Meu Gringo Favorito

1 Amiga, a gente vai pra Brasília!


Notas iniciais
Como já dito no Disclaimer, pelamor, não me deixem no vácuo. Adooro interagir com os leitores! De resto, aproveitem a fic, muitas tretas estão por vir!

O.k., estou aqui para lhe contar como perdi a incrível oportunidade de viver um grande, exagerado e intenso amor. Na verdade, acho que nunca realmente saí da fase da paixão, porque essa bosta de sentimento não para de me aporrinhar dia após dia.
Sou Anastácia Dias, e sou portadora da síndrome de “tenho um nome de gente velha”, porque nenhuma criança de seis anos consegue falar Anastácia em perfeita dicção. Nem tão alta e nem tão baixa, nem tão esperta e nem tão burra, nem tão atraente e nem tão repulsiva, sou a famosa garota do meio: a irmã do meio, a aluna sentada na fila do meio, a pessoa que está sempre apagada na droga do meio da multidão. Nunca fui levada aos extremos, exceto quando o conheci. Ah, sim. Quando meus olhos cor de terra seca do Nordeste bateram naqueles olhos azuis tão limpinhos como o céu após chuva foi como se eu batesse de cabeça numa pilastra.
Tudo começou nas férias de julho, quando meus amigos de faculdade resolveram fazer uma viagem para Brasília. E aí você se pergunta: o que diabos se faz em Brasília? E eu te respondo: rachar os lábios e ficar com rinite. Mas me entenda, eu ainda estava no segundo período e louca para fazer uma merda, porque como já disse, sou a garota do meio, e garotas do meio não costumam ter histórias cabeludas para contar. Então lá fui eu para Brasília: arrumei minha mala de dois metros, montei meu kit anti-ressecamento, beijei a boca do meu namorado e prometi que eu ligaria todos os dias.
Ah sim, meu namorado: um doce de rapaz. Sabe aquele cara que vai comprar absorventes para você, esquenta a bucha para sua cólica e te leva para comer fondue? É ele. Lucas foi feito para casar, e todas as mulheres do planeta me dizem que eu tive uma sorte de loteria por encontra-lo. Eu acredito nelas.
Infelizmente Lucas não pôde me acompanhar porque:
1 – Ele é um menino trabalhador
2 – Eu queria fazer alguma merda, e quando digo merda não significa trair, apenas encher a cara e invadir uma propriedade particular vestida de joaninha, alguma coisa assim.
Fui para o aeroporto com a minha melhor amiga Karina, uma baixinha cearense bastante arretada. Chegando lá, fizemos o check-in e passamos para a fila do Raio-X, que milagrosamente não estava dando voltas quilométricas. Com isso, abri um sorriso de orelha a orelha para o funcionário que nos recebia, e ele disse:
“Nossa, que sorriso simpático. ”
“Obrigada!” – Agradeci naturalmente.
Saímos para a área de desembarque e não demorou muito para que eu notasse os olhares furtivos de Karina para mim.
“O que foi, Ka?”
“ Ele deu em cima de você.”
“Claro que não!”
“Deu sim.”
“Deu não.”
“Deuses, você é mesmo uma noiada!”
“Credo Karina, ele só me elogiou!”
“E te scanneou mais do que aquele Raio-X!”
“Nada a ver. Afinal, quem me secaria? Já dizia meu professor do Ensino Médio: quando estou de frente parece que estou de lado e quando estou de lado parece que já fui embora.”
“Vish, até parece.”
Dei uma olhadela discreta para trás, a fim de observar pela última vez o tal funcionário. Perdoem-me as feministas, mas depois de permanecer num relacionamento estável durante alguns anos, acabei ficando na carência da solteirice. Sou do tipo “preciso sim de um parceiro para me sentir bem”, então desde meus 14 anos sigo uma trajetória de emendar um namoro após outro. Nunca tive a fase de pegação nas baladinhas, nem de chorar em frente à TV com um pote de sorvete pensando em como gostaria de alguém para amar. Então, de vez em quando, gosto de me imaginar como uma solteira que desperta atração nos homens.
Mas só de vez em quando.
Embarcamos no avião e em questão de minutos Karina já estava desmaiada cantando sua doce sinfonia de roncos. Coloquei os fones de ouvido e me dispus a contemplar a janela, pensando no que aquela semana me reservaria. Eu queria ter as melhores recordações possíveis! Aquela viagem era a oportunidade de largar a garota do meio e virar uma garota de extremos.

Depois de algumas confusões com os portões de desembarque e bagagens, finalmente Karina e eu pegamos um táxi em direção ao hotel. O clima brasiliense estava nem um pouco convidativo: sol dos infernos e um ar seco que já estava murchando as plantinhas das praças.
“O hotel fica na asa sul, em frente ao lago...” Verifiquei no vouncher eletrônico.
“E por acaso tu viu se Brasília realmente parece um avião lá do alto? Porque eu não vi nada...”
“Nem eu.”
“Vish, até nisso os brasileiros são enganados. ”
Chegando ao hotel, levei uma boa surpresa: o lugar até que era luxuoso para uma diária de 120 reais por noite. Contava com piscina e deck molhado, refeitório com direito a vista para o belo lago sul e corredores amplos de granito. Karina e eu dividimos um quarto, com duas camas de solteiro e uma televisão de trinta polegadas. Era um cubículo apertado, com uma janela no canto onde só dava para ver um pedacinho do lago se inclinasse beem a cabeça para fora. Ao menos o banheiro pequeno tinha secador e espelho de aumento para aparar a minha monocelha.
“Eles estão chegando?” Perguntei a Karina, atirando-me na cama.
“Eles entraram no avião agora. Talvez no fim da tarde já estejam aqui”
“Então temos algumas horinhas de descanso.”
“É, vai descansando mermo, porque depois queridinha...” Ela soltou uma risada provocadora.
“Depois o quê? Ai Karina, eu falo que vou perder os limites mas me conheço: depois das onze já vou estar na cama mimindo. Não fui feita para ser vida louca”
“Iiiih Ananinha, deixa disso! Só sei que eu não volto para casa sem pegar um bofe.”
“Tá pensando em ficar com quem? O Bernardo? Augusto? ”
“Deus me livre, Ana. Esses cabras da faculdade não dá para engolir não! Quero mesmo é conhecer alguém novo, bonito, educado, seduzente...”
“Deixa disso, Karina! Sempre tá correndo atrás de um homem!”
“Fácil para você falar, né? Já tem seu boy te esperando em casa... quero ver ficar na seca por um ano que nem eu”
“Já faz um ano?!”
“É, querida! Tou doida para espanar essas teias de aranha!”
“Eu não sabia que fazia tanto tempo assim...”
“Pois faz. E agora vou tirar uma soneca, que a noite... aaah, a noite promete!”
E assim Karina tombou na cama feito uma pedra, dando continuidade aos seus roncos sincronizados que tomaram conta do cubículo. Foi quando descobri que dividir um quarto com ela foi um péssimo negócio. Lembrando da bela piscina e do sol de verão que fazia do lado de fora, coloquei um biquíni com saída de praia e desci para o térreo. Ao longe, já avistava a superfície lisinha da piscina me convidando para um mergulho. Atravessando o hall do hotel, deparei-me com várias pessoas que circulavam na recepção para fazer check-in. Meus ouvidos foram atraídos por uma língua estrangeira, que inicialmente eu não soube identificar. Como sempre fui levemente fascinada por outras nacionalidades, ergui o rosto em busca das pessoas que conversavam naquele idioma.
Bem, se eu pudesse voltar ao passado jamais teria erguido meu rosto, porque:
1 – Eu jamais descobriria quem ele é e isso nem faria falta na minha vida.
2 – Xeretar a conversa de gringos é inconveniente.
3 – Não teria me apaixonado à primeira vista.
Encostado na parede de granito, braços cruzados e a perna direita dobrada, os cabelos loiros bagunçados pelo vento de mormaço, ele virou o rosto no mesmo instante em que eu resolvi procurar por sua voz. Seus olhos azuis me atingiram em cheio, e eu fiquei hipnotizada por eles por algumas frações de segundo.
No entanto, tudo passou. Logo o cara ao seu lado falou outra coisa, e ele prosseguiu a conversa. Eu passei direto e fui para a piscina. Não fazíamos ideia de quem nós éramos, mas os nossos olhares já estavam conectados...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.