Metamorfose

1 Capítulo único


Notas iniciais
E da chuva fizeram-se as palavras.

Após mais um dia exaustivo com o corpo trancafiado e a alma vagando dentro da sala 3x3 de um escritório, Marcos adentrou num Café de esquina, o adorável cheiro de croissants e dos grãos negros o fazendo salivar prontamente. Limpou o solado dos mocassins no tapete felpudo da entrada, já encharcado por outras dezenas de sapatos vitimados por outro habitual dia chuvoso londrino e buscou o vermelho dos cabelos de Victoria, que sempre o aguardava, aborrecida pela demora. A papelada estava gigantesca hoje, Victoria, diria assim que se sentasse de frente para ela, na mesma mesa em que sentaram-se na semana passada, no mês passado inteiro, e ainda por todo o ano interior – desde que disseram sim um ao outro, noutro dia molhado embalado pelo frio de novembro, ela sorridente enrolada na toalha de banho e ele jogado sobre a cama, a beber a quinta taça do vinho barato. Conversariam sobre os respectivos trabalhos, sobre o que faltava na geladeira do apartamento, sobre uma tia, uma prima, uma amiga ou uma conhecida de ambos que estava grávida, e então falariam sobre problemas com álcool, a bolsa de valores e finanças, o artigo que um deles estaria a escrever e a estreia de um filme aleatório. Seguiriam o roteiro da peça de teatro que Marcos mais ensaiara, aquela com muitas variações de escrita, chamada Rotina.

Naquela quinta-feira, entretanto, o cenário se alterara. Victoria ainda não chegara. Descansou o corpo magro na cadeira estofada e pôs-se a esperar, pensando em quais seriam os dizeres sobre essa inversão de papéis que vivenciaram. Lá fora, começava a escurecer e tornava-se mais frio, porém a garoa cessara deixando o asfalto brilhoso à luz laranja dos postes. As pessoas passavam apressadas, enfiadas em seus sobretudos e com a voz calada por mantas cobrindo a boca e o nariz, e sorrisos, certamente. No mesmo ritmo, os automóveis passavam, barulhentos, interrompendo ideais de tranquilidade existentes dentro de cada um.

O Café recebia cada vez mais clientes e aroma de croissants passara a dividir espaço com o cheiro de chocolate quente. Entre um devaneio de pensamentos e uma pequena crise existencial, Marcos avistou os conhecidos cachos ruivos de sua esposa, em meio a uma multidão de pessoas que caminhava de forma engraçada, quase que em bando. Victoria passou reto, a passos largos e com pressa pelo mundo, ignorando a óbvia existência de algo além dela mesma. Ele levantou, pegou sua maleta e enrolou o cachecol ao redor do pescoço, saiu em disparada atrás dela, talvez estivesse chateada com ele, talvez fosse encontrar alguém e talvez a paranoia já estivesse o possuindo.

Buzinas cortavam o vento e Victoria começara a correr, atravessando a rua e indo na direção do longo gramado abandonado que sinalizava o começo do antigo parquinho. Os balanços dançavam regidos pela brisa e poças de água se acumulavam sobre os pontos onde havia terra, ressaltando de alguma forma um contraste com a metrópole. Marcos correu mais um pouco, ofegante, até alcançá-la – estática – olhando para a copa das árvores distantes e entretida numa risada casual, espontânea, e ao mesmo tempo relutante. Seus olhos eram profundos como o de Victoria, de fato, mas donos de uma naturalidade que há tempos não encontrara numa infinidade de rostos e na insistente busca por janelas da alma. Aquele era o auge da peça de teatro, ele estava ciente disso. Impactante era perceber o quanto cada um tinha a verdade, sua própria verdade, escondida atrás de um olhar, de uma rotina, de um hábito. Impactante era perceber a forma como sufocamos as nossas verdades e então refletir sobre o quanto somos um, acima de tudo, sendo vários. Apagando e colorindo de um jeito diferente o que um dia foi desenhado.

–- O que está fazendo aqui, Marcos? Eu me atrasei – Victoria estava ali, como qualquer uma das pessoas que antes passeavam pelas ruas. Enfiada num sobretudo e com a voz calada por mantas cobrindo a boca, seu nariz e uma ideia de sorriso.

Ele arregala os olhos e

Victoria percebe o quanto está atrasada. Prende seus cabelos ruivos em um coque no alto da cabeça e toma um último gole de água gelada, para espantar o calor. Abandona o computador com mais uma parte de sua crônica e corre, sem nenhuma manta para cobrir seu rosto, em direção ao pequeno parquinho abandonado, levando apenas consigo o sentimento de não sentir algo. De não precisar se limitar a palavras. Ela sorri, olha com naturalidade para a copa das árvores, aquela bonita pintura que em algum ponto de sua imaginação poderia se fundir com o azul do céu. Ri, sem graça e espontaneamente, um tanto relutante. Sente o ar viajando dentro de si; sente como é bom respirar e sentir que respira. Sente o chão sobre seus pés, realmente sente. Sente o cheiro do verão, da grama, da vida. E desfruta daquela parte da verdade de si mesma, que não a mistura com vários. A verdade que mais a fazia feliz, sem dúvidas, era poder ser. Pode ser a personagem que quisesse, quem quisesse e ainda assim não deixar de ser ela mesma.

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