nisso?

- Sim, mas... Eu tentei esquecer isso.

- Bobinho. De qualquer forma, tenha um bom dia.

- Já?

- Vai se atrasar.

- O que?! – olhei para o relógio do carro e quase um infarto. Dei um rápido beijo no rosto de mamãe e sai correndo do carro.

Encontrei Lola me esperando na entrada do corredor, ela apenas me lançou um olhar “vou te espancar” antes de me puxar para a sala.

- Não é porque é teu aniversário que tu tem o direito de me fazer esperar. – Lola reclamou enquanto colocava o caderno em cima da mesa.

- Não era minha intenção, Lola Amor. – dei meu melhor sorriso fofo. – Fiquei conversando com minha mãe nem vi que ‘tava tarde.

- Humpf. Tudo bem, deixo essa passar. – no segundo seguinte senti uma cascata de fios loiros caindo na minha cara. Ah, sim. Era Lola me abraçando. – Meu bebezinho élfico ‘tá fazendo dezesseis anos! Acho que vou chorar. Vai encontrar o seu companheiro.

- O-obrigado, Lola. – senti suas mãos fazendo carinho na minha nuca. Era o instinto dela, afinal. – Você foi rápida demais, sabe que não pode fazer essas coisas perto de humanos.

Ela resmungou alguma coisa, não entendi e, francamente, acho melhor assim.

- Toma. – me jogou um embrulho quando voltou se sentar.

Sorri igual uma criança e abracei o embrulho, para logo depois rasgar o papel e dar de cara com um álbum branco com bordas prateadas.

- Lola? – a encarei, sem entender.

- Eu não sabia o que te dar, aí mexendo no computador encontrei várias fotos nossas e tive essa ideia.

- É perfeito! – abracei e fiquei folheando o álbum até o professor de literatura entrar.

As aulas foram entediantes, me separei de Lola na terceira aula, agora só nos veríamos no almoço.

Conheço Lola desde sempre. Não, não foi aquela onda nossas mães são amigas de infância e bláh, até porque Lola não tem mãe. Nos conhecemos em uma das chatas reuniões trimestrais, de cara Lola veio apertar minhas bochechas falando que eu era o elfo mais fofo da história. Logo depois descobri que ela era uma shifter leoa, por isso era tão “mãezona”, desde então viramos amigos, a ideia de estudar o colegial em uma escola comum partiu dela e eu? Achei o máximo.

Meu contato com os humanos sempre fora bem razoável, meu pai é médico de um hospital em que o dono é o alfa da matilha, entretanto o hospital atende tanto humanos quando criaturas, então acabei tendo certa convivência com eles.

Encontrei Lola tagarelando com Dylan na mesa do refeitório, como esperado eles já tinham comprado meu almoço. Dei o maior sorrido do estilo comercial de creme dental para os dois,a final, eles compraram comida pra mim e eu amo comida.

- É inacreditável o quanto tu come, Lucca. – Dylan resmungou enquanto brincava com a salada do seu prato.

- ‘Tá reclamando só porque eu sou magro e tu é gordo. – respondi enquanto comia meu segundo burrito. Dylan franziu as sobrancelhas, mas não rebateu, sua atenção foi totalmente sugada para Thalia que acabava de se sentar em uma mesa na nossa frente.

Thalia Richards era uma garota alta e esbelta, com cabelos ruivos sedosos e brilhantes, olhos verdes encantadores e brincalhões. Um ano mais velha que nós três, aluna mediana e uma das líderes de torcida. Shifter lobo, transformarva-se em uma loba elegante de pêlos acobreados

Eu a odiava.

Motivo?

Seu amor platônico pelo meu – ainda não declarado e oficializado – James Richards.

Mesmo sobrenome. Ironia? Quem dera, a ruiva é prima de James.

Maldita incestuosa.

Não que nosso mundo isso tenha algum problema, mas para mim tem sim porque James é meu companheiro (apesar do mesmo ainda não saber).

Inconscientemente apertei o talher com mais força ao notar um maldito colar dourado com um pingente “J”. Lola me lançou um olhar receoso e voltou a tagarelar sobre qualquer assunto. Apenas Lola e minha mãe sabiam de James.

E, droga, Thalia me fez lembrar dele.

Não é que eu não goste de pensar em James, ao contrário, entretanto hoje é justamente meu aniversário de dezesseis anos, portanto é quando meu cheiro vai começar a ser exalado para o meu companheiro predestinado e então ele vai descobrir, e eu não faço ideia da sua reação. Morro de medo. Não só dele, mas do meu irmão também.

Cole é melhor amigo de James desde sempre e apaixonado pelo mesmo desde sempre, eu acho. Todo mundo sabe que os dois tem um tipo de caso, nada realmente sério, porém meu irmão é perdidamente apaixonado pelo filho do alfa.

Outra coisa. James é o filho mais velho do alfa da nossa matilha, Antony, consequentemente será o novo alfa. É, sou um elfo, herdei esse lado da minha adorável mãezinha, Felicity, no entanto meu pai, Eric, é um lobo e melhor amigo de Antony – ótimo –, por isso James e Cole são amigos desde que o universo foi feito.

Posso ter exagerado um pouco na última sentença.

Além disso, James faz o estilo de cara perfeito (outro motivo pelo qual o Lucca aqui está perdidamente apaixonado por ele). Bem, só na aparência ele já é a perfeição em forma de homem/shifter/lobo e aí só pra piorar tudo, é uma das pessoas mais gentis do mundo, absurdamente inteligente e completamente altruísta.

Viu? O genro que qualquer mãe pediu aos deuses.

E, por um acaso – ou trollagem das Parcas mesmo – vai ser o da minha mãe.

É claro, se ele me aceitar.

Resumindo tudo isso: sou completamente e perdidamente apaixonado pelo moreno mais perfeito do mundo – futuro alfa, gênio e também meu companheiro predestinado – pelo qual mais da metade da cidade – inclusive meu irmão mais velho – também são completamente e perdidamente apaixonados.

Todo garoto sonha com isso.

- Lucca.

- Lucca.

- Acho que deu pane.

- Dylan, ele não é um dos teus jogos.

- Eu ‘to ouvindo tudo isso. – resmunguei, mexendo com o canudo o refrigerante do meu copo. – E que merda é essa, Lola?! – tive um pequeno ataque de pânico ao notar a caneta fluorescente no meu ouvido.

- ‘Tava tentando chamar a tua atenção. – deu de ombros como se fosse a coisa mais normal do mundo. Só não contestei porque gosto de preservar minha integridade física e o brilho homicida que faiscava naqueles enormes olhos amarelos dizia o contrário. Lola odiava ser ignorada ou contestada. E eu já fiz o primeiro item. – Dylan ‘tava perguntando se vai ter alguma coisa na tua casa hoje.

- Mais especificamente, comida.

- Espero que não, pedi para mamãe não fazer nada. Sabe, não é nada demais, só dezesseis anos.

- Como assim?! São dezesseis anos! – Lola frisou ao máximo as palavras.

- Exatamente, não sou uma garota pra achar que dezesseis anos é... – fiz um movimento de brilhos com as mãos, arrancando risadas.

- Não é, mas parece. – Dylan cutucou minha franja.

- Eu não pareço uma garota! – reclamei com a boca cheia de comida.

- Não nos modos, pelo menos.

- Lola fala de boca cheia e ninguém reclama!

- Lola dá medo, tu não.

- Mas nós dois temos a mesma altura.

- Ela é alta acima da média pra uma garota e a tua altura é média pra um garoto. – Dylan explicou calmamente, como se eu fosse uma criança.

- E tu tem covinhas, Lucca, deixa tudo mais fofo. – Lola opinou arrumando meu gorro escuro.

- Isso é totalmente injusto. – choraminguei, tomando mais refrigerante. – Acabei.

- Agora podemos ir. – Dylan levantou, equilibrando as três bandejas.

- Pra onde?

- História com o Sr. Jackson. Francamente, Lucca, ‘cê ta com a cabeça onde?

- O correto, meu caro Dylan, seria em quem. – Lola, como a boa amiga que é, alfinetou minha insegurança.

- Como assim, Lucca?! Como é que tu não me conta que ta apaixonado?! Tenho que ter uma conversa com o cara, porra. – Dylan acha que é meu irmão mais velho.

Ah, Cole...

- Primeiro, como tu sabe que é um cara? Segundo, calma aí, big brother. Terceiro, Lola é uma fofoqueira. Quarto, tu não vai conversar com ninguém. – enumerei com uma mão e com a outra puxei a orelha da loira que cantarolava no meu lado.

- Quanta agressividade, Luc. – a dita minha melhor amiga choramingou arrumando um dos milhares de piercings da orelha.

- Só com quem merece, gatinha. – paramos nos armários para resgatar o livro de história.

- Ei! Não venha tentando me enrolar! – Dylan se indignou quando tentei resmungar algo sobre amigas fofoqueiras.

- Nunca tentei. – sorri sem graça, me arrastando pelos corredores.

- Claro, claro. De qualquer forma... primeiro, é claro que é um garoto, fala sério! Preciso nem responder. Segundo, estou bastante calmo, obrigado por perguntar. Terceiro, Lola só gosta de repassar informações, todo mundo precisa de amigas assim. Quarto, é claro que eu tenho que conversar com esse cara aê’, ele não pode chegar com todas as liberdades pra cima de ti.

- ‘Tá mais pra o Lucca querendo liberdade pra cima do J-

- Lola! Resolveu que não quer mais viver, foi?! – provavelmente chamei a atenção de todos no corredor, odeio atenção, porém era melhor que a Lola dar com a língua nos dentes pra o Dylan.

- Foi mal, Luc. – pela primeira vez a loira pareceu realmente envergonhada. Fiquei contente com isso.

- Depois conversamos. E Dylan... esquece isso, daqui a pouco todos vão saber mesmo. – praticamente me joguei na cadeira, me encolhendo voltando a lembrar que James logo iria saber de tudo.

- Jackson entrando! – Julie, uma das garotas mais legais daqui, gritou ao entrar correndo na sala.

É, ela não é afim de James, por isso a acho legal.

- Hey, Jude, don’t be afraid. You were made to go out and get her. The minute you let her under your skin... - Lola cantarolou no meu lado, sem deixar de me mandar uma piscadinha. Sorri agradecido.

Pode parecer frescura, eu sei, mas... Tenho tanto mesmo do que James pode pensar de mim depois que descobrir, não conseguiria viver sem ele. Só de pensar na hipótese, já sentia como se meu mundo fosse ruir...

O sorriso dele é tão bonito... Só de ver, já alegra todo meu dia, já sinto que posso continuar essa vida.

James pode até ser o melhor amigo do meu irmão, mas ele também é meu amigo, do tipo que sempre lembra o aniversário e que ajuda na lição de casa, acho que ele me vê como um irmãozinho. Eu não o vejo como amigo-do-meu-irmão-mais-velho há muito tempo.

Ele tem a mesma idade que Cole, vinte e três anos. Com dezesseis ele exalou pela primeira vez e foi como se me desse um soco, fiquei tão desorientado que quando notei, eu estava no meu quarto com minha mãe me olhando atentamente, minha primeira reação foi choramingar o nome de James e sentir uma necessidade absurda de ir atrás dele – claro que com dez anos eu não tinha muita ideia do que era sentir o cheiro do seu companheiro. Mamãe teve que me dar um calmante pra depois me explicar tudo.

Me desesperei.

A ideia de James ser meu companheiro era quase ridícula. Não porque era ele, sim porque era eu, sou eu.

Não tenho nada que possa atraí-lo, não sou tão inteligente, nem tão bonito, nem gentil, não sou bom em esportes e sou desastrado. Tenho problema de vista, atualmente uso lentes. Minha pele é tão clara quanto a da minha mãe e isso, às vezes, me dá uma aparência melancólica, tenho sinais marrons espalhados por todo meu corpo e acho isso tão estranho. Como Dylan já frisou, não sou exatamente alto – um metro e setenta e pouco – e nem baixo o suficiente pra ser fofo, também não sou como a maioria dos ukes da matilha: corpo meio andrógeno, cabelos longos e esvoaçantes, e extremamente fofos.

Sou do tipo cópia-da-mãe-em-versão-masculina. Mas minha mãe é mais bonita, típico de uma elfa sangue-puro. Elfos (principalmente as mulheres) são uns dos seres mais belos que existe, portanto Felicity não poderia ser diferente.

Ela é alta, esbelta e esguia, delicada e elegante. Cabelos longos em uma tonalidade mel, com suaves mechas loiras, seus fios são tão lisos que nunca a vejo usar presilhas e caem delicadamente pela cintura de boneca. Talvez os olhos verdes-vivos chamem mais atenção que o cabelo, sempre bem traçados por um suave preto esfumaçado. Minha mãe envelheceu pouco – genética élfica –, por isso quando andamos juntos sempre acham que ela é minha irmã já que sou praticamente uma cópia dela.

Uma cópia menos bonita, é claro.

Me orgulho muito de ter herdado a aparência e a espécie da minha mãe, mas... Não acho que atraía meu companheiro, nunca vi indícios. Outro motivo da minha insegurança.

Realmente queria me esconder hoje. Passar o dia todo embaixo das cobertas, se possível. Só levantar pra receber o potinho de M&M’s – de amendoim e chocolate, lógico – que já é a tradição semanal estabelecida por James para mim.

Não gosto muito de doces, mas para M&M’s dou uma exceção. O motivo é claro.

Tudo começou dois meses depois que eu descobri que Jay era meu companheiro, ele continuava passando muito tempo em casa e eu tentava disfarçar – sem muito sucesso, as vezes, no entanto ele sempre foi meio lerdo pra notar essas coisa, então tudo bem. Vivia rondando-o quando Cole não estava por perto e vivia implicando com Cole quando ele não estava por perto. Em um dia – após escutar uma conversa que Jay gostava de doces – pedi pra mamãe me ensinar a fazes algumas coisas doces (sempre gostei de cozinhar e após dizer o motivo pra ela, mamãe concordou quase saltitante), então lá estava eu com dez anos tentando fazer uma cobertura pra um bolo de morango e chocolate que fizemos. Só que não encontrava a cobertura ideal, de alguma forma James soube e resolveu ajudar, apareceu com o pacote enorme de M&M’s coloridos e disse que ficava perfeito em uma cobertura, foi a primeira vez que comi o chocolate. Após isso, toda semana ganho um pote de M&M’s de Jay, aí ou assistimos alguma maratona de filmes/seriados/programas ou jogamos vídeo-game. Cole não gostava muito, mas mamãe sempre dava um jeito de mantê-lo afastado nesses dias, então tudo ficava bem.

Eu amava essa pequena tradição.

Olhei para o relógio na parede. Suspirei pela quinquagésima vez no dia, até tentei me distrair com alguém, mas todos estavam concentrados na aula – ou fingindo, não sei. Resolvi ficar rabiscando no caderno mesmo, não sou lá muito um desenhista muito, sei o básico, entretanto me orgulho em dizer que eles ficam reconhecíveis e quem já viu (Lola e mamãe) elogiaram. Estou me decidindo se tento desenhar em uma tela grande, esse tipo de desenho é difícil e eu não acho que tenha capacidade pra tal coisa.

Hum...

Tenho que comprar novos lápis coloridos, carvão e grafite. Um rombo na minha mesada, tenho certeza, principalmente porque vou ter que pedir pela internet.

Preguiça.

Muito preguiça.

- Isso foi automático? – Lola me cutucou, atraindo minha atenção.

- Isso o que? – olhei ao redor, tentando me situar depois de sair do meu estado vegetativo.

- O desenho, bocó. – apontou para o caderno que eu já havia jogado na mochila.

- Meio que sim, tu sabe minha admiração por luas, são fascinantes. Cadê o Dylan? Ele sempre espera a gente.

- Sei lá, deve ter ido comprar mais Coca-Cola. – deu de ombros, ajeitando o cachecol xadrez no pescoço.

- Esse vício ainda vai matá-lo. – lamentei, verificando as mensagens no meu celular. Acho impressionante como nessas datas, tipo aniversário, as mensagens se multiplicam de forma quase exponencialmente.

- Contanto que não seja no dia que ele irá nos dar carona.

- Você é o ser mais amável da cidade, loira.

- Alguém tinha que desbancar a Tamya. – fez referência à fada de olhos sonhadores que era cinco anos mais velha que nós.

- Porra! Pegou pesado, a Tamya?!

- Ela me traumatizou! Aqueles olhos enormes são bem atormentadores!

- Tu sabe que é porque ela mais vive no futuro que no presente. – tentei defender a morena, afinal, por ser vidente, ela sabe de tudo que ocorre na cidade e nunca conta nada que não tenha haver com ela. Inclusive ela já me ajudou, do jeito dela, obviamente.

- Estamos falando da mesma Tamya que tem a merda de olhos lilases enormes?! Aquilo é muito sinistro, principalmente quando ela sorri como se fossemos crianças.

- Mas para ela somos crianças, vai saber quantos anos ela ‘tá na nossa frente.

- Mesmo assim, ela é bizarra e ponto.

- Quem é bizarra? – Dylan perguntou, surgindo da puta que pariu e quase me matando do coração.

- Cacete, Dylan, não seja tão ninja assim! – eu era o único assustado, já que Lola deve ter ouvido os “passos de elefante” de Dylan há muito tempo.

Maldita audição aguçada.

- Da Tamya, uma garota lá da reserva/comunidade. – a loira explicou calmamente, omitindo tudo, já Dylan era um completo humano e viciado em jogos. – Vai rolar a carona?

- E quando não rola?

Saltitei até a porta traseira do carro prateado, me jogando no banco aproveitando os três lugares só pra mim.

- Acho uma injustiça tu ter um carro e eu não. – Lola resmungou assim que Dylan deu a partida.

- E eu acho uma injustiça tu morar em uma mansão e eu não. Aliás, tu mora em uma mansão, por que não tem um carro?

- Porque meus pais falaram que eu não tenho responsabilidade pra ter o carro que eu pedi.

Leões e sua mania de grandeza.

- E qual carro tu pediu?

- Um Audi ou uma BMW conversível vermelho.

Não disse?

- Caralho! Mas nem fudendo que um dia eu ganho um carro desses!

- Meu irmão tem uma moto muito da foda, talvez mais cara que um desses carros, então não vejo o porquê de eu não poder ter o carro que eu quero.

Lola é mimada, mas é uma boa amiga.

- Ricos e suas manias. – resmunguei.

- Ricos e suas manias. – Dylan concordou.

- Não sou rica, só bem de vida.

- Não é o cacete, tu só não é mais rica que os Richard’s.

- A casa da Lola é mais extravagante. – opinei, me encolhendo com o olhar fulminante da loira.

- Ah é, esqueci que tu tem passe livre por lá. – Dylan ironizou, dei de ombros, já que eu tenho mesmo, dona Cindy é um amor de pessoa. – Vocês têm uma vida boa pra caralho, eu que sou o mais fodido daqui.

- Mas tem um carro. – Lola e eu falamos ao mesmo tempo.

- Vagabundos. Hey, um dia vocês ainda vão dar um jeito de me dar um passe pra entrar na reserva, prometam.

- Bem... – comecei, sem saber como enrolar.

- Podemos tentar.

- Essa loira é a melhor! – Dylan apertou uma das bochechas de Lola, arrancando risadas de todos, claro que depois de receber um belo tapa dela.

A maioria dos seres sobrenaturais da cidade vive na Reserva, por isso a entrada de humanos é bem restrita. Dentro da reserva é como se funcionasse outra cidade, com leis e costumes bem diferentes, além disso é muito comum ver os seres nos seus estados naturais, não nos transformados, então seria bem estranho pra um humano ver fadas voando por aí, desviando de filhotes (que não possuem um bom controle por causa da idade, lógico) de várias espécies que ficam brincando o dia todo.

A Reserva é uma área imensa, onde dois quarto é apenas de floresta para nos dar privacidade, o resto é dividido entre as moradias, hospital, escolas e outras coisas. A maior casa é a do líder/alfa dos leões, mas a mais antiga é a do alfa dos lobos, já que antigamente só existia a matilha, por isso que para todos Antony é o líder e sua ordem é totalmente respeitada.

Vivemos em relativa paz, às vezes ocorrem algumas desavenças, porém são resolvidas. Não existe lugar perfeito, ‘né?

Pra mim existe um que chega bem perto. A cachoeira, não exatamente nela em si, mas em lugarzinho atrás dela que é totalmente relaxante e belo, somando com a parte de que aparentemente quase ninguém liga pra esse lugar. É uma parte da perfeição, ao menos pra mim.

Chegamos à entrada da reserva, acenamos para as sentinelas que acenaram de volta, olhando atentamente para o carro de Dylan que se afastava. Sentinelas era os “guardas” que ficavam na floresta escondido de qualquer visão humana, controlavam a entrada e saída do pessoal, é meio impossível passar por eles, já tentaram dar a volta, mas existem outras sentinelas ao longo da reserva. Estamos bem guardados.

- Hein, Lola, bem que tu podia me dar uma carona pra casa, ‘né?

- Nem fudendo que eu vou me transformar agora, muito menos pra te levar em casa, use essas pernas magras pra alguma coisa.

Lola e sua delicadeza.

- Porra! Nem no meu aniversário tu amolece, é foda, viu?

Também sou um amor de pessoa.

- Principalmente no teu aniversário. Pra tu aproveitar enquanto ainda pode andar sozinho, quando o Bonitão souber daqui, tu vai é ser carregado pra lá e pra cá.

Não me dê esperanças, vadia.

- Isso, claro, se ele não me der um pé na bunda, tu quis dizer.

- O que ele vai fazer contigo tem haver com a tua bunda, mas não necessariamente é um fora.

Ui.

- Eu realmente agradeceria se tu não voltasse a falar dessas coisas.

- Claro, claro. Espere até ele te pegar de jeito com aquelas mãos grandes e firmes. – Lola suspirou, enrolando uma mecha do cabelo no dedo.

Suspirei também.

Odeio quando ela fala essas coisas, por dois motivos simples. Um, imagino exatamente o que ela disse; dois, imagino Lola imaginando James fazendo essas coisas com ela.

Ciúmes estúpidos, sim. No entanto, não posso controlar.

James é meu.

Todo o meu instinto diz isso.

É meio que incontrolável, então...

- Isso doeu, seu viado. – Lola reclamou do puxão de orelha que recebeu de mim.

- Bem feito e foi tu que começou a graça, trate de ficar quietinha e talvez você saia ilesa.

- Você realmente é um psicopata ciumento, preciso avisar o Bonitão o quanto antes.

- Lola, tu que me foder mesmo, ‘né?

- Acho que o mais correto seria “Lola, tu não quer me deixar ser fodido, ‘né”?

- Que seja. Ainda estou correndo risco de ser rejeitado e pra me ajuda, tu ainda quer contar pra o outro lá que eu sou um possível psicopata ciumento.

- É a vida. E por falar em “vida”, já que estamos perto da tua casa, teu irmão cheiroso não quer me dar uma carona até a minha casa, não?

- Cole? Sei lá, entra e pergunta.

- A falta de uma transa deixa as pessoas amarguradas. – o tom usado foi tão filosófico que me deu vontade de dar outro puxão de orelha nela.

- Nunca fiz isso.

- O que piora a situação.

- Vai entrando, vai.

Praticamente arrastei a loira até a sala onde tinha certeza que iria encontrar Cole jogado no sofá.

Encontramos Cole jogado no sofá folheando uma revista de carros.

- Lola quer uma carona?

- Como tu acertou?

- Ela ‘tá me olhando com aquele olhar.

- Ah é, ela tem dessas coisas contigo.

Cole se levantou e sumiu da minha vista em um segundo. Shifters e sua velocidade, quanta injustiça.

- Consegui tua carona, agora “tchau”.

- Só não te faço de saco de pancadas porque teu irmão deve ‘tá me esperando na moto dele. E não esquece de me ligar depois, me contando de tudo.

- “Tudo” o que?

- Que acontecer hoje.

E lá estava seu costumeiro sorriso malicioso.

- Vai se fuder.

- Claro que eu vou, mas tu vai primeiro.

Ela correu antes que eu pudesse atirar o abajur nela.

Droga. Da próxima.

Com pensamentos homicidas relacionados a uma loira aí, rumei para o meu quarto. Minha cama continuava a mesma bagunça que eu deixei de manhã, no demais estava tudo na mais perfeita ordem. Joguei a mochila na cama e tirei o casaco e camisa, ficando só com a calça.

Hora de ver o que tem pra comer.

Na geladeira tinha a tradicional pizza de calabresa congelada, certo. Mamãe ou Cole reabasteceram o estoque de comida na casa, o que é ótimo, vou poder passar meu aniversário na maior gordice, tudo que pedi aos deuses. Peguei o maior pacote de batatinhas, duas fatias de pizza e chá gelado e voltei pra o meu quarto.

Hora de jogar Final Fantasy.

Depois de sei lá quantas horas, algum ser do além bateu na porta do meu quarto.

- Luc, tu ainda vai ter uma ataque cardíaco.

Ah, é o Cole.

- Com gente batendo na minha porta do nada, vou ter mesmo. – pausei o jogo.

Cole estava arrumado, com mesmo cabelo despenteado de sempre, mas com as costumeiras roupas de bad-boy, e ele só usava essas roupas quando ele ia sair.

- ‘To saindo. Vou fazer um trabalho da faculdade.

- E tu não sabia da existência desse trabalho, certo?

- Claro que não, me ligaram agora marcando tudo, mas volto pra o jantar, principalmente pra comer o bolo que mamãe encomendou.

- ‘Tá, ‘tá. Vou tentar não destruir a casa.

- Agradeceria muito.

E com isso, ele saiu do meu quarto.

Bem, vou ter a casa só pra mim pelo resto da tarde. O que vai resultar em uma Lucca jogando a tarde toda. E foi exatamente o que eu fiz, só parei quando mamãe chegou e me despachou para o banheiro.

De banho tomado e com roupa de ficar em casa, fui ajudar minha mãe na cozinha, lá estávamos nós preparando o jantar, com papai sentado na bancada lendo jornal quando a porta da frente foi aberta e por ela passou um Cole gargalhando e um James da mesma forma.

Puta que pariu.

James.

Notas finais
Bem, e aí? :O
Prevejo muitos erros de ortografia.
Que cês' acharam?
Posso continuar?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.