Metamorfose Do Amor
8 O reencontro
Notas iniciais
Ponto de vista de Laila
Seis meses se passaram e muita coisa mudou em minha vida. No dia em que parti, peguei o primeiro ônibus e saí sem rumo, viajei por algum tempo. Comprei uma passagem de avião com uma parte do dinheiro que ganhei nesses dias que estava cobrindo a licença da Vânia na empresa. Depois de um tempo, cheguei a outra cidade, Nova York, muito movimentada e diferente de onde morava anteriormente. No início não sabia pra onde ir, meu dinheiro era pouco e não daria para gastar com muitas coisas. Consegui alugar um cômodo com banheiro de uma Senhora chamada Dulce. Ela era vendedora de doces, fazia cocadas e doce de leite para vender nos faróis. Eu tentei arrumar um emprego, mas toda vez que conseguia, logo descobriam meu estado grávida e me mandavam embora ainda na experiência. Precisava muito trabalhar, pois meu filho iria precisar de muitas coisas quando nascesse. Como não tive opção, aceitei trabalhar para a Senhora Dulce, a ajudava vendendo os doces em um dos faróis da cidade. Era um trabalho difícil, pois minha barriga já havia crescido um pouco e ficar muito tempo em pé me causava dores nas costas e meus pés inchavam, mas eu não tinha escolha, pois o dinheiro economizado na empresa, já estava acabando.
Durante todo esse tempo, tentei esquecer meu passado, procurava não pensar em mais nada da minha vida de antes, principalmente em Robert Ranson. Eu sentia por ele uma mistura de sentimentos, amor misturado com raiva e mágoa. Queria não sentir o amor, mas acho que nasci pra sofrer mesmo, pois ainda derramava muita lágrima por ele. Ficava pensando se meu filho ou filha fosse parecido com ele e também ficava preocupada com a ideia de ter uma criança sem pai, não queria que ela sofresse por isso. Eu tinha que ser uma mãe maravilhosa e iria fazer de tudo para que meu bebê não sentisse a falta do pai.
A Dona Dulce sempre foi uma Senhora muito dura, mesmo vendo meu estado, não abria mão de me mandar trabalhar todos os dias. Haviam momentos em que eu estava me sentindo mal, mas mesmo assim tinha que ir para o farol e vender seus doces. Ela descontava o que eu ganhava no aluguel e ficava com uma parte do dinheiro, por isso sobrava pra mim muito pouco. Vou confessar que houve dias que não pude comer mais de uma vez no dia e sentia muita fome, principalmente estando grávida, mas eu tenho fé e sei que um dia tudo isso irá melhorar.
Ponto de vista de Robert
Depois de toda a confusão com aquela garota, Richard não desistiu de pegar no meu pé, dizendo que iria encontrar Laila e que eu teria que assumir minhas responsabilidades. Mesmo ela não estando presente, Richard me obrigou a trabalhar seriamente na empresa e depositar todo mês uma quantia razoável em uma poupança que seria para meu possível filho. Eu falei para ele que essa criança poderia nem existir, mas ele não voltou atrás, disse que se eu não cumprisse suas ordens, me colocaria na cadeia. Também me obrigou a procurar a garota e fazê-la voltar para a empresa, mas eu não tinha ideia de onde poderia encontrá-la por isso contratei um rapaz para que fizesse essa busca por mim. O nome dele era James, ele tinha contato com alguns policiais, por isso acredito que possa encontrá-la.
Meu dia-a-dia na empresa estava cansativo, não podia faltar que meu grande chefe Richard ligava me cobrando a presença. Não podia dar mole, pois ir preso era a última coisa que eu queria. Vânia havia voltado e nossa relação continuava na mesma de sempre. Transavamos frequentemente, mas eu não tinha nenhum compromisso com ela. Ela era doida por mim, achava que era minha dona, mas eu sempre dava um jeito de colocá-la em seu lugar.
“Amor, vamos jantar naquele restaurante que você gosta hoje?” Vânia falou vindo em minha direção em minha sala.
“Não, só quero chegar em casa e descansar”
“Amor vamos, depois a gente pode dar uma esticadinha até aquele motel que gostamos. Prometo te dar um ótimo tratamento.”
“Para de me chamar de amor e já disse que não quero.” Vânia parecia não ter entendido, pois se aproximou mais de mim e começou a beijar meu pescoço, meu rosto, minha boca. Ela queria algo a mais ali, só que isso eu não daria.
“Vânia chega, preciso dar uma volta.”
“Vou com você.”
“Não, quero ficar sozinho.” Disse e saí para andar um pouco sem rumo.
Andei e andei e cheguei a um parque que tinha próximo a empresa. Sentei em um banco e fiquei por lá. Minha cabeça estava cansada com tudo que estava passando em minha vida. Não estava acostumado com tanta responsabilidade e não aguentava a forma como estava sendo tratado por Richard. Tudo que ele fazia de bom era apenas para os meus irmãos, eu sempre ficava de fora. Não conseguia esquecer a cena de nós dois rolando no chão, brigando como dois inimigos, sua palavras naquele dia foram duras, ele disse que não tinha mais três filhos e sim apenas dois. Nunca fui muito ligado a ele, mas aquelas palavras me machucaram.
Estava aéreo em meus pensamentos, quando de repente, um garotinho senta ao meu lado chorando. Ele deveria ter uns quatro anos de idade. Olhei em volta e não vi ninguém com ele, então fiquei curioso em saber o que havia acontecido com aquele menino.
“Oi” Disse pra ele. O pequeno enxugou as lágrimas e me olhou por um instante.
“Oi” Ele disse baixinho.
“Por que tá chorando cara?” Perguntei.
“Você não é um home luim que pega cliança né?” Ele disse sem conseguir pronunciar direito as palavras.
“Não”
“Ufa! Que bom, polque não podo fala com estlanho.” Achei engraçado a forma como ele falava.
“Então agora que sabe que não sou o “home luim” pode me falar por que está chorando.”
“Papai não me ama mais.” Fiquei surpreso com a fala dele.
“Por que tá falando isso menino?”
“Polque ele não complou uma biciquetla pla mim.” Ele disse e baixou a cabeça.
“Mas vai ver que ele ainda vai comprar.”
“Ele falo que não pode agora.”
“Então, quando ele puder ele compra, isso não quer dizer que ele não te ama.” Não sei por que eu estava levando aquela conversa adiante, mas confesso que estava gostando daquele papo.
“Você tem papai?” Ele perguntou e eu engoli seco.
“Sim.”
“Ele te deu uma biciquetla?”
“Acho que sim, quando eu era pequeno assim como você.”
“Que legal, você me emplesta?”
“Não a tenho mais, deve ter quebrado ou se perdido em algum lugar”.
“Não podia ter peldido.”
“Quem está com você aqui?”
“Minha mãe, mas eu coli pla cá. To blavo por causa da biciquetla.” Ele disse fazendo uma carinha de bravo. Eu comecei a rir.
“Acho melhor você voltar pra sua mãe, ela deve tá preocupada.”
“Só volto quando meu papai me dá a biciquetla.”
“Ele vai ficar triste com você. Não o ama?”
“Sim, eu amo meu papai, muto muto.”
“Então não quer ver ele triste né?”
“Não. Você ama seu papai?” Ele perguntou e me deixou sem palavras.
“Eu não sei pequeno.”
“Não sabe? Cluzes! Papai é semple legal, só não é quando não dá biciquetla.”
“É” Foi só o que eu consegui responder.
“Sabe homi, eu goto muto de blincar com meu papai, ele faz coisas de madeira.”
“Hum...é marceneiro”
“Que isso?”
“Marceneiro são as pessoas que fazem coisas de madeira.”
“Então meu papai é maciero memo.” Eu tive que rir.
“MARCENEIRO”
“Foi o que eu falei homi!” Aquele garotinho estava me divertindo.
“Você tem filho?” Esse menino estava pegando pesado comigo.
“Não”
“Quando tiver vai dá uma biciquetla pla ele?”
“Acho que sim”
“Ele vai ficar feliz moço.”
De repente uma moça aparece toda preocupada.
“Filho! Aí está você! Nunca mais se afaste de mim ouviu bem?”
“Tá bom mamãe, eu tava convesano com esse homi. Fica tlanquila, ele não é o homi luim.” Falou essas últimas palavras em um tom baixo.
“Ok filho, agora vamos embora. Desculpa moço, meu filho fala bastante mesmo.”
“Imagine, adorei falar com ele, aliás como é seu nome rapaz?” Perguntei.
“É Pedro e o seu?”
“Robert”
“Então tá Rob, tchau.”
“Tchau”
O garotinho se virou e começou a ir embora com sua mãe, mas de repente voltou e veio correndo até mim, me abraçou e me deu um beijo na bochecha.
“Você vai ser um papai legal.”
Ele disse e saiu me deixando surpreso.
Estava voltando para a empresa quando meu telefone toca.
Olhei no visor do aparelho e vi que era Richard.
“Oi”
“Onde está? Preciso falar com você.”
“Estou voltando para a empresa.”
“Venha até a minha sala.”
“Bronca?” Já pensei que levaria outra bronca dele.
“Coisas da empresa.”
“Ok, estou indo”
Fui direto para a sala dele e quando entrei logo começou a me falar.
“Temos um contrato para fechar com a empresa STIIL de Nova York, quero que vá pra lá por uma semana e resolva o que tenha pra resolver.”
“Não posso resolver daqui?” Não estava a fim de viajar.
“Não, tem que ir.”
“Ok.”
“Partirá amanhã de manhã.”
“Ok”
“Isso é tudo.” Ele falou e começou a escrever em uns papéis. Fiquei parado em sua frente, lembrando da conversa com o menininho no parque.
“Algum problema?” Ele me perguntou.
“Não...nada” Respondi e saí.
Ponto de vista de Laila
Levantando cedo para mais um dia de trabalho no farol. Essa noite quase não dormi com meu bebezinho mexendo, acho que ele está ficando muito sapeca. Não sei por que falo “ele”, se for uma menina já deve está brava comigo.
“Bom dia meu anjinho” Disse acariciando minha barriga. “Quase não deixou a mamãe dormir essa noite hein? Você está bem?” Parecia que ela ou ele me entendia, por que neste momento deu duas mexidinhas como se tivesse me respondendo. Eu já estava quase com sete meses, não via a hora de poder segurar meu bebê nos braços.
“Laila! Tá atrasada menina! Vamos que os doces estão prontos.” Era a Dona Dulce me chamando. Ela sempre dizia que eu estava atrasada, mas eu sempre acordava mais cedo do que o necessário.
“Estou indo Senhora.”
Me troquei, colocando um vestido largo que eu tinha, tomei um copo de leite com bolachas e sai.
“Pronto, estou aqui.”
“Toma a bandeja e não demore para chegar lá. Quero tudo vendido hoje menina, preciso de dinheiro.” Precisar de dinheiro era sempre a fala dela.
“Vou fazer o possível pra vender tudo.”
“Melhor mesmo”
Peguei a bandeja e fui para meu destino.
Ponto de vista de Robert
Cheguei em Nova York e já estava preso em um trânsito enorme, não aguentava mais ficar dentro do carro, mas não tinha pra onde correr. Meu telefone tocou e vi que era a mamãe.
“Alô”
“Oi filho! Já chegou?”
“Sim acabei de chegar, mas estou preso no trânsito.”
“Ok filho, quando chegar ao hotel me liga e não se esqueça de se alimentar bem.”
“Mãe, não sou mais criança.”
“Eu sei querido, mas me preocupo com todos os meus filhos, mesmo sabendo que já são crescidos.”
“É...diferente do Richard...”Não sei porque tinha falado aquilo.
“Não fale assim do seu pai Robert, ele ama você assim como eu.”
“Não minta pra mim mamãe, sei que isso não é verdade.”
“É verdade sim, ele só está sendo duro com você, porque se preocupa com seus comportamentos, mas você está provando o contrário e ele ficará muito feliz”.
“Tá mamãe, melhor pararmos esse papo por aqui.”
“Se cuida filho e não se esqueça de me ligar.”
“Tá” Falei e desliguei.
Estava ouvindo música no carro e o trânsito continuava. Notei que bem a frente havia um farol e depois dele o trânsito parecia não existir mais. O problema é que esse farol era muito demorado, por isso causava esse trânsito danado.
Os carros a minha frente foram passando e quando faltavam apenas dois carros a minha frente para passar do farol, o infeliz fica vermelho.
“Áh! Que raiva!” Disse pra mim mesmo.
Notei que uma moça se aproximou dos carros e começou a oferecer algo em uma bandeja. Ela estava de costas para mim e conversava com o motorista do carro, mas parece que o mesmo não se interessou pelo que ela estava oferecendo. Ela se virou e começou a vir na direção do meu carro, foi quando percebi que não era uma moça qualquer, era Laila. Ela estava com a barriga grande e caminhava devagar. Eu não sabia o que fazer, nem o que dizer. Ela levantou o olhar e sorriu vindo me oferecer algo também, mas quando chegou perto do carro e me olhou, arregalou os olhos e soltou a bandeja no chão derrubando vidros e uns pacotinhos. Ficamos um tempo nos olhando, ela parecia em choque, até uma Senhora se aproximar e gritar com ela.
“Sua burra! Olha o que fez...terá que pagar esse prejuízo ouviu!” A Senhora começou a recolher algumas coisas e Laila se abaixou para ajudá-la. Neste momento escuto muitas buzinas atrás de mim e vejo que eu estava prendendo todo o trânsito. Andei com o carro e parei na próxima esquina, próximo do local onde Laila estava. Voltei ao local andando e a encontrei com a Senhora na calçada. A Senhora estava muito nervosa com ela.
“Você não deveria ter deixado isso acontecer!” Ela gritava e Laila estava de cabeça baixa. Isso me fez lembrar as broncas que eu dava nela na empresa e ela agia da mesma forma. Aquilo me deu raiva da Senhora, não sei por que. Aproximei-me e novamente Laila ficou espantada me olhando.
“Com licença Senhora, quanto custa todos esses doces da bandeja que a moça carregava?” Perguntei.
“Não estão mais bons para o consumo rapaz, essa estúpida derrubou tudo.”
“Eu quero comprar todos.” Disse e a Senhora franziu a testa.
“Tudo? Mas caíram no chão e...”Não deixei que terminasse.
“Não importa, quero mesmo assim” Como a Senhora não falava o valor, peguei umas notas no bolso e ofereci a ela, com certeza era bem mais do que valiam aqueles doces. Laila me olhava surpresa.
“Isso paga seus doces Senhora?” A Senhora arregalou os olhos e falou.
“Claro! Muito obrigada! Agradeça a ele menina!” Ela falou com Laila lhe dando um cutucão.
“Obrigada” Ela disse baixinho. A Senhora saiu e Laila tentou fazer o mesmo, mas eu fiquei em seu caminho. Ela estava agitada e respirava com dificuldade, começou a ficar pálida e sem eu esperar desmaiou. Eu rápido a segurei para que não caísse no chão e em meu colo a levei até o meu carro.
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