Message in a bottle
10 Capítulo 9
Notas iniciais
Quando chegou lá, olhou em volta, na esperança de avistar o Happenstance. Como a maioria dos barcos era da cor branca e o que ela procurava era de madeira natural, ela conseguiu encontrá-lo com facilidade e encaminhou-se para a rampa de acesso.
Embora estivesse nervosa ao começar a descer a rampa, os artigos na loja tinham lhe dado algumas ideias sobre o que conversar. Quando conhecesse Berry, explicaria que, depois de ler o artigo sobre o Happenstance, queria ver o barco de perto. Era uma história plausível, e ela esperava conseguir transformá-la numa conversa mais longa. Aí, é claro, teria alguma ideia de como ela era pessoalmente. E depois disso...bem, depois disso ela veria.
Ao se aproximar do barco, no entanto, a primeira coisa que percebeu foi que o lugar aparentava estar deserto. Não havia ninguém a bordo, nem nos atracadouros, e pelo visto ninguém estivera ali naquela manhã. O Happenstance estava trancado, a vela coberta e nada parecia estar fora de lugar. Depois de olhar em volta à procura dele, Quinn olhou para o nome na popa para ver se era o barco correto, e era. Ficou pensando sobre a situação enquanto afastava alguns fios de cabelo que o vento lhe jogara no rosto. Achava aquilo estranho, pois a garota da loja dissera que Berry estaria ali.
Em vez de voltar direto para a loja, ela parou um momento para admirar a embarcação. Era linda – bela e imponente, ao contrário das outras que a cercavam. Tinha muito mais personalidade que o restante dos veleiros, e ela entendeu por que o jornal lhe dedicara uma reportagem. De certo modo, o Happenstance lhe fazia lembrar uma versão bem menor dos navios piratas que ela vira nos filmes. Quinn ficou alguns minutos andando de um lado para o outro, estudando-o de diferentes ângulos, e teve curiosidade de saber quão arruinado o barco estava antes da restauração. A maior parte parecia nova, embora ela imaginasse que não tivessem substituído todo o madeirame. Provavelmente o barco fora lixado. Ao olhar mais de perto, ela viu marcas no casco que confirmavam sua teoria.
Enfim, resolveu tentar de novo a Island Diving um pouco mais tarde. Era óbvio que a garota da loja tinha se enganado. Depois de olhar de relance a embarcação uma última vez, ela virou-se para ir embora.
Uma mulher estava parada no alto da rampa, observando-a com atenção.
Berry...
Ela suava por causa do calor da manhã e sua camiseta estava molhada em alguns lugares. As mangas tinham sido cortadas, revelando seus braços firmes. As mãos estavam sujas com algo que aparentava ser graxa e o relógio de mergulhadora que ela usava no pulso parecia um pouco arranhado, acho que pelo uso contínuo durante algum tempo. Estava com um short bege e chinelas de dedo e dava a impressão de passar a maior parte do tempo – senão todo ele – perto do mar.
Quinn deu um passo involuntário para trás.
– Posso ajudá-la em alguma coisa? – perguntou Rachel.
Sorriu para ela, mas não se aproximou, como se temesse que ela se sentisse encurralada.
E foi essa a sensação que ela experimentou quando os olhos delas se encontraram.
Por um instante, tudo o que ela conseguiu fazer foi encará-la. Apesar de já tê-la visto nas fotos da loja, Berry era mais atraente do que Quinn esperava, embora ela não soubesse por quê. Era baixinha e tinha um corpo lindo. Apesar de o nariz destoar do conjunto, mas ainda assim exótica e notavelmente bonita. Tinha um rosto marcante e bronzeado, como se o sol e o mar estivessem esculpido. Os olhos eram hipnóticos, de cor chocolate, sem dúvida havia algo irresistível nela. Era algo no modo como ela se postava diante de si.
Lembrando-se do plano, ela respirou fundo. Fez um gesto indicando o Happenstance.
– Eu só estava admirando o seu barco. É lindo.
Esfregando as mãos para remover o excesso de graxa, ela disse, em tom educado:
– Obrigada, é muita gentileza sua.
O olhar firme de Rachel parecia expor a realidade da situação, e de repente tudo a assaltou de uma vez – a descoberta da garrafa, sua curiosidade crescente, a pesquisa que tinha feito, a viagem a Wilmington e, por fim, aquele encontro cara a cara. Perturbada, Quinn fechou os olhos e esforçou-se para se controlar. Não tinha imaginado que aquilo aconteceria tão depressa. De repente, passou por um tempo de puro pavor.
Berry deu um pequeno passo à frente.
– Você está bem? – perguntou, preocupada.
Tornando a respirar fundo e forçando-se a relaxar, ela disse:
– É, acho que sim. Só fiquei um pouco tonta por um momento.
– Tem certeza?
Ela passou as mãos pelos cabelos, envergonhada.
– Sim, estou bem agora. Sério.
– Ótimo – retrucou ela, como se esperasse para ver se Quinn dissera a verdade. Então, depois de se certificar de que ela estava bem, perguntou, curiosa: — Já nos conhecemos?
Ela balançou a cabeça devagar.
– Acho que não.
– Então como sabia que o barco era meu?
Aliviada, ela respondeu:
– Ah... Vi sua foto na loja, nos recortes na parede, junto com as fotos do barco. A garota de lá falou que você estaria aqui e eu pensei que poderia vir conhecer o barco.
– Ela disse que eu estava aqui?
Quinn ficou em silêncio enquanto relembrava as palavras exatas.
– Na verdade, ela disse que você estaria nas docas. Imaginei que isso queria dizer que estaria aqui.
Ela assentiu.
– Eu estava no outro barco. No que usamos para mergulhos.
Um barquinho de pesca tocou uma sirene, e Rachel virou-se e acenou para o homem de pé no convés. Depois que ele passou, Rachel tornou a voltar-se e ficou perplexa com a beleza de Quinn. Ela era ainda mais bonita de perto do que de longe, quando Rachel a avistara do outro lado da marina. Num impulso, baixou os olhos e pegou o lenço vermelho que trazia no bolso traseiro. Enxugou o suor da testa. Seu cabelo estava preso num rabo de cavalo.
– Você fez um belo trabalho de restauração – comentou Quinn.
Rachel sorriu de leve enquanto guardava o lenço.
– Obrigada, é muita gentileza sua.
Enquanto ela falava, Quinn relanceou o Happenstance, depois tornou a olhar para ela e perguntou, em tom casual:
– Sei que não é da minha conta, mas, já que está aqui, se importaria se eu lhe perguntasse algumas coisas sobre ele?
A expressão de Rachel indicava que não era a primeira vez que lhe pediam para falar sobre o barco.
– O que gostaria de saber?
Quinn fez o possível para soar natural:
– Bem, quando você o encontrou, ele estava mesmo em condições tão precárias quanto o artigo dizia?
– Na verdade, estava pior. – Ela deu um passo à frente e apontou para várias partes do barco, à medida que as mencionava. – Grandes trechos da madeira perto da proa estavam podres e havia uma série de vazamentos ao longo da lateral. Era um milagre que ele ainda flutuasse. Nós acabamos substituindo uma boa parte do casco e do convés, e o que sobrou teve que ser totalmente lixado, depois vedado e em seguida envernizado de novo. E isso só no lado externo. Tivemos que mexer na parte interna também, e isso levou muito mais tempo.
Embora Quinn tivesse notado o uso do “nós” na resposta dela, resolveu não fazer nenhum comentário a respeito.
– Deve ter sido muito trabalhoso.
Ela disse isso sorrindo e Rachel sentiu alguma coisa contrair-se em seu íntimo. Droga, ela é bonita.
– Foi, sim, mas valeu a pena. É mais divertido velejar nele do que em outros barcos.
– Por quê?
– Porque ele foi construído por pessoas que o usavam para ganhar a vida. Elas fizeram a planta com muito cuidado, e isso torna muito mais fácil velejar.
– Pelo jeito, você veleja há muito tempo.
– Desde criança.
Ela assentiu. Depois de uma pausa curta, deu um pequeno passo na direção do barco.
– Posso?
Rachel assentiu.
– Claro, vá em frente.
Quinn se aproximou do veleiro e deslizou as mãos na lateral do casco. Rachel notou que ela não usava aliança, embora isso não devesse ter a menor importância para ela. Sem se virar, Quinn perguntou:
– Que tipo de madeira é esta?
– Mogno.
– O barco inteiro?
– A maior parte. Exceto os mastros e algumas coisas no interior.
Ela tornou a assentir e Rachel observou-a caminhar ao longo do Happenstance. Enquanto Quinn se afastava, Rachel não pôde deixar de notar o corpo dela e os cabelos curtos e loiros balançando ao vento. Mas não era apenas a beleza dela que atraía sua atenção – havia confiança no modo como ela se movimentava. Ela se deu conta de repente de que era como se Quinn soubesse exatamente o que todos à sua volta e principalmente ela estavam pensando. Balançou a cabeça.
– Usaram mesmo esse barco para espionar os alemães na Segunda Guerra? – perguntou ela, virando-se para encará-la.
Rachel riu baixinho, esforçando-se para se concentrar.
– Foi o que o antigo dono me contou, embora eu não saiba se é verdade ou se ele disse isso para conseguir um preço mais alto.
– Bem, mesmo que não seja verdade, é um lindo barco. Quanto tempo levou para reformá-lo?
– Quase um ano.
Ela espiou por uma das janelas redondas, mas o interior estava escuro demais para que enxergasse alguma coisa.
– Em que barco você veleava enquanto estava reformando este?
– Não velejávamos. Não havia tempo, por causa da loja, das aulas e do trabalho nesse aqui.
– Você teve alguma síndrome de abstinência pela falta de velejar? – perguntou Quinn com um sorriso.
Pela primeira vez Rachel notou que estava gostando da conversa.
– Claro que sim. Mas voltou ao normal assim que nós terminamos e colocamos o barco na água.
Mais uma vez a palavra “nós”.
– Imagino.
Depois de admirar o barco por mais alguns segundos, ela voltou para o lado de Rachel. Por um momento, nenhuma das duas falaram. Rachel se perguntou se Quinn sabia que ela estava a observando de soslaio.
– Bem, acho que já tomei muito do seu tempo – comentou Quinn, finalmente, cruzando os braços.
– Não tem problema- protestou ela, e sentiu a testa molhada mais uma vez. – Adoro falar sobre velejar.
– Eu também. Sempre tive a impressão de ser muito divertido.
– Do jeito que você fala, parece que nunca velejou.
Ela deu de ombros.
– E é verdade. Sempre tive vontade, mas nunca tive oportunidade.
Quinn a fitou ao falar, e, quando seus olhos se encontraram, Rachel inconscientemente pegou o lenço pela segunda vez em poucos minutos. Droga, está quente aqui. Enxugou a testa e ouviu as palavras saírem da sua boca antes que pudesse impedi-las:
– Bom, se quiser velejar, eu costumo sair com ele depois do trabalho. Você será bem-vinda para um passeio hoje à noite.
Rachel não tinha muita certeza do motivo que a levara a dizer aquilo. Pensou que talvez fosse o desejo de uma companhia feminina depois de todos aqueles anos, mesmo que apenas por um breve tempo. Ou talvez tivesse algo a ver com o modo como os olhos de Quinn se iluminavam toda vez que ela falava. Mas não importava o motivo, o fato era que Rachel tinha acabado de convidá-la para velejar e não havia nada que ela pudesse fazer para mudar isso.
Quinn também estava um pouco surpresa, mas logo resolveu aceitar. Afinal, essa era a razão pela qual fora a Wilmington.
– Eu adoraria – respondeu. – A que horas?
Ela guardou o lenço, sentindo-se um pouco insegura a respeito do que acabara de fazer.
– Que tal às sete? O sol começa a baixar, e é o momento ideal para sair.
– Está ótimo para mim. Vou trazer alguma coisa para comermos.
Para surpresa de Rachel, ela parecia feliz e entusiasmada com o passeio.
– Não é preciso.
– Eu sei, mas é o mínimo que posso fazer. Afinal, você não precisava se oferecer para me levar. Que tal sanduíches?
Rachel deu um pequeno passo para trás, sentindo uma súbita necessidade de espaço para respirar.
– É, está ótimo, não sou exigente.
– Combinado – disse Quinn, e logo depois fez uma pausa. Mudou o peso do corpo de um pé para o outro, esperando para ver se Rachel acrescentava alguma coisa. Diante do silêncio dela, Quinn ajeitou distraidamente a alça da bolsa no ombro. – Bom, então acho que nos vemos à noite. Aqui no barco, certo?
– Aqui mesmo – retrucou ela, e percebeu como sua voz soava tensa. Pigarreou e sorriu de leve. – Vai ser divertido. Você vai gostar.
– Tenho certeza disso. Vejo você mais tarde.
Quinn virou-se e saiu andando, com os cabelos ao vento. Enquanto ela se afastava, Rachel deu-se conta de algo que esquecera.
– Ei! – gritou.
Ela parou e virou-se para Rachel, usando a mão para proteger os olhos do sol.
– Sim?
Mesmo a distância ela era linda.
Rachel deu alguns passos na direção dela.
– Esqueci de perguntar: qual é o seu nome?
– Quinn. Quinn Fabray.
– O meu é Rachel Berry.
– Certo, Rachel, nos vemos às sete.
Com isso ela se virou e se afastou a passos rápidos. Rachel observou-a se distanciar, tentando entender suas emoções conflitantes. Embora parte de si achasse aquilo tudo empolgante, outra parte imaginava que havia algo errado naquela história toda. Ela sabia que não tinha motivo para se sentir culpada, mas esse sentimento decididamente estava presente, e ela desejou que houvesse alguma coisa que pudesse fazer a respeito.
Mas não havia, é claro. Nunca havia.
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