Meu Doce Clichê
1 Capítulo 1
Notas iniciais
O alarme do meu celular tocou. Não desliguei de imediato. A música que eu tinha escolhido era uma das minhas favoritas “911” da Ellise. Me espreguicei calmamente antes de me sentar. Por fim resolvi que já era hora de desligar o alarme.
— Sara! Levanta logo, eu já estou de saída! – Minha irmã Eliza gritava de algum lugar da casa. Não a respondi, apenas me levantei e segui para fora do quarto, indo direto ao banheiro. – Já transferi o dinheiro dessa semana pra sua poupança. – Ela surgiu no corredor. Estava linda... como sempre.
— Volta hoje? – Perguntei sentindo minha garganta arranhar.
— Não... O que tem? Está com a garganta inflamada? – Ela se aproximou rapidamente.
— Não é nada. – Desviei de suas mãos e entrei no banheiro. – Bom trabalho. – Desejei antes de fechar a porta.
Apenas ouvi seus passos se afastando.
Tomei meu banho sem muita pressa e me arrumei preguiçosamente.
Vesti uma calça de moletom cinza, a camisa do uniforme, calcei meu All Star preto e por fim amarrei o cabelo num coque meio frouxo.
— Linda como sempre. – Sorri de forma irônica pra minha imagem refletida no espelho do banheiro. Respirei fundo antes de sair.
Peguei minha mochila no quarto e quando vi a hora em meu celular apressei meus passos, não queria me atrasar no primeiro dia de aula do meu último ano do ensino médio... Certo?
Peguei uma das torradas que Eliza tinha deixado pronta pra mim e a engoli com a ajuda do suco de laranja que minha irmã tinha deixado em um copo para mim.
Assim que tranquei a porta de casa corri brevemente até o ponto de ônibus que chegou praticamente junto comigo.
Entrei e cumprimentei brevemente o motorista e o cobrador. Me sentei perto da porta e coloquei meus fones de ouvido dando play na minha playlist de sempre.
Quando o ônibus parou perto do colégio desci sem enrolar e comecei minha curta caminhada até o colégio, que não estava muito distante. Enquanto andava parei a música que tocava em meu celular e guardei-o junto com meu fone na mochila.
Assim que passei pelo portão caminhei direto e reto até o pátio principal que tinhas as escadas que levavam para cada bloco do colégio. Segui rumo ao bloco A, onde ficavam as turmas do ensino médio. Subi o primeiro lance de escada, o segundo e por fim o terceiro, onde ficava o terceiro ano.
Já na segunda porta do corredor vi meus dois melhores amigos conversando em frente a porta.
— Kelly, Miguel! – Chamei-os animada e ambos acenaram e sorriram pra mim.
— Está atrasada hoje. – Kelly comentou.
— Um milagre. – Miguel riu.
Entramos os três e nos sentamos em nossos lugares de costume. Nas três últimas carteiras ao lado da parede de onde pela janela ao lado podíamos ver o jardim de trás do colégio.
A sala já estava quase completa, e não demorou muito para que o professor de matemática, que também era o conselheiro da nossa turma, entrasse.
A aula começou animada, como era o primeiro dia daquele semestre tivemos um início suave, com apresentações e uma breve explicação do professor do que veríamos em sua matéria naquele semestre e o que ele esperava da turma, quando de repente a porta se abriu de uma vez e todos paramos para olhar.
Era ele.
Bernardo, o repetente.
Ninguém disse nada, ele apenas entrou e se sentou na única carteira vazia, a que estava ao meu lado.
O professor limpou a garganta e retomou sua aula.
Daquele momento até o intervalo tudo transcorreu perfeitamente bem.
— Por hoje é só. Amanhã continuamos. – O professor anunciou ao sair da sala após o sinal tocar.
— Qual a próxima aula? – Kelly questionou se espreguiçando enquanto levantava.
— Biologia. – Falei me levantando também. – Mas ela só vai ter um horário, depois teremos dois horários de educação física. – Fiz uma careta de desgosto, já que é a única matéria que eu tinha dificuldades, pois não sou muito atlética.
— Então vamos lanchar logo. – Miguel falou em meio a um suspiro.
Saíamos da sala conversando coisas aleatórias quando senti algo bater em minhas costas.
Parei e respirei fundo já imaginando quem estava me provocando.
Virei-me e vi a borracha que tinha me acertado ao lado de meu pé.
— Opa! Minha mão escorregou. – Heitor. Nenhuma surpresa. – Pode pegar pra mim, gracinha? – Travei a mandíbula com ódio e nem falei nada apenas me virei e continue meu caminho. – Ei. – Ele correu e me parou segurando meu pulso. – Eu te pedi para pegar minha borracha do chão. – Ele falou me puxando fazendo-me voltar.
— Por que você mesmo não pega? – De repente uma voz feminina surgiu por trás de Heitor que se virou contrariado.
— Fica fora disso Andressa.
— Quem “derrubou” a borracha foi você, e se teve o trabalho de ir até a Sara, pode muito bem se agachar e pegar a borracha. – Ela sorriu e Heitor resmungou algumas palavras.
— Pega você então!
— Aqui está. – Ela se agachou pegou a borracha e entregou nas mãos de Heitor que ficou ligeiramente irritado. O que o fez aperta ainda mais meu pulso.
— Me solta. – Sussurrei tentando puxar meu braço, mas ele só me olhou e não me soltou. – Me solta. – Falei um pouco mais alto.
— Quero um suco de laranja e torradas. – Disse antes de me soltar e caminhar para fora da sala sendo seguido por seu grupinho. Revirei os olhos e suspirei.
— Ele não cansa hein? – Andressa fez uma pergunta retorica negando com a cabeça.
— É seu primo, você o conhece bem. – Falei antes de sair e ir até meus amigos que me encaravam levemente assustados.
— Nossa. Essa foi a primeira do ano. – Miguel comentou. – O ano mal começou e ele já veio te atormentar.
— Ele gosta de aparecer. – Kelly disse revirando os olhos.
Descemos as escadas e caminhamos até a cantina ainda comentando sobre como Heitor era um babaca.
— Mas pela minha memória ele não foi sempre assim, certo? Quero dizer, ele por um tempo só se destacava por ser bonito e de família rica. – Miguel questionou duvidoso.
— Hum, é verdade. – Kelly concordou pensativa.
— De fato. – Concordei. – Isso começou quando estávamos no oitavo ano.
— Então por dois anos ele te tratou bem e depois virou um babaca? – Kelly perguntou. Nós três começamos a estudar juntos apenas a partir do oitavo ano, enquanto eu estive na mesma turma que Heitor e Andressa desde o sexto ano.
— Não exatamente. Durante o sexto e o sétimo, nós não éramos amigos, mas ele não me perturbava, aliás não perturbava ninguém. Mas no oitavo ano ele começou a fazer brincadeiras sem graça, a provocar e foi só aumentando, até chegar ao ponto em que estamos.
— Verdade. E no começo ele só fazia essas coisas com a Sara, depois de algum tempo ele começou a atormentar alguns alunos em especifico.
Paramos de falar sobre isso quando entramos na cantina.
Fomos até a fila para pegar os lanches.
— Você vai mesmo pegar o lanche dele? – Miguel questionou incrédulo quando me viu pedir por um suco de laranja e torradas.
— Se eu não levar vai ser pior depois. – Concordei pegando as coisas e pagando no caixa ao lado. – Eu volto já.
Dito isso caminhei para fora da cantina e fui para onde Heitor e seu grupinho sempre ficavam no intervalo, na quadra de esportes aberta.
Quando me aproximei da cerca ele me viu e levantou a mão fazendo sinal para eu me aproximar.
Suspirei cansada, e mesmo assim fui.
Ao parar em sua frente ele se levantou da arquibancada onde estava sentado e ficou na minha frente.
Detalhe, ele deve ter uns 1,80m e eu tenho exatos 1,60m. Ele é forte e eu sou um palito.
— Que demora. – Ele apenas disse ao pegar as coisas de minha mão. – O que vai ter pro almoço hoje? – Questionou voltando a sentar.
— Não sei. – Respondi brevemente antes de me virar e sair dali andando um pouco mais rápido.
— Pois veja antes de voltar para a sala! – Ele gritou quando eu já estava saindo da área da quadra.
Quando retornei para a cantina o sinal bateu anunciando o fim do intervalo.
— Uh! 15 minutos é muito pouco de intervalo. – Reclamei quando Miguel e Kelly se aproximaram.
— Verdade. Mas ainda dá tempo de lanchar se estiver com fome. – Kelly apontou para a área de venda que estava sem fila no momento.
— Não, vamos para a sala. A professora de biologia é paranoica com o horário. – Falei já caminhando de volta para nosso bloco.
A professora entrou segundos antes de nós, então apenas nos sentamos quietamente e logo ela fechou a porta e iniciou sua aula. Poucos minutos depois foi chegando os demais alunos, entre eles Heitor e seu grupinho.
Bernardo parecia nem ter saído da sala, estava adormecido em sua carteira.
Quando o sinal tocou indicando que aquela aula tinha acabado guardamos nosso material nas mochilas e aguardamos o professor e treinador entrar na sala.
O que não demorou.
— Bom vê-los novamente. – O professor sorriu animado, como sempre, ao nos cumprimentar do batente da porta mesmo. – Vamos?
Ele não precisou nem repetir para que a maioria dos alunos se levantasse rapidamente e começasse a sair da sala.
– Quadra descoberta pessoal! Vamos aproveitar o tempo bom. – Ele falou quando começamos a descer.
Nos sentamos nas arquibancadas e esperamos as instruções do professor.
— Como hoje é nossa primeira aula vamos começar com alongamentos. Todos de pé, formem um círculo ao meu redor. – Nos levantamos e fizemos como fora mandado.
Ele nos instruiu e mostrou o que devíamos fazer e depois o imitávamos.
— Agora que estão todos alongados vamos dividir a turma em quatro grupos. Dois grupos masculinos e dois femininos. Vamos jogar queimada. – Quando todos nos dividimos ele iniciou a partida dos meninos, primeiro. Que durou uns vinte minutos. Depois chamou as meninas.
Eu particularmente odeio queimada, pois meus reflexos são lentos e eu não tenho força. Como resultado a primeira queimada fui eu, só que foi uma bela duma bolada na minha cabeça, porque fui tentar desviar e tropecei e acabei acertando a bola com a cabeça e ainda por cima caindo.
Kelly me ajudou a levantar querendo rir, mas quando me levantei ela e os demais me olharam assustados e o professor veio correndo até mim.
— Sangue. – Kelly murmurou entre dentes. De repente senti minha cabeça rodando e tudo escurecendo.
E foi assim que desmaiei no meu primeiro dia de aula no terceiro ano do ensino médio.
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