Meu Idiota
12 Meu consciente desaparece.
Notas iniciais

Eu estava no caos.
Via os quadros de infância ser esquecidos pelas pessoas e quase serem pisados, via o sofá da minha mãe sendo sujado e sentia que os vasos da vovó Feline ser quebrados.
E eu estava ali, parada, vendo minha casa no caos.
Pessoas se agarrando, bebidas e copos no chão, fumaça de sei lá fazendo um cheiro forte e meus olhos arderem e juro que vi uma calcinha voando.
Cadê Vector?
Bebendo na cozinha e contando piadas sem graça pro um povo desconhecidos.
Êvan?
Estava embriagado e fumando com seus amigos.
Morgan?
Sendo fudida por alguém.
Henrique...?
Desse eu não sabia, depois que o vi engolir uma bebida com cor verde sumiu.
E eu?
Nem eu sabia o que estava fazendo, todos me diziam pra beber, dar pt, ficar doidona mas uma parte do meu consciente me dizia pra ficar longe de todo mundo.
Por isso estava sentadinha, com uma saia preta curtíssima que estou até com vergonha de levantar e um salto que não sei usar direito, tirei aquelas armas e joguei longe, meu pé iria ser pisoteado mas prefiro do que calos.
—Gata, está tão caladinha... quero ouvir se você é caladinha assim na cama –disse um acéfalo que veio falar comigo, o encarei enojada pois senti o bafo de bebidas misturadas.
—Eu não sou caladinha mesmo... -falei no seu ouvido e ele sorriu- faço mais do tipo selvagem.
E o soquei, alguns riram outros me olharam assustados.
Saí da sala indo direto pro andar de cima, que me assustei ao chegar lá, aquilo parecia um puteiro.
Arregalei os olhos, nunca vi tanto peito e bunda como neste momento — mesmo quando peguei o celular do Êvan e encontrei fotos dos peitos das “amiguinhas” dele-, eu de algum modo, sou inocente neste quesito.
Tentei por minha atenção no chão sujo e com camisinhas usadas... Andei mais rápido até o último quarto, os dos meus pais.
Abri a porta com força não percebendo os seres que estão ali, nus.
Havia uma garota com silicone cavalgando no Henrique, minha boca estava com um O perfeito e meus olhos arregalados, saí do quarto de fininho com os sons dos gemidos altos da garota, perplexa.
Por que eu estava assim?
Eu sabia que Henrique Collis iria para cama com alguma garota qualquer.
Encarei a porta novamente e pisquei várias vezes os olhos, senti o bolso da saia vibrar e catei o celular.
Mamis Poderosa.
Arregalei os olhos e me joguei pra dentro do banheiro do corredor, o atendendo.
—Por que demorou pra atender, Verônica?—aquela voz de apreensão estava lá.
—Tava no vibrador — resmunguei e quando ela foi falar alguma coisa um gemido alto alguma umazinha soltou, minha mãe ficou em silencio por um tempo.
—O que foi isso?
—Televisão, sabe não tem muita coisa que presta nesses horários né? Televisão ta virando tanto má influencia — menti, e menti bonito.
—Meu Deus menina, tira disso— dona Amelia deve estar pensando que estou assistindo pornô, ri.
—Pronto, –revirei os olhos e me encarei no espelho, a maquiagem forte já estava saindo e o batom já se foi- ligou só pra me certificar?
—Liguei como toda a mãe ligaria se deixasse seus dois filhos malucos em casa sozinhos - ela realmente não deveria estar com boa impressão de tudo, e Amelia estava totalmente certa! Na primeira vez em anos que ela saí pra viajar, damos uma festa.
—Diz mamãe querida
—Já comeram? O número da pizzaria ta aí, e do restaurante Frances também, dos bombeiros está no bloco junto com da Policia, emergência e...
—SWAT, SHIELD, FBI, ONU, Marinha, governador... -continuei- já entendi mãe, qualquer coisa a máfia Russa também vem pra cá, tenho colegas lá.
—Não brinque com isso, Verônica!—me advertiu, minha mãe é paranoica, ouvi meu pai a chamando ao fundo- bem, não bote fogo na casa e não coma muita besteira, volto logo, beijo.
E desligou, olhei pro celular vendo desligar e dei risadinha saindo do banheiro quase correndo dentre o povo se agarrando, vários me xingaram, nem importei...que vão pro inferno.
O puteiro, ops casa, é minha!
Encostei-me na escada e encarei a minha sala de estar tomada, me senti deslocada.
—Quer uma bebida, mocinha? –perguntou o barmen sem camisa e com uma gravatinha no pescoço, coisas de Morgan.
—Er...aceito –entregou-me um dos copos florescentes da bandeja e sumiu dentre as pessoas.
Olhei pra bebida escura chamativa.
Refrigerante abençoado... Virei o copo sorrindo, bebidas dos deuses;
Cadê meu consciente agora?
***
A música eletrônica tocava como segunda batida na minha cabeça, me sentia leve como estivesse sonhando.
We're the one that makes tonight
Algumas pessoas ficam loucas, outras super animadas, grossas ou sinceras, acho que me encaixo no último... quando bebo fico muito sincera e linguaruda, eu me sentia entorpecida, como se meu corpo estivesse fervendo ou a garganta em chamas como algumas garotinhas da minha escola dizem que sentem quando bebem, eu me sentia como se estivesse balançando o velho balanço na casa da vovó no quintal; maravilhada e realizada, me sentia especial.
E a música tocava ao fundo me fazendo bater as pernas no chão e balançar a cabeça no ritmo da música.
We're under control
Dancei sem me preocupar, fui simpática com pessoas desconhecidas e sorria até demais.
Bebida faz pessoas mudarem.
Tentava fazer um passinho que uma garota me ensinou quando alguém me interrompeu.
—Está bem animada, Cherry Bomb— disse uma voz desconhecida, vinda do além.
—Johnny Depp é você? Veio me buscar pra irmos pro Caribe? –falei erguendo os braços.
—Não, Verônica — alguém me virou de frente e tentei focar a visão, Luis Miguel.
—Ah, o gato que eu acho que está me investigando, –balancei a cabeça confirmando minha fala- oi.
—Hã?
—Acho que você me persegue ou é agente, ou também de alguma máfia que está me espionando.
—E por que eu iria te seguir? –o agente feat espiador se fez de desentendido, sabe disfarçar, dei um risinho e falei no seu ouvido, como um segredo.
—Por causa do contrabando de queijo suíço...
—Você está bem, Verônica?
—Estou ótima, melhor impossível — falei alargando o sorriso e quase tropecei na pessoa ao meu lado.
—Por mais de seu estado, queria te chamar pra sair, — encarei o teto da minha casa, pareceu tão... legal? –Verônica?
—Hã?
—Queria te chamar pra sair!
—E por que não chama?
—Porque você não iria aceitar...
—Não mesmo.
Ele me olhou de boca aberta, meio perplexo, ri.
—É porque você ainda não me beijou, vai que eu não gosto e amanhã te soco, aproveite hoje.
—Eu vou.
E seus lábios se pressionaram nos meus suave, quero muito dizer que senti alguma coisa mas na verdade apenas fiquei entorpecida, assim como antes, a mesma coisa que beijar um travesseiro ou treinar na parede.
Ri entre o beijo imaginando eu beijando a parede do quarto, treinando beijo... acho que beijar uma bêbada não da certo.
Ainda mais sendo eu essa bêbada.
—Amanhã eu te busco na frente da praça, à tarde — e se distanciou, me deixando com a cabeça rodando, lábios dormentes e vontade de vomitar.
Foi quando percebi a pessoa do meu lado, que me encarava com cara de pamonha.
—A última vez que te vi beijando alguém foi o catarrento do Dylan na sexta série, eu estou muito... surpreso?
Palmas pra quem sabe que é o querido Henrique Collis.
Desfoquei o olhar dele e senti um bile na garganta.
E vomitei no chão mesmo, com várias pessoas me encarando com nojo mas não me importei, mesmo com o pé sujo de vomito, eu estava feliz.
—Venha Verônica, chega por hoje.
***
—Ta muita fria collisinho- falei manhosa enquanto o traidor tentava me tacar no chuveiro.
O banheiro estava uma zona, cheio de bexigas amarelas que o Êvan ficou insistindo em encher –oia o pensamento da pessoa- e com camisinhas no chão e calcinhas, me pergunto onde estão as donas delas e como não estão sentindo falta!
Eu tacava de vez em quando as bexigas da cara do Henrique e ria como uma demente, até ele me tacar na banheira.
—Verônica, você vai se sentir melhor e...
—Você vai entrar comigo?
—N-não, vai sujar minha roupa.
Olhei diabolicamente e o puxei pra dentro o fazendo escorregar e cair de bunda ao meu lado, sendo totalmente molhado.
—Ergh!
Olhou-me bravo e lembrei-me da primeira vez que brigamos, não gostei disso, pois naquele dia que prometi que odiaria ele sempre, só que eu não consegui odiá-lo naquele momento.
Então o abracei, com força e senti meu corpo esquentar de um modo que nem um beijo faria, tanto tempo que não abraçava alguém diferente... talvez era isso que eu precisava, um abraço.
—Porque você não trancou a porta?
—Eu não sei Verônica.
—Por que teve que ser no quarto dos meus pais e por que você não foi atrás?
Talvez a bebida realmente estivesse me afetando pra não poder conter minha língua.
—Sinto muito, Nica.
—Faz muito tempo que você não me chama de Nica...
—...Desde que você começou a me odiar.
—Desde que você me fez te odiar — corrigi fingindo de brava e taquei uma das bexigas em sua cara, me soltei do abraço rindo e entrei mais no chuveiro tacando também água na criatura perplexa do meu lado, que se recompôs e tacou sabonete na minha cara, quase escorreguei.
Se estivesse no meu estado normal teria o matado por isso.
Tecnicamente eu nem estaria numa banheira com Henrique Collis ou muito menos teria o abraçado.
Mas eu não estava então acho que era uma desculpa boa por tudo isso.
Não me lembraria mesmo dele ter esfregado meu cabelo, zoado comigo com as piadinhas ridículas que eu fazia e estar secando o meu cabelo. Muito menos de ter presenciado esse Henrique Collis de antigamente.
Estava atrás de mim enquanto eu sentava no balcão, olhando pro meu quarto lembrando-me da época que era cheio de ursinhos.
Difícil acreditar que Verônica Dafoe adorava ursos, revelações de uma bêbada.
—Depois de tanto tempo vendo seu cabelo vermelho até nem me lembro de como era antes...
—As vezes temos que nos desapegar das coisas, você do meu cabelo e eu do meu unicórnio.
—Aquele unicórnio ridículo verde que te dei? –Henrique me encava rindo, o unicórnio por mais que era desprovido da beleza eu o adorava, ele me deu quando tínhamos nove anos, o tinha encontrado na caixa de areia do parque e disse que era minha cara, faltava o olho esquerdo e a sua cor verde meio azulado desgastada e meio sujo, mas o bichinho era perfeito pra mim.
Até completar meus 13 anos e o jogar junto a uma caixa para doação a igreja, naquela época já odiava Henrique e a raiva foi transferida ao bichinho.
Bocejei e me deitei na cama tacando Henrique pra fora dela, por mais de bêbada meus instintos de minha cama eram altos.
—Mas eu ainda não terminei de secar!
—To com sono.
—Depois do seu bocejo de ter aberto tanto a boca que poderia sugar a galáxia não duvido nada que está.
Encarei o idiota do meu lado com sua expressão divertida e visualizei a lembrança do garotinho rabugento que implicava comigo, algumas coisas nunca mudam.
Virei de costas pra ele e fechei os olhos sentindo o sono vir.
—Sinto falta do unicórnio...
—Sinto falta do seu cabelo.
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