Meu Amável Vizinho
30 Capítulo Bônus
Notas iniciais
P.O.V. do Rafael.
Eu poderia estar agora abraçando a jujuba no sofá, comendo um prato de lasanha e assistindo Grimm. Poderia estar agora falando o quanto eu a amo, o quão feliz ela me faz só por existir, o quanto eu preciso dela para viver...
Eu poderia estar numa pista de skate ensinando-a a se equilibrar sem minha ajuda, jogando sorvete em seu rosto só para limpar com beijos depois... poderia até mesmo levá-la para as melhores festas da cidade e mostrar para os outros que ela é somente e exclusivamente minha e só minha.
Mas não posso. Não posso me dar o luxo de chamá-la de minha, não depois do que eu fiz, não depois de descobrir que somos irmãos.
Que ironia do destino, certo? Com tantas pessoas no mundo, com tantos amigos querendo até ser irmãos, ele vem jogar essa bomba na gente.
Imagina se de repente você descobre que uma marrentinha que entrou na sua vida, derreteu um iceberg que você chama de coração, te fez fazer loucuras por ela, fez você mudar toda sua vida só para ficar com ela, e quando vocês finalmente ficam juntos, são irmãos?
O que dói é saber que você nunca mais poderá beijá-la, nunca mais poderá olhar para ela com outros olhos, não poderá dizer o quão linda ela está, acordar todos os dias com ela ao seu lado, na sua cama. Construir uma vida com ela. Casar, ter filhos, netos... Tudo ao lado de uma só pessoa, a pessoa que você ama.
— Rafael? — Rodrigo me chama. — Cara, quer... conversar?
— Eu só... não consigo acreditar, sabe? Do nada minha mãe aparece e tudo na minha vida parece virar de cabeça para baixo.
— Então acha que seria melhor se ela nunca tivesse aparecido? — Perguntou.
— Não é isso, eu sempre quis ter um lado materno, eu nunca tive uma mãe ao meu lado, na verdade nunca tive minha família de verdade ao meu lado, eu estive sozinho por tanto tempo... Eu não sei como reagir.
— Eu entendo. E... a Jullia?
— Eu... a amo tanto...
— É meu amigo, eu disse que um dia você iria ceder. — Sorriu. — Não podia ser aquele garanhão para sempre.
— Eu não tinha que me preocupar com o amor antes.
— Falando em Jullia... você nunca me disse como gostou dela e tudo...
— Cara, que boiolagem.
— Falou o cara que estava chorando ontem. — Rebateu. — Deixa de viadagem e fala logo.
— Imbecil. — Revirei os olhos. — Escuta... acho que desde sempre. Eu só... não percebi antes. Desde quando eu a vi, eu sabia que ela era diferente. Ela não me deu seu número de telefone, não sussurrou no meu ouvido com as putas que passam por mim, não saiu colocando a mão onde não deve-
— Não, espera. — Gargalhou. — Colocar a mão onde não deve? Que porra é isso?!
— Cala a boca baitola! Enfim... ela me atraiu sem querer. Ela me fez gostar dela, porque era diferente. Ela é especial. E eu nunca, nunca senti algo tão forte por ninguém.
— E... você não falou de beleza. — Observou. — Finalmente Rafael.
— Ela é a garota mais linda que eu já vi em toda a minha vida. — Suspirei. — Finalmente o quê?
— Finamente alguém derreteu esse iceberg amigo.
Seu celular começou a tocar e ele foi para a cozinha atender, provavelmente é a Bianca.
Falando em celular...
— Alô?
— Rafael?
— Sim?
— Aqui é o Harry Clarck, pai da Jullia.
— Olá senhor Clarck, como vai?
— Bem, espero que também esteja. Bom, o motivo para eu ter ligado, é que eu quero que converse com a minha filha. Ela está muito agressiva depois daquilo, acho que ela precisa conversar com o irmão.
Irmão... é difícil admitir em voz alta, mas é a verdade, somos irmãos agora, e preciso encarar isso. Não posso simplesmente fingir que nada aconteceu.
— Claro, vou conversar com ela sim, pode me dizer onde ela está?
— Ela está com o Johnathan, não sei onde ele mora, mas pode ligar para ela.
— Não acho que ela vá atender...
— Garanto que ela vai, faça isso por mim, Rafael.
— Sim senhor.
— Tenha um bom dia, rapaz.
— O mesmo para o senhor.
Desliguei o celular e o joguei em um canto qualquer, suspirando.
Como ele quer que eu fale com ela? Como ele acha que isso vai melhorar alguma coisa? Por que ela me ouviria?
É muita coisa de uma só vez, não posso lidar com tudo isso, muito menos ela!
Posso parecer egoísta e sem sentimentos, mas eu queria que a Ashley nunca tivesse aparecido.
Quer saber? Vou ligar pra jujuba, vou conversar com ela, vamos esclarecer tudo e agir como verdadeiros irmãos. Se é assim que tem que ser, será!
— Worthy?
— Jullianna? — Não gosto de chamá-la assim, mas eu tenho, ou vou acabar tendo uma recaída. — Posso falar com você?
— Está fazendo isso-
— Pessoalmente. — Suspirei. — Quero conversar, por favor.
— Tudo bem, eu vou pro seu apartamento.
— Nosso. — Corrigi.
— Que seja.
E ela desligou na minha cara. Simples assim, desligou na minha cara como se eu fosse o babaca do Johnathan. Não, na verdade, se fosse ele, ela puxaria assunto e o trataria como o rei da pitanga azeda.
— Tá tudo bem aí? — Rodrigo apareceu novamente, com uma manga na boca.
— O pai dela me ligou, quer que eu converse com ela.
— E você...?
— Liguei para ela, e ela está vindo para cá.
— Essa é minha deixa?
— Sim, essa é sua deixa. Valeu por tudo.
— Eu sirvo pra isso mesmo. Enfim... tenta não agarrar a Jullia.
— Não vou “agarrar” a jujuba.
— Duvido que quando ela chegue aqui, você não a puxe e passe para os amassos, talvez até dê em cama-
— Sai daqui.
Novamente fiquei sozinho, aproveitei para dar uma arrumada no apartamento, queria mostrar que também sou responsável e capacitado de morar sozinho, mas de preferência com ela.
(...)
Depois de mais ou menos meia hora, ela chega, linda como sempre. Entrou no apartamento sem dizer uma palavra e se sentou no sofá, provavelmente me esperando dizer algo.
— Jullianna-
— Não me chame assim.
Sua voz estava diferente, não era aquela voz de anjo, doce, carinhosa... ela estava fria, rouca, como um sussurro. Ela tinha chorado, e muito, eu sabia disso, eu podia ver através de seus olhos azuis que ela estava sofrendo, não estava suportando aquilo.
— Como você está? — Perguntei, me aproximando.
— Como acha que eu estou?
Suspirei, sentando no sofá ao seu lado.
— Escuta... nenhum de nós está bem com isso e acho que devíamos aceitar, pode tornar as coisas mais fáceis.
— Quer dizer que para você não significou nada? Não foi nada? Você consegue simplesmente apagar tudo e recomeçar? Pois saiba que eu não. Eu não consigo olhar para você como um irmão, eu não posso esquecer tudo o que aconteceu entre nós e eu nunca vou conseguir ficar perto de você sem querer te beijar.
— Como agora? — Aproximei-me mais dela, mas o que vou fazer? Não consigo ficar longe dela. Não a vejo como uma irmã. — Escuta... eu tô pouco me lixando pra esse negócio de irmãos.
— Mas eu estou. — Se afastou, levantando do sofá. — Rafael, eu já cansei disso, se somos mesmo irmãos, temos que agir como tais.
— Eu sei. Tenho certeza que tanto para mim quanto para você, foi um choque ver a Ashley, mas como pode saber se ela é mesmo minha mãe? Eu passei a minha vida inteira achando que ela estava morta, como posso saber se ela não está mesmo?
— Rafael! Chega! Faz todo o sentido, não acha? Como ela inventaria toda essa história e ela simplesmente se encaixasse perfeitamente com as nossas? Não percebe o que está bem a sua frente?
— A única coisa que tem na minha frente é você, e eu não me importo com o que ela fala, eu posso não saber se ela é mesmo minha mãe, posso não saber o que vai acontecer depois, mas eu sei que eu te amo, e sei que eu quero você, e só você, foda-se se somos irmãos ou não, o que importa é o agora, amanhã a gente resolve, mas agora, é só você e eu.
Não sei por quê, mas por algum motivo, algo me impulsionou a beijá-la ali, naquele momento.
De começo ela ficou sem reação, mas depois foi se tranquilizando. Levei-a até o meu quarto, onde demos o primeiro beijo, onde tudo começou. E esta noite, eu estava disposto a fazê-la esquecer tudo, estava disposto a lutar por ela, disposto a amá-la cada vez mais.
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