Notas iniciais
Oi gente! Quanto tempo hein! Estou completamente sem tempo galera. Enfim, tá aí o capítulo, espero que gostem e nos 'vemos' lá embaixo.

No dia em que descobriu a terceira carta, é claro que Quinn não esperava que algo fora do comum fosse acontecer. Era um típico dia de verão em Boston – quente, úmido, com as mesmas notícias que em geral acompanhavam esse tipo de clima: algumas brigas provocadas por tensões agravadas pelo calor e, no início da tarde, dois assassinatos cometidos por pessoas que se descontrolaram.

Quinn estava na redação do jornal pesquisando sobre o autismo infantil. O Boston Times tinha um excelente banco dados de artigos publicados nos anos anteriores em várias revistas. Pelo computador, ela podia acessar também a biblioteca da Universidade de Harvard ou da Universidade de Boston, e a soma de literalmente centenas de milhares de artigos à sua disposição tornava qualquer pesquisa mais fácil e menos demorada do que anos antes.

Em algumas horas ela tinha conseguido reunir quase trinta artigos dos últimos três anos e publicados em revistas especializadas das quais nunca ouvira falar, e seis dos títulos pareciam interessantes o bastante para uma possível utilização. Como ela iria passar por Harvard a caminho de casa, resolveu pegar os artigos quando fosse embora.

Quando estava prestes a desligar o computador, um pensamento cruzou sua mente de repente, fazendo-a parar e se perguntar: por que não? Era uma chance remota, mas o que tinha a perder? Tornou a se sentar, acessou o banco de dados de Harvard de novo e digitou “mensagem em uma garrafa”.

Como os artigos no sistema da biblioteca eram listados por assunto ou título, ela resolveu procurar por títulos para abreviar a busca. Em geral, a pesquisa por assunto identificava um número maior de artigos, mas fazer a triagem era um processo trabalhoso e Quinn não tinha tempo para isso naquele momento. Depois de apertar o Enter, acomodou-se para esperar que o sistema buscasse a informação pedida.

O resultado a surpreendeu: nos últimos anos, tinha sido escrita uma dúzia de artigos sobre o assunto. A maioria fora publicada em revistas científicas, e os títulos pareciam sugerir que se usavam garrafas para várias tentativas de estudos sobre as correntes oceânicas.

No entanto, três deles pareceram interessantes e ela anotou os títulos, para pegá-los também.

O trânsito estava bastante engarrafado e ela levou mais tempo do que imaginava para ir até a biblioteca e pegar os nove artigos que queria. Chegou tarde em casa e, depois de pedir comida num restaurante chinês na vizinhança, sentou-se no sofá com os três textos sobre mensagens em garrafas.

O primeiro que leu tinha sido publicado na revista Yankee em março do ano anterior e falava sobre episódios de garrafas que tinham ido parar na costa da Nova Inglaterra. Algumas das cartas encontradas eram memoráveis. Quinn gostou de ler especialmente sobre Paolina e Ake Viking.

Segundo o artigo, o pai de Paolina encontrou uma mensagem numa garrafa jogada ao mar por Ake, um jovem marinheiro sueco. Ake, que estava entediado durante uma de suas várias viagens marítimas, pedia a qualquer moça bonita que encontrasse a garrafa que escrevesse de volta. O pai deu a carta a Paolina, que por sua vez redigiu uma mensagem para Ake. Uma carta levou a outra, e quando o marinheiro enfim viajou à Sicília para conhecê-la pessoalmente, os dois descobriram que se amavam. Casaram-se logo depois.

Perto do final do texto, havia dois parágrafos que falavam de outra mensagem que fora parar nas praias de Long Island:

“Sem você em meus braços, sinto um vazio na alma. Esquadrinho as multidões em busca do seu rosto – sei que é impossível encontrá-la, mas não consigo evitar. Minha busca por você é uma procura sem fim destinada ao fracasso. Você e eu tínhamos conversado sobre o que aconteceria se as circunstâncias forçassem a nossa separação, mas não posso cumprir a promessa que lhe fiz naquela noite. Sinto muito, minha querida, mas jamais haverá quem a substitua. As palavras que lhe sussurrei foram bobagens, e eu devia ter sabido disso na hora. Você, e somente você, sempre foi a única coisa que eu quis, e agora que partiu não tenho desejo de encontrar outra pessoa. ‘Até que a morte nos separe’ foi o que juramos, e hoje acredito que essas palavras serão sempre verdadeiras, até que enfim chegue o dia em que eu também partirei deste mundo.”

Quinn parou de ler de repente e baixou o garfo. Não pode ser! Ficou com os olhos fixos nas palavras. Não é possível...

Mas...

Mas... quem mais poderia ser?

Ela enxugou a testa, consciente de que suas mãos de repente tinham ficado trêmulas. Outra carta? Voltou ao início do artigo e procurou o nome do autor. O texto tinha escrito por Arthur Shendakin, ph.D., professor de história na Universidade de Boston, e isso significava que...

... ele só podia morar perto dali.

Quinn ficou de pé num salto e pegou a lista telefônica na prateleira perto da mesa de jantar. Folheou-a, em busca daquele nome. Havia menos de uma dúzia de pessoas com aquele sobrenome Shendakin no catálogo, embora apenas duas parecessem possibilidades reais. Ambas tinham a letra A como inicial do primeiro nome, e ela consultou o relógio antes de ligar. Nove e meia. Era tarde, mas não tarde demais. Discou o primeiro número. O telefonema foi atendido por uma mulher que disse que era engano. Quando desligou, Quinn percebeu que estava com a garganta seca. Foi à cozinha e encheu um copo com água. Depois de dar um longo gole, respirou fundo e voltou ao telefone.

Discou com cuidado para ter certeza de ter discado o número correto, e esperou enquanto o telefone tocava.

Uma vez.

Duas vezes.

Três vezes.

No quarto toque, ela começou a perder a esperança, mas no quinto alguém atendeu.

– Alô – disse um homem.

Pelo tom da voz, calculou que ele tivesse uns 60 anos.

Ela pigarreou.

– Alô, meu nome é Quinn Fabray e eu trabalho no Boston Times. É Arthur Shendakin quem está falando?

– É ele – respondeu o homem, parecendo surpreso.

Fique calma, ela disse a si mesma.

– Ah, olá. Estou ligando para saber se o senhor é o mesmo Arthur Shendakin que publicou um artigo na Yankee, no ano passado, sobre mensagens em garrafas.

– Sou eu mesmo. Como posso ajudá-la?

Ela sentiu as mãos transpirando.

– Fiquei curiosa a respeito de uma das mensagens, que o senhor disse ter aparecido em Long Island. Sabe de que carta estou falando?

– Posso saber por que está interessada? – Perguntou desconfiado.

– Bem, o Boston Times tem a intenção de fazer um artigo sobre o mesmo assunto, e estamos interessados em obter uma cópia da carta.

Ela fez uma careta diante da própria mentira, mas dizer a verdade parecia pior. Que impressão isso daria? Ah, estou encantada com um homem misterioso que manda mensagens em garrafas e gostaria de saber se a carta que o senhor encontrou também foi escrita por ele...

Ele respondeu bem devagar:

– Bem, não sei. Foi essa carta que me inspirou a escrever os artigos... Preciso de um tempo para pensar.

Quinn sentiu um nó na garganta.

– Então o senhor tem a carta?

– Tenho. Encontrei-a há uns dois anos.

– Sr. Shendakin, sei que é um pedido estranho, mas posso lhe garantir que, se nos deixar usá-la, ficaremos felizes em lhe pagar uma pequena quantia por isso. E não precisamos da carta em si. Uma cópia servirá, de modo que o senhor não estaria se desfazendo dela.

Ela percebeu que o pedido o surpreendeu.

– De quanto você está falando?

Não sei, estou inventando tudo isso agora. Quanto o senhor vai querer?

– Pensamos em lhe oferecer 300 dólares, e naturalmente o senhor terá o crédito de ter encontrado a carta.

Ele ficou em silêncio por um instante, pensando. Quinn tornou a falar antes que ele pudesse formular uma recusa:

– Sr. Shendakin, tenho certeza de que o senhor deve estar preocupado com a semelhança entre o seu artigo e o texto que o jornal pretende publicar. Posso assegurar que nosso material será bem diferente. Nossa intenção é falar sobretudo sobre a direção que as garrafas tomam, considerando as correntes marítimas e tudo mais. Só queremos algumas cartas autênticas para dar um toque humano aos nossos leitores.

De onde foi que tirei isso?

– Bom...

– Por favor, Sr. Shendakin. Significaria muito para mim.

Ele ficou em silêncio por um instante.

– É só para tirar uma cópia?

Sim!

– É, claro. Osso lhe dar um número de fax ou o senhor pode nos enviar a cópia. Devo fazer o cheque no seu nome?

Ele tornou a ficar em silêncio antes de responder:

– É...acho que sim.

Ele soava como se estivesse sido encurralado.

– Obrigada, Sr. Shendakin.

Antes que ele pudesse mudar de ideia, Quinn deu-lhe um número de fax, pegou o endereço dele e outros dados para enviar uma ordem de pagamento no dia seguinte. Achou que seria suspeito mandar um cheque no nome dela.

***

No dia seguinte, depois de ligar para o escritório do professor na Universidade de Boston para informar que o pagamento tinha sido pedido, Quinn foi para o trabalho com a cabeça girando. A possível existência de uma terceira carta impedia que pensasse em qualquer outra coisa. Era verdade de que ainda não tinha certeza de que a carta fosse da mesma pessoa, mas, em caso positivo, ela não saberia o que fazer. Passara quase toda a noite pensando em Berry, tentando imaginar como ele era e as coisas que devia gostar de fazer. Não entendia muito bem o que estava sentindo, mas, por fim, resolveu deixar a carta decidir tudo: se não fosse de Berry, Quinn acabaria aquela história ali mesmo. Não tentaria descobrir mais nada sobre ele, não buscaria indícios de outras cartas. E, se a obsessão permanecesse, ela jogaria fora as duas correspondências. A curiosidade era uma coisa boa, desde que não dominasse a vida de uma pessoa – e ela não deixaria que isso acontecesse.

Mas, por outro lado, se a carta fosse mesmo de Berry...

Ainda não sabia o que faria. Parte dela esperava que não fosse, para que não precisasse tomar a decisão.

Quando chegou à escrivaninha, forçou-se a aguardar um pouco antes de ir até a máquina de fax. Ligou o computador, telefonou para dois médicos que precisava consultar a respeito do artigo que estava escrevendo e fez algumas anotações sobre outros assuntos. Quando terminou, tinha quase conseguido convencer a si mesma de que a carta não era dele. Pensou que deviam existir milhares de cartas flutuando pelos mares. Todas as chances indicavam que era de outra pessoa.

Finalmente, quando já não tinha mais nada para fazer, foi até a máquina de fax e pôs-se a procurar na pilha. Os faxes ainda não tinham sido distribuídos, e havia algumas dúzias de páginas dirigidas à várias pessoas. No meio da pilha encontrou uma página endereçada a ela, junto com outras duas. Ao olhá-las de perto, a primeira coisa que Quinn percebeu foi o veleiro estampado no canto superior direito – como acontecera com as outras duas cartas. Mas essa mensagem era mais curta do que as outras, e ela a leu inteira antes de chegar de novo à sua mesa. O parágrafo final era o que ela tinha visto no artigo de Arthur Shendakin.

25 de setembro de 2007

Querida Catherine,

Passou-se um mês desde que lhe escrevi, mas parece muito mais. A vida agora passa por mim como a paisagem do lado de fora da janela de um carro. Respiro, como e durmo como sempre fiz, mas parece que não há um grande propósito na vida que necessite de uma participação ativa da minha parte. Apenas vago por aí, à deriva como as mensagens que lhe escrevo: não sei aonde estou indo ou quando chegarei lá.

Nem o trabalho afasta a minha dor. Posso mergulhar por prazer ou para ensinar aos outros como se faz, mas quando volto à loja ela parece fazia sem você. Cuido do estoque e faço as encomendas, como sempre, mas até mesmo agora, sem perceber, eu às vezes olho por cima do ombro e chamo seu nome. Enquanto lhe escrevo isto, pergunto-me quando, ou se, coisas desse tipo vão parar de acontecer.

Sem você em meus braços, sinto um vazio na alma. Esquadrinho as multidões em busca do seu rosto – sei que é impossível encontrá-la, mas não consigo evitar. Minha busca por você é uma procura sem fim destinada ao fracasso. Você e eu tínhamos conversado sobre o que aconteceria se as circunstâncias forçassem a nossa separação, mas não posso cumprir a promessa que lhe fiz naquela noite. Sinto muito, minha querida, mas jamais haverá quem a substitua. As palavras que lhe sussurrei foram bobagens, e eu devia ter sabido disso na hora. Você, e somente você, sempre foi a única coisa que eu quis, e agora que partiu não tenho desejo de encontrar outra pessoa. ‘Até que a morte nos separe’ foi o que juramos, e hoje acredito que essas palavras serão sempre verdadeiras, até que enfim chegue o dia em que eu também partirei deste mundo.

R. Berry

– Santana, você tem um tempinho? Preciso falar com você.

Santana ergueu os olhos do computador e tirou os óculos de leitura.

– Claro. O que foi?

Quinn colocou as três cartas na mesa dela, sem dizer nada. Santana pegou uma por uma e arregalou os olhos, surpresa.

– Onde conseguiu essas outras duas?

Quinn explicou como as tinha encontrado. Depois que terminou sua história, Santana leu as mensagens em silêncio. Quinn sentou-se na cadeira diante dela.

– Bem, pelo visto você andou trabalhando escondido, hein? – comentou, pousando a terceira carta na mesa.

Quinn deu de ombros e Santana continuou:

– Mas existe mais alguma coisa nisso tudo do que simplesmente encontrar as cartas, não existe?

– Como assim?

– Quero dizer que você não veio aqui por que encontrou as cartas – retrucou Santana com um sorriso malicioso -, mas porque está interessada nesse tal Berry.

Quinn ficou boquiaberta, e Santana riu.

– Não faça essa cara de surpresa, Quinn. Não sou idiota. Sabia que alguma coisa estava acontecendo nos últimos dias. Você anda muito distraída, é como se estivesse a 100 quilômetros daqui. Eu ia lhe perguntar sobre isso, mas achei que viria me procurar quando estivesse pronta.

– Pensei que estivesse sendo discreta.

– Talvez para os outros. Conheço você há bastante tempo para saber quando algo está acontecendo – falou ela, tornando a sorrir. – Então me diga: — O que está havendo?

Quinn pensou por um momento.

– Tem sido muito estranho. Não consigo parar de pensar nesse homem misterioso, e não sei por quê. É como se eu tivesse de volta à escola, apaixonada por alguém com quem nunca falei. Só que agora é pior: pelo que sei, ele pode ter até 70 anos.

Santana recostou-se na cadeira e assentiu com ar pensativo.

– Isso é verdade... Mas você não acha mesmo isso, acha?

Quinn balançou a cabeça devagar.

– Na verdade, não.

– Nem eu – concordou Santana, tornando a pegar as cartas. – Ele fala como se os dois tivessem se apaixonado quando ainda eram jovens. Não mencionou filhos, é professor de mergulho e escreve sobre Catherine como se só tivessem sido casados por poucos anos. Duvido que seja tão velho assim.

– Foi o que pensei também.

– Quer saber o que eu acho?

– Claro.

Santana escolheu as palavras com cuidado:

– Acho que você devia ir a Wilmington tentar encontrá-lo.

– Mas parece tão...ridículo, até mesmo para mim.

– Por quê?

– Porque não sei nada sobre ele.

– Quinn, você sabe muito mais sobre Berry do que sabia sobre Noah antes de conhecê-lo. Além disso, não falei para você se casar com ele, só para procurá-lo. Você pode descobrir que não gosta nem um pouco dele, mas pelo menos vai ficar sabendo, não é? Quero dizer, que mal pode fazer?

– E se...

Não terminou a frase, e Santana o fez:

– E se ele não for o que você imagina? Quinn, posso garantir desde já que ele não é o que você está imaginando. Ninguém é. Mas, na minha opinião, isso não devia interferir na sua decisão. Se acha que quer descobrir mais, simplesmente vá. O pior que pode acontecer é descobrir que ele não é o tipo de homem que está procurando. E aí o que você vai fazer? Vai voltar para Boston, mas voltará com sua resposta. Quão ruim isso pode ser? É provável que não seja pior do que o que você está passando agora.

– Não acha que essa história toda é maluquice?

Santana balançou a cabeça com ar pensativo.

– Quinn, há muito tempo venho querendo que você comece a procurar outra pessoa. Como lhe disse nas férias, você merece encontrar alguém para compartilhar a sua vida. Não sei se esse negócio com Berry vai dar certo. Se eu tivesse que apostar, diria que não deve dar em nada. Mas isso não significa que você não deva tentar. Se todos os que achavam que poderiam fracassar nem chegassem a tentar, onde estaríamos hoje?

Quinn deu de ombros.

– Você está sendo lógica demais sobre tudo isso...

Foi a vez de Santana dar de ombros.

– Já passamos por muita coisa. Se há algo que aprendi, é que às vezes a gente tem que se arriscar. E em minha opinião esse não é um risco tão grande assim. Você não está abandonando seu marido e sua família para ir procurar esse cara, nem está desistindo do seu emprego para ir viver do outro lado do país. Você está realmente numa situação maravilhosa. Não há consequências negativas, então é só não dar importância demais ao caso. Se acha que deva ir, vá. Se não quiser, não vá. É simples. Além disso, Tommy não está aqui e você ainda tem muito tempo de férias este ano.

Quinn começou a enrolar uma mecha de cabelo em volta do dedo.

– E a minha coluna?

– Não se preocupe. Ainda temos aquele artigo que você escreveu, mas não publicamos porque colocamos a carta no lugar dele. Depois, podemos desencravar algumas crônicas antigas. No início a maioria dos jornais não publicava a sua coluna, então não devem nem perceber.

– Você faz tudo parecer tão fácil...

– E é fácil. A parte difícil vai ser encontrá-lo. Mas acho que aquelas cartas contêm algumas informações que vão ajudá-la. Que acha de darmos alguns telefonemas e fazermos uma pesquisa mais aprofundada na internet?

As duas ficaram em silêncio por um longo tempo.

– Está bem – falou Quinn, finalmente. – Mas espero que não acabe me arrependendo.

Notas finais
Gostaria de pedir que comentem. Às vezes, fica difícil continuar escrevendo uma história como esta sem receber um incentivo... desanima de verdade. Agradeço imensamente à todos aqueles que dão suas opiniões. Bom, até qualquer hora galera.