\"\"

" — Um café por favor"

" — Açucar ou adoçante?"

" — Nenhum dos dois"

A garçonete arregalou um pouco os olhos, mas logo se recompôs.

" — Mais alguma coisa?"

" — Não, obrigado"

Era uma manhã fria, meus cabelos curtos não esquentavam meu pescoço. Eu estava cheia de blusas, em uma mesa, fria e de pedra, da lanchonete que ficava na esquina do meu prédio.

Tremendo de frio, era um inverno rigoroso, eu estava de cabeça baixa lendo meu livro de contos, "Me pergunto se é muito ingenuo da minha parte acreditar em conto de fadas e destino..."

O café chegou fumegando. Mesmo tendo-o assoprado, quemei minha lingua no primeiro gole. "Amargo e arisco esse café, e eu. É, também estou amarga, também estou arisca. Sou um café sem açucar. Mas, é, é assim, e tem de ser assim mesmo, só rezo por dias melhores". Coloquei o café do outro lado da mesa e encarei-o. "Não o quero. Duas 'coisas' amargas e ariscas... Não vai dar certo", foi a ultima coisa que passou a minha mente antes de algo pesado cair sobre mim.

Um garoto palido, de cabelos pretos arrepiados. Levantou num pulo, assustado.

"- Me perdoe madame, estou um pouco desatento", disse com uma voz de mel.

Foi a primeira vez que meu olhar cruzou com o seu.

"- Hm, ah. Tudo bem...", exalei meio mal-humorada.

Peguei meu livro que havia deixado na cadeira ao lado, abri-o e voltei a leitura. Com o canto do olho via que o garoto ainda estava de pé, parado ali ao meu lado, por olhar.

"- Ah, com licença."

Levantei os olhos.

" — O que foi?"

" — Não há mais mesas para sentar-me, eu poderia ficar na mesma que você?"

Olhei em volta. É. Todas as mesas ocupadas.

"Ah, claro. Esteja à vontade", e ele se sentou. Trocamos olhares, mas logo me esquivei para meu livro.

Não consegui mais me concentrar na leitura, simplesmente. Me sentia observada pelos olhos úmidos e verdes do garoto. Fechei o livro com força, numa pancada, fazendo um barulho estrondoso. E com a voz mais simpática que pude inventar...

" — Então, quantos anos você tem?", perguntei pois já não aguentava mais, precisava conversar.

Daí surgiu um papo legal, eu fiquei "risonha" logo, sendo um pouco mais amável com ele. Descobri que tinhamos quase a mesma idade, que o trabalho dele era próximo ao meu... Essas coisas. Quando ele me veio com:

" — Mas o que você tem? Está bem?"

" — Hã?"

" — Estava um tanto seca quando eu cheguei"

E o rumo da conversa mudou, comecei a falar das desilusões amorosas, problemas no trabalho, problemas com dinheiro... Ele também acabou por desabafar. Também estava como um adulto vazio.

Quando nos demos conta, os dois tinham perdido a hora do trabalho e meu café já estava frio. Sem dar grande importancia, pedimos a conta. Coloquei o livro dentro da bolsa, que coloquei no ombro. Ele passou um de seus braços em volta da minha cintura, e unimos nossas mãos livres para entrelaçar nossos dedos.

Chamamos um táxi.

Pra onde?

Pra onde não fosse vazio, onde não estivessemos sozinhos. Fomos ao além, ao futuro. Fomos construir felicidade.