Mestiça
2 Primeiro dia
Me lembrei de uma árvore, logo na entrada da casa, ainda reta, apesar da idade que aparentava. Suas folhas estavam verdes, o que era um alívio, poderia aproveitar os dias de sol sem interrupções de chuva.
Comecei a andar até lá, lembrando dos dias em que tropecei naquele tapete e fui de cara ao chão. Realmente deprimente e constrangedor. Mas também, estava muito distraída com os volumes exacerbados da voz daquele cantor desconhecido, em meu ouvido. Definitivamente, não era música para se ouvir e ler ao mesmo tempo. Sentei logo abaixo da árvore e comecei a ler um pouco mais do que de costume. Estava tão tranquilo o lugar, que meu sono começava a querer pesar, transformando meu dia feliz em uma noite forçada.
Ouvi carros passando, sempre completamente pretos ou com vidros transparentes. Nunca havia reparado na padronização daquela rua, todos sempre tinham algo para fazer e no mesmo horário — talvez eu devesse conhecer minha nova escola — meu pensamento era simplesmente era contrário ao meu desejo antigo de fugir. Comecei a me confrontar sobre o que queria, sabendo que teria de aceitar tudo aquilo ou conseguir a primeira passagem, milagrosamente gratuita, para casa.
Meus olhos estavam ardendo, pelo sol intensamente brilhante, que refletia em mim ao tocar nas folhas do livro. Olhei para a rua, procurando um ponto de descanso, o que não seria algo raro por aqui. Percebi que um garoto novo estava no bairro, mas não tão novo quando eu que havia chegando a poucas horas e estava completamente desfocada. Seus cabelos mel sendo bagunçados pela brisa fresca das árvores, era fiel a sua beleza, juntamente com seus intensos olhos verdes que me pareceram convidativos, com sua olhada pouco interessada para minha direção.
Não queria ser deselegante, então esbocei um sorriso tímido que minha mãe me dissera para sempre lembrar de fazer. Não sei se ele entendeu que era um oi ou se pensou que eu estava tentando uma paquera frustrada, mas retribuiu o sorriso com um acenar e voltou-se para seus pais, que eu não havia notado a presença, mas que estavam bem em frete ao carro parado na garagem.
Parecia que iam sair. Era uma boa ideia de coisa para se fazer, pena que não poderia fazer o mesmo. Seria algo realmente fora de questão. Olhei para minha nova casa e percebi que algo acaba de trair meu sossego de mais cedo, o roncar de meu estômago. Nunca fui boa em persuadir a mim mesma, então desisti do plano inútil e entrei, a procura de um lanche.
A cozinha ainda era a mesma, com pisos de madeira, paredes de um bege desgastado e toda a mobília de forma antiga e rural. Coloquei meu cd player na mesa e o livro logo ao lado, a geladeira me chamava. Na porta da geladeira, encontrei um bilhete bem gentil para quem não estava aqui para me receber:
Elizabeth;
Espero que não esteja com muita fome. A comida está como você sempre gostava.
Tem lasanha no congelador e bolo na parte de baixo da geladeira.
Logo estarei em casa. Senti saudades!
Pai
Desde pequena o tratei como um pai, era fácil conviver com ele e ter sempre um novo dia para pescarmos ou nadarmos na piscina que hoje, não passa de um lixo em algum aterro do estado.
Muitas coisas mudaram desde aquela época, não me lembro de ter vindo aqui, após minha mãe se casar com o Denny. Ele é um cara legal, mas não somos pai e filha. Prefiro manter uma distância segura e concreta, para não deixar um novo desconhecido acabar com meu mundo perfeito de anonimato.
Agora, que estava indecisa com o que comer, peguei rapidamente o prato de bolo e me sentei para comer. As cadeiras de madeira e acolchoadas, eram um alívio para meus momentos de dores nas costas. Nunca fui muito de fazer exercícios, mas gostava de ser desafiada a fazer coisas inusitadas.
Enquanto comia, ouvi passos se aproximando e tratei logo de fechar tudo, achando que era um grande problema me envolver com aquele estranho a andar. Meu tio não poderia estar chegando, sempre era o último a jantar, quando todos já estavam na cama.
Bateram na porta, mas eu me recusava a deixar aquele bolo lindo para trás. Dei uma garfada no bolo e entalei parte dele em minha garganta, de tão rápido que engoli. Corri para a porta, ainda sendo castigada pelas batidas, me privando do silêncio.
Abri a porta e vi aquele estranho garoto em minha frente. Ele estava segurando um CD e prontamente sorrindo, exatamente o sorriso sem malícia pelo qual tão procurei.
–Posso ajuda-lo? – perguntei indiferente, não queria que aquela conversa demorasse mais do que o necessário – Se queria falar com meu tio, ele não está. Melhor voltar a noite.
–Eu vi você lendo e notei que estava ouvindo música, acho que esse CD vai te agradar.
Talvez fosse uma repulsa arrasadora sobre o que eu sentia por aquele garoto. Não conseguia mais conter minha voz sussurrante, tornando o vento a surgir, cada vez mais negro. A indiferença era meu grande trunfo e fiz isso com muito pudor. Toquei meu cabelo, a se embaraçar por meus dedos, empurrei-o para trás, formando um rabo de cavalo informal, que deixava evidente meus sentidos mais simples.
–Obrigada. Ham... Preciso ir. Eu... Estou um pouco ocupada... No momento.
–Eu entendo. Até outro dia, eu suponho.
–Tchau.
Nunca me foi tão fácil esconder o que eu sinto e demonstrar o que eu imaginei. Minha vida havia acabado. Tudo o que me sobrava era uma porta para fechar, um CD para ouvir e um quarto inteiro para me exilar.
As aulas estavam começando e eu ainda não sabia o que fazer com minha transferência em um lugar tão recluso.
Minha família é muito rígida. Todos tem o sangue de uma única “raça”, um simples e único legado. Talvez seja por isso que me deixaram aqui com meu tio. Não me enquadraria nesse papel de perfeita linhagem. Me chamavam de muitos nomes em minha casa, mas nenhum era mais complicado do que meu próprio nome. Olhando pelos cantos, percebi que não lembrava mais de meu nome, nem mesmo sua pronúncia.
Sentei naquele sofá surrado do tempo, com almofadas atuais que não contracenavam bem com o ambiente e fiquei ali. Não sabia o que fazer, mas estava apenas ali. Esperando. Não sabendo muito bem o que esperar. Enfim, apenas esperava.
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