Metamorfose
4 Paranormal
Notas iniciais
Parei com essa frescura de não mudar coisas antes de postar. O capítulo passado teve uns erros bem incomodantes. =p
Todos os seus quatro cantos eram compostos basicamente de condomínios com casas e prédios, aliás, em sua grandiosa maioria, prédios. Cada uma das regiões tinha seu próprio shopping de incontáveis andares, que era onde se instalava basicamente todo o comércio. A cidade funcionava de um jeito simples nessas partes: comércio regional só era permitido dentro dos shoppings, fora deles tudo o que podia existir eram moradias. A teoria que vários estudiosos elaboravam era que se devia isso ao crescimento absurdo da população nos últimos tempos, já que enquanto as pessoas deixaram de engravidar uma mulher dez vezes, passaram a engravidar vinte mulheres de uma vez, e assim a população continuou crescendo. No entanto, talvez isso fosse uma teoria um tanto exagerada. O que aconteceu foi quase isso: os divórcios chegaram ao ponto mais crítico em que podiam chegar, ao ponto em que as pessoas casavam, tinham seus dois filhos, diziam que o fogo apagou e divorciavam. Era simples. Era produtivo, aliás, reprodutivo. E foi assim que a humanidade continuou crescendo absurdamente e tiveram que absorver quase todo o espaço do comércio para novas moradias. Também havia uma única escola para cada canto da cidade. Todas do mesmo dono, com o mesmo ensino e absolutamente a mesma estrutura: um território gigantesco, de vários e vários metros quadrados, muito bem aproveitado.A parte da escola onde ocorriam as aulas parecia muito um castelo gigantesco. Tinha um centro que possuía o aspecto de uma casa de dois andares, feita a partir de tijolos cinzas. E duas torres grandes ao melhor estilo medieval, até mesmo em sua coloração igual à do centro e seu telhado vermelho e triangular.No interior do prédio central havia, de cara, um espaço vazio com vários monitores pendurados nas paredes. Apenas eles iluminavam o local, lâmpadas não eram utilizadas para incentivar os alunos a saírem de dentro da estrutura e respirarem ar r0;puror1;. Além disso, havia as entradas para as duas torres, que eram diretamente ligadas a esse centro e só podiam ser acessadas por lá. Fora desse lugar de estudo tinha um muro pequeno cercando tudo, junto com um portão na frente para que obviamente os alunos entrassem com mais segurança que pulando muros. Em cada um dos lados direito e esquerdo da escola tinha algo parecido com uma coleção de quadras: debaixo de uma cobertura enorme havia cerca de quatro variações de quadras, três variações de campo e um salão para esportes de tabuleiro e de mesa. Todos eram separados por grades que iam do chão até a cobertura, com pequenos portões que poderiam facilmente ser confundidos com as próprias grades.Atrás do lugar de estudos, havia uma enorme floresta. Provavelmente o maior jardim de toda a cidade, com seu número absurdo de árvores e uma grande fonte no centro. Não havia motivo certo para a existência daquilo, mas nem por isso deixavam de existir. Era um lugar bem aproveitável para passear nos intervalos, ao longo dos anos os próprios alunos tornaram aquela floresta indispensável. O que mudava era apenas as pessoas lá dentro, nada mais que isso. E, lógico, por mudarem as pessoas, todas as escolas eram únicas e tinham seus próprios problemas. Mas uma delas, do norte, tinha um problema muito especial. Problema que migrara de turno nesse ano: uma garotinha estranha, que era conhecida por todos do turno da tarde por atrair espíritos malignos, tinha um novo turno e era o da manhã. Por mais que parecesse algo muito estranho para qualquer um, quem se aproximava dela realmente acreditava no que diziam, já que muitas tardes tinham casos em que raízes de árvores invadiam salas de aula no intervalo... E ela sempre estava em frente à árvore que causava os problemas. Sempre. Parecia fria e solitária, mas não era possível definir ao certo. Nunca tivera uma oportunidade para mostrar sua verdadeira personalidade, já que antes de pensar em tentar, era reprimida por qualquer pessoa que fosse. Nem ela mesma sabia como reagiria quando uma pessoa de verdade conversasse com ela com um objetivo legal, sem contar a sua própria mãe, já que essa não a reprimia por motivos óbvios. E talvez a mesma região tivesse outro problema, mas não parecia tão preocupante quanto uma garota que atraía maus espíritos. Era um menino psicologicamente instável e que, quando queria, adquiria uma força impressionante a ponto de ninguém conseguir brigar cara-a-cara com ele. Aliás, nem grupinhos de meninos conseguiam bater nele, já que sempre acontecia de um levar um soco e desmaiar e os outros fugirem. Tinha várias broncas, brigas, inimizades e tudo de ruim que podia acontecer com um moleque na escola, mas também tinha um amigo ou outro.
Era o primeiro dia de aula naquele turno. A menina estava nervosa porque não sabia que tipo de tratamento receberia. No caso, se seria ruim como o da tarde ou um novo nível de crueldade que só a manhã poderia oferecer. Não, ela não era uma garota positiva. Não que estivesse errada, já notava que pessoas a observavam de um jeito diferente, depois discutiam com um amigo e etc. Estava em um lugar absurdamente escuro dentro da escola r11; tradicionalmente iluminado apenas por monitores r11;, de modo em que ela mais ouvia as coisas que enxergava. Apenas enxergava silhuetas e apenas era enxergada por silhuetas. Todos a reconheciam, uma pena que não fosse por bons motivos. Falando em motivos, tinha todos do mundo para ficar triste como sempre, e foi isso mesmo que fez. Já o garoto estava conversando com um outro, próximo à ela, provavelmente seu amigo. Era um dos poucos que ele tinha, aliás, que ele suportava ter, já que não gostava muito de se relacionar com os outros alunos porque eles tinham um conceito muito defasado sobre ele e sempre acabavam trocando socos. As meninas, bem, algumas maria-academias gostavam dos músculos dele e outras o achavam bonitinho, mas a maioria tinha um pouco de medo de se aproximar de um garoto psicologicamente instável. De fato não tinha muitas relações e tinha perdido a vontade de ter. — Cara, olha para ela. r11; disse o amigo, apontando o dedo para ela, com um tom de voz baixo para que não a assustasse. Estava com medo dela, como qualquer outro r11; Não é a menina dos espíritos ruins? — É sim. r11; respondeu o garoto, sorrindo. — Acho que vou falar com ela. — Está louco? Ela pode atrair espíritos o suficiente para te matar! — Ela não vai conseguir me fazer mal. — Espíritos são mais fortes que força física... Cara, ter esse bolo de músculos aí não vai te ajudar em nada! — Fica quieto, só presta atenção... Ou não. Ele então deu alguns passos na direção da menina e começou a se aproximar, aos poucos, dela. Ela, mesmo na escuridão imensa, conseguiu ouvi-lo e enxergar sua silhueta, então se afastou com medo de que fosse alguma tentativa de chacota. Ele se aproximou mais. Ela se afastou mais. Ele se aproximou ainda mais e a pegou pelo braço como sinal de que não devia continuar se afastando. Todos observaram aquilo e estranharam ambos, já a garota se assustou bastante e acabou soltando um grito. Todos riram até verem o que aconteceu após o grito, aí voltaram a prestar atenção. Raízes de árvore quebraram o piso do chão por baixo e saíram em direção ao garoto, dando a impressão de que queriam capturá-lo. Aliás, de fato queriam capturá-lo. Ele, já prevendo que aconteceria algo do tipo, se jogou com tudo para frente e tomou um pouco de distância das raízes. — É o que eu suspeitei desde que vi relatos sobre você! Você não atrai merda de espírito ruim nenhum, você não faz nada, só é protegida por plantas! r11; gritou ele, alto o suficiente para que todos no local pudessem ouví-lo, continuando em seguida com um tom mais baixo r11; Só precisa avisá-las de que um garoto não representa perigo. Ele então, notando que as raízes ainda vinham em sua direção, rapidamente abriu suas mãos e as botou no chão. Uma enorme chama se levantou no mesmo lugar que a raiz, começando a queimá-la e enfraquecê-la de modo tão instantâneo que a parte que ia até o garoto caiu no chão antes de conseguir alcançá-lo. Com a chama, o local finalmente ficou iluminado o suficiente para enxergar muita gente que estava ao redor, inclusive as duas estrelas da cena. O uniforme não existia, mas todos eram obrigados a vestir roupas que eram consideradas mais decentes e mais sociais. Não que ficassem realmente revoltados, minissaias e as clássicas roupas de mano eram consideradas decentes... Não, não havia necessariamente muita coisa a ser considerada indecente. Mas apesar disso, os alunos em si adotaram um padrão, que era normalmente os garotos virem com uma camisa e uma calça qualquer e as meninas com uma blusinha e uma calça ou minissaia qualquer, enfim, um código bem simples e fácil de entender. Era incrível porque eles criaram esse método e nem fizeram qualquer coisa para ameaçar quem não viesse desse jeito, mas quase ninguém não vinha. Até os dois estranhos seguiam, era possível ver com a iluminação das chamas. O garoto usava uma camisa e uma calça preta. A camisa com um dragão chinês vermelho atrás e no meio, ainda que no fim dela seu corpo fizesse uma curva para a esquerda, deixando a continuação da criatura para a calça. Essa fazia com que o corpo do dragão seguisse em um espiral e acabasse na parte da frente de sua perna esquerda. Ele tinha uma pele branca e um cabelo estranho, como se tivesse saído de um anime: bem curto, mas volumoso e cheio de grandes pontas para todos os lados, parecendo uma bananeira vermelha; exceto por uma parte, já que ele tinha uma única e enorme franja cobrindo o olho direito, enquanto o olho esquerdo já era estranho porque tinha uma coloração absurdamente vermelha. Já a menina vestia uma blusinha branca comum com uma estrela brilhante no centro e várias estampas em volta, que não faziam a menor diferença porque eram escondidas por um casaco de pele rosa. De fato era um dia tristemente frio, como costumavam ser todos os dias naquela altura, e todos da idade dela ainda não tinham se adaptado totalmente a isso. Mas a parte para baixo da barriga da menina dizia o contrário, já que não passava de uma saia em uma medida apropriada o suficiente para não entrar em boates por decência demais e não entrar em algumas igrejas por indecência demais junto de meias coloridas daquelas que cobrem as pernas inteiras e ainda ficam procurando um caminho até os braços. Por fim, botas brancas com tamanho considerável, sem salto porque era o recomendável para uma pessoa da idade. A pele também era clara e o cabelo era mais comum: simplesmente longo e loiro pegando boa parte das costas, e com algumas simples franjas curtas porque provavelmente fazia parte da moda das crianças e pré-adolescentes, enfim, simples. Os olhos azuis e o resto ainda mais normal. Realmente não era por causa de visual que ela era estranha. — Você não precisa ter medo de mim, eu sou tão paranormal quanto você. — disse o garoto, apagando as chamas em seguida, deixando o lugar tão escuro quanto antes. — A propósito, primeiro ano do ensino médio, sala B. O sinal bateu e a maravilhosa orquestra de alunos gritando e correndo aleatoriamente por um território imenso à procura de suas salas começou. Como a escola tinha o básico formato de um castelo, boa parte dos alunos tinha que subir escadarias enormes para suas salas, geralmente os mais velhos para fazerem mais esforço físico. O mundo estava requerendo bastante isso nos últimos tempos, aliás, estava até economizando bastante tecnologia para que os seres humanos vivessem com mais saúde. Esse era um dos preços, um dos menores deles. É lógico que ainda assim havia elevadores para as duas torres, mas esses eram totalmente exclusivos aos funcionários. Não que eles não precisassem de esforço físico, só queriam esfregar na cara dos alunos que eram superiores de algum jeito. Ou não. Uns tempos se passaram e todos estavam em suas devidas salas, exceto os matadores de aula que tinham total permissão para isso, já que a pena de morte às aulas era totalmente liberada naquele colégio. Não havia motivo para proibirem os alunos de fazerem isso, no final das contas quem sempre se ferrava eram eles mesmos. O garoto que se declarava paranormal estava em sua sala: primeiro ano do ensino médio B, como tinha dito anteriormente. Formada basicamente por: um quadro negro que existia apenas para reproduzir o que era escrito ou desenhado na mesa do professor, que era um balcão retangular grande com um pedaço de vidro cobrindo toda a sua superfície exceto um pequeno pedaço ocupado por um notebook, acompanhado de uma cadeira. Depois as carteiras dos alunos, que eram mesinhas menores cada uma com teclas e uma tela. Por último e menos importante e necessário descrever, as janelas comuns de escola do lado esquerdo, a porta do lado direito, lâmpadas fluorescentes e condicionador de ar no teto. Enfim, ele estava lá em sua carteira, praticamente no centro da sala. Pensava um pouco na garota paranormal enquanto acompanhava, parcialmente, a bendita aula de português onde todos os alunos felizes se apresentavam para a professora e sala feliz. Já tinha brigado com a professora porque tinha se recusado e no fim das contas conseguiu não se apresentar, o que seria inútil já que toda a escola o conhecia. Provavelmente esse era um dos motivos.
A menina passava pela mesma situação, em um mesmo modelo de sala, com a diferença de que obviamente as pessoas eram menores. Estava em uma sexta série, classe C, se tivessem pessoas do mesmo tamanho que do primeiro ano haveria muitos problemas. Porém não só a situação de lugar, mas a situação psicológica da menina era a mesma, ela não parava de pensar naquele misterioso garoto que passava pela mesma situação que ela. Nem mesmo alunos discutindo sobre a sua paranormalidade a incomodavam naquele momento. Pensava, a princípio, sobre a existência de outras pessoas como ela, e que pudessem controlar suas habilidades ao contrário dela. Era impressionante, e agradável também, a sensação de descobrir que não estava só era MUITO agradável para a pequenina. Outro ponto era que ele tinha um amigo comum, ou que pelo menos parecia comum. Ela poderia ter também, só não fazia a menor ideia de como. Mas todas essas respostas estavam em algumas poucas palavras, essas eram r0;primeiro ano do ensino médio, Br1;. Os intervalos não aconteceriam naquele dia, então teria de esperar ate o fim da aula para averiguar isso. Quase morreu de ansiedade, mas conseguiu esperar até o fim. Assim que o ultimo sinal bateu, ela esperou alguns segundos para acabar o movimento, subiu as escadas até o penúltimo andar onde ficava o ensino médio e procurou a sala B. Rapidamente a encontrou e entrou. Os corredores eram impossíveis de se perder: eram absolutamente retos, com nove portas de cada lado representando salas de aula e uma de cada lado representando banheiros, a escadaria para o andar acima em um dos extremos e a para o andar abaixo no outro. Nenhum deles tinha nada fora algumas máquinas parecidas com máquinas de refrigerante de diferente, a pessoa definitivamente tinha que ter um QI muito duvidoso para que conseguisse fazer besteiras naquele lugar. Enfim, ela entrou na sala. O garoto a esperava para sua sorte. E esperava feliz como se estivesse esperando por um pote de doces ou algo do tipo. Mas a menina nem prestou muita atenção nisso: assim que o viu, não perdeu tempo e logo fez a pergunta que qualquer um faria. — Como você conseguiu descobrir isso tão facilmente? Quer dizer, se nem eu sabia ao certo... — Foi fácil, na verdade eu já passei por isso também. r11; respondeu ele, depois respirando fundo e começando outra fala ainda com o sorriso bobo no rosto r11; Prazer, Hércules. — Han... É... Ísis, prazer. r11; cumprimentou ela, bastante tímida. r11; Desculpa, eu não tenho o costume de... — Nem liga, eu entendo! Nossas vidas de certa forma são bem parecidas, eu sei bem o que está se passando com você agora. — Nha, você tem amigos e tudo mais... — Você também tem coisas que eu não tenho, por exemplo uma mãe, que eu sei que você tem porque seu irmão estuda comigo. Eu não tenho. r11; disse ele, tentando igualar um pouco as coisas para que a garota não ficasse tão negativa. Não era como se não ter mãe não fosse um problema para ele, mas o conformismo sempre foi seu dom divino. — Caramba, então você não tem onde morar e tudo mais? — Tenho sim. Vivo com um ex-agente e atual chefe de bombeiros, que me resgatou daquele lendário hospital atualmente envolvido por estacas de gelo. — Bem, eu não tenho pai, mas deve ser muito mais difícil não ter nenhum dos dois... Minha mãe é a pessoa que mais gosta de mim nesse mundo e acho que a única que conversa comigo normalmente, ainda que ela pareça ter medo de vez em quando. — Todos costumam ter medo da gente. Talvez estejam acostumados com histórias em quadrinhos e desenhos e achem que realmente vamos destruir o mundo e tudo mais... Mas eu acho isso ridículo, se eu fosse deixado quieto eu morreria praticamente sem usar o que sei usar, só para coisas que não trariam problemas a ninguém. Tipo, eu não sou o cara bonzinho e tudo mais, mas pra que complicar a própria vida? Não faz sentido. — Destruir o mundo me faz rir. De repente um garoto apareceu por aquela porta. Boné preto com uma aba reta marota, bigodinho daqueles que ainda estão só nos fiapos, ausência extrema de cabelo a ponto de Rob Halford ter inveja de sua careca. Camisa roxa sem estampas, apenas com duas pistolas cruzadas atrás e calças tão largas que caberiam em dois dele, sem contar o tênis que caberia em três. Enfim, o garoto tinha um figurino bastante gordinho para uma pessoa normal como ele. Ele também estava bem nervoso, parecia não ter gostado muito de ter visto sua irmã com Hércules, mesmo que não pensasse no pior. Simplesmente não gostava dele, e isso era recíproco. — Ísis, olha só. Você é problemática, sim, mas não é por isso que deve andar com outros problemáticos! r11; disse ele, alto, com uma voz bem barulhenta e irritante do pior tipo de adolescente. — Ah meu Deus, eu não... r11; tentou ela, sendo interrompida por Hércules. — Pode ir, Ísis, certas pessoas não sabem o seu lugar. Mas eu não quero perder tempo ensinando a elas onde esse lugar é. r11; provocou o garoto, com um sorriso sarcástico para irritar o irmão da garota ainda mais. — Quem você esta pensando que é?! Você não passa de um problemático! — Pensando bem... Ok, você pode levar isso pelo lado pessoal. Tipo, como se eu fosse uma pessoa que gosta muito de você e vai te ensinar a ser gente. Hércules então se aproximou um pouco do garoto, que ficou meio amedrontado e deu alguns passos para trás. De certa forma tinha se arrependido de ter dito tudo aquilo, mesmo que achasse que tinha razão em tudo que disse e que o paranormal merecesse umas boas palavras ofensivas, agora seria a hora em que ele se arrependeria de ter ossos e músculos. Provavelmente. Torcia que não, mas não podia esperar outra coisa de um cara como aquele. Então pensou em correr e até começou, mas logo foi apanhado pelo pescoço com uma das mãos de Hércules. Bateu a cara com força na parede com uma ajudinha de uma mão que o segurava e em seguida parou de sentir o chão, já que estava sendo levantado. De repente começou a imaginar aquelas historinhas do Incrível Hulk que lia quando menor e quase riu, só teve o discreto problema de lembrar que ele era o filho da mãe que estava apanhando de um monstrengo. — Para com isso, cacete! — gritou ele, com uma raiva descomunal que não o ajudaria em nada porque a vida real não costumava trabalhar com sentimentos acima da lógica. E sim o contrário. — Devo, Ísis? — Perdoa ele dessa vez. — respondeu a garota, rindo disfarçadamente. — Só veremos se isso não vai dar problema em casa, aí eu te aviso amanhã. Todos então tomaram os devidos rumos de suas casas: Ísis com seu irmão, sem conversar porque eles basicamente se odiavam e Hércules sozinho como de costume. Rapidamente os irmãos chegaram em casa. O solitário garoto, por outro lado, demorou um pouco mais... Mas chegou a sua casa. Enfim sua casa, ou o apartamento onde morava. Lugar simples e bacanudo, de modelo comum e todas as janelas com tela escurecedora para dar um charminho, mas não passava de um prédio comum ao lado, em frente e atrás de outros prédios comuns. Com uma portaria comum estranhamente sem nenhum porteiro, elevadores comuns e duzentos andares comuns. Porém a situação não estava simples e bacanuda. Havia uma pessoa na portaria, vestida com uma roupa de bombeiro e meio nervosa. Pessoa que Hércules reconheceu e foi até lá conversar, era obviamente um dos bombeiros da região, e aparentemente um de seus amigos também. — Ei, o que aconteceu com o carrasco? — perguntou o garoto, se referindo ao bombeiro que vivia com ele, imaginando que estivesse em alguma missão. Em seguida notou que o homem estava ouvindo algo, já que era possível enxergar um pequeno fone branco e raciocinou que era algo sobre essa tal missão. — Cara, eu preciso ir. Ele me deixou aqui para te avisar que está em uma missão complicada e que você não deve se preocupar, mas agora que eu já avisei, eu tenho que ir lá ajudar! — Ótimo... Eu também vou. — Não, está crítico demais para você! Você é o mascote do corpo de bombeiros da região, mas dane-se, você é inexperiente! — aumentou muito o tom de voz o bombeiro, já se preparando para correr, já que o estabelecimento afetado não estava tão absurdamente longe e ele poderia chegar a tempo a não ser que algo acontecesse. — Erm, como se ganha experiência? — Se for pra ficar insistindo, ok, você vai também. Só que eu não autorizei nada, e nem te vi no meio do caminho. — Me parece uma condição plausível. — Dá pra parar com esse vocabuláriozinho culto irritante? — Você vai começar a correr ou ficar aqui enchendo o saco porque eu tiro notas boas em português? Os dois chegaram então ao lugar. Lugar coberto por chamas que, aliás, ocupavam tanto tudo que era possível apenas enxergar um letreiro preto no chão e o cubo que era o estabelecimento. E enxergar parcialmente, já que havia muito fogo pelo caminho tampando a visão do inferno. Mas definitivamente era estranho até para os bombeiros. As chamas atingiam um nível único de altura que nenhum deles tinha visto antes, assim como estavam em um nível de potência sobrenatural. Hércules e o bombeiro que tinham chegado ao lugar no momento não sabiam, mas elas estavam lá há pouquíssimo tempo para atingir tal nível. — O chefe, feras, o chefe está lá dentro e não voltou até agora! — disse um dos bombeiros que apareceu de repente correndo do lugar, provavelmente no seu limite, para que não acontecesse algo pior r11; E não estamos conseguindo controlar as chamas! Hércules, eu nem sei o que raios você está fazendo aqui, mas tenta nos ajudar dessa vez! Tá muito complicado! — Tudo bem, tudo bem, é óbvio que eu vou tentar! O chefe está lá! — respondeu ele, em seguida começando a correr com tudo o que tinha para que chegasse lá cedo. Não haveria problema algum em ele entrar sem alguma proteção, exceto o das roupas dele se queimarem e ele ficar peladão do jeito que ele veio ao mundo, ou não, já que usava uma roupa especial para isso desde pequeno pelos bons momentos em que as chamas saiam do controle de suas mãos. Mas e a ele, o que aconteceria? Ficaria normalmente lá dentro, oras! O garoto tinha o estranho dom, com certeza relacionado com a sua habilidade de atrair chamas, de ter uma imunidade completa às chamas e de bônus conseguia sobreviver sem problemas apenas respirando o tipo de gás que se produzia lá dentro. Era estranho, mas o que podia se fazer quanto às verdades bizarras desse mundo? Chegando lá dentro, Hércules enxergou já de imediato várias pessoas sofrendo com aquelas chamas. Não eram invencíveis como ele lá dentro e morreriam se nada fosse feito. Então ele abriu suas duas mãos e começou a fazer força, o suficiente para que conseguisse suar mais do que o normal ali dentro. As chamas, em sinal de obediência indesejada, começaram a diminuir em um nível muito lento, porém existente e ainda notável. — Todos do local, retirem-se, é uma ordem! As chamas estão aos poucos sendo controladas, mas todos sabem que o fogo é imprevisível! Se ainda houver algum bombeiro aqui, que me ajude! Um tempo se passou e boa parte das pessoas tinha conseguido se livrar, até porque o fogo estava baixíssimo a nível de no máximo conseguir cobrir pernas, portanto bem escapável. Com a ajuda dos bombeiros, as pessoas que tinham chances de sobreviver foram removidas do lugar. Porém havia algo estranho. As chamas estavam contidas, mas um descuido dele e tudo voltaria a pegar fogo. Não conseguia eliminá-las completamente, algo estava o impedindo. Não fazia idéia do que poderia ser, até porque não fazia lógica em haver algo o impedindo, assim como não havia muita lógica dele poder também, mas não vinha ao caso. No fim das contas encontrou mais uma pessoa de pé, virada para o outro lado de modo que não o perceberia de jeito nenhum. A única coisa estranha era que ele tinha sua mesma altura e o cabelo, por trás, era parecido e não estava queimando também, assim como suas roupas e seu corpo. Coisa muito estranha, aliás, mas Hércules não tinha tempo para estranhar e sim para salvar pessoas, e foi por isso que lutou. — Isso pode cair a qualquer momento, e você vai se machucar, saia daqui! — gritou ele, ficando um pouco irritado porque não obteve nenhuma resposta. Então se aproximou dele e o puxou pelo ombro. Teve a surpresa mais estranha de sua vida quando o garoto se virou, irritado. Os dois eram iguais, sendo que as diferenças não passavam de obviamente as roupas e uma franja a menos no outro garoto. Ele mostrava um olho estranhamente cinza com um corte bem no meio que, risonho, Hércules lembrou também ter e que era o motivo dele ter aquela franja tão incomodante o escondendo. Pior ainda era para o garoto do outro lado. Ele tinha ouvido a voz de Hércules e notado que era idêntica à sua, o que complicava a situação ainda mais.
— O que raios é você?! — perguntou ele, com um tom arrogante e irritado. — Eu é que faço essa pergunta! — respondeu Hércules, raciocinando depois. — Espera aí, se somos tão semelhantes e você está tão calmo... É você que está me impedindo de apagar as chamas?! — Então é você que está me impedindo de incendiar essa merda! O garoto então, furiosíssimo, partiu para cima de Hércules com o punho fechado e pronto para acertar-lhe um soco em sua cara. De fato conseguiu, e com a ferocidade de seu golpe levantou um pouco de chamas sobre o corpo de seu aparente inimigo, que não teve muitos problemas quanto a isso. Pelo contrário, seu problema foi o fato do soco ter sido tão forte que ele foi arremessado para bem longe. — Por que você fez isso?! Por acaso quer me matar?! — perguntou Hércules, se levantando do chão com uma nova amigável ferida bem na bochecha. — Você está me atrapalhando, oras... Ou cai fora, ou morre. Não vou te perdoar por você ser estiloso. — Prefiro morrer como um herói a viver como um covarde. r11; respondeu o garoto, cuspindo no chão em seguida e notando como sua fala tinha sido clichê e retardada, porém sabendo que tinha algo melhor para dizer depois e completando r11; Mas melhor que tudo isso é ser herói e viver, você é adorado por ter tido o direito de chutar a bunda de um louco tronxo e aproveitado. Ele então se levantou e, furiosamente, tomou impulso. Depois se jogou com todas as forças e impulsos e todas as outras frescurites que geralmente surgem quando uma pessoa está furiosa e quer bater em alguém. Acertou-o em cheio sem muitos problemas, já que de fato ele não previa esse tipo de reação e sim simplesmente alguém desmaiando com seu único soco. Deu-se muito mal: assim que foi derrubado no chão, levou vários e vários socos na cara e foi nocauteado em segundos. — Agora eu tenho que levar esse campeão para algum lugar... Só não sei como explicarei a situação. — disse Hércules, se levantando e olhando para o corpo por alguns instantes. — Afaste-se! — ecoou uma voz feminina e aparentemente não muito velha pelo local. O garoto, obviamente, não quis obedecer. Era só uma voz, afinal. Ou não. Imediatamente uma ventania furiosa atingiu todo o lugar, tão furiosa que derrubou até mesmo ele sem muitos problemas. Mas ele não precisava resistir, não mesmo, nem precisava necessariamente levar aquele corpo como se aquilo fosse salvar sua vida. Então abaixou e colocou a cara no chão, fechou os olhos e prendeu a respiração para que pó não entrasse nem em seus olhos, em seu nariz e obviamente nem em sua boca. Um tempo mínimo se passou e a rajada cessou, porém o corpo do outro garoto tinha sumido do lugar. Lugar que estava praticamente destruído: restavam apenas algumas carcaças de máquinas, partes de parede e pilares quase cedendo, isso tudo queimado. Outras coisas como outras máquinas, elevadores, etc. estavam todos em r0;um lugar melhorr1;. Aliás, era uma questão de tempo para que os pilares cedessem e aquele lugar fosse completamente destruído, então Hércules não foi burro de ficar lá por mais tempo e saiu correndo. Conseguiu escapar sem problema nenhum porque era um cara rápido e bem treinado. Chegou onde estavam os outros bombeiros, que aliás eram poucos, já que um dos transportes carregando uma boa parte deles e outros transportes para o hospital já tinham partido. As mortes, por sorte, não haviam atingido um número muito preocupante e os sobreviventes, em sua maioria, não corriam risco de morrer. Muita gente conseguiu sair andando e dizendo r0;estou muito bem e parece que nada aconteceu comigor1; também, mas não foi um fato muito relevante, só ajudava os soldados a pensar que a missão tinha sido um sucesso apesar de alguns pontos falhos. Porém, isso não importava muito para Hércules. Ele tinha uma imagem do garoto absurdamente semelhante a ele, que tinha as mesmas habilidades que ele, só não era tão feliz quanto. E apenas essa imagem. Não pensava em mais nada, não conseguia pensar em mais nada, não podia pensar em mais nada. Quem raios era ele?
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