Meu Amável Vizinho
23 Primeiro dia no inferno - Parte 1
Notas iniciais
No capítulo anterior...
— Não me deixa sozinho de novo.
Passou suas mãos pelo meu rosto, acariciando levemente meus lábios com seus dedos. Desceu as mãos até minhas costas e fez um percurso até chegar na minha cintura. Assim que chegou, me puxou mais fazendo nossos corpos ficarem grudados e nossos lábios não se tocarem por menos de um centímetro.
— O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI?!
— Kemilly?! — Worthy perguntou, espantado. — O que faz aqui? Achei que tinha ido se arrumar para a universidade.
— Quer dizer então que enquanto eu estou fora você fica me traindo com essa... vagabunda?!
— O que foi que disse?! — Perguntei. Quem ela pensa que é para me chamar de vagabunda?!
— Isso mesmo minha querida, acho que você é tão rodada que sua...
Não a deixei terminar a frase e enfiei minha mão no meio da cara dela com toda a força que eu tinha. Ela gritou bem alto. Que lindo! Tem a marca da minha mão certinha no meio da cara, com algumas raspas de sangue pelo meio.
Me retirei da sala e rapidamente entrei no meu quarto. Tomei um banho longo e relaxante. Depois escolhi uma calça jeans preta rasgada, um cropped azul e meu AllStar. Passei um pouco de rímel, um gloss laranja, um pouco de perfume e pronto!
Peguei minha bolsa e coloquei o necessário, o que eu achei necessário e o que era desnecessário. Peguei minha carteira, meu celular, dei uma bagunçada no meu cabelo que se encontrava liso agora e sai.
Assim que abri minha porta, o Worthy abriu a dele. De repente ouvi novamente a bela melodia que ele tocava em seu violão. Por algum motivo, ela me trazia boas sensações. Me trazia paz, conforto...
Por que minha vida tem que ser tão... Filme? Eu poderia estar dividindo esse apartamento com qualquer um. Mas tinha que ser com um garoto lindo, gostoso, meio loiro e incrivelmente sexy que ainda é da minha idade e me faz ficar completamente sem razão quando está perto.
Eu deveria agradecer? Não sei ao certo. Mas de uma coisa eu sei: Eu preciso sair desse roteiro e viver a realidade.
Desviei meu olhar dele e continuei a caminhar pelo apartamento, chegando na saída. Deparei-me com Tobby, na frente da porta, me encarando. Dei meia volta e troquei sua água e abasteci seu grande pote de comida. Fiz um carinho nele, lavei as mãos e enfim saí.
A universidade era um tanto grande. Tinham vários e vários alunos andando pra lá e pra cá, provavelmente procurando algum orientador para mostrá-los onde pegar os horários. Estava uma tremenda bagunça.
As paredes continuam as mesmas, desde que me lembro quando. O papai sempre passava comigo aqui quando a Katty pedia para ele ir buscá-la e dizia: “Está vendo essa universidade querida? Daqui a alguns anos será você! ”
Ele foi um homem bom um dia, mas agora, está com um coração de pedra no lugar daquele generoso. Está amargo, e frio. Mas no fundo, sei que ele se importa.
Paredes altas e amareladas, uma grande praça na frente com várias árvores e uma fonte d’água em no meio. E uma placa em neon nem um pouco chamativa com o slogan da universidade.
Sai do meu carro após estacionar no estacionamento (NÃO! IMAGINA! NO TELHADO!), caminhei lentamente pelo grande pátio e subi os degraus que vão ao grande portão de entrada principal.
A multidão também tinha entrado e estavam incrivelmente organizados em várias filas que davam para um tipo de recepção. Cutuquei uma garota a minha frente e perguntei para onde aquela fila levava.
— Bom, estão aqui para pegar os horários das aulas. Dependendo das matérias que você escolheu.
— Ah, obrigada. Meu no...
Ela me ignorou e foi falar com uma amiga dela. Que ótimo! A Bianca não está aqui, o Rô não está aqui, o Worthy está aqui, a... Espera... O Worthy está aqui?! Ah não! Com tantas universidades ele te quem vir justo pra essa?! Fala sério!
— Senhorita? — Uma voz me chamou. — SENHORITA!
— Sim, sim.
— Qual seu nome?!
— Ah... Jullianna Flawter Clarck.
— Primeiro, B?
— Isso.
— Aqui estão seus horários. — Entregou-me um papel e os peguei.
— Obrigada.
Agradeci e dei uma olhada no papel. Primeira aula é de Química, sala 45. Ah claro! Óbvio que vou saber onde é a sala 45!
Um garoto passava com um casaco cinza e um capuz de costas para mim e andava tranquilamente pelos corredores. Corri até ele e puxei de leve seu braço.
— Com licença, poderia me dizer onde é a sala... Johnathan? — Assustei-me. — O que faz aqui?!
— Vim te ver. — Disse como se fosse completamente normal. — O que houve?
— O que houve? Eu quem deveria estar perguntando isso. Por que veio até aqui?!
— Já disse, vim te ver.
— Johnathan...
— John, por favor.
— John, precisa sair. O que quer que queira falar comigo, deixe para depois. Por favor, eu tenho aula agora.
— Não tenho nada para...
— Então por que raios está aqui?! — Quase gritei, furiosa.
— Eu só queria te ver, quantas vezes terei que repetir?
— Bom, já viu! Agora saia.
— Vou te esperar no seu carro.
— Como?! Não! Eu estarei cansada depois da aula e vou direto pra minha casa.
Analisou-me um pouco, passando seu olhar dos meus pés à cabeça e deu um sorriso de lado. Virou-se e continuou caminhando para sei lá onde.
— A propósito, sua sala é naquele corredor. — Apontou. — Terceira porta a esquerda. Boa aula.
Sentimento que estou tendo agora... ÓDIO! Agora além de estar atrasada no meu primeiro dia, sem ninguém conhecido, tenho que aturar o Johnathan. Caramba! Ele não me pegou em um bom dia...
Caminhei até a terceira porta a esquerda e a abri. Não tinha professor algum ainda, então desclassifiquei a suposição de estar atrasada. Avistei o Worthy conversando com alguns amigos, entre eles, Rodrigo, que se encontrava com o braço em volta de outra menina. E lá no fundo, finalmente vi a Bia, uma das garotas mais bonitas que você pode imaginar.
Porém toda sua beleza estava apagada com sua aparência acabada. Ela estava com fundas e roxas olheiras. Com certeza ela tinha passado uma boa camada de corretivo ali, mas mesmo assim, ainda mostrava a quão cansada e deprimida, ao contrário do Rodrigo, ela estava. Poderia sentir pena, mas eu sabia que não deveria, afinal, ela até pode ser minha melhor amiga, mas sabe que errou.
— Bia? — A chamei, assim que parei a sua frente. — Está tudo bem?
— Não. Isso é desnecessário. — Olhou para o Rodrigo, que agora beijava o pescoço da garota. — Ele quer que eu sofra como ele sofreu?! Isso tudo é vingança?
— Bianca, se acalme...
— Se ele acha que está me ferindo por beijar outra garota, ele está muito enganado. Ele está me ferindo de outras formas bem piores. — Vi uma lagrima ameaçar escorrer pelo seu rosto e ela rapidamente piscou, limpando seu rosto em seguida.
— Escuta. — Comecei. — Se ele acha que vai te ferir, ou está te ferindo, prove o contrário. Mostre para ele que o infantil da história é ele. Mostre que não vai se abalar por um simples beijo. Mostre que você não precisa dele para ser feliz. Mostre que você faz sua felicidade, e mostre que todo esse teatro que ele está fazendo agora, é em vão!
Em resposta, ganhei um sorriso e rapidamente ele voltou a compostura. Essa era a Bianca, essa era minha amiga. Aquela que não se metia no caminho de ninguém, mas caso você se metesse no dela... A coisa ficaria feia.
Vi um professor entrar na sala e rapidamente sentei-me, como todos os outros estavam fazendo. O professor era um tanto... charmoso. Ele não era como aqueles professores velhos e rabugentos que você via em filmes. Ele era muito bonito. Tinha cabelos castanhos claros, lisos e bem volumosos. Sua franja jogada para o lado e usava uma camisa branca, com um jeans escuro e um tênis. Sem falar na barba rala. Posso dizer que tenho um fetiche por caras de barba rala, acho tão... sexy. Poderia enlouquecer qualquer uma.
— Boa noite. — Voz grossa e rouca. — Sou o professor Alexandre, de química. Espero ter um bom relacionamento com todos vocês... — Também espero! — ...e para começar nossa aula, todos vão fazer duplas. Meninos com meninas.
Observei vários meninos e várias meninas se levantarem, então o professor bateu fortemente na mesa, chamando atenção de todos.
— As duplas serão sorteadas. — Ouvi vários alunos reclamando e sentando novamente. — Nessa caixa, tem os nomes das meninas e nesta, o nome de cada cor que pedirei. Devem estar se pergun...
— E o nome dos meninos? — A garota que estava agarrada ao Rodrigo pergunta.
— Se tivesse educação suficiente para ouvir primeiro e falar depois, saberia. — Ouvi algumas gargalhadas até do próprio Rodrigo e vi um sorriso brotar nos lábios da Bianca.
— Essa doeu. — Um garoto disse.
— Continuando... devem estar se perguntando, por que os meninos não fazem parte do sorteio. E eu lhes digo. Os meninos, irão tirar o nome das meninas, e as meninas tirarão a cor. Por exemplo, eu pego a caixa das meninas e tiro um nome... — Enfiou sua mão no pote e retirou um papel, abrindo-o — Bianca. Então eu dou a caixa com as cores para minha parceira e ela vai pegar um papel com a cor que vamos trabalhar.
— Agora pode explicar esse negócio de flor, por favor? — Outra menina pergunta.
— Claro! Mas não agora. Primeiramente, vamos aos sorteios.
E assim ele foi passando com o maldito pote, de mesa em mesa, e os meninos iam tirando os nomes dos potes. Minha atenção foi voltada para o professor quando alguém diz meu nome.
— Jullianna. Venha pegar a cor. — Era a voz do Christian, me chamando. Fui até a mesa do professor e enfiei minha mão no pote, tirando um papel de dentro. Abri o mesmo e vi o nome: AZUL, estampado nele.
— Christian e Jullianna, cor azul. Podem sentar. — O professor disse.
Continuou falando e falando que até eu me enojei de sua voz. Depois de vários séculos, finalmente nos mandou ir para a sala de Química, prática. Onde iriamos juntar alguns tipos de líquidos e tentar formar a cor que escolhemos.
Para que raios eu fui colocar química em minha vida?! Eu deveria estar com merda na cabeça quando marquei aquela droga de matéria. Poderia me jogar de uma ponte agora, mas viver até que é legal.
— Tudo bem... Que porra vamos fazer agora? — Christian me perguntava.
— E você acha que eu sei?! — Respondi, quase dando um tapa na sua cara. — Eu deveria estar trabalhando com um nerd que fizesse tudo pra mim.
— Achei que fosse uma. Já que passa horas em seu quarto, lendo.
— Eu leio histórias, não livros de química. É diferente, sabe?
— Mas enfim, vamos tentar fazer esse negócio.
— O azul com amarelo dá verde, o azul com vermelho da roxo. Misturando dá pra ver...
— Mas que raios está cantando, garota?!
— Eu estou lembrando da música da Xuxa. Que fala algumas misturas de cores para gerar cores novas. — Sua gargalhada foi tão, mais tão alta, que jurei que as janelas quebrariam. De repente toda a sala estava olhando para nós.
— Para de rir sua anta! — Bati em seu braço direito e ele gemeu, voltando a compostura. — Tudo bem, vamos tentar esse transparente...
— Transparente não tem cor.
— Cala a boca! — Derramei um pouco do líquido transparente e peguei outro meio amarelo ou laranja, sei lá. E misturei s dois. Gerando uma cor... Rosa. — Porra!
— Minha vez. — Ele pegou o líquido verde e misturou com o preto, que ficou... TRANSPARENTE! — MAS QUE PORRA!! ATÉ TRANPARENTE ESSE CARALHO FICA, MAS NÃO MUDA PARA AZUL!
— Cala a porra dessa boca garoto! — O empurrei, fazendo o mesmo bater em outro pote de cor amarela e acabar derramando no pote que eu segurava. Deixando o mesmo... AZUL. — AZUL! FICOU AZUL!! OLHA ISSO!
— CONSEGUIMOS! A PORRA FICOU AZUL! FICOU AZUL JULLIA!
— Se puderem fazer silêncio eu e o restante da sala agradecemos. E parabéns por conseguirem. Agora limpem essa bagunça.
— Pode deixar.
Então limpamos a merda toda e o sinal tocou. Fomos igual a foguetes para o refeitório, eu claro, arrastando a Bianca para tudo que é canto. E ela claro, depressiva de um lado para o outro. Parei minha turnê quando um filho do caralho puxa meu braço.
— Quem é o viado que... Worthy. O que você quer?!
— Quero conversar com você Jullia. É importante, e presumo que você está interessada no assunto.
— Você por acaso vai me agarrar e me beijar do nada? — Perguntei, fazendo-o sorrir.
— Talvez.
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