Meu Amado Seboso
13 Bochechas
Notas iniciais
- Nem liga, o Ministério manda só uma advertência na primeira vez. — Severo disse, vendo a minha cara de pânico depois de ler a carta.
- Mas não é justo! — Eu reclamei. — Sabe lá Merlin o que eles teriam feito com a gente se eu não…
O silêncio foi se fazendo aos poucos, interrompido só pelo fungar do nariz quebrado do Severo.
- Eu vou indo. — Ele disse, voltando a assumir o controle. — Obrigada por tudo.
Ele virou as costas e foi em direção à porta. Babushka me fez um sinal dizendo que eu deveria ir com ele. Levantei da cadeira como se tivesse recebido um choque e o segui.
- Espera, eu vou com você! — Eu disse.
- Não precisa. — Ele respondeu, tenso.
- É sério? — Eu ergui uma sobrancelha. — Se não fosse por mim não era só o nariz que estaria quebrado, Severo.
Ele deixou uma risada abafada escapar pelo nariz, e então uma careta de dor. Sem dizer uma palavra, ele passou pela porta, mas deixou ela aberta para que eu o seguisse.
- Tome cuidado, moya dorogaya. — Babushka disse.
Estávamos seguindo pela rua, com poucas pessoas a nossa volta. A maioria delas não dava a mínima para nós, o que foi um alívio.
- Tá doendo muito? — Eu perguntei, sem nada mais para falar.
- Já estive pior.
- Quem eram aqueles escrotos? — Eu perguntei para ninguém em particular, com raiva. — Qual era o problema deles?
- A menina era Petúnia, a irmã mais velha da Lily. — Ele respondeu. — O namorado dela é o Válter, eu não me preocuparia com ele.
- É sério? — Eu disse, apontando para o nariz dele.
- Eu não me preocuparia com ele quando ele está sozinho, então. — Ele deu de ombros. — Sua avó é legal.
- Eu sei. — Foi a minha vez de me fechar em silêncio. Andamos mais de uma quadra sem falar nada.
- Não precisa me acompanhar até em casa, você sabe. — Ele disse depois de alguns minutos, com uma tensão visível nos ombros.
- Não é problema nenhum. Eu gosto de v… — Minha língua começou a falar mais rápido do que eu me dava conta, senti minhas bochechas queimarem e meu estômago ficou gelado. Tentei remendar. — …passar tempo com você.
Ou ele ignorou ou simplesmente não ouviu. Eu não tinha certeza se ficava aliviada ou triste com qualquer uma das opções.
- Como ficaram as suas notas? — Ele mudou de assunto.
- Medianas. Eu vou sobreviver. — Eu ri, nervosa.
Paramos em frente a uma casa de madeira, de aparência pobre. Severo olhou para ela indeciso e foi só então que eu percebi as roupas surradas e mal-ajustadas que ele usava. Em Hogwarts ele estava sempre com o uniforme impecável, mas ali ele estava maltrapilho. Era uma visão melancólica, eu me dei conta.
- Tudo certo? — Eu arrisquei perguntar.
- Sim… — Ele respondeu incerto, como se estivesse voltando de um devaneio. — É aqui que eu fico, Kassandra.
Mais uma vez eu me derreti quando ele pronunciou o meu nome.
- Então está entregue. — Eu sorri, nervosa.
- Obrigada por tudo. — Ele olhou nos meus olhos como se pudesse ver a minha alma, me fazendo congelar. Ele tirou uma mecha do meu cabelo do meu rosto, fazendo meu estômago revirar, e pressionou os lábios contra a minha bochecha.
Eu estava a ponto de desmaiar.
- Severo! — Ouvimos um grito e passos afobados se aproximando. Ele já estava longe de mim, como se o delicado beijo na minha face nunca tivesse acontecido. A não ser pela sensação de queimadura que eu tinha ali. — Sev!
Lily chegou aonde estávamos e parou por uns segundos pra recuperar o fôlego. Eu ainda estava congelada, com o meu rosto em fogo. Severo também parecia desconfortável, mas essa pode ser uma memória induzida.
- Lily! — Ele disse, pasmo.
- Eu… acabei de… ficar sabendo. Uh. — Lily ainda tentava recuperar o fôlego. — O Válter é um idiota, e a Petúnia mais ainda. Está tudo bem com você?
Eu queria desaparecer, mas nem precisei me dar ao trabalho. Severo estava tão constrangido e Lily tão preocupada que era como se eu não estivesse mais ali.
- Hum. — Eu disse, ainda um pouco tonta. Lily pareceu perceber a minha presença.
- Se não fosse por você, Kassie, eu não sei o que teria acontecido. — Ela disse. — Desculpe pela minha irmã. E obrigada.
Lily era tão sincera que fazia com que eu me sentisse mal em sentir inveja. Dei um sorriso amarelo.
- Não foi nada, qualquer um faria a mesma coisa. — Eu disse, sem jeito. — Eu… vou indo, agora. Minha avó deve estar me esperando…
Lily me deu um "tchau" muito educado e agradecido. Severo me olhou por alguns segundos com os seus olhos negros e profundos, antes de voltar sua atenção para Lily mais uma vez.
Cheguei em casa ainda com a bochecha em fogo, torcendo para babushka não reparar e com borboletas no estômago.
- Tudo certo com o seu amigo? — Babushka perguntou, genuinamente preocupada, quando eu entrei.
- Tudo certo. — Eu disse, sorrindo. — Perfeito.
Subi para o meu quarto e fiquei encarando, no espelho, o lugar onde ele havia me beijado.
Fale com o autor