Mestre
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Essa história é uma adaptação do livro Lolita para os tempos atuais. Não é entediantemente fiel, mudei a história sob vários aspectos e tentei adaptá-la aos dias de hoje. Espero que vocês se interessem, gostem e comentem.
Acho importante dizer que a história é contada sob dois pontos de vistas: o da Mellanie e o do Adam. Os pensamentos de Adam sempre estarão na cor azul e os de Mellanie na cor rosa.
Foi a última vez que eu e ele nos deitamos juntos. As coisas já não eram as mesmas, parecia um teatro eterno com péssimos atores que estavam sempre a fingir que as coisas estavam ótimas e que o relacionamento não poderia estar melhor. Como sempre, ele deitou-se por cima de mim sem o menor carinho ou preocupação com o meu prazer e mostrou sua indiferença em toda a sua dimensão. Tudo o que eu fazia era ficar parada fitando o teto. Já havia algum tempo em que eu havia decidido parar de fingir. Não era que eu não o amasse, mas a sua indiferença me matava.
Quando ele acabava, ele deitava exausto fitando o teto e o silêncio tomava aquele quarto da mais monótona imaginável. Assim permaneceríamos alguns minutos, até que ele se levantasse da cama, vestisse as suas roupas, beijasse-me nos lábios e se despedisse com um 'eu te amo' lamentávelmente hipócrita. Sequer parecia aquele garoto doce que conheci aos meus treze anos. Talvez as coisas houvessem começado cedo demais para nós dois.
O problema era que eu o amava, o amava muito. Não que eu conhecesse muito o que era o amor para dizer tal coisa, mas eu jamais sentira por outro alguém aquilo que eu sentia por ele. Mas nada estava bem, ficava cada dia pior. Estranhos. Afastados. Eu achava que a iminência era muito pior do que o fim. Até que eu o presenciei cara-a-cara.
_ Mellanie, eu acho melhor terminarmos. — ele disse, enquanto ainda estávamos nús e deitados em sua cama, virando apenas a cabeça para olhar-me.
_ Cara, vem! Me ajuda a carregar essas caixas. — pedia Jake,tentando carregar um peso impossível até o carro com um dos braços.
_ Mas vejam só. — sorri — Com essa força toda você pode carregar toda a mudança sozinho.
Duas viagens seriam o suficiente para transportar com o carro todas as nossas coisas até o apartamento. Antes nossa vida era tão certa que eu já havia acostumado-me ao aconchego do ócio e da estabilidade. Depois que eu me divorciara de Dayana, fui morar com Jake, um professor vinte anos mais novo do que eu,que acabara de se mudar para uma casa nova e necessitava de alguém para dividir as contas. Eu o conhecia o pouco que conversamos na sala dos professores naqueles dias em tínhamos horários parecidos. Como eu não tinha onde ficar, pareceu não haver idéia melhor. Depois fui acomodando-me. O tempo foi passando e o baque que sofremos ao tomar conhecimento de que a escola em que lecionávamos acabara de falir fora grande. Com o meu doutorado, eu ganhava muito bem e seque procurava dar aula em outros colégios. Jake era professor novo, pouco conhecido, era o seu primeiro emprego. Então, se o colégio falira, bem, estávamos ambos desempregados.
Porém o que Jake tinha como inexperiência como professor, tinha de lábia para fazer contatos. Foi então que ele arrumou este novo emprego, em um colégio que ficava em uma cidade próxima á que morávamos, e que foi a grande causa da nossa mudança para o apartamento novo.
Eu queria ser forte e dizer a mim mesma que era absolutamente capaz de superar ao Taylor. Mas eu me acostumara tanto a tê-lo sempre ao meu lado, que era como se ele já fosse uma parte de mim, e viver sem ele fosse como viver sem o coração, o pulmão, ou algo assim. A pior parte não foram as três quadras que caminhei sozinha em meio a milhões de lágrimas até a minha casa, não foi minha mãe perguntando insistentemente o que é que estava havendo e não foi também a lembrança de que ele não ligaria mais ás 10 da noite para desejar-me bons sonhos. A pior parte mesmo fi lembrar-me que tinha aula no dia seguinte. E ele estaria lá, na sala em frente a minha. E nos cruzaríamos por várias vezes nos corredores, nos armários que eram lado a lado e com os amigos, que eram todos em comum. Essa é a parte ruim de namorar tanto tempo. É como as duas pessoas tivessem uma vida só. E depois de separarem-se, se veem em um mundo absolutamente novo e desconhecido,uma mudança complicada de lidar.
_ Lar doce lar...! — exclamou Jake exausto a deitar-se no sofá do novo apartamento. A maioria das caixas ainda estavam ao chão, semi-abertas, e nenhum de nós dois tinha ânimo o suficiente para levantar o traseiro do sofá e colocar cada coisa em seu devido lugar. Mas o que me dava maior desânimo era o fato de que Jake lembrava a todo minuto que aquela noite eu tinha de 'dar uma volta por algumas horas'. Era um código. Quando ele o dizia, queria na verdade dizer ' vou transar com uma mulher hoje á noite e não quero que você esteja em casa'. E então eu saía.
Isso não acontecia todo o tempo. Era uma ou duas mulheres por mês. Menos mal, eu não tinha de sair tanto de casa. Mas era uma droga ter de ficar caminhando pela rua ou pegando um cinema sozinho e saber que o meu amigo estava lá na minha casa, transando. Tudo bem, a casa era dele também. Mas era humilhante lembrar que eu não conseguia relacionar-me com mais ninguém depois do divórcio. Era certo que quinze anos de casamento era bastante tempo. Tempo o suficiente para dilacerar o meu coração e fazer com que ambos nos odiássemos no final. Os divórcios não deveriam acontecer. Os casais deveriam ter de dar um jeito de se entender e pronto, fica tudo bem assim. Mas creio também que se fosse assim, as pessoas iam acabar se matando. Eu sentia falta de estar com uma mulher, mas a verdade é que não conseguia achar atraente nenhuma daquelas que interessava-se por mim. Qual era o meu problema?
No outro dia de manhã senti uma vontade imensa de fugir da responsabilidade de ir á aula alegando uma dor de cabeça ou de barriga para minha mãe. Mas não adiantaria, ela me conhecia muito bem, e eu nunca fora muito boa com mentiras. E a dor que eu sentia era muito mais mental do que física. As olheiras de uma noite maldormida se evidenciavam no espelho e eu sabia que nada que eu colocasse no rosto conseguiria disfarçá-las.
_Bem, que se dane. Todo mundo tem o direito de ter uma péssima noite ao menos uma vez na vida. — eu exclamei, enquanto colocava a mochila nas costas.
_ Você não parece muito bem hoje, Mel. Não acha melhor ficar em casa? — perguntou minha mãe. Era para ser a minha deixa, mas tratava-se muito mais de uma armadilha para passar o dia comigo e tentar descobrir o motivo pelo qual eu chegara chorando em casa no dia anterior. E eu não estava querendo conversar sobre aquilo. Não com ela.
_ Impressão sua,mãe. Eu estou ótima. — forcei um sorriso, dando um jeito de sair o mais rápido possível pela porta de casa.
Quando Jake acabava de 'fazer o que tinha de fazer', ele dava um toque em meu celular e eu podia voltar para casa. Impressionante o quando aquilo era infantil. Mas o que eu ia fazer? Mudar-me e passar a morar sozinho? Certo, era o que uma pessoa normal faria, mas... Eu precisava mais do que tudo de um amigo naquele momento. Ainda que fosse ele.
O toque no meu celular foi dado ás cinco da manhã,quando eu já desistira de dormir em casa e acabara de estabelecer-me em um hotel. Grande filho da puta sacana ele havia sido. Não é preciso nem que eu comente o estado em que cheguei ao colégio onde lecionaria. Creio que um zumbi paraceria muito mais sadio e descansado do que eu.
_ Boa tarde, senhor...Adam, não é?
_ Isso. O novo professor de física.
_ Seja bem vindo. Eu sou o diretor dessa escola, meu nome é Gregory. — ele estendeu a mão. — A sala dos professores fica logo á direita. Espero que se adapte logo ao nosso sistema de ensino. Dos colégios em que lecionou, recebi muito boas indicações. Espero estar fornecendo um excelente mestre aos alunos.
_ Esteja certo que está.
_ Fico feliz em saber disso. Bom, você lecionará física no primeiro ano do ensino médio. O professor deles teve alguns problemas de saúde e acabou por ter de aposentar-se. Mas não se preocupe. As crianças são bem comportadas. Saiba impor controle e não terá maiores problemas.
_ Nunca tive problemas com tal coisa nos 22 anos em que dou aula. Não se preocupe, senhor.
_ A aula começa em quinze minutos. Qualquer problema me avise, certo?
Nunca andei tão rápido para chegar ao colégio. Geralmente eu chegava cerca de quinze minutos antes do início da aula pois era mais ou menos a hora em que Taylor chegava. Podíamos assim ficar a namorar até que começasse as aulas. Eu poderia chegar mais tarde, mas sabia que o encontraria em frente a sua sala com os seus amigos. Se eu chegasse mais cedo, muito mais cedo, e ficasse dentro da minha sala, eu não precisaria topar com ele. É que eu tinha medo da minha reação quando acontecesse. Nunca havia imaginado como o amanhã caso, um dia, nós terminássemos.
_ Cara, foi mal por ontem. Sério, eu não vi o tempo passar. Você entende, não entende? Não fica grilado não. — suplicava Jake ainda que tentando não parecer 'nem aí'.
_Agora não. — cortei-o ríspidamente. Tudo bem, ele tinha todo o direito, mas por que é que ele não ia para um motel? Ele poderia ficar quanto tempo quisesse e eu não precisaria sair de casa. Jake já era adulto, tinha que entender que ele não tinha mais quinze anos de idade.
_ E aí? Pegou qual turma? — tentou novamente. Era outra coisa que me irritava nele. Fingir que estava tudo bem mesmo quando estava bem longe disso. Ele achava que podia consertar tudo agindo assim. Mas só me deixava mais irritado. Estar com ele fazia com que eu me sentisse velho.
_ Primeiro ano. Estou indo agora. Não vai embora com o meu carro não.
_ Certo,irritadinho.
A aula foi monótona. Certo, não vou mentir. Eu não faço idéia do que a aula foi ou deixou de ser. Não consegui prestar atenção nem por um segundo. Lembranças dolorosas passavam pela minha cabeça como um filme fazendo-a ficar a ponto de explodir. Era algo que fugia de mim. Incontrolável. E podia durar por horas, horas e horas. A única mudança que pude presenciar era que o professor Frederich havia aposentado-se e haviam colocado outro homem em seu lugar para nos ensinar física. Ele parecia cansado. Provalvelmente era um daqueles gênios estudiosos que só o que sabe fazer é ficar a estudar vinte e quatro horas por dia. Daí ficam sempre daquele jeito. Envelhecidos, com olheira e ar de cansaço. Se bem que naquele dia eu não devia estar muito longe disso. Bem, de qualquer forma, talvez eles fosse um professor de física muito melhor do que o antigo.
Não importava o quanto eu rezasse para que demorasse muito mais tempo do que o normal. Chegou a hora costumeira,nem um minuto a mais, e o sinal para o recreio tocou. Confesso que tentei até fingir que estudava para que o fiscal dos corredores não trancasse a sala.
_ Não adianta, mocinha. Se você quiser estudar vá para a biblioteca. — ele disse. E eu saí, derrotada do meu próprio jogo.
A minha primeira aula foi, de certa forma, bastante tranquila. Não fazia idéia se aquelas crianças eram realmente tão bem comportadas ou se estavam tomadas por aquela hesitação de ter um professor novo sobre o qual eles nada sabiam.
_ Quem sabe se eu me fizer bem bravo eles se molharão de medo de mim. — sorri em meio a meu pensamente maquiavélico.
Eu estava com fome, não havia tomado o café da manhã naquele dia graças á 'bondade' de Jake e então tive que misturar-me a dezenas de adolescentes agitados para tentar comprar algo na cantina. Percebi então um grupo de professores sentados a uma mesa especial do refeitório e dirigi-me a eles.
_ E então? Como foi de primeiro dia de aula?
_ Tudo sobre controle...Por enquanto. — sorri.
_ Cuidado com aquelas crianças. De anjos só tem cara. — brincou o gordo professor de Geometria Analítica.
_ Elas parecem ser bem controláveis na verdade.
_ É. E observadoras. Qualquer erro seu elas fodem com você, meu amigo, fodem sem dó. — murmurou o professor de inglês enquanto tentava engolir um biscoito inteiro de uma vez só sem se engasgar.
_ Sem problemas. Sei lidar com essas coisas. No colégio onde eu lecionava antes a única sala que se sobressaia em comportamento e talentos natos era a minha. — eu disse, orgulhoso. O meu sucesso como professor era o meu maior orgulho. Era tudo o que eu tinha.
_ Esperamos que continue assim. — sorriu um professora de Filosofia enquanto cacheava com os dedos a ponta do cabelo. Será que estava tentando jogar charme para mim?
_ Onde é o banheiro? — perguntei, levantando-me.
_ Não se preocupa não Mel. Conosco aqui, você não vai precisar nem olhar pra cara dele. — disse Jane acariciando os meus cabelos.
_ É. Nós estamos aqui. Vamos ficar do seu lado. — Lea sorriu de um jeito reconfortante.
_ E talvez ele nem tenha vindo hoje. Talvez ele esteja em casa, péssimo, deitado na cama e se empanturrando de sorvete lamentando-se pela merda que fez.
_ Ou...não. — sussurrou Lea com uma cara tão assustada que pude jurar que ela havia visto um fantasma ou alguém morto. Na verdade, bem que eu preferia que fosse alguém morto.
_ É. Melhor a gente ficar lá em cima mesmo. — exclamou Jane tentando evitar-me de olha para minha esquerda. Mas já era tarde demais. Eu já havia visto. Era bom eu não estar sozinha, pois se estivesse pensaria ser uma ilusão, um estado de loucura, porque aquele garoto aos amassos com a loirinha do segundo ano não poderia ser o Taylor de jeito nenhum. Porém a expressão no rosto das minhas duas melhores amigas só fazia com que fosse mais doloroso. Eu nem poderia fingir não ter visto. Todo mundo viu.
_ Mellanie... — Lea tentou dizer algo, mas não haviam palavras de consolo para aquilo.
_ Quero ficar sozinha. — eu disse, desvencilhando-me dos braços delas e correndo até o banheiro feminino. O mesmo estava lotado, e todas aquelas garotas olharam para mim assim que entrei. Será que elas já sabiam? Há quanto tempo eu estava sendo uma tremenda idiota? Eu precisava ficar sozinha. Mas as salas estavam trancados e o banheiro lotado de fontes de maldade e fofoca. Então eu pensei numa coisa louca. Coloquei rapidamente a cabeça para dentro do banheiro masculino para certificar-me de que não havia ninguém. Estava absolutamente vazio. Então eu entrei. Corri para o primeiro box que pude ver e abaixei a tranca. A partir daí, as lágrimas vieram quentes e intermináveis.
-
Não havia banheiro na sala dos professores. Era a primeira vez que eu via tal coisa na vida. Então os professores teriam de fazer fila como se fôssemos mais um entre aquelas dezenas de crianças? Era um absurdo e era irritante. Andei até o banheiro torcendo para que não houvesse fila alguma, e aparentemente ele estava vazio. Porém foi logo que abri um dos botões da calça que ouvi algo de dentro de um dos boxes. Um som baixinho de choro e lamento. Não parecia ser choro masculino. Muito pelo contrário. Lembrava o choro de minha sobrinha de sete anos. Mas o que uma garota de sete anos fazia dentro do banheiro masculino?
A raiva tomava conta de mim a cada lágrima que caía. Por que ele tinha de fazer aquilo comigo? Ele não tinha o menor respeito por todo aquele tempo em que estivemos juntos? Ele não tinha lembranças? Não tinha carinho? Não tinha coração? Eu sabia que nós dois estavamos cada vez mais frios e distantes, mas tinha certeza que era algo que poderia ser resolvido com uma simples conversa. Porque era isso que as pessoas que se amam deveriam fazer, não era? Conversar, tentar recomeçar, fazer o máximo o possível para ver bem e estar bem com o ser amado. E naquele momento, dois anos de sorrisos, momentos bons e amor tinha pulverizado-se e tudo o que restava era raiva e desconsolo. Taylor tinha todo o direito de ter outra pessoa, já que estavamos terminados, mas agir daquela forma sabendo que eu veria e sabendo o quanto machucaria, refletia uma insensibilidade cruel. Pior do que isso: ele havia terminado comigo no dia anterior. A superação para ele era tçao simples assim.... ou ele já tinha aquilo em mente há muito tempo? Quanto tempo? Eu tentatava me lembrar quando foi que ele havia começado a ficar tão frio, mas minha mente me traía. Tudo aconteceu tão rápido que a catástrofe acabou sendo inevitável. E naquela hora eu era só uma fracassada chorando dentro de um banheiro masculino e abraçada ás minhas próprias pernas.
Não deve ter passado mais do que alguns minutos até que ouvi alguns sons do lado de fora.
_ Que droga! — pensei — Lá vem algum garoto idiota encher o saco.
Cortei o choro da melhor forma que pude e tentei até prender a respiração para que ele fosse embora logo, antes que percebesse que não era um homem que estava dentro do box. Se ele batesse á porta, eu até imitaria uma voz de homem ou a abriria e sairia correndo sem deixar que ele me visse. Mas logo o barulho cessou. Esperei até algum tempo para certificar-me que novamente estava sozinha. Ao ter certeza, resolvi sair dali o mais rápido possível antes que arranjasse encrenca.
Aproximei-me da porta e quase perguntei que estava tudo bem. Mas então o choro parou e nem a respiração eu ouvi mais. Será que eu a havia assustado? Fiquei em silêncio por um instante e vi a porta abrir-se lentamente.
_ Merda! — gritou aquela voz angelical embarafustando-se banheiro a fora com uma rapidez sem igual.
O que havia acontecido? Eu fiquei lá parado, respiração acelerada, tentando descobrir se aquilo era mesmo real. Tinha mesmo acontecido? Será que eu estava ficando meio louco? Era a coisa mais linda que eu já havia visto na minha vida. Uma voz tão doce, um rosto tão puro. Não fazia idéia de a quanto tempo ela estava por ali, mas o aroma estava por todo o banheiro. Que criança encantadora! Qual era a idade dela? Catorze? Quinze? Fez com que eu me sentisse como se tivesse a idade dela. Nervoso, encantado, confuso. Uma mistura de sensações. Ah, o que eu estava pensando? Eu já não estava mais na idade para aquilo. E ela era só uma menina.
_ Mel? O que aconteceu? Por que você está agindo como se tivesse acabado de voltar de uma corrida? — perguntou Jane ao ver-me sentada ao chão do corredor tentando recuperar o ar.
_O professor.... ele...me viu.
_Te viu? Como assim?
_No banheiro masculino.
_Hm? O que você tava fazendo no banheiro masculino?
_Será que ele vai contar pra alguém?
_Você é louca. O que tava fazendo lá?
_Não interessa.
_Mellanie!
_Estava chorando, tá bom?
_No banheiro masculino?
_Ai, que droga! Era o único lugar onde eu podia ficar sozinha. Não quero chorar no banheiro feminino e ser alvo de fofocas depois. Isso se...eu já não sou. Devem estar todos falando de mim. De como eu sou idiota. Porque meu namorado está lá, no maior amasso com aquela garota. E eu? Como fico? Com que cara eu fico?
_Ele que é o idiota da história,Mel.
_Não, Jane. Ele é o cafageste. A idiota sou eu.
_ O que vamos pedir hoje? — perguntou Jake com o telefone na mão. Era sempre assim. Nenhum de nós cozinhávamos, sobrevivíamos de fastfood. Se eu ainda fosse casado, minha esposa ficaria uma fera. Mas não me importava de viver dessa forma. Uma vida de solteiro também tem os seus lados bons.
_ Tanto faz. Pode escolher. — disse, enquanto tragava mais uma vez o cigarro.
_ Por que é que você tá tão disperso desde que chegamos em casa,hein?
_ Eu?
_ Não. Minha vó. — ele disse, sorrindo da própria piada idiota.
Ah,Jake...Ainda tem tanto a crescer. Até aquele momento não havia percebido que estava disperso. Mas ele bem que estava certo. A verdade é que aquela menina do banheiro povoava os meus pensamentos. Não conseguia parar de pensar, de imaginar. Tentava imaginar seu nome...ela se parece com Angela. Sim, de anjo. Tem muito a ver com ela. Deveria ser mesmo esse nome. Será que ela era da turma em que eu lecionava? Não, certamente que não. Eu teria percebido. Uma menina tão bela jamais passaria despercebida aos meus olhos. Talvez ela fosse até mais velha. Talvez fosse do último ano. Seria melhor. Eu me sentiria menos mal por ter esse tipo de pensamento.
Alguns sábios diziam e, depois, tornou-se popular. Eles diziam que depois de cada decepção vinha a superação. Era o que te tornava mais forte. Mais? Eu tinha de ser mais forte que aquilo? Melvin, meu gato, enroscava-se por minhas pernas. Ele tinha uma incrível sensibilidade sobre o meu estado de espírito. Era ele que sempre estava ao meu lado, para subir ao meu colo, fazer-me carinho e dormir ao meu lado, se precisasse.
_ Se você fosse homem eu namoraria com você, Melvin. — eu disse-lhe, caindo em risadas logo depois. — Mas você seria só um bebêzinho,não é? O meu bebêzinho. — Melvin olhou-me com ternura, espreguiçando-se longamente e deitando-se ao travesseiro.
_ Chegue para lá. Quero deitar também. — eu disse, afastando-o com a cabeça. Peguei o celular para checar a hora uma única vez. Eram dez em ponto. Decididamente, a cada dia que se passava, mais eu odiava aquele horário. Era melhor,porém, que ele não ligasse. Se ligasse, o que eu faria?
_ Mellanie. Você não vem jantar?
_ Não estou com fome.
_ Minha filha, você anda tão estranha. O que passa?
_ Nada. Está tudo perfeitamente bem. Somente não sinto fome hoje. Só sono. Quero dormir agora.
_ É o seu namorado?
_ Que namorado,mãe? — eu disse,irritada, de uma forma que pareceu mais irônica do que eu gostaria.
_ Como vocês estão?
_ Estamos ótimos. Agora me deixe dormir.
_ Sempre achei você nova demais para namorar. — ela murmurou enquanto saia pela porta.
_ Isso mesmo. Compreensão é tudo o que necessito.
Creio não ter causado muito boa impressão no meu primeiro dia trabalho se considerando o estado em que me apresentei ao dono do colégio. Por isso, naquele dia, cuidei de um banho bem tomado, uma barba bem feita, cabelos devidamente penteados, a camisa, a gravata, a calça, os sapatos, que de tão bem polidos, brilhavam ao longe.
_ Caiu da cama hoje? — perguntou Jake, passando á frente da cozinha onde eu tomava o meu café bem forte, fortíssimo, como eu apreciava.
_ Acordei mais cedo. Quero causar melhor impressão. Diferente daquela que causei no primeiro dia, devido á sua estripulia logo um dia antes de começarmos.
_ Um homem precisa de sexo, meu caro amigo. — ele disse, dando batidinhas em meus ombros que deixaram-me muito irritado.
_ Foda-se, meu caro amigo. — eu murmurei. Ele não ouviu. Ótimo. Não queria discussões banais com um garotinho ás seis horas da manhã.
_ Precisamos fazer compras. — ele disse, estando á frente da geladeira, a qual estava completamentemente vazia.
_ É a sua vez.
_ Certo. — ele coçou a cabeça. Ainda estava despenteado,usava com a bermuda com a qual dormira, e não demonstrava qualquer sinal de pressa ou preocupação enquanto tomava o seu café preto.
_ Se você vai querer carona é melhor se apressar. Quero chegar cedo hoje.
_ A aula começa daqui a uma hora.
_ Bem, você pode ir de ônibus. — sorri ironicamente.
O fato de ter ido mais cedo do que o normal fez com que eu acordasse com tamanho ânimo que até me envergonhei. Como poderia alguém ter ânimo de manha cedo se estando enlutada? De qualquer forma,creio que Taylot não se importaria
muito com isso. Com os minutos sobrando,pude lavar aos meus cabelos e secá-los calmamente ao secador. Ao calmante som do vapor quente percorrendo os meus fios de cabelo, tentei pensar em coisas fúteis, evitando assim de pensar em algo que me traria dor.
Lembrei-me, inclusive, de que teria prova de física na sexta feira e o professor novo ainda não havia passado a matéria. Pensei em maquiagem, em roupas, sapatos, músicas de que eu gostava e, depois de cantar uma ou duas na minha cabeça, involuntariamente foram formando-se em minha mente imagens tão nítidas quanto quadros. Eu não chamaria aquilo, porém, de obra-de-arte.
Taylor nú, ao meu lado, explicando de todas a formas possíveis como é que um amor tão bonito quanto o nosso acabara. É isso que acontece quando se tem treze anos e certeza de que tudo o que você deseja da vida é a pessoa que você pensa amar.
Ao desfoque de tal imagem, outra forma-se. E depois outra e outra. como a imagem daquela menina loira beijando loucamente aquele garoto que um dia, não muito tempo atrás, eu pudera chamar de meu. Logo, imagens fictícias também eram formadas,frutos de uma imaginação sériamente perturbada. Eu via Taylor rindo-se muito, uma risada quase que como a daqueles personagens malvados de filmes de criança. Ele ria de mim, do meu rosto, da minha humilhação ao perceber o quanto eu valia para ele naquele momento em que o flagrei com a garota. Até a minha própria imaginação projetava imagens dolorosas. Melhor ainda.
Me tornava mais forte. Ou ao menos deveria tornar.
_ Você vai vai só o quanto eu sou capaz de superar você. — eu disse em voz alta, com uma determinação que ás vezes tomava-me o corpo e, minutos depois ia escasseando, escasseando, até que não restasse mais nada.
Vesti a saia recém lavada, a blusa do uniforme, o delicado sapato de borracha o qual compunha também ao uniforme. Coloquei os meus cabelos para cima, deixando que apenas algumas mechas da franja caíssem ao meu rosto. Passei o batom vermelho que havia comprado com as minhas amigas em um dia de shopping, apesar delas dizerem que por ser tão forte, fazia simplesmente com que eu parecesse uma criança tentando imitar os modos de uma mulher. Claro que discordei.
Não acho que uma maquiagem determina o que você é. Só eu sabia quem eu era. Bem, talvez eu não soubesse muito bem, tomada pela perda de identidade pós-namoro, já dita antes, mas eu redescobriria, e ninguém se meteria nisso.
Nas quartas feiras eu dava a última aula, que era quando as crianças mais estavam agitadas, cansadas, e loucas para ir para casa. De tal forma que a última coisa de que queriam era assistir aulas de física. Porém, mais uma vez, aquela aula fora tranquila, não tanto quanto a primeira, mas as crianças demonstravam ainda certo respeito por mim. Passei extensas anotações no quadro, por acreditar que ter uma matéria completa no caderno acabava por ajudá-los a estudar melhor para a prova. Faltando cerca de dez minutos para o término da aula, encerrei a matéria e passei alguns exercícios de fixação. Foi quando uma voz doce de menina chamou-me por 'professor'. Corri os olhos pela turma até localizá-la. Estava sentada mais ou menos na região central da sala, e olhava-me com aqueles olhos grandes e curiosos ao mesmo tempo que levantava a mão.
_ Pois não?
_ O senhor ainda não nos disse qual a matéria da prova. — ela disse. Foi então que a reconheci. Era aquela menina, aquele anjo que chorara no banheiro masculino e que correra de mim sem sequer contar-me o nome. O mesmo rosto inocente que garotas de catorze anos costumavam ter. Os cabelos, de um castanho bem claro, quase loiros, estavam presos sob sua cabeça, deixando escapar algumas mechas que moldavam seu lindo rosto. Os seus olhos,azuis como o céu, jamais conseguiam desafiar aos meus, desviando-se ás vezes, revelando um pequeno rubor na sua face cada vez que eu a olhava demais. Suas pernas mexiam-se impacientemente, pernas grossas que certamente a fariam um arraso quando fosse mais velha, mas que, enquanto ainda era uma menina, tornava-a mais encantadora. Cada gesto e movimento seu revelavam uma inocência sem fim, mas que embebedavam-me como um velho louco, louco de vontade de tê-la em meus braços, de beijar aquela boca tão pequena, de tocar aquelas pernas, aqueles braços, aqueles seios apertados pelo uniforme do colégio. Ah, como era avassaladora a paixão que me consumia mesmo vendo-a ao longe. Ela vinha e tomava conta de todo o bom-senso e ética que eu tinha, de forma que eu daria minha própria alma para ter a idade dela. Mas eu não tinha. E era absolutamente doentia vê-la daquela forma. É claro que eu sabia o quão era doentio. Mas não é um tipo de coisa que se pode controlar. Eu não parecia um vira-latas faminto perto de qualquer garotinha na flor-da-idade. Era somente com uma garotinha. Somente com ela.
_ Prova?
_ Sim. A gente vai ter prova de física na sexta feira e o Senhor Frederich ainda não dito a matéria que deveríamos estudar.
_ Qual o seu nome, menina? — perguntei, vendo-a corar mais e mais a cada passo que eu dava em sua direção, até ficar bem perto e ajoelhar-me em frente a ela. O seu cheiro era de um floral doce bastante semelhante ao jasmim. A minha vontade era de ficar bem perto, de aproveitar cada segundo daquele doce aroma embriagante, de dizer a ela que me fizesse seu escravo e que desse as ordens, simplesmente as desse.
_ Mellanie. — ela disse, fitando ao chão. Eu me enganara ao supor que se chamasse Ângela. Mas Mellanie também se aplicava bem a ela. Doce como o 'mel'. Ah, único sabor que eu queria poder provar.
_ Bem, estudem toda a 'cinemática', principalmente 'movimento uniformemente variado'.
_ Tá bom. — ela pegou uma folha com alguns desenhor cor-de-rosa e pôs-se a escrever.
Naquela quarta eu tentei prestar mais atenção na aula. Eu teria prova de física dali a dois dias, e se não melhorasse as notas, acabaria repetindo o ano. Eu não queria perder um ano inteiro por causa de uma pessoa que não valia pena. Porque Taylor sempre teve tudo. Ele estudava para as provas,tinha aulas especiais de filosofia e história e se inscrevia em dezenas de cursos preparatórios que fossem ajudá-lo a entrar na faculdade de direito da 'University of Cambridge', a maior universidade da Inglaterra, a qual os seus pais tinham os melhores contatos e indicações. Ele fazia aulas de basquete, Rugby e xadrês. Ele ela extremamente inteligente e poderia ter tudo, tudo o que bem quisse. Quanto a mim,sempre fora uma aluna mediana,queria entrar em uma universidade local e não fazia idéia alguma sobre escolha de curso. Eu abdicava de qualquer momento de estudo e lazer para ficar com Taylor, e foram incontáveis as vezes em que levava meus livros de colégio para estudar ao mesmo tempo em que assistia aos seus jogos de Rugby. Taylor tinha tudo. Eu não tinha nada. Já estava bem próxima ao final do ano letivo e faltavam alarmantes pontos para passar de ano em certas matérias. Principalmente física. Como em pude ser tão burra a ponto de não pensar em mim?
Ao menos eu me lembrara de indagar ao Sr. Adam qual seria a matéria cobrada em prova, e me esforçaria a estudar naquele pouco tempo que eu tinha. Aos poucos, eu podia sentir uma vontade de seguir em frente tomando conta de mim, uma vontade de me redescobrir, de buscar um futuro que fosse só meu e que não houvesse um vestígio sequer do meu primeiro namorado.
_ Puta falta de organização! Como eles podem esquecer de me avisar que deve redigir uma prova? E agora vêm me dizer que tenho dois dias? Dois dias! Isso é um absurdo. Não dá tempo de redigir uma prova em dois dias. Vou perder todo o meu dia de hoje metido nisso. Quero só ver como farei com o planejamento de aulas de amanhã. — eu disse irritado enquanto dirigia, batendo a mão no volante.
_ É assim mesmo. Vira uma bagunça danada quando algum professor tem de sair do cargo tão imediatamente que mal dá tempo de contratar outro alguém. Não se preocupe, eles devem acabar organizando isso melhor. É um bom colégio, um dos melhores de Boston. — Jake tentou acalmar-me.
_ Não sei não. Estou achando que aquele diretor está novinho demais para o cargo dele. Eu mesmo poderia fazer um trabalho melhor que aquilo.
Jake tentou mudar de assunto. Dizia alguma coisa sobre algum filme que vira na noite anterior. Não prestei muita atenção, entrando em estado de pensamento, fitando vagamente a rua calma e silenciosa até que uma imagem chamasse-me a atenção. Era ela. Era Mellanie. Ela apertava os livros contra o peito enquanto brincava infantilmente de pular somente nos ladrilhos pretos da rua, os quais afastavam-se cerca de quarenta centímetros um do outro. Uma nostagia tomou conta de meu corpo enquanto eu me lembrava de que fazia a mesma coisa quando moleque. Ela sorria um pouco, sua saia agitava-se levemente e, a cada pulo, seus cabelos dançavam ao sabor do vento, fazendo com que o prendedor de seu cabelo fosse escorregando aos poucos.
Ela o puxou de vez, balançando a cabeça para libertar todos os fios antes presos, modelando o seu rosto de porcelana que a fazia ainda mais bela. Um arrepio tomou conta de mim e, antes que percebesse, fui diminuindo a velocidade do carro até que ela reparasse a minha presença.
_ PRETO. Branco. Branco. PRETO. Branco. Branco. — eu repetia em minha mente enquanto concentrava-me em pular apenas nos ladrilhos pretos da rua, mania que eu tinha desde pequena e a qual nunca consegui largar. Eu começava a fazer meio que inconscientemente, principalmente enquanto estava pensativa. Incrível como a sua vida pode dar tamanha reviravolta antes se perceba e que se possa fazer algo a respeito. E a superação era, sinceramente,desgastante. Eu queria me sentir viva de novo, não como fora nos meus últimos dias desde o término do namoro, mas como fora nos primeiros dias. Eu me lembrava perfeitamente dos calorosos olhos verdes de Taylor que fitaram-me no meu primeiro dia de aula no colégio novo, que traziam uma sensação esquisita, amedrontadora e gostosa, tudo ao mesmo tempo, desde a primeira vez. Eu me lembrava dos choque que eu sentia quando o beijava, da forma como as suas mãos conheciam o meu corpo, me fazendo suspirar, desejar, gemer, tudo por ele. Tudo aconteceu tão rápido que eu quisera mergulhar com tudo, de cabeça, experimentar o amor e o prazer com tudo que estes tivessem para oferecer. E quando eu já tinha experimentado tudo, tanto quanto Taylor, a indiferença tomou conta de nós dois levando a um fim inevitável e a um trauma sentimental muito doloroso.
Um carro andava próximo a mim, devagar demais, mas não prestei muita antenção inicialmente. A 'liguinha' ia escorregando do meu cabelo enquanto eu pulava de ladrilho em ladrilho. As vezes me irritava o fato de meu cabelo ser tão liso que nada segurava. Depois de tentativas falhas de permanecê-lo amarrado, puxei com força a 'liguinha', soltando-o de vez. Era até gostosa a sensação gelada do vento fazendo o meu cabelo voar. Sempre gostei da sensação de liberdade que o vento é capaz de trazer e foram inúmeras as vezes em que desejei ser leve o bastante para poder viajar com ele. Porém uma brisa, como aquela daquele dia, apenas dava uma sensação de conforto, uma felicidade sem motivos, aquilo que encoraja você a dar o próximo passo simplesmente porque tem de ser assim.
De repente, o carro parou. Já estava bem próximo a mim, e era estranho ter parado sem motivo algum, sem sinal de trânsito ou veículo obrigando-a a parar. Olhei pela janela para tentar ver quem dirigia. Era o meu professor de física. Reconheci-o na hora. Ele era aquele tipo de pessoa que olha nos olhos, intimidador, e isso me assustou desde o primeiro dia de aula. Mas por que é que ele estava me seguindo?
_ Mellanie, certo?
_ Oi professor.
_ Você mora aqui perto?
_ Sim.
_ Quer uma carona?
_ Não senhor. Obrigada. — respondi, apertando forte os livros em meus braços. Diversas vezes eu havia cruzado com professores na rua e nenhum deles me oferecera carona. Muito mais para manter uma distância saudável do aluno para que haja maior respeito na classe. Por que então com ele era diferente?
_ Tem certeza?
_ Sim Senhor.
_ Certo. Até logo. — ele murmurou, sumindo pela rua.
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