Nós estavamos no porão de casa. Meus pais sempre imaginavam que nós estavam brincando de esconde-esconde, quando na verdade, eu e Emily estavamos sentados em cima de um baú velho, apenas conversando.

– Elly, — Eu a chamei – não quer brincar?

– Não precisamos brincar. Só estar com voce... É o suficiente, Nathan.

– Voce me chamou pelo nome... Ultimamente tem feito muito isso. – Apontei.

– Não me sinto confortavel, estar na sua casa e chama-lo de Nate. – Ela corou.

– Elly... Nós... Nós... -aguejei fortemente. — Somos namorados. Já tem duas semanas. Não vejo problemas em mechamar de Nate.

– Esta certo, Nate. – Emily disse, me fazendo sorrir, o que a deixou corada, olhando para baixo.

Nós ficamos em silencio. Estavamos um ao lado do outro. Ela colocou a mão dela sobre a borda do baú, entre a gente.

Eu comecei a suar e coloquei a minha mão sobre a dela. Ela me olhou e sorriu.

– É disso que eu preciso. Não de um apelido... – Ela olhou para baixo e sorriu.

– Entendo. – Eu disse.

Ouvimos alguém descendo as escadas. Como um reflexo nós retiramos as mãos e ficamos em pé, bem longe.

Era a mãe de Elly que vinha. A senhorita Margareth.

– Vamos lá fora crianças! Esta um dia lindo! – Ela sorriu para nós.

– Tia Math. – Eu falei.

– Sim, Nathan? – Ela sorriu para mim.

– Nós podemos lanchar agora? – Perguntei.

– Desculpe meninos. A tia esta de saida... Não vai dar tempo. Por que não vão na casa de sua mãe? Ela vai ficar contente de ve-los lá! – Ela disse. – Agora eu tenho que ir crianças. Até logo! – Tia Math deu meia volta e subiu as escadas.

Nós nos olhamos por um momento.

– Nate? – Ela me olhou fixamente. Eu não conseguia parar de olhar seus labios vermelhos.

– Sim?

Ela veio correndo até mim e me deu um abraço. Depois um beijo na bochecha.

– Feliz aniversario! – Exclamou feliz. – Tenho um presente pra voce!

– Ah, não precisa... – Tentei negar. Nunca gostei de aniversarios.

– Não, voce tem sido muito bom pra mim... Devemos comemorar seus nove anos. Agora temos a mesma idade!

– Claro... – Eu disse. – Tudo bem. Vamos ver então...

– Siga-me.

Nós fomos até um canto do porão.

– Espere. – Ela disse.

– O que foi?

– Tranque a porta. – Ela disse de costas para mim.

Eu a obedeci e a tranquei. Depois voltei para trás dela.

– Me ajude a empurra o baú. – Ela disse pegando uma lanterna que estava escondida no canto.

– Ok... – Disse com medo.

Nós empurramos o baú. Havia uma passagum ali.

– Antes de meu pai morrer... – Ela disse tristonha. – Ele me ajudou a construir um santuario... Um templo... Só meu.

– Então... Estamos sobre ele? – Presumi.

– Sim... Mas agora ele não será mais meu. Ele será o nosso ponto de encontro. E nós podemos construir uma segunda entrada... pela sua casa. Assim nos vemos sem que ninguém saiba...

– É uma boa ideia. – Sorri.

Ela finalmente abaixou e puxou a madeira, abrindo. Teriamos que descer algumas escadas.

– Vamos. – Elly pegou minha mão, me guiando para dentro.

Nós decemos as escadas escuras, apenas com a luz da lanterna. Finalmente chegamos a uma porta. Ela a desatrancou e apagou a lanterna, nos deixando no escuro. Depois abriu a porta, e nós entramos. Ela bateu a mão no interruptor e todo o lugar estava claro.

– Entre. – Ela disse me dando passagem.

Eu passei ao seu lado e ela trancou a porta novamente.

Olhei o lugar. Chão de madeira escura. Paredes roxas e moveis verdes. Haviam duas poltronas de um verde escuro, quase marrom. Um notbook se encontrava em uma mesa no canto. Um tapete cinza claro ficava em um outro canto, ele era peludinho e fofinho.

A aparencia do lugar era ótima.

– Esse lugar é nosso agora. – Ela sorriu sentando em uma das poltronas.

Depois de admirar o local por muito tempo Elly me olhou nos olhos.

– Gostou do lugar? Nós podemos redecorá-lo e tudo mais se quiser...

– Esta ótimo assim. – Sorri para ela.

– Venha. – Ela se levantou. – Tenho uma surpresa pra voce.

– Claro...

Eu a segui e ela foi até o canto onde havia o tapete. Ela o levantou em uma ponta e abriu mais uma pequena passagem e retirou um objeto de dentro dela. Me estendendo, e em seguida escondendo a passagem novamente.

– É pra voce. – Ela sorriu. Era um skate.

– Eu adorei. – Sorri aceitando o presente e o pegando em minhas mãos.

– Vamos dar uma volta. Voce tem que aprender a andar de skate, já que agora tem um! – Ela sorriu.

***

Nós já estavamos quase na frente de casa, quando eu levei outro tombo com o skate. Ela parou seu patinete e veio até mim.

– Esta tudo bem, Nate?

– Sim, Elly. Vamos pra casa. – Eu disse, levantando do chão.

***

Nós íamos nos encontrar no nosso templo novamente. Eu deveria estar praparado para ter uma conversa séria com ela. Fui até a casa dela, não queria ir para a passagem novamente.

– Nate? Não disse para nos encontrarmos... – Elly atendeu a porta de sua casa.

– Precisamos conversar Emily. Posso entrar?

– Pode...

– Sua mãe esta? – Perguntei entrando. Ela fechouporta.

– Não. Ela foi viajar. Estou sozinha por dois dias... – Ela disse. – Vamos ao meu quarto. Por favor.

Nós andamos pelo corredor e entramos na segunda porta.

– Do que quer falar, Nathan? – Ela foi rispida. – Pode sentar-se em minha cama.

– Eu... – Sentei. – Eu vou embora. Não seremos mais vizinhos Elly.

– Como?! – Ela se espantou.

– Minha mãe conseguiu uma proposta de emprego... Num estado bem distante daqui...

– Mas... Nós somos namorados! Mora comigo!

– Ninguém sabe disso Elly... Além do mais, eu sou menor de idade. E meus pais são meus responsaveis.

Vi as lagrimas escorrendo por seu rosto.

– Nate... Me prometa uma coisa...

– Qualquer coisa! – Tentei ser o mais gentil possivel com ela.

Ela se ajoelhou a minha frente.

– Quando voce for maior de idade, com seus dezoito anos... Terá um emprego. E aos dezenove anos terá juntado o suficiente para voltar aqui no seu aniversario e nós iremos nos casar.

– Casar?

– Sim. Prometa isso pra mim.

– Claro, Elly. Eu te amo. – Disse beijando sua testa. – Prometo voltar, daqui dez anos. – Sorri.

***

– Feliz aniversario, Nathan. – Meu chefe me disse, quando eu estava indo embora.

– Dezenove anos... – Bufei.

Fui embora do meu emprego ao meio dia. Voltei pra casa e peguei minhas malas. “Espere por mim, Elly”, pensei. Peguei o embarque do avião as tres horas, na tarde ensolarada.

***

Fui a minha antiga rua e toquei a campainha na casa de Elly. A mãe dela atendeu.

– Tia Math... – Sussurrei ao ve-la. – Eu vim ver Elly.

– Tia Math? – Ela se espantou. – Nathan! – Ela se lembrou.

– Sim... Dona Margareth. – Sorri.

– Sinto muito. – O rosto de tia Math estava palido.

– O que há?

– Elly esta no hospital.

– Como assim? O que houve com Emily?

– Ela sofreu um acidente grave, querido.

– Mas... Ela está se rcuperando, não é? – Tudo ficou silencioso. –Não é?! – Gritei aos prantos, chorando. – Tia Math! – Berrei.

– Nathan... Elly esta em coma...

Foi um choque para mim. Faltava algo sob meus pés... Talvez o chão.

***

Parei o Skate na frente do hospital. Olhei o edificil a minha frente.

– Elly...

Entrei correndo, largando o Skate. Fui ao quarto de Elly com a autorização da mãe dela. Abri a porta e entrei devagar.

Vi seu lindo rosto.. Seus cabelos, sobre o travesseiro branco. Elly... Suspirei.

Desde aquele dia, passei a visitá-la sempre. E escrever em um caderno, como se algum dia Elly fosse ler.

A enfermeira me conhecia de longe. E em uma tarde ela se aproximou de mim, enquanto escrevia em meu caderno.

– Há muitas coisas bonitas para escrever ai, todos os dias, Nathan?

– São apenas memorias, enfermeira Abby. – Sorri, olhando para a enfermeira de cabelos ruivos, meio ondulados, e pequenas pintinhas em seu rosto.

– Tudo bem então. – Ela sorriu. – Só vim lhe oferecer um copo de agua. – Ela estendeu o copo para mim.

– Ah, obrigado. Obrigado mesmo, enfermeira Abby. – Aceitei, pegando o copo.

Depois, escrevi mais em meu caderno.

“Elly, eu tenho esperanças de que voce acorde logo... Para que possamos nos casar. Como prometi.”

E depois, virei todo o caderno. E na ultima pagina, me desenhei com o copo na mão e a enfermeira Abby a minha frente. E como legenda coloquei: “A enfermeira, Abby, é uma boa moça. Agradeço a ela pelo apoio todos esses dias”.

Logo em seguida fechei o meu caderno.

***

Ainda era cedo. Mas senti uma grande energia em meu coração, que me mandava ir ao hospital.

Então eu fui. Mas quando entrei no quarto... Elly não estava lá. Então fui até Abby.

– Onde ela esta? – Perguntei, com esperanças de que, Elly, viesse correndo e pulasse em minhas costas.

– Sinto... Sinto muito Nathan. Elly esta sendo levada para o cemiterio, agora.

– Elly... Elly morreu?! – Eu cai de joelhos.

– Eu te diria para correr. Daqui pouco tempo voce nunca mais poderá ve-la...

– Obrigado, Abgail. – Eu a chamei pelo nome.

***

Finalmente cheguei ao local. Eles estavam levando o caixão branco para o seu buraco na terra.

– Esperem! – Eu gritei, correndo na direção do caixão.

– Quem é voce? – O homem que carregava o caixão fez uma cara feia. Tive a certeza de que ele não me deixaria olhá-la.

– Deixe-o se despedir. Ele tem mais direito do que qualquer um aqui... – Tia Math deu um passo a frente na multidão. – Ele foi muito bom para minha filha e também... Já foi namorado dela. Apesar dele achar que eu não sabia.

Foi um choque... Ela sabia o tempo todo.

– Esta bem... – O homem abriu o caixão.

Eu peguei uma aliança prata de meu bolso e oloquei no dedo de Elly. Depois coloquei uma igual ao meu dedo. E beijei-a na testa. Minhas lagrimas caíram sobre seu rosto sem vida.

E assim, eu cumpri a promessa. Nós nos casamos.

– Agora nós estamos casados Elly. – Eu beijei sua mão. – E eu sou um viuvo... – Tentei sorrir. – Durma bem.

Depois disso o homem fechou o caixão e o enterrou na terra umida. E eu nunca mais vi o belo rosto de Emily Stwart, mas sempre estivemos casados.