Meu Amor Imortal 2 - O Legado
26 Capítulo 26 - PECADOS
Notas iniciais
Pecado. Palavra estranha e de tantos sentidos. O que é o pecado na verdade? Não! Eu não era de filosofar por ai, buscando entender o significado da vida, ou do mundo, não. Mas cansei de fazer perguntas que nunca eram respondidas com verdade. Aquela busca incessante por verdade estava me cansando. Tinha abandonado por algum tempo minha listinha de perguntas. As missões que Aro me incluíam, estavam ajudando quanto a isso. Eram tantas, em tantos lugares diferentes, que eu começava a me perguntar se não estávamos vivendo em guerra não declarada com vários clãs inimigos.
Mas mesmo entorpecido e cansado das perguntas sobre minha vida e minhas origens, os questionamentos morais estavam por toda parte da minha mente. “PECADO” o que é isso? Marcus por vezes me mostrou os livros religiosos das várias crenças humanas. Do judaísmo, budismo ao cristianismo. Todas as crenças humanas. A fé deles parecia algo sem sentido pra mim. E era uma via de contra mão. Já que por diversas vezes, eu tinha visto quanto cruéis os humanos podem ser... E os vampiros podem aumentar esse grau de maldade em vários níveis também. PECADOS? Ultimamente esta pergunta martelava muitas vezes na minha mente. Não queria voltar a Volterra esta noite. Nem tão pouco me sentia com vontade de voltar para o hotel onde Felix e eu estamos hospedados. A noite era quente e agradável na Espanha. Aquele parque à noite era agradável. Casais de namorados passeavam abraçados e sussurravam juras de amor em espanhol. A brisa que soprava era cálida e acolhedora. Sentei, observando os frágeis humanos presos em seu mundo. Alheios ao que os rodeia. Pensando o que fariam se descobrissem o que tem além deles, que não são o topo da cadeia alimentar. Ficariam apavorados, com certeza. O que tentariam fazer? Uma bomba nuclear sobre a Itália? Teriam que destruir meia Europa.
Era por isso que lutava? Por eles? Para que o segredo fosse mantido pelos vampiros? Para proteger sua raça? Que era qual mesmo?
Abaixei a cabeça, com meus braços sustentando ela. Me sentir deslocado era meu estado natural. Mas procurava compensar com as lutas e as batalhas. Matar, matar e matar todos aqueles recém-criados foi bom. Eu gostei. Mas quem eram eles? Quem os tinham transformados? Jane sabia. Aquela maldita sabia muito bem. A morte deles, na hora me pareceu o correto a fazer. Mas eram tantos. De onde saíram? E o que mais me perturbava. Quem tinham sido? Pai de alguém, marido, namorado, esposa ou mãe?
Droga! Isso é tão errado. Um pecado sim. Era isso! Não sei o que esta palavra significa para muitas pessoas, mas tinha acabado de encontrar o que ela significava pra mim. É errado transformar humanos em vampiros. É como romper um ciclo natural da natureza. O de nascer, crescer e morrer por fim. Nessa hora, uma menina loirinha correu atrás de uma bola vermelha, que seu irmão ou amigo tinha jogado para longe. Nunca tinha sentido inveja na minha curta vida. Mas ver aquela menina sorridente, me fez querer muito ser humano e ter isso. Uma família de verdade, com filhos e um carro barato na garagem de uma casa, com prestações a pagar. Envelhecer não era muito tentador, mas passar os anos ao lado de alguém que se ama, deve ser mais que compensador. Dormir todas as noites abraçado e aquecer aquela que se ama, é mais do que um homem pode pedir da vida. E se pudesse ter filhos... Sim, teria uns quatro ou mais, para terem uns aos outros e nunca se sentirem sozinhos como ele... Como ele. O que estou pensando?? Não vou ter filho algum. O que eles serão? Que humana resistiria a isso? A ter um filho seu, Lucian. Enlouqueceu? Aquilo não era minha vida. Nunca seria uma realidade pra mim. Daria o que, em troca para tal mulher? A morte, para trazer filhos seus à vida.
Mas que vidinha besta hem, Lucian? Terei que ficar com uma vampira fria o resto da vida? Sem nunca ver um descendente meu?
– Em que está pensando Lucian?
Aquela voz de criança má, vinha de trás de mim. Ela nunca saia à noite, ou ao dia. Não era dada a passeios, a não ser para caçar, ou alguma missão. E ali, não tinha nenhuma missão. Já tínhamos que estar indo rumo a Volterra aquela noite mesmo, e ela era disciplinada, como um cão castrado. Aquele anjo da morte. O que ainda fazia aqui? Olhei as crianças brincando à frente. Não! Ela não iria caçar na minha frente. Odeio isso.
– Não deveria estar dentro do jatinho voltando a Itália, ice kid?
Ela ignorou o meu apelido carinhoso. Me divertia, elaborando novos apelidos para ela. Ela era blond ice, doce do inferno, garota do Hell Boy, Hello Kit do mal, garota game over, versão vampira da Felícia, anjo gótico, poison Evil, smurfet do evil, comedora de almas, amante da dor. Realmente, a lista era bem extensa para ela.
Ela olhava os humanos ao redor, parando o olhar para as crianças brincando.
– Nem pense nisso, ragazza sanguinante.
– Não, obrigada! Eu já jantei hoje.
Ela disse, passando de leve a língua no canto da boca. Um pequeno tremor passou pela minha espinha. Adoraria desmembra-la, mas não podia. É irmã de Alec. Eu sempre tentava me lembrar disso toda vez que sentia minha mandíbula abrir, e o lobo rugia para ataca-la.
– Acha realmente que foi um convite?
Ela me olhou com seu olhar vermelho. E para minha surpresa, não se desviou como sempre fazia. Sustentou seu olhar frio de morte e sentou-se ao meu lado. Me senti imediatamente perturbado com sua presença congelante. Eu e ela ali, sentados no parque, em meio a humanos e muitos casais de namorados. Era uma visão muito distorcida do mundo. Como uma realidade paralela, ou vestir uma roupa ao contrário. Mas eu ia me divertir um pouco com a situação que ela mesma criara. Me estiquei todo, abrindo os braços e mantendo um dos braços bem atrás do banco onde ela estava. E lá estava ela. Seu corpo se endureceu mais ainda pela tensão. Era uma pedra que foi esculpida. Seu olhar ficou firme e preso à frente. Seu cheiro adocicado, ficou mais acentuado e forte, o que me fez tremer. Como sempre acontecia quando o cheiro do vampiro se acentuava. Era uma reação biológica, eu acho.
– Jane, estou curioso com você. Sempre me parece nervosa quando está muito próxima de mim. É uma atração fatal, ou seu instinto assassino reprimido?
Ela se manteve firme, e isso era bem admirável nela. Fria, fria....
– Seu cheiro de cachorro imundo me incomoda. Mais que a qualquer um.
Com essas palavras tão gentis, eu tive que me aproximar mais dela.
– Sério? Estranho! Não é o que me parece. Sinto que perturbo você mais que gostaria.
Seu corpo cedeu, e eu notei que ela me olhava e seu lábios se abriram levemente. Eu achei que viria mais um de seus insultos mordazes, peculiares. Mas sua voz saiu como se fosse um falar profético e com a clareza de um recado em um post it
– Não faça isso! Não faça o que fez no acampamento, nunca mais Lucian. Se não, juro por tudo nesta Terra que mato você.
E era uma aviso claro, sem emoção na voz. Um recado deixado na porta da geladeira, mas pregado com uma faca, em vez de imãs coloridos.
– O que eu fiz? Não fiz nada.
Sim! O ódio pode ser como jogar pólvora no fogo, e eu gosto do fogo mais que o gelo mais que frio, que vinha dela. O ódio que emanava de nós dois era venenoso e pungente. É crescente, como um fogo em uma clareira, que é alimentado por madeira seca.
– Sabe o que fez. Me julga uma tola, como as outras. Acha que fará comigo o que faz com elas? Acha que poderá sobreviver a mim, caso me magoe? Por que acha isso Lucian? Por que acha que não tenho ninguém ao meu lado? Acha que eu não poderia ter? Que ninguém me quis?
Seus olhos vermelhos e frios eram perigosos. Agora, morte certa, seria o mais correto dizer. Conheci muitas vampiras em minhas aventuras. Muitas poderosas e belas, letais e loucas. Mas Jane é única! Sim, ela é algo como beijar a morte. É brincar com ela, como eu vinha fazendo. Era assinar uma sentença de morte, ou sacanear o barqueiro, dando a ele uma moeda falsa. Mas prudência nunca foi minha amiga. E o perigo é algo que me atrai, como cocaína ao viciado.
– Matou seu último amante. Um jovem rapaz, chamado Nicollai. É, Jane! Eu sei da história. Você o matou depois de tortura-lo por duas semanas. O que ele fez Jane? Outra mulher? Foi isso, não foi? Só pode ter sido isso. Ciúmes! Claro que foi.
Sorria divertido com a expressão de assombro dela. Esse era um assunto proibido nos corredores do castelo. Ela o tinha torturado por semanas com seu dom e foi desmembrando aos poucos, um membro por dia. Ateando fogo em sua frente. Depois disso, nunca mais nenhum vampiro brincou, ou se aventurou a cortejar Jane Volture.
– Não tem medo.
Ela falou. Não era uma pergunta. Ela me encarava com seus olhos de sangue furiosos.
– Posso mata-lo de diversas formas Lucian. Mesmo sem meu dom funcionar com você.
Sim, ela poderia. Na verdade, eu tive muita certeza disso naquela hora. Ela, entre todos os que eu conhecia, era uma que poderia realmente me matar, se eu desse a chance a ela.
– Sei que pode.
Minha voz saiu baixa, mas sei que ela ouviu muito bem. Seus olhos brilharam, com essa inesperada confirmação da minha parte. Me aproximei dela ainda mais, e ela tentou se levantar. Mas eu a detive, segurando-a pelo braço. Me aproximei muito. Muito mesmo de seu corpo frio, encostando meus lábios em seu pescoço e sussurrei a ela, bem devagar, para que entendesse.
– Mas nunca o fará. Não pode me matar, Jane.
Lambi seu pescoço de forma nada gentil, e continuei bem ali.
–Não poderia, porque eu a mataria, mesmo antes de você sequer tentasse.
Ela tremeu como sempre, da cabeça ao seu último fio de cabelo loiro e bem arrumado. Levantei inesperadamente, indo embora sem olhar pra trás, rumo ao hotel onde estávamos. Na cobertura, procurei por Felix, que não estava lá. Provavelmente está caçando na cidade. Tentei tirar essa imagem da minha mente, indo para o chuveiro. Saí. Foi um banho rápido. Me enfiei em uma calça de moletom e nada de camisa. Uma batida sutil na porta me fez desviar o caminho que eu tinha traçado até a cama. Parei indeciso, já sabendo quem estava do outro lado daquela porta. O que mais aquela assassina queria? Abri a porta aborrecido, e ela me encarou, parecendo petrificada.
– Já não tivemos muito um do outro Hello Kitt do mal?
Ela avançou pra dentro do quarto, me empurrando com sua pequena mão fria, verificando ao redor, como se confirmando que eu estava sozinho.
– Não deixou eu terminar o que fui falar com você na praça, Lucian.
Ela continuou, quando viu que eu não entendia o que falava.
– Me perguntou por que eu não parti ainda para a Italía.
Ela caminhou pelo quarto, parando em frente a uma mesa com um arranjo enorme e bem elaborado de rosas brancas. Se aproximou delas, cheirando uma profundamente.
– São minhas favoritas.
Isso, definitivamente, era uma surpresa.
– Rosas brancas?
– Sim! Rosas brancas, vermelhas... A cor realmente é irrelevante. Eu gosto, é da sua composição. Belas, mas tem suas defesas. Dizem, que pelo menos uma vez a cada vida de uma rosa, elas conseguem ferir alguém. Um simples e puro arranjo de vinte rosas arrancadas, pode ter ferido vinte vezes.
– Por isso gosta delas? Pela capacidade de ferir?
– Digamos se defender, Lucian. É a melhor colocação. Ferir primeiro. Ser o agressor em vez do agredido. Ser o que causa a dor, em vez da vítima. Gostaria mais de mim se eu fosse uma menininha doce? Alguém você precisasse salvar, Lucian?
Sacudi a cabeça. Aquela conversa estava ficando esquisita.
– O que quer, Jane?
Ela continuou a falar, quando viu que não pretendia responder a sua pergunta estranha.
– Aro me deu mais uma missão. Preciso de você.
– Então é por isso que ainda está aqui? Por que ele não me disse pessoalmente?
Ela me olhou de relance, analisando minha reação.
– Não é algo que ele tenha planejado. A informação chegou a ele há poucos dias, através de um informante.
– Do que se trata?
Ela passeava, rodopiando pela mesa. Seus olhos fixos no arranjo de flores. Cogitei a possibilidade de todas elas morrerem secas, com o olhar que ela lançava sobre as pobres rosas.
– O de sempre. Quebra das regras e todo este blá, blá, blá de sempre.
– Por que eu, e não Felix?
Ela me encarou, agora vindo para perto de mim.
– São vampiros espertos. Conhecem a mim e a Felix. Preciso de você...
Bem, aquela frase parecia ter um duplo sentido, e eu tive que rir disso.
– Claro que precisa, hell girl. Mas terá que pedir por favor.
Cruzei os braços esperando. Ela foi para o bar do quarto, olhando as garrafas, e parecia procurar por algo. Pegou duas e catou um copo, colocando gelo nele.
– O quê? Vai bancar minha gogo bar? Quero uma dancinha no balcão também. Eu pago. Sem problemas.
Ela me lançou um olhar frio, e continuou sua mistura de drinques. Terminou me estendendo o copo, sobre o balcão do bar.
– O que é?
– Beba e eu digo a você.
– Sem dancinha?
Ela apenas inclinou a cabeça, revirando os olhos, despreocupada.
– Bebi a coisa que rasgou minha goela como fogo. É algo mais. Era denso. Tenho certeza que derrubaria um homem forte, humano, com aquilo. Mas outro gole e outro, até o fim. Coloquei o copo no balcão e senti na minha barriga, uma fria e prazerosa sensação de relaxamento.
– Bom! É muito bom, na verdade. Vai me dizer o que é, agora?
– Calma! Se chama carma. Jack Daniels, Vodka e outras coisas mais.
– É o máximo que consegue fazer? Nada de por favor, desculpas, nem obrigado.
– Que bom que entendeu Lucian. Não é a besta que eu esperava. É o máximo que terá de mim. Um drinque e uma dor de cabeça do inferno pela manhã.
Mas que desgraçada! Eu não acredito que caí nessa. O drinque no inferno.
– Que droga, Jane. Como vou a uma missão amanhã, estando com dor de cabeça?
– Há... Coitadinho. Que peninha dele... Não, é mentira. Não tenho pena de nada, nem de ninguém. É bem forte Lucian. Fique na cama a manhã toda, e a tarde, estará melhor. Saímos à noite para a missão.
Ela já ia saindo pela porta, abrindo-a. Mas eu cheguei antes, fechando-a com o braço,a puxando-a com força, a fazendo cair pela mesinha que estava na entrada. Ela levantou furiosa, me batendo com toda a sua força, na minha cara. Doeu bastante, mas a mão dela quase rachou também. Ela soltou um gemido abafado, fechando a mão, como se conferindo se ainda funcionava.
– É o melhor que pode fazer, Jane?
Falei seu nome, como cuspindo ácido pela boca, que a fez me encarar, e um punho já estava na minha frente. Eu desviei rápido, a jogando longe. Ela caiu de novo. Eu não estava usando toda a minha força na pequena megera, mas ela ia ter uma pequena lição, pela sua brincadeira de me dar uma bebida batizada.
Ela é rápida como um puma. Em um segundo estava em cima de mim, tentando me socar na barriga e arranhando meu peito, com suas garras. Eu a segurei pelos braços, a levantando e ela se debatia enfurecida, como um gato apanhado pelo rabo.
– Tsh, tsh, tsh... Quieta.
Mas ela era o mal encarnado, em todos os sentidos. Me chutou onde realmente importa para um homem, e não foi legal. Tive que solta-la. A dor veio até os olhos, quase saltaram da órbita. Ela já estava no outro lado do quarto, com uma mesa na mão, voando em minha direção. Era uma luta feroz, essa hora. Perdi totalmente a compostura com ela. Ia partir a cara da maldita. Corri para alcança-la e ela se desviava, arremessando em mim tudo que tinha pela frente. A segurei, e ela me socou na cara. Soltei com a força do impacto e ela se afastou, aproveitando para me dar um chute nas costelas. Ela lutava. Era mortal como um escorpião. Impressionante! Seu tamanho só a favorecia. Sua capa negra estava destruída e ela tirou, jogando-a longe, com os punhos fechados. Me esperava para mais luta. Mas que louca. Olhei em volta. O quarto estava destruído. Ela estava descabelada. Eu sangrava pelo canto da boca e minhas costelas reclamavam de dor. A transformação era como segurar um touro pelos chifres. Tinha que me manter firme. Se o lobo saísse, iria mata-la. Destrui-la em pedaços. Mas uma boa surra ela ia levar. Pulei pra frente, virando em cima do sofá e a soquei com força. Ela trombou na parede, batendo a cabeça. E lá se foi a parede do quarto. Peguei ela pelos ombros, a sacudindo com força, até ela parar de me arranhar. Dei uns bons tapas nela, que me revidava a cada um que eu dava. Isso já estava me cansando.
– Chega!!!
Falei, a sacudindo de novo. Mas ela é incansável. Continuava a me bater, mesmo eu a segurando pelos ombros. Eram chutes e por vezes dentadas nada agradáveis, que faziam meu corpo tremer muito.
A joguei pela cama, cansado de me conter e revidar a ela. Chega!! Tinha que sair daqui. Isso ia acabar muito mal. Mas ela me segurou com força na cama junto a ela, e por um segundo, pensei que fosse me tentar me esmagar com as cochas. Mas não. Ela puxou minha cabeça. Seus dedos seguraram firme meu cabelo e nossas bocas se encontraram com violência e fúria, ódio e desprezo. Um querendo ferir o outro, em um beijo, que era quase como esfregar a boca em uma lixa. Tinha sangue ali. Seu rosto estava rachado. Não era bonito, nem terno. Foi brutal e feroz. Um punindo o outro. Um com ódio do outro.
Batidas na porta. Leves, e como não respondemos, elas se tornaram violentas. Nos largamos, um do outro. Seu olhar era escuro. Seus cabelos, uma bagunça. Sua boca tinha meu sangue, que ela lambia com avides. Saí de perto dela, meio aturdido, indo até a porta, abrindo-a bruscamente. Eram quatro humanos. Um, eu reconheci como o gerente do hotel. Os outros só podiam ser seguranças, pelo porte. Os quatro deram um passo para trás quando eu abri a porta.
– Está tu...do bem aqui, senhor?
O gerente perguntou, em espanhol. Mas depois repetiu a frase em inglês. Respondi em espanhol, para tentar ser o mais gentil possível.
– Desculpem por isso. Eu e minha amiga nos excedemos com a bebida, mas está tudo bem e pagaremos pelos prejuízos.
Com essas palavras, o gerente tentou olhar para dentro do quarto, mas eu o impedi, fechando um pouco mais a porta.
– Pagarei por tudo, senhor. Não se preocupe. Estaremos fora amanhã à noite.
– Eu agradeço, senhor. Mas a moça está bem?
O gerente parecia muito preocupado. Deve estar pensando em assassinato. Não seria nada bom, para a reputação do seu hotel de luxo.
– Eu estou bem!
Foi a voz de Jane que veio atrás de mim, vestida com um roupão de banho muito grande para ela. Seus cabelos molhados e um sorriso que eu jurava nunca ter visto nela antes. Estendeu um envelope para o gerente, assim que passou debaixo do meu braço, pela porta.
– É um adiantamento pelo inconveniente, senhor. Espero que tudo seja esquecido. Estaremos de partida amanhã e pagaremos o restante, é claro.
Jane falou em um espanhol perfeito. O homem pegou o envelope, que era bem gordinho e abriu a boca de espanto, mas fechou em seguida, o colocando no bolso.
– Buenas noches, senhor... Senhorita.
Jane fechou a porta e eu fui até o bar. Precisava do Jack Daniels, mas foi difícil encontrar. Estava no chão. Dei graças, por a garrafa ainda estar inteira. As outras não tinham tido a mesma sorte. Me servi, e Jane ainda estava encostada na porta, como se bloqueasse a entrada de alguém, ou a saída.
Ela realmente estava rindo? Sim, estava. Seus olhos não estavam vermelhos. O que era isso? Lentes? Claro! Ela teve que coloca-las para falar com os humanos. Era sempre um preparo antes. É estanho olha-la assim, com cabelos molhados, com o roupão branco de banho e seus olhos castanhos escuros. Que cor teriam sido antes dela ser uma vampira?
– O que foi? Por que está me olhando assim?
Balancei a cabeça, bebendo meu drinque.
Ela saiu, vindo a mim. O quarto estava em ruinas. Tudo ali estava um caos. Fora do lugar. Fora da ordem natural. Eu, ela... Uma bagunça fora do contexto. Fora de si.
– Nunca perco o controle.
Ela disse, de modo estranho. Olhei para ela. Tão pequena! Parecia uma madona encarnada, com um manto branco. Nunca a tinha visto assim, antes. Frágil e pequena naquele quarto caótico, andando sobre coisas quebradas e soltas. Seus olhos estranhos, que não a pertenciam. Toda a luta insana e o beijo, que mais parecia uma confirmação de ódio eterno. Meu corpo tremia de novo. Fechei os olhos com força, me controlando. Era como tentar amordaçar e amarrarem uma fera ensandecida. Jane se aproximou mais e eu estiquei o braço, para que ficasse onde estava. Não! Eu ia explodir a qualquer momento, naquele quarto.
Mas a louca não parou. Ela abaixou meu braço bruscamente, se colocando a minha frente, e vi as lentes derreterem em seus olhos, revelando o vermelho da morte, daquilo que dela era de verdade.
– Está com medo Lucian?
– Não de você. Geralmente sou bom em me controlar. Mas está testando muito, meu autocontrole, Jane.
Ela olhava para minha boca, enquanto eu falava, como se estivesse hipnotizada, ou coisa assim. Isso estava me perturbando mais que eu gostaria de admitir. Ela foi além. Seus dedos finos e frios percorreram minha boca em um mapeamento. O tremor parou amortecido. Me senti esfriar, como se fosse de gelo. Ela percebeu e tirou a mão dos meus lábios, caindo sobre o seu corpo. Meu corpo estava estranho. Frio como nunca antes estivera. Meu coração não batia tanto. Era um ressonar fraco e lento, como se adaptando, se acostumando a algo novo. Ficamos parados, nos olhando. Sentindo tudo aquilo, sem entender. Minha garganta ardeu com sede. Muita sede.
– O que você tem Lucian?
– Não sei.
– Quer que eu vá embora?
– Está perguntado? Resolveu ser educada agora?
Ela estranhou minha mudança repentina de humor, mas era a sede. Me deixava extremamente violento.
– Está com sede?
Não respondi e ela mesmo confirmou.
– Sim, está. E estamos muito longe de uma floresta Lucian.
– Eu sei. Posso me controlar.
– Porque se controlar? Podemos caçar juntos se quiser. Posso caçar para você.
– Me alimentaria com sua caça Jane?
– Sim.
Isso era o máximo para um vampiro. Dar sua caça a outro, é um ato de submissão absoluta. São predadores vorazes. Animais com suas comidas. Dar a outro, era demostrar respeito e entrega total. É mais que mandar flores e bombons. É um convite para um jantar romântico. Mas eu tinha que negar a sua oferta generosa e até tentadora, essa hora. O tipo de caça que ela me traria seria algo muito perigoso e sem volta pra mim.
– Não. Eu posso me conter por uma noite.
Ela saiu da minha frente. Sua figura pequena não era esbelta nem bonita. Loiras! Nunca gostei das loiras. Mas eu estava a beira do precipício agora, pronto para provar algo mortal. Meu corpo estava prontinho pra isso, agora. Para arrancar, com violência aquele roupão e descobrir o que tinha nela, que começava a mexer demais comigo. De costas agora, olhando pela janela de vidro, a cidade movimentada. De costas pra mim, com suas mãos espalmadas no vidro. Me obriguei a pensar em todas as vezes que ela tinha me destratado. esmo quando eu era só uma criança Cruel, malvada como uma bruxa sanguinária.Como se ouvindo minha mente trabalhando contra ela, Jane se virou. Seus olhos escuros eram a merda do choro seco dos vampiros E ver isso nela, era estranho demais Fora do seu corpo. Não combinava em nada.
– O que aconteceu aqui nunca mas voltará a acontecer.
Isso! Concordo plenamente. Queria dizer isso a ela. Dizer que estava certa. Dar boa noite e expulsa-la do quarto. Mas eu não fiz. Tomei meu copo de Jack, e para minha vergonha, vi que estava vazio. Mas a garrafa estava próxima e nem me dei ao trabalho de coloca-la no copo. Tomei no gargalo mesmo.
– Não vai dizer isso a ninguém. Nenhuma palavra sobre isso.
– Isso o que Jane? Não tem “isso” comigo e você. Lutamos, quebramos tudo, e foi só.
Droga! Não tinha sido só. Mas era tudo que eu queria lembrar.
Ela veio com seu andar rápido de vampira, se colocando a minha frente, arrancando a garrafa da minha mão, que se espatifou na parede quando foi arremessada longe por ela.
Eu novamente queria mata-la, por ter jogado o Jack fora. Um desperdício de um bom whisky, mas o tapa que eu levei me fez prestar atenção nela novamente.
Soltei um rosnado na sua cara, furioso.
– Já chega disso. Quer que chamem a policia dessa vez?
Outro tapa. Do outro lado, pelo menos. Mas chega dessa merda. A agarrei pelos pulsos. Sim. Uma única mão e com outra, puxei seus cabelos ainda molhados e soltos. A puxei para meu corpo, rosando meus lábios nos nela, que tentava desviar sem muito afinco.
– Sei o que quer Jane. Mas já disse que terá que pedir, ou implorar.
Ela ofegou baixo, fechando os olhos, parando de se bater em uma calma estranha a ela.
– Eu...
– O que Jane?
– Você...
– Terá que falar direitinho, Jane.
Ela abriu os olhos vermelhos, franzindo em uma fúria odiosa. O mal. Sim, era isso. O mal! Sentir isso, era como dançar bêbado a beira de um precipício infinito.
– Nunca!
Éramos como inimigos, em um campo de batalha. Ninguém se renderia ali. Era medir forças destrutivas e infinitas.
– Então não terá seu premio, hell girl.
Ela deu alguns passos para trás, ajeitando o roupão ao corpo.
– Meu prêmio seria, um dia vê-lo finalmente morto, Lucian. Eu o desprezo, cada dia mais.
E saiu para o banheiro, onde provavelmente estavam suas roupas.
Tive ímpetos de derrubar aquela porta e soca-la pelo banheiro inteiro. Seria sempre assim agora. Tentei me lembrar de Nerida. Se alguma vez tínhamos entrado nessa linha perigosa de sexo violento. Sim. Às vezes eu a pegava com mais força. Mas nunca a machuquei. Droga eu nunca tinha batido de verdade em uma mulher. Já matei vampiras. Mas nunca como isso. Era rápido! Brigava somente com os machos. As fêmeas eram rápidas e sem pensar muito, se não fraquejaria. Mas Jane tinha me tirado do sério. E o fato de eu ter que controlar o lobo que queria sair e mata-la ele mesmo, era quase irracional. Droga. Me sentia o próprio doutor Jekill e mr. Hyde*.
Jane saiu do banheiro já vestida, mas seus cabelos ainda soutos pelo uniforme que sempre usava. Nunca tinha visto ela sem ele. Sempre assim, com sua capa negra, que estava destruída em algum lugar daquele cômodo. Ela olhava a tudo agora, provavelmente procurando a capa. Não queria deixar seus vestígios. Ainda preciso de uma desculpa para dar a Felix. Nem pensar que ele iria acreditar, mas a verdade não ia sair da minha boca. Olhei ao redor também para achar a maldita capa, para enfim me livrar dela. Achei embaixo dos destroços da parede que tínhamos destruído. Peguei, a sacudindo e entregando a ela, que estendeu o braço sem agradecer, é claro. Estávamos ali de novo, nos encarando com aquela capa na mão de ambos. Ódio e fúria tudo estava ali naquele olhar de fome. A sede de novo arranhou minha garganta. Frio de novo. Era ela. Ela fazia eu me sentir assim. Frio e sedento. Soltei a capa, entendendo imediatamente. Ela aguçava meu lado vampiro. Mas por quê? Porque ela é vampira, é claro. Não! Besteira. Já tive outras vampiras. Nenhuma me fazia isso.
– Devia cuidar dessa sede. Vai acabar atacando uma camareira descuidada.
Me afastei dela. Sabia que era ela agora. Se eu ficasse longe dela, estaria bem. A sede passaria. A palavra “escolha” gritava na minha cabeça tão alto, que parecia alguém com um megafone.
Jane foi andando devagar demais até a porta. Mas antes de sair completamente, se virou me encarando.
– Tem um zoológico a duas quadras daqui. Se a sede ficar muito insuportável, vá até lá... Temos uma missão amanhã. Preciso de você forte. Não me adianta de nada arrastar cachorro morto pela cidade.
Ela saiu. Queria mata-la. Arrancar seu pescoço fino demais e frio.
Sentei no pequeno degrau do cômodo. Não tinha mais um sofá em condições e as cadeiras viradas e destruídas iriam ficar ali, como para me lembrar o que era ela. O caos. A destruição.
– MALDITA!
Alisei os cabelos com intenção de tirar aquela luta insana da minha mente. E minhas mãos procuravam algo, quando foram caindo pelo meu pescoço. Meu medalhão tinha sumido naquele caos. Levantei, revirando todo o quarto de cabo a rabo, desesperado já. Até que encontrei ele, derrubado no chão, com meu sangue nele, manchando a figura do lobo. Estava arrebentado. Fechei no meu punho, encostando ele em meu peito, lamentando tudo aquilo. Vou conserta-lo assim que voltar para Itália. Felipe cuidaria dele bem pra mim. Conhece os melhores joalheiros da cidade. Como isso aconteceu? Já tinha lutados batalhas ferozes, sem nunca ter precisado tira-lo, e aquela vampira me faz perder a única coisa que me liga ao que eu sou de verdade. Apertei o cordão na mão, para depois coloca-lo na mala.
Deitei na cama e capotei, como um carro que o motor finalmente tinha desistido de funcionar.
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(La Push)
Milley fechou a porta. Correu para o armário para pegar sua mala, jogou-a sobre a cama e começou a colocar toda a sua roupa dentro. Tinha que sair daquela cidade. A civilização ia colocar as coisas nos seus devidos lugares de novo. Trazer sua sanidade de volta. Fechou. Teve que sentar em cima, para poder ir com o zíper até o final. Tinha trago roupas para o final de semana. Mas isso não ia acontecer mais.
Amanhã cedo teria que ir a última oficina. A de Seattle, com o Seth. E dali, aeroporto e casa!
Tomou um banho longo e quente. Debaixo do chuveiro, enquanto a água caia revigorante em seu corpo, lembrou dos olhos de Edmond. Os olhos que queimaram seu rosto. Toda a sua pele, na verdade. Não podia continuar ali naquela casa. Aqueles olhos eram perturbadores, e sempre estavam a procura dos seus. Antes era fácil evitar. Divertido, até. Mas essa linha tinha sido ultrapassada, e ela sabia das consequências de ultrapassar limites. Já tinha tido uma boa mostra com Seth. Mas Edmond se mostrava muito mais perigoso. Muito mais tentador. Se pegou de novo pensando nele. Em seus lábios bem desenhados e cheios.
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(EDMOND)
Ela já tinha saído. Tão cedo! Por que não queria me ver? Eu a constrangi. A deixei nervosa.
– O quê você tem afinal, Einstein? Onde está sua leitura matinal de algo cientifico, que sempre lê pela manhã, ignorando todo o mundo, tedioso ao seu lado?
Olhei para Sarah. Ela me provocava, para variar. Mas eu me sentia meio de saco cheio disso. Não queria responder. Ignorei, dando uma atenção exagerada a comida.
– Mãe, pega o leite!
Disse, despejando cereais em uma tigela. Nessa hora, meu pai descia rápido pelas escadas, abotoando sua blusa.
– Querida! Querida, não vou ficar para o café. Sinto muito! Senhorita Milley já foi com Seth. Preciso correr para alcançá-los.
Um grunhido de desgosto saiu da boca de Sarah, mas só eu pude notar. Meus pais não perceberam. Mas eu também tive vontade de grunhir quando ouvi isso. Na verdade queria ter socado a mesa. Pela primeira vez, experimentei algo que Sarah já sentia desde a chegada de Milley. Ciúmes. Droga! Ela tinha saído com Seth! Porque não acordei mais cedo para vê-la. Meu pai falava, contornando a mesa. Deu um beijo em Sarah e bagunçou meu cabelo. Tentei colocar ele no lugar, passando a mão neles, mas não ia dar certo. Desisti. Ele enfiou um pedaço de bolo na boca e já ia pegar a chave do carro.
– Jake, não! Senta direito com a gente. Milley já saiu como uma louca daqui. Agora você. Assim não!
Saiu como uma louca? Ela nem deve ter tomada café. Ela estava fugindo de mim. Tive uma certeza absoluta sobre isso. Ou não! Talvez ansiosa por passar mais algum tempo com Seth.
– Não posso, amor. Eu tô muito enrolado. Não sei o que vai ser agora que Leah vai embora. Tudo vai ficar uma loucura por aqui.
Meu pai disse, de forma preocupada. Depois disso, tudo pareceu acontecer em fração de segundos.
A garrafa de leite que minha mãe tinha nas mãos escorregou de seus dedos, fazendo um estrondo e muita sujeira pelo chão. Mas ela não se moveu para pega-la antes de cair. Parecia em uma espécie de transe. Seus olhos arregalados e fora de foco. Meu pai a pegou, levando-a para sala. Eles hora discutiam. Hora se abraçaram, ela chorava. Sarah e eu apenas olhávamos confusos, mas depois compreendemos do que estavam falando. Sobre um sonho que minha mãe tinha tido com Jason, e Leah ser seu imprinting. Eu e Sarah nos olhamos “Seria possível, Ed?” Sarah me perguntava pela mente. Limpamos o estrago do leite, enquanto meu pai ia acalmando minha mãe. Minha mãe ficou arrasada o resto do dia e se trancou no quanto. Sarah e eu não podíamos fazer nada, quando ela ficava assim. Se isolava totalmente. Só nos restava fingir não ouvir seus soluços de choro no quarto.
– Ela logo vai melhorar, Sarah.
Disse, tentando animar minha irmã.
– Temo, que só amanhã ela sairá daquele quarto, Edmond.
Estávamos presos em casa pela chuva e por meu pai, antes de sair ter incumbindo a mim e Sarah para cuidar de nossa mãe. É claro que Sarah foi incluída, mais por tabela. Sabia que o recado era pra mim mesmo.
Não resisti quando Sarah entrou na internet para mais uma conversa interminável com tia Alice e Rose. Eu entrei no quarto de Milley. Ali, o cheiro dela era mais acentuado. Fiquei sentado no batente da janela, observando a cama vazia e a imaginando dormindo ali, entrelaçada em lençóis. Fiquei distraído, pensando nisso. Mas as malas ao lado do armário tiraram-me de meus pensamentos. Ela tinha feito as malas. Pensei que só ia embora segunda...
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Nessie descia as escadas. Não podia ficar o dia todo trancada no quarto. Tinha que fazer algo... Pra começar o jantar, por exemplo...
Jake, Milley e Seth chegaram depois do trabalho. Renesmee tinha se concentrado em fazer um jantar especial. Seria a última noite de Milley em La Push e ela gostava da humana. Ela não queria que Milley partisse. Tentou mais uma vez persuadi-la a ficar enquanto passava para ela um prato de salada.
– Tem mesmo que partir, Milley, tão cedo?
Edmond acompanhava com o olhar a resposta de Milley, que em nenhum momento desde que chegara das oficinas tinha se dignado a olhar, ou a falar com ele.
– Sim, Nessie. Preciso ir. Recebi uma ligação do meu chefe e eu tenho que estar no escritório amanhã pela manhã, sem falta.
“MENTIRA”
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Sarah tinha um sorriso cheio de malícia no canto dos lábios quando essa palavra gritava na minha mente. Ela estava desmentindo Milley. Mas nem precisava, eu sabia que estava fugindo. Mas os motivos reais eram desconhecidos pra mim.
Depois de jantarmos, meus pais saíram. Foram para casa dos meus avós. Seth e Sarah estavam conversando na varanda. Ela ainda estava dando um gelo nele. Ele estava pirando com isso. Coitado! Sarah sabia ser cruel quando queria. Ele tentava agrada-la de todos os modos, mas ela apenas mostrava um interesse, artisticamente ensaiado.
Milley subiu para o quarto, assim que se viu sozinha na sala comigo. Me deu um boa noite rápido e praticamente correu escada acima.
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“Calma Milley! Amanhã por essa hora, você estará em seu apartamento, curtindo um bom Cabernet, lendo um bom livro e na sua cama. Longe de garotos sarados de dezoitos anos, com olhar de fome pra cima de você.”
Esse pensamento me deu um desânimo. Uma tristeza, talvez eu nunca mais o veja de novo... Milley parou, encarando seu reflexo no espelho. Sua boca cheia de pasta de dentes e a escova de dentes parada em sua mão. Estava paralisada, refletindo sobre tudo.
Sua mente vagava para mãos quentes, que eram um alento perturbador sobre seus pés. Seu corpo se arrepiou com a lembrança de Edmond e suas mãos poderosas.
Batidas leves e insistentes na porta, demostravam que alguém estava batendo há algum tempo na porta do quarto e ela nem tinha se dado conta...
Enxaguou a boca e foi abrir a porta. Já estava de camisola com um robe, que não fechava, deixando mais exposto que escondido, seu corpo.
Ela abriu a porta. Não tinha ninguém ali. Olhou para o chão. Uma garrafa de Cabernet nova, uma taça e uma rosa vermelha.
“Edmond!” Olhou para os lados. Ele não estava ali. Mas talvez em seu quarto. “Não vá lá, Milley.” Meu subconsciente piscava essas palavras pra mim.
Pequei a garrafa, a rosa e a taça. Sorri, ao constatar que era de plástico e leve, e havia um bilhete enrolado na parte inferior. Desenrolei-o. O bilhete, com uma letra bonita estava escrito:
“Para evitar acidentes.” Droga! Preciso falar com ele antes de ir. Não posso partir assim...
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Mais um monstro morto decepado. A cabeça na mão do inimigo, que ria uma gargalhada mortal. A música da fase virada no game começava a tocar. Mas Edmond só prestava atenção superficialmente. Sua atenção era para o quarto ao lado, que agora parecia estranhamente quieto. Ela abriu a porta e pegou a garrafa. Ele acompanhou todo o seu caminhar através da sua audição apurada, mas agora ela estava quieta demais. Só ouvia a sua respiração. O seu coração. Estava concentrado nisso, mas quase caiu da cadeira, quando percebeu a porta do quarto dela abrindo e os seus passos até seu quarto. Deixou o controle do vídeo game cair. Ficou nervoso e alterado. “Droga! Ela estava aqui, parada na porta do meu quarto. O que eu faço?” Olhou a pequena bagunça que estava ali. Recolheu alguns brinquedos antigos, que não tinha tido tempo de descartar. Eram miniaturas de carrinhos e bonecos do star trek e star wars, e os lobos de pelúcia. “Caramba! Ela vai me chamar de garoto de novo.” Recolheu tudo, enfiando em baixo da cama e alguns dentro do armário. Olhou ao redor. O boneco do Yoda! “Tem que ir pro banheiro, amigo!” Não ia dar tempo de arrancar os pôsteres da Sociedade do Anel e nem de Matrix. Talvez ela nem perceba. Os humanos não são tão perceptíveis assim. Fez isso tudo na velocidade de vampiro. Os livros no chão. As revestas da National... Não ia dar tempo de guardar. Olhou ao redor, verificando as pranchas na parede. Tudo bem, pode ficar. As boards de skate também podiam ficar. Ok... Tempo... Tempo... Ela não bateu na porta, mas Edmond sabia que ela ainda estava lá. Por que não batia? Ela não tinha ido até lá pra ficar parada na porta?
Desistiu de esperar. “As mulheres podem ser bem complicadas quando querem. Nem Freud conseguiria entender isso.”
Abriu a porta de repente. Milley deu um passo pra trás, se assustando. Não teve como não olha-la. Ela estava linda, em um robe preto, meio aberto, que deixava o decote à mostra. Os olhos de Edmond percorriam o corpo dela, parando em seu olhar, a prendendo de novo.
Milley tentou se recompor. Fechar o máximo que pode seu robe. “Não deveria ter vindo aqui.” Seu subconsciente gritava de novo com ela. Mas ela o ignorou, se prendendo em Edmond. Ele estava sem camisa de novo, em uma calça cinza de pijama e descalço. Ele a olhava, sem nenhuma vergonha. Tinha encarado ela por toda a noite, na verdade. Tinha sido difícil ignorar aquele olhar, mas precisava se auto preservar... Mas o que tinha adiantado, enfim? Estava ali parada na porta do quarto daquele garoto, sendo atraída para ele, como mariposas são para a luz. Sem coragem o suficiente para sair e nem coragem para ficar e dizer um simples obrigado pelo vinho e pela rosa. Boa noite! Se eu não vê-lo mais , nunca mais???
– Quer entrar?
Edmond perguntou, falando o mais baixo que poderia, mas ainda para que ela pudesse ouvir. Seth e Sarah ainda estavam lá em baixo, no quintal.
Milley não respondeu. Ele se afastou da porta, dando a ela a chance de entrar se quisesse, ou não. Milley entrou meio vacilante, olhando em volta aquele quarto, que estava impregnado do cheiro de canfora dele. Delicioso! A cama bagunçada. Parecia que ele estava ali antes.
– Tava dormindo?
– Não! Eu estava... Jogando...
Milley olhou para tela na parede. Reconheceu o jogo de luta. É Mortal Kombat. Ela sorriu, vendo que ele tinha passado a fase final.
– Esse é difícil. Impressionante que tenha conseguido.
– Fica meio chato, quando já se fez isso mais de dez vezes...
Milley não acreditou que fosse verdade. Mas ele não parecia estar se gabando. Só comentou como algo banal.
– Tudo bem! Agora eu acho que você passa tempo demais nesse quarto, jogando vídeo game. Não vai fazer uma faculdade?
Edmond não tinha como responder isso. Seria bem complicado ainda frequentar uma faculdade, quando na verdade tentava se controlar só na reserva. Ficar numa sala cheia de gente humana não era muito confortável para ele.
– Vou fazer ano que vem.
E isso talvez seja verdade. Pelo menos Edmond esperava que sim. Mesmo achando que teria pouco a aprender com professores convencionais. Seria mais uma experiência, que um aprendizado, na verdade. Sua família era uma fonte intelectual muito mais produtiva e intelectual, do que os melhores professores de Harvard.
– Do que gosta Ed?
“No momento, fascinado pelas suas pernas e boca.” Edmond pensava.
– Ciências, filosofia, artes, física. Tudo eu acho...
– Precisa se especializar numa área especifica, Edmond.
– Eu sei... Física eu acho.
– Um cientista?
Sorri do jeito que ela falava, como se eu não combinasse com um jaleco branco e tubos de ensaio.
– Sim! Acho que sim. Por enquanto.
– Pode mudar de ideia?
– Nada é muito definitivo para nós, a nível de conhecimento, eu digo.
– Não sei se entendi.
– Não precisa! Não foi pra falar dos meus estudos que veio aqui senhorita Milley.
Ela ficou com as bochechas vermelhas, e eu queria morde-las bem ali. Não de verdade. Só de leve, para sentir sua pele macia e cheirosa.
– Vim agradecer pelo vinho, a rosa e a taça de plástico. Foi meio desnecessário, mas foi um gesto atencioso. Obrigada... Vim também para me despedir. E olha... Toma! Anotei aqui, meu e-mail e meu endereço em nova York, para quando você, ou qualquer um de sua família forem em Nova York, não deixarem de me visitar...
Ela estendeu um papel e eu pequei, olhando o cartão dourado. Era bonito, quase um cartão de visitas. Mas o endereço estava em caneta, com sua letra delicada.
– Gostaria de ir...
Nos olhamos por um tempo de novo. Era como uma perdição olhar para aquela mulher. Não podia tê-la. Por que eu ainda ficava tendo fantasias sobre ela na minha mente. Uma humana. O que eu estou pensando? Ainda mais com o sangue que ela tem, que me faz sentir uma sede violenta, como se tudo que eu precisasse era ela de bebe-la. Só um pouco. Talvez eu consiga parar antes de drena-la completamente. Tive que sacudir a cabeça para afastar esses pensamentos. Isso começava a ficar perigoso de novo. Dei alguns passos para trás. Nunca tinha achado meu quarto pequeno. Mas ele agora me parecia meio claustrofóbico.
– Que foi Edmond? Está de novo com aquele olhar estranho.
Milley disse, enquanto eu me afastava. Ela resolveu se aproximar mais. Eu me vi encurralado, entre uma cômoda e ela, sem ter para onde mais sair. Ela se aproximou, tirando o cabelo do meu rosto, para constatar o que devia ser bem estranho para ela. Meus olhos estavam pretos. Era a sede que me queimava. Na mesma hora, prendi a respiração. Ela me olhava com seus olhos de mel claros. Sua respiração estava entrepassada. Vinha com o hálito de sua boca. Tinha um pouco de pasta de dente na bochecha, e eu queria lamber ela dali. Ela estava alisando meu cabelo, num gesto de carinho. Nossa! Ela não tem noção do perigo. Será que essa mulher não tem um instinto de sobrevivência, ou algo assim, que a avise do perigo? Segurei sua mão, para que ela pareasse com aquilo. Ela entendeu errado meu gesto e se afastou constrangida. Vi em seu olhos, todo seu conflito. Ela se reprimiu, indo para porta. Eu não queria que ela fosse, mas não queria machuca-la. Num ato irracional e instintivo, eu fechei a porta antes que ela saísse rápido demais. Estranho demais. Ela me olhou com olhos arregalados e assustados. Mas eu estava além disso. Àquela hora, minha mente tinha sido desligada. Eu queria sentir seu cheiro. Queria sentir ele em mim, no meu corpo, na minha boca. Finalmente ela deve ter ligado o alerta dela, pois tentava se desviar de mim. E ela era a encurralada dessa vez, tão frágil e doce.
– Está me assustando, Edmond.
Ela disse, de forma sussurrada e vacilante.
Eu era só instinto. Eu a queria ardentemente. Seu sangue, seu corpo... Cada gota dela tinha que me pertencer...
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Não tinha mais para onde fugir naquele quarto. Eu poderia começar a gritar. Mas como eu ia explicar minha presença ali! Edmond me olhava com um olhar devorador e insistente. Mas eu não conseguia reagir a isso. E por mais que meu corpo inteiro estivesse arrepiado de medo, havia algo mais ali. Era desejo. O mais primitivo. Eu não queria gritar... Eu não queria fugir. Na verdade, eu queria ser atacada de todas as formas por aquele garoto. Mesmo com medo. Mesmo aflita. Eu o queria. Podia sentir a minha excitação molhando entre minhas pernas. Meu sexo se apartando. Minha barriga se revirando, como se uma festa tivesse sendo esperada. Precisei me escorar na mesinha que ele tinha no quarto, que estava cheia de livros, que caíram no chão sem nenhum de nós prestar a menor atenção a isso. Edmond enlaçou minha cintura, abrindo meu robe. Suas mãos se encontram na minha cintura. Pensei que ele me beijaria. Me senti entorpecida. Teria caído, se ele não estivesse me segurando tão firmemente. Mas ele não me beijou. Seu rosto foi para meu pescoço e ele ficou ali, cheirando minha nuca. E a cada respirar dele, me sentia estremecer em seus braços. Senti sua língua ali, em um beijo molhado e frio, onde seus dentes roçaram minha carne, tão leve. Queria mais. Queria que ele me mordesse ali. Quase me via pedir por isso, em meio a minha respiração rápida. Mas ele saiu dali. Estava se afastando lentamente de mim, me repelindo, como se algo o desagradasse.
Eu segurei seu rosto em minhas mãos. Seus olhos escuros e estranhos. Ele tinha uma expressão triste e cheia de dor. Eu precisava fazer algo. Consola-lo... Não poderia deixa-lo assim. Não podia guardar na minha mente, a última imagem dele assim. Queria ver de novo, meus olhos de chocolate quentes e gentis de volta. Não ia mais ficar preocupada em ser correta e adulta. Chega! Eu tinha algo mais importante para fazer... Edmond é mais importante. Tirar aquela expressão de dor de seu rosto era mais importante.
Segurei seu rosto com as mãos e me aproximei mais dele. Ele se assustou. Parecia querer fugir, mas eu me enrosquei nele, colando meu corpo inteiro no seu. Ele soltou um gemido quente e eu me senti confiante o suficiente para beija-lo primeiro. Só um leve toque em seus lábios. Um toque que ele não reagiu em resposta. Parecia paralisado. Continuei com pequenos selinhos molhados, ali naquela boca fria e macia. Outro gemido dele. Eu não saberia interpretar isso. Mas era tão convidativo. Queria que ele me abraçasse mais forte. Mas ele continuava apenas segurando minha cintura, me mantendo, quando eu saboreava seus lábios. Só recebendo seus gemidos em retribuição. Minhas mãos foram para seus cabelos e pescoço. Entrelacei meus dedos em seus cabelos. Minha língua começava uma dança exigente, como se reivindicando pela dele, que parecia trancafiada. Onde estava aquela língua que tinha lambido meus pescoço de forma a me fazer ficar louca daquele jeito? Outro gemido. Eu tinha que parar. Ele não retribuía. Eu estava louca. O que eu estava fazendo? Me afastei, mas ele não me deixou sair, me prendeu ainda com suas mãos. Seus olhos se fecharam. Senti que ele não respirava de novo.
– Não vá Milley.
Aquilo bastou, para minhas pernas novamente vacilassem. Meu corpo parecia estar exposto. Me senti nua na presença dele de novo. Sua voz rouca e quente falando meu nome. Nunca mais ninguém diria meu nome assim, com tanto calor.
Minha boca foi quase devorada. Ele não foi gentil como pensei que seria. Parecia ávido. Começou bruto. Tentava acompanha-lo, mas era impossível. Me deixei ser levada por aquele turbilhão. Mas depois, ele foi ficando calmo e terno. Sua língua finalmente procurava a minha, gentil e fria, mas saborosa e envolvente. As garotas deveriam morrer por um beijo dele. Ele parou me olhando. Seus olhos já tinham seu chocolate de volta. Sorri como uma boba, e ele voltou a me beijar de novo, com tanto calor. Seus lábios eram o fim e o começo. Eram calor e frio. Como enfiar a mão no fogo e ser abrandada no gelo. Estava mergulhada nisso, sentindo meu corpo inteiro se contorcer e pedir mais. Minhas mãos já estavam em suas costas, apertando sua pele. Ele mantinha as mãos na minha cintura, como se tivesse demarcado ali como um lugar seguro. Meu corpo estava recebendo tanto calor, que eu achei que ia entrar em combustão. Mas Edmond me afastou gentilmente. Meus lábios tremiam. Sentiam a falta dos dele. Enquanto ele se afastava sutilmente, eu ia pra cima dele, como se ele fosse o meu ponto de equilíbrio.
–Não, Milley! Por favor, eu realmente estou no meu limite. Acredite...
Limites? Do que ele estava falando? Eu tinha acabado de jogar meus limites na lata do lixo.
Mas meu orgulho falou mais alto nessa hora. “O que está fazendo Milley? Se jogando nos braços desse garoto. O que vai fazer? Transar com ele aqui no seu quarto de adolescente?”
Milley olha ao redor, se sentindo ridícula e inapropriada para ele. Ed deve ter meninas adolescentes loucas por ele. Ele nem mesmo entrou na faculdade. Quando entrar, as garotas vão entrar em guerra para poder só se sentar ao lado dele na aula. “O que está fazendo Milley? O que sua mãe vai pensar? Seu pai? A família de Edmond? A sua mãe, que mais parecia a irmã mais velha dele, do que a mãe? O pai, que tão educadamente tinha trago você para cá, e em troca se comporta desse jeito, seduzindo seu filho? E a Sarah, que já claramente te odeia, vai querer cortar seus cabelos, em um corte mal feito. Talvez até mesmo raspe suas sobrancelhas. Ela era meio assustadora às vezes. Estou me comportando com a Sra. Robinson de A Primeira Noite De Um Homem. Sou patética.
– Desculpa Edmond. Eu... Eu... realmente tenho que ir...
Milley saiu dali. Não ia mais ficar naquela casa de jeito nenhum. Desceu as escadas em uma correria, para encontrar Seth e Sarah conversando animadamente na varanda. Sarah fechou a cara, em uma carranca, assim que a viu. Mas Milley estava com outras preocupações em mente.
– Seth me dá uma carona?
Ele arregalou os olhos, sem entender nada.
– Preciso ir para o aeroporto agora!
– Mas seu voo é amanhã de manhã, Milley.
– Não importa. Vou sair agora! Vai me dar uma carona ou terei que chamar um taxi?
Eu estava sendo grosseira, mas não me importei. A expressão de Seth era de surpresa. Sarah agora parecia preocupada com outra coisa. Ela se levantou bruscamente e correu para o quarto de Edmond. Seth e eu apenas ficamos olhando ela sair em sua correria.
– Está tudo bem lá em cima, Milley?
Seth parecia cauteloso em sua pergunta. Eu apenas fechei o robe, que estava aberto. Mas ele nem mesmo parecia ter percebido.
– Está! Por que não estaria? Posso me trocar. Você vai me levar?
Ele me olhou com atenção, mas pareceu entender minha angustia. Devo estar sendo ridícula. Ele vai me achar louca. “Que se dane!” Assim que chegar na empresa, passo esse serviço para Richard. Eu nunca mais queria ver ninguém desta cidade. Nem conseguia acreditar, que eu quase tinha acabado com minha amizade com Richard, para pegar aquela negociação. Era tão promissora. As pequenas oficinas vão ganhar um investimento da grande montadora, com melhorias. Mas Richard é competente. Vai dar continuidade ao negócio, sem prejudicar ninguém.
– Levo, Milley. Vá se arrumar, enquanto eu tiro o carro de Jake da garagem.
– Ótimo!
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