Metamorfose
1 Lembranças
8 anos atrás...
– Voltem aqui suas molecas! — Sr. Carlos gritava e inflava como um sapo de tão bravo, enquanto eu e minha amiga corriamos ladeira acima, próximo a um pequeno monte. Embora fosse noite, faltando 10 minutos para o ano novo, nós subimos sem medo e ofegantes. Lá era nosso canto secreto e Sr. Carlos não avançou mais do que a calçada para nos pegar.
– Você viu a cara do Sr. Carlos? Viu? — Minha amiga falava enquanto gargalhava e eu não pude deixar de rir junto com ela. — Dessa vez nós acertamos no tamanho da bombinha!
– Você é ilária! Não pensei que você fosse jogar dentro do quintal onde estava a família dele toda reunida jantando! Se ele contar a nossas mães...
– Você sabe que eu não tenho mãe, Danielle. — Minha amiga me fitou com seu velho rosto sem expressão.
– Mell, para com isso, eu já te disse que você não pode ficar guardando esse rancor com você...
– É? E o que me diz do seu pai? — Ela me encarou nos olhos e eu baixei a cabeça. Pude ouvir a contagem regressiva de 5 minutos para o ano novo e meus olhos marejaram. Então senti ela pegando na minha mão e levantando minha cabeça.
– Desculpa Dani, você sabe... as vezes sou inconsequente com minhas palavras. Não fica chateada comigo, é só que... você entende pelo que eu passo. — lágrimas cairam do rosto dela e eu abracei a minha amiga. Choramos juntas por longos 3 minutos e eu finalmente soltei ela.
– Você é minha melhor amiga, sabia? Eu sei que você nunca vai me abandonar Dani, mesmo que eu me torne a pessoa mais cruel, mais detestável e amarga desse mundo. Sei que com você eu sempre vou poder contar. — ela deu uma pausa enquanto tirava algo do bolso. — é por isso que nesse final de ano eu quero selar nossa amizade com algo especial.
Eu me aproximei um pouco do objeto que ela tinha na mão e vi que era uma espécie de colar em formato de borboleta. Eram 2 para ser mais precisa.
– O que é isso, Mell? — Olhei pra ela confusa.
– Eu fui tentar achar algo para selar nossa amizade no comércio, entrei em uma loja e vi essas 2 correntes e...
– Você não roubou né? — Olhei pra ela séria.
– Claro que não! Eu sei que você tem motivos pra desconfiar, por conta das minhas atitudes mas isso foi digno tá? E foi bem caro por sinal. — ela me fitou e proceguiu — Em cada corrente tem uma borboleta e uma chave. Só que eu troquei cada uma das chaves e só você poderá abrir minha borboleta e só eu poderei abrir a sua. — ela sorriu enquato me mostrava.
– É lindo. — Eu tentei pegar o colar mas ela não deixou.
– Calma, eu ainda não terminei! A parte mais legal vem agora. Você vai ter que fazer algo especial e colocar dentro da minha borboleta e eu vou colocar algo dentro da sua e um dia, quando for no momento certo, nós iremos abrir e ver o que uma fez para a outra! — Olhei para ela confusa, mas ela estava tão animada e feliz que eu resolvi aceitar sem falar nada. Ela colocou a corrente nas minhas mãos e logo depois ouvimos os fogos de artifício do ano novo e nos abraçamos desejando um ótimo ano novo para cada uma.
Depois do almoço e meus pais irem trabalhar eu estava meio pertubada,pois não sabia o que eu iria colocar dentro da borboleta da minha amiga. Não queria algo tão simples, tinha que ser algo realmente especial. Olhei para o relógio e o tempo só me sufocava cada vez mais; Tinhamos combinado de nos encontrar as 18:00 no nosso monte para trocar os presentes e já eram 17:00.
Fui para o meu quarto e quando eu já estava quase chorando, de supetão me veio algo em mente! Não entendi o porquê dessas palavras. Peguei um pequeno papel e uma caneta e escrevi chorando,em seguida coloquei dentro da borboleta e corri de casa.
Avistei Mellisa fitando o céu a minha espera. Subi rapidamente ao monte, no auge dos meus 14 anos eu era uma máquina de correr.
– Cheguei Mell. Pronta para trancar sua borboleta? — eu sorri para ela.
– Yep! E você, pronta também? — ela se aproximou-se.
– Talvez, estou muito curiosa... — fiz uma cara de pidona e ela riu.
– Nem adianta Dani, eu não vou dizer o que é nem muito menos você irá ver! — Fiz uma cara triste mas depois assenti.
Ela colocou a corrente que estava com ela em meu pescoço e eu fiz o mesmo com a que estava em minhas mãos com ela. Depois se aproximou com a pequena chave ao lado do pingente de borboleta dela e trancou o centro da borboleta que tinha um encaixe perfeito para a chave. Logo em seguida eu fiz a mesma coisa.
Naquele momento, eu senti que aquilo realmente era necessário. Me veio uma angústia no peito, como se algo ruim fosse acontecer. Sentamos encostando nossas costas, cada uma olhando para um lado da cidade. Segurei com força minha borboleta e comecei a chorar. Foi uma sensação horrível de que eu e ela nunca mais teriamos a mesma amizade.
– Eu amo você,Mell — minha voz saiu roca e pranteada.
Limpei as lágrimas dos meus olhos antes que ela se virasse e me perguntasse o que estava acontecendo, pois nem eu mesma sabia.
– Eu amo muito você, Dani — a voz dela saiu pior do que a minha.
Fiquei assustada e quase me virei para perguntar o que estava acontecendo, mas eu parei e me toquei... minha melhor amiga tinha sentido a mesma coisa que eu.
Fale com o autor