Notas iniciais
Tois?Tois

As luzes do pôr do sol já coloriam o céu completamente sem nuvens. Mais uma vez, os altos prédios de Belo Horizonte preparavam-se para encarar a escuridão da noite. A tranquilidade começava a tomar conta das ruas, iniciando o tão aguardado fim de semana para a capital mineira. Um ônibus, porém, quebrava toda essa atmosfera de tranquilidade com os gritos de honra de dois grupos rivais — que foram obrigados, pela maldade do destino, a dividirem o veículo.

À frente, encontravam-se os porto-alegrenses, membros da — dita — delegação mais fechada e antipática de todas que participavam do evento que ocorria naqueles dias. Todos, orgulhosamente, entoavam o hino de seu estado, enquanto seguravam com força sua tão amada bandeira. Existiam sorrisos e gargalhadas entre eles, que se divertiam mais que nunca naquele fim de tarde, Renata, entretanto, não conseguia prestar atenção no que seus colegas estavam fazendo, pois sua mente e seu coração estavam voltados apenas para as poltronas mais ao fundo do ônibus, onde se encontrava a delegação do Rio de Janeiro.

Desde o último evento em que todas as delegações se encontraram, meses antes, seus sentimentos estavam confusos. Ela simplesmente não sabia expressá-los. Na verdade, ela não podia nem sentir o que sentia. Era contra o que seus companheiros de delegação pensavam. Era proibido. Mas, ao vê-lo ali, tocando o pandeiro enquanto cantava alguma música de baixa qualidade qualquer, ela não conseguia evitar.

Ighor, o menino com quem Renata correspondera por muito tempo nas redes sociais, também não tirava os olhos de sua delegação oposta. Por mais que falasse com a garota durante todo o evento, ele queria que os dois fossem, pelo menos, amigos ali também, ignorando todo o barulho, toda a rivalidade. Seus amigos, porém, não o deixavam chegar mais perto, segurando-o, mesmo que de forma involuntária, na rodinha de dança que se formara entre os bancos.

Para a sorte dos dois — e azar de muitos outros membros de ambas delegações, como a pessoa que aqui vos conta essa bela história —, os dois grupos, subitamente, se juntaram. Em um primeiro momento, era apenas guerra. Músicas gauchescas para um lado, funk e samba para o outro. Porém, após certo tempo, uma história em comum surgiu entre eles, o que, apesar de não acalmar os gritos, unia todos.

Moraes, RJ, e Camila, RS, dividiam as atenções ao narrarem um acontecimento que, aparentemente, era muito famoso entre os cariocas — e que não vem ao caso no momento, mas que causa muito divertimento, diga-se de passagem. Todos riam muito dos fatos, até então desconhecidos, relatados pela garota porto-alegrense. Naquele momento, não existiam obstáculos para que o casal de amigos ficasse junto. Ninguém notaria. Renata, então, no meio de toda a confusão, sentou ao lado de Ighor. Seus olhares se cruzaram por alguns instantes, o que já foi suficiente para que seus corações batessem mais rápido.

— Tois? — ela perguntou, sorrindo.

— Tois. — ele respondeu da mesma forma.

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