Quando sai do aeroporto ,fiquei quase dez minutos tentando achar um táxi e quando achei foi difícil explicar o lugar que estava querendo ir, é difícil falar Grange Ave esse é o nome da rua do hotel que iria ficar inicialmente. O hotel era bem simples mas pelo valor da diária me saiu melhor que a encomenda, por assim dizer. Fiz o check-in e fui direto pro quarto, precisava urgentemente de um banho e esticar as pernas ,chegando ao quarto descobri que tinha banheira, fiquei vislumbrada, nunca imaginei que estaria em uma banheira de hotel em Toronto. Enchi a banheira com água bem quente peguei o celular e mandei mensagens primeiro para minha mãe, e depois para o meu namorado, submergi dentro da banheira e tentei apenas imaginar coisas boas que iriam acontecer agora e traçar planos. Primeira providencia que deveria tomar no dia seguinte seria arrumar um emprego, a segunda coisa seria comprar roupas de frio (ou talvez essa devesse ser a primeira?) e terceira e não menos importante achar um lugar onde pudesse fazer curso de inglês. Fiquei tanto tempo na banheira que quando sai meus dedos estavam enrugados e quase transparentes, me sequei e fui para a cama. Dormir tão profundamente que só acordei ás 12:00 horas do outro dia, vesti a melhor roupa que achei e fui correndo procurar trabalho, e logo precisei parar e comprar algo pra comer, encontrei um restaurante bonitinho no centro da cidade e desci que iria almoçar ali mesmo. Me sentei na mesa e fiz o pedido, por um certo tempo fiquei observando todos os outros clientes e a maioria não estavam almoçando e sim comendo lanches, me lembrei que brasileiros que gostam de arroz, feijão e carne no almoço. Algum tempo depois, veio meu tão aguardado almoço e estava como a cara ótima. Foi uma das melhores comidas que já havia comido, terminei de almoçar, paguei a conta e quando estava deixando o restaurante esbarrei em um cara, fiquei tão envergonhada que nem olhei pro rosto dele, apenas sussurrei um pedido de desculpas em português e notei que ele estava sorrindo. Acho que nunca irei esquecer aquele sorriso. Sai do restaurante correndo, só queria sair de lá e assim foi feito. Sai de lá e comecei a busca do emprego, depois de andar vários quarteirões e conversar com varias pessoas, voltei ao hotel sem nenhum emprego. Mas iria continuar a busca no dia seguinte, peguei o telefone e liguei pro mozão contando tudo que tinha visto neste segundo dia na cidade e todas as expectativas que havia criado. Quando desliguei o telefone fui pro banho de banheira (iria aproveitar esse momento sempre que pudesse), e quando o banho acabou fui direto pra cama mesmo sem jantar, estava muito cansada e antes de dormir ativei o despertador , não queria acordar meio dia novamente. Acordei no dia seguinte as 06:00 da manhã, escolhi uma roupa apresentável e tomei café e fui novamente em direção ao centro da cidade. Por sorte encontrei uma floricultura que estava contratando mesmo sem experiência, depois de conversar com a gerencia consegui a chance de fazer um teste, eu iria atender os clientes, fazer buques , balanço de vendas e fazer pedidos de novas mercadorias. Trabalharia de segunda a sábado, mas caso precisasse aos domingos também. Fiz o teste e passei, comecei trabalhar no mesmo dia e o uniforme ficou perfeito em mim, vestido florido com um pequeno avental verde, parecia que foi feito sob medida pra mim. Ainda teria muita coisa para aprender e lá se foi o primeiro dia de trabalho, voltando para o hotel vi que havia uma casa para alugar, foi sinal dos céus seria bem próximo do emprego, ou seja, sem gastos com passagens ou muito tempo presa no transito, anotei o numero do corretor e fui para o hotel. Como havia chovido durante o dia tinha varias poças de agua pela rua, foi justamente quando estava próxima de uma, passou um carro na poça e me encharcou, fiquei tão furiosa que comecei a xingar todos os palavrões que sabia em inglês e o carro parou, comecei a andar por medo do motorista fazer alguma coisa, o cara deu ré , na minha cabeça só repetia a palavra “Fudeo” . O carro parou próximo de mim, o motorista desceu com um agasalho e me entregou se desculpando, aceitei o casaco pois estava muito frio, ele perguntou se eu queria carona, sem pensar duas vezes disse que não. Ele então pediu o numero do meu telefone para poder pegar o casaco de volta, passei meu numero e fui embora com a sensação de que conhecia aquele cara, só não conseguia me lembra de onde. Aquele casaco tinha um cheiro maravilhoso, fui para o hotel, e chegando lá já havia mensagem do motorista que nem sabia o nome. O cara é chato mesmo. Nem li a mensagem dele direito e já respondi que amanhã iria na lavanderia e após isso lhe entregaria o casaco. Deixei o celular de lado, fui pro banho, que desta vez foi no chuveiro, e liguei pro mozão pra contar as novidades, durante a conversa percebi que quase não comi o dia todo. Liguei na recepção do hotel e pedi uma janta que não demorou a chegar no quarto. Jantei e fui dormir. Assim que acordei no dia seguinte já passei a mão nas roupas sujas e fui até a lavanderia, quando estava colocando as roupas na maquina, senti novamente o cheio do perfume daquele casaco, senti uma sensação muito esquisita, e comecei a imaginar varias possibilidades referente ao dono do casaco. Também me lembrei do sorriso do cara que esbarrei no restaurante, aquele sorriso era simplesmente maravilhoso. Afastei aqueles pensamentos quando o celular tocou, e era justamente o dono do casaco.

“Oi, tudo bem? Gostaria de marcar um lugar pra você devolver meu casaco”

Não sabia oque responder, aquele horário que estava na lavanderia era o único tempo livre e só me restavam dez minutos antes de ir pra floricultura, e eu ainda tinha que me encontrar com o corretor de imóveis. Olhei novamente pro celular e apenas respondi que poderíamos sim marcar de entregar o casaco. Sai correndo da lavanderia, e fui direto para o encontro com o corretor, sai de lá com o contrato de aluguel em mãos e cheguei cinco minutos atrasada no emprego. Foi um dia cansativo, mas conheci varias pessoas e historias engraçadas. Conheci um rapaz que iria pedir a namorada em casamento, um senhor que sempre compra margaridas para levar ao túmulo da esposa. Quando deu 19:00 horas fechamos a floricultura, finalmente acabou o sábado ,e teria um domingo calmo, um dia de descaço maravilhoso. Quando sai da loja tinha um cara parado e quando me viu, veio em minha direção.

“Olá, você ainda não me disse seu nome” – ele falou segurando o riso.

“Desculpe, eu te conheço?” – perguntei

“É difícil reconhecer sem o meu casaco”- ele disse

“Ah é você, mas eu não havia te falado onde eu trabalho e nem tínhamos combinado de você vir aqui”- disse áspera.

“eu não vi pelo casaco, queria te ver novamente e aproposito meu nome é Raul”

“meu nome é Natália, seu casaco esta na minha bolsa, só um minuto”

Quando fui pegar o casaco, ele sorriu, foi nesse minuto que percebi que o cara do restaurante e do carro que me ensopou outro dia eram a mesma pessoa. Não acreditei nisso, era praticamente impossível isso acontecer, e lá estava aquele sorriso maravilhoso bem na minha frente. Peguei o casaco e o entreguei .

“Acho que você não entendeu que não estou aqui pelo casaco” — ele disse quase que gargalhando.

“Não vejo outro motivo se não esse senhor Raul” – respondi de forma ríspida.

“Eu pensei que você iria gostar de conhecer a cidade, ou a brasileira já conhece todos os lugares da cidade? Quero te mostrar alguns lugares”. – ele olhou fixamente para o carro.

“Como você sabe que sou brasileira? Eu não tenho tempo para isso hoje, preciso ir para o hotel e ligar para o meu namorado. Quem sabe na próxima vez” disse agradecida enquanto saia de perto dele.

“Sei de varias coisas que você nem imagina, sábado que vem você ira jantar comigo e uns amigos quando sair do serviço” – ele gritou.

Eu apenas acenei com a mão e continuei andando.