Meu Irmão Hugo
1 Capítulo 01
Encostei meu ouvido na porta branca, tentando ouvir algum ruído através dela.
Naqueles pequenos segundos ali encostada eu pensei seriamente no porquê de ter voltado para casa naquele verão. Claro que todos os meus amigos estão aqui, mas eu poderia ter ficado em qualquer outro lugar onde Hugo não estivesse. Às vezes ele me irritava a um ponto que eu queria enforca-lo. Mas então eu me lembrava que ele não tinha culpa de nada, e o remorso me consumia.
— Hugo? Hugo, você vai demorar? — indaguei pela sexta vez com mais uma batida na porta.
— Só mais vinte minutos. — respondeu ele. Tirei meu ouvido da porta, encarando a madeira branca como se ela tivesse dito algo imbecil.
— Vinte? Vinte minutos? Hugo, eu tenho que usar o banheiro também!
— Eu também tenho que usar o banheiro.
— Você já está ai há dez minutos!
— Estou aqui há cinco minutos. Meu intestino precisa de dez minutos para funcionar, ainda falta cinco, preciso garantir que eu não vou precisar vir ao banheiro enquanto termino de ler O Mundo Assombrado pelos Demônios de Carl Sagan.
— Então por que você precisa de vinte minutos? — surtei, batendo na porta mais uma vez. Me senti adolescente mais uma vez, desejando fortemente que meu irmão simplesmente explodisse em mil farelos. Ele e suas malditas manias.
— Eu ainda tenho que tomar banho, Rose, não posso evacuar e não tomar banho em seguida, é imundo. Eu faço isso todas as man...
Os primeiros trinta minutos da manhã, segundo Hugo.
Eu desperto exatamente as sete horas todos os dias, sem alarme. Em Hogwarts, eu conseguia regular meu organismo para despertar as seis, e em casa, eu consigo regulá-lo para as sete novamente. Primeiro, eu me situo, depois me levanto e vou até o banheiro. Preciso que meu estomago descarregue qualquer coisa do dia anterior em dez minutos, em seguida, tomo um banho desinfetante de vinte minutos, sendo que dez minutos são reservados para a massagem capilar. Com a torneira desligada, óbvio.
Meu irmão Hugo tem autismo, e está há sete minutos trancado no banheiro.
Monsters Under The Bed – Eugene McGuinness
Respirei fundo, fechando os olhos. Marchei em direção da suíte de meus pais, sentindo vontade de socar algo. Tranquei o banheiro e abri a torneira do chuveiro de forma violenta, tirando minhas roupas quase arrancando minha pele junto. Hugo tinha uma facilidade incrível em me irritar, ele conseguia fazer isso até mesmo com os olhos.
Uma expressão morta e monótona, como se você fosse o ser humano mais desinteressante do mundo.
A forma como ele une as sobrancelhas quando você explica para ele algum sentimento seu, desde um objeto a uma pessoa.
Como sua boca se retorce levemente quando algo sai de seu controle ou vista. A arrumação metódica de seu quarto e sua rotina intocável.
Eu sou de Aquário, eu odeio rotina.
Ele é de Capricórnio, e ele é autista.
Olhei-me no espelho, passando o delineador com cuidado, eu gostava de absolutamente tudo em mim. Lembro-me que em Hogwarts, todos diziam que Hugo e eu sequer éramos parecidos. E é verdade. Ele tem um cabelo acobreado, e a cor dos olhos de nossa avó, verdes. Seu cabelo é liso, o meu é crespo. Sou inundada de sardas e ele sequer tem uma pinta. Eu fui Grifinória, ele foi Corvinal.
Às vezes, eu me lembro de ver Hugo sozinho pelo Castelo, como na maior parte do tempo. E eu, que sempre fui muito sociável, rodeada de amigos, nunca o chamei para perto. Eu sei que é errado, mas eu tinha quinze anos e o ego inflado. Eu era bonita e popular, e Hugo era uma cruz que eu me negava a carregar.
Hogwarts, segundo Hugo
Hogwarts é um lugar completamente segregacionista, separar as pessoas por seus pontos fortes e ficar curioso por que há tanta rivalidade entre as casas é um claro sinal de ignorância dos criadores do colégio. E seguir por décadas regras criadas no século da pedra é ir contra a evolução. Mas gosto da definição de minha Casa.
Seu prato era metódico.
Duas torradas e meias, sempre com a mesma aparência. Um pequeno patê de alface para comer com os dois tomatezinhos cortados no meio e uma fatia de queijo simetricamente cortada. O copo de laranja nunca estava muito cheio, era um pouco acima da metade. Ele se senta e tem dificuldade em falar enquanto come, mas antes, sempre um “Bom dia, dormiram bem?”. Ele não está preocupado de verdade, você sabe disso pela voz.
Ele foi educado a falar isso, por mamãe.
Eu me lembro de cada processo de aprendizagem de Hugo. Um muito obrigada mesmo quando as pessoas estão fazendo nada mais que a obrigação. Com licença, porque não, as pessoas não entendem que devem ficar no lado esquerdo da escada rolante porque a direita é livre de passagem. Por favor, porque os garotos que pegam seus livros, rindo de você, não tem o nível de educação que você tem.
Não posso mentir, eu sinto pena de Hugo, apesar dele me irritar frequentemente. Deve ser horrível estar na mente dele.
— Para de me encarar, por favor. — pediu ele. Desviei os olhos, culpada.
— Desculpe.
Ele parece incomodado com a minha presença, provavelmente se desacostumou comigo e agora eu sou “anormal”.
Anormal, segundo Hugo.
Tudo que está diferente, desde um objeto a uma pessoa. Por exemplo, tudo deve ser colocado no mesmo lugar sempre, não há motivos para mudanças, e se tiver, que haja um aviso prévio para que eu posso me preparar psicologicamente. Não convide pessoas para o jantar sem me avisar, eu não vou conseguir nem respirar em paz.
— Eu mataria por um sorvete. — comentei enquanto assistíamos TV, Hugo arregalou os olhos e virou a cabeça lentamente, chocado.
— Isso foi uma metáfora?
— Claro, você é louco?
— Bem, a sociedade diz que sim, mas os médicos dizem que minha condição não apresenta nenhum peri...
— Hugo, foi uma forma de falar, relaxa.
— Eu estou relaxado.
— Ok, então esquece.
— Bem, eu não iria levar essa conversa para a minha vida inteira de qualquer jeito...
— Porra, dá um tempo, Hugo!
— É impossível te dar tempo, eu não sou dono do tempo, ninguém é, tempo é relativo, acho que você quis dizer para eu te dar espaço, o que também não tem sentido já que estou a um metro e meio de distância de você. Entretanto, acho que você quis dizer no sentido de te deixar em paz, o que significa que eu estou te perturbando. — eu não conseguia nem piscar. Eu me esquecia que era impossível falar qualquer coisa no sentido figurado perto de Hugo. Ele era incapaz de entender qualquer coisa literal, você sempre tinha que ser muito claro e direto com ele. Nunca entende sinais, não sente o ar pesado quando ele toca em assuntos desconfortáveis, não compreende ironia e nem sarcasmo. É impossível lidar com ele. — Não gosto quando você fala coisas fora do sentido real.
— Então você não gosta de ninguém, Hugo, porque todos falam assim.
— Isso não é verdade. Mamãe e papai não falam como você. E eu gosto deles. E de vovó Weasley. E do Carl Sagan.
— Tanto faz.
Ele voltou a fitar a televisão, completamente imerso no documentário sobre a Ucrânia. Ele nunca colocava seus pés no sofá, sempre com a coluna ereta. Eu detestava seus all stars amarelos. Ele já teve quatro, quando desgasta, vai e compra outro, igual, nunca muda. Sempre com calças jeans azul claro, e camisetas neutras, sem nenhuma figura ou detalhe. No fim daquele verão, ele iria para a faculdade de Ciências... Me senti mal por ele não ter aproveitado a juventude como eu. Tantas festas, péssimas experiências e decisões, tantos amigos e memórias... Ele não tem nada disso para levar.
— Hugo... Você não tem amigos?
— Tenho, a doutora Fitzgerald é minha amiga. E papai e mamãe. E você.
— Sim, mas além de nós, sua família e a doutora Fitzgerald... Sabe, de Hogwarts e tudo mais.
— Não.
Desviei o olhar.
— Você está triste? Suas sobrancelhas mudaram de posição.
— Não.
Pessoas, segundo Hugo.
Eu não consigo entender porque as pessoas se negam a falar o que estão sentindo. Ou porque expressam-se por figura corporal na esperança de que a outra pessoa interprete. É injusto com os imperfeitos. Os autistas, os cegos, os sociopatas. Se dissessem o que sentem, o mundo seria incrivelmente mais fácil.
Quando frustrado, ou tranquilo, ou em qualquer estado, Hugo se enrola no cobertor que tem desde criança de uma forma que ele fique parecendo estar preso em um casulo. Coberto da cabeça aos pés, completamente imóvel e em silêncio. Isso o acalma. Ou nem sempre. Quantas vezes eu já ouvi Hugo chorar aos berros dentro do casulo, assustado demais com o mundo?
Eu também tenho medo do mundo, por exemplo:
Quando tem coisas para serem entregues em minha casa e eu tenho medo de abrir a porta.
Quando me encaram demais.
Quando preciso ir ao médico sozinha.
Isso é um problema de pessoas que foram mimadas pelos pais, o que foi o meu caso. Mas Hugo amadureceu e ficou independente. Mais do que eu, na verdade.
— Onde você vai? — questionei depois do almoço enquanto ele colocava uma mochila nas costas.
— Para a reunião de despedida do Roundview.
— Pensei que tivesse acabado a terapia.
— Eu terminei, mas mamãe achou que seria bom eu frequentar as atividades.
— E é legal?
— Não.
— Oh... Eu posso ir com você? — ele parou por um segundo, tentando entender o que eu tinha pedido. — Digo, te levar até lá...
— Eu sei o caminho, eu vou toda sexta.
— Sim, eu vou com você até lá porque é caminho da casa de Scorpius... E eu queria dar uma passada por lá.
— Entendi. — e então abriu a porta, indo sem me esperar.
— Hugo, eu preciso me arrumar, calma!
— Estou calmo, mas se eu te esperar, vou me atrasar. Eu não gosto de me atrasar.
— Que horas é a reunião?
— As quatro.
— São duas e meia agora!
— Eu sei, mas preciso chegar com trinta minutos de antecedência.
— Hugo, não se chega trinta minutos adiantado em uma festa.
— Por que não?
— Porque é... É tosco.
— Tosco, feito sem apuro ou refinamento; grosseiro, rústico. É grosseiro aparecer com antecedência?
Deus, dai-me paciência.
— Em festas sim. — eu preciso mentir para o bem dele.
— Ok.
Corri pelas escadas em direção do meu quarto, me arrumando o mais rápido possível. Observei Hugo rapidamente pela janela, imóvel, olhando para a porta principal aberta, como se eu fosse me teletransportar a qualquer minuto. Reprimi um sorriso colocando uma saia.
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