Message in a bottle
4 Capítulo 3
Notas iniciais
– Você andou chorando? – Perguntou Santana quando Quinn apareceu na varanda dos fundos da casa com a garrafa e a mensagem.
Em sua confusão, ela se esquecera de jogar o recipiente fora. Envergonhada, Quinn enxugou os olhos enquanto a amiga pousava o jornal e se levantava da cadeira. Ela deu a volta na mesa, seu rosto exprimindo preocupação.
– Está tudo bem? O que aconteceu? Você se machucou?
Ela esbarrou numa das cadeiras ao estender o braço e pegar a mão de Quinn, que balançou a cabeça.
– Não, não, nada disso. É que encontrei esta carta e...sei lá, depois que li não consegui me conter.
– Carta? Que carta? Tem certeza que está se sentindo bem? – insistiu Santana, gesticulando de forma compulsiva com a mão livre enquanto disparava as perguntas.
– Estou bem, sério. A carta estava numa garrafa. O mar a jogou na areia e eu a encontrei. Quando abri e li a mensagem...
Ela parou de falar e o rosto de Santana relaxou um pouco.
– Ah, bom. Por um segundo pensei que tivesse acontecido alguma coisa horrível. Que alguém tivesse atacado você ou algo parecido.
Quinn afastou uma mecha de cabelo do rosto e sorriu para a preocupação da amiga.
– Não, é que acarta me comoveu, só isso. Sei que é bobagem, que eu não devia ser tão emotiva. E desculpe por ter te assustado.
– Não foi nada – garantiu Santana, dando de ombros. – Não precisa se desculpar. Ainda bem que está tudo certo. – Ela ficou em silêncio por um instante. – Você disse que a carta a fez chorar? Por quê? O que ela dizia? – Perguntou.
Quinn secou os olhos, estendeu a correspondência para a amiga e foi até a mesa de ferro. Sentindo ainda meio ridícula por ter chorado, fez o possível para recompor-se.
Santana leu a carta devagar e ao terminar ergueu os olhos para Quinn. Eles também estavam marejados. Não eram só os de Quinn, afinal.
– É... É linda – disse ela finalmente. – Uma das coisas mais comoventes que já li.
– Foi o que eu senti também.
– E você encontrou a garrafa na areia quando estava correndo?
Quinn assentiu.
– Não sei como ela pode ter ido parar ali. A baía é protegida do resto do oceano, e nunca ouvi falar de Wrightsville Beach – observou Santana.
– Também não faço ideia, mas pelo visto chegou à praia ontem à noite. Quase passei direto por ela antes de perceber o que era.
Santana passou um dedo pela folha e ficou um instante em silêncio antes de falar:
– Fico imaginando quem serão eles. E por que será que a carta foi colocada numa garrafa?
– Também não sei.
– Não está curiosa?
De fato, Quinn queria saber mais sobre aquilo. Depois de ler a carta, ela releu duas vezes. Ficou pensando como seria ter alguém que a amasse daquele modo...
– Um pouquinho – reconheceu. – Mas e daí? Não temos como descobrir.
– O que você vai fazer com ela?
– Guardar, eu acho. Ainda não sei sobre isso.
– Hum – comentou Santana com um sorriso indecifrável. – E como foi a corrida?
Quinn bebericou o suco que serviu para si.
– Boa. O nascer do sol foi lindo. Parecia que o mundo inteiro brilhava.
– Isso porque você estava tonta pela falta de oxigênio. Correr deixa a gente assim.
Quinn sorriu, descontraída.
– Então quer dizer que você não vai comigo esta semana.
Santana estendeu a mão para a xícara de café com uma expressão de dúvida.
– Impossível. Meu único exercício é passar o aspirador na casa todos os fins de semana. Você consegue me imaginar lá fora, bufando e reclamando? Acho que eu teria um enfarte. – Comentou divertida.
– Depois que a gente se acostuma, é revitalizante.
– Pode ser, mas eu não sou muito de corridas, então não. A única vez que me lembro de ter corrido foi quando era criança e o cachorro do vizinho fugiu do quintal. Corri tanto que quase fiz xixi nas calças.
Quinn riu.
– Bom, qual é a programação de hoje?
– Acho que podemos fazer umas comprinhas e almoçar na cidade. O que você acha?
– Era exatamente o que eu queria.
As duas falaram sobre os lugares aonde poderiam ir, então Santana se levantou e entrou na casa para pegar outra xícara de café, enquanto Quinn a observava.
Santana tinha 33 anos, o rosto latino e cabelos pretos. Ela os usava médio, vestia-se com simplicidade moderna e para Quinn era, de longe, a melhor pessoa que conhecia. Entendia de música e de arte, e no trabalho às vezes usava um som clássico em sua sala que se espalhava pelo caos da redação. Santana era sempre otimista e bem-humorada, e todos a adoravam, apesar do seu sarcasmo evidente.
Quando ela voltou, sentou-se e olhou para o outro lado da baía.
– Este não é o lugar mais lindo que você já viu?
– É, sim. Que bom que você me convidou.
– Você precisava disso. Ia se sentir muito solitária naquele apartamento.
– Você parece a minha mãe falando.
– Sou um ano mais velha que você Barbie – disse com um sorriso nos lábios. – Mas vou tomar isso como um elogio.
Ela estendeu a mão por cima da mesa e tornou a pegar a carta. Enquanto a estudava, levantou as sobrancelhas, mas não falou nada. Para Quinn, parecia que a correspondência tinha despertado alguma coisa na memória da amiga.
– O que foi? – Quis saber.
– Estou só pensando... – retrucou Santana em voz baixa.
– Em quê?
– Bom, quando eu estava lá dentro, comecei a pensar na carta. Talvez devêssemos publicá-la na sua coluna esta semana.
– O que está querendo dizer?
Santana inclinou-se sobre a mesa.
– Exatamente o que eu falei: acho que deveríamos publicar a carta na sua coluna esta semana. Tenho certeza de que outras pessoas adorariam lê-la. É muito incomum. A gente precisa ler coisas assim de vez em quando. E tão comovente. Já consigo imaginar um monte de mulheres recortando o artigo e colando na porta da geladeira para seus parceiros lerem quando chegarem do trabalho.
– Nem sabemos quem eles são. Não acha que deveríamos pedir permissão primeiro?
– A questão é que não temos como fazer isso. Posso conversar com o advogado do jornal, mas tenho certeza de que é legal. Não vamos usar os nomes verdadeiros, e desde que não fiquemos com o crédito da autoria e não divulguemos de onde pode ter vindo, tenho certeza de que não haverá problema.
– Sei que deve ser legal, mas não tenho certeza se é correto. Quero dizer, é uma carta muito pessoal. Não sei se deveria ser divulgada para todo mundo ler.
– É uma história de interesse humano, Quinn. As pessoas adoram esse tipo de coisa. Além disso, não existe nada na mensagem que possa constranger alguém. É uma carta linda! E, lembre-se, esse tal de Berry jogou a carta no mar dentro de uma garrafa. Ele sabia que iria parar em algum lugar.
Quinn balançou a cabeça.
– Não sei, Santana...
– Bom, então pense sobre isso – insistiu Santana se levantando da mesa. – Resolva amanhã, se preferir. Eu acho uma ideia maravilhosa.
****
Quinn ficou pensando na carta enquanto se despia e entrava no banho. Imaginou o homem que a escrevera – Berry, se aquele fosse mesmo seu nome verdadeiro, mas tinha o R antes do Berry. Seria Richard, Robert, Ryan... ? E quem seria Catherine, se é que ela de fato existia? Amante ou esposa dele, é claro, mas ela não se encontrava mais perto. Estria morta, ou algo acontecera para separá-los? E por que a carta tinha sido jogada ao mar dentro de uma garrafa? Toda a história era estranha. Seu instinto de repórter a dominou e de repente ela achou que a mensagem poderia não significar nada. Talvez alguém tivesse desejado escrever uma carta de amor, mas não tivesse para quem enviá-la. Poderia até ter sido escrita por uma pessoa que gostava de emocionar mulheres solitárias em praias distantes. Mas, ao pensar nas palavras da correspondência, ela concluiu que essas possibilidades eram pouco prováveis. Era óbvio que o texto era sincero. E pensar que fora escrita por um homem! Em toda a sua vida Quinn nunca tinha recebido uma mensagem sequer aos pés daquela. As manifestações que lhe enviavam eram sempre impressas em cartões fabricados em série. Noah – assim como todos os seus outros namorados – nunca gostara de escrever. Como seria aquele homem? Será que era tão carinhoso pessoalmente quanto por carta?
Lavou e enxaguou os cabelos, e enquanto a água fresca descia pelo seu corpo, essas perguntas lhe fugiam da mente. Esfregou-se com uma esponja e um sabonete hidratante, passando mais tempo no banho do que pretendia, e enfim saiu do boxe.
Ao se enxugar, estudou sua imagem no espelho. Nada mau para uma mulher de 32 anos com um filho adolescente. Sempre tivera seios pequenos, embora isso a tivesse incomodado quando mais nova, agora a deixava satisfeita, pois eles não tinham começado a cair como os de outras mulheres de sua idade. Tinha a barriga sequinha, pernas firmes e um lindo bumbum, pelo tempo praticando exercícios. Até as ruguinhas nos cantos dos olhos apareciam menos, apesar disso não fazer muito sentido. De modo geral, ficou feliz com sua aparência nessa manhã e atribuiu essa fácil aceitação de si mesma, bastante incomum, ao fato de estar de férias.
Depois de aplicar uma maquiagem leve, vestiu um short bege, uma blusa branca sem mangas e sandálias. Dali a uma hora o dia estaria quente e úmido, e ela queria se sentir confortável ao andar por Province Town. Ao olhar pela janela do banheiro, viu que o sol estava mais alto no horizonte e lembrou que precisava comprar um protetor solar. Caso contrário sua pele ficaria vermelha, e ela aprendera por experiência própria que queimaduras de sol eram uma das maneiras mais rápidas de estragar férias na praia.
Lá fora, na varanda, Santana tinha posto a mesa do café da manhã. Havia melão e laranjas, além de pãezinhos. Após se sentar, ela passou nos pães um pouco de requeijão light – Santana estava de dieta, o quão estranho isso soa? – E as duas ficaram conversando por um longo tempo. Brittany fora para o estúdio, como fazia todos os dias da semana. Tinha que praticar todas as manhãs bem cedo.
Brittany e Santana estavam juntas há 11 anos. Namoro de escola, “casaram-se” no verão após a formatura, logo que Brittany aceitou um emprego na Academia de dança no centro de Boston. Oito anos depois, ela se tornou sócia da Academia e o casal comprou uma casa espaçosa em Brookline, onde vivem desde então.
Sempre quiseram ter filhos, mas a correria dos seus trabalhos não permitiu ainda que esse sonho se realize. Uma vez até tentaram adotar uma criança, mas a lista parecia não ter fim e elas desistiram. Vieram então os anos negros, como Santana certa vez confidenciou a Quinn, época em que o relacionamento delas foi por água a baixo. Mas, a união, embora abalada, continuou sólida, e Santana mergulhou no trabalho para preencher o vazio em sua vida. Começou no Boston Times e aos poucos foi crescendo na empresa. Quando seis anos depois se tornou editora-chefe, passara a proteger as repórteres. Quinn tornou-se uma pupila.
Depois que Santana subiu para tomar banho, Quinn deu uma olhada rápida no jornal e consultou o relógio. Levantou-se, foi até o telefone e discou o número de Noah. Ainda seria cedo lá, apenas sete da manhã, mas ela sabia que a família inteira estava acordada. Tommy sempre se levantava aos primeiros raios de sol da manhã e ela achava ótimo ter outra pessoa para compartilhar essa maravilhosa experiência. Ficou andando de um lado para o outro enquanto o telefone chamava até que Sarah atendeu. Quinn escutou o som da TV ao fundo e o choro de um bebê.
– Oi. É a Quinn. O Tommy está por aí?
– Ah, oi. Claro que está. Só um minutinho.
O telefone fez um ruído ao ser colocado sobre o balcão e Quinn ouviu Sarah chamar:
– Tommy, telefone para você. É a Quinn.
O fato de Sarah não ter se referido a ela como mãe de Tommy doeu mais do que esperava, mas não havia tempo para pensar nisso. O menino estava ofegante quando pegou o telefone.
– Oi, mãe! Tudo bem? Como estão as férias?
Ao ouvir a voz dele, ela sentiu uma pontada de solidão. Era uma voz ainda aguda e infantil, mas Quinn sabia que era apenas uma questão de tempo até que se modificasse.
– Tudo ótimo, mas só cheguei ontem à noite. Ainda não fiz muita coisa além de correr bastante hoje mais cedo.
– Tinha muita gente na praia?
– Não, mas quando estava voltando vi algumas pessoas indo para lá. Ei, quando você vai viajar com o seu pai?
– Daqui a uns dias. As férias dele só começam na segunda, que é quando vamos viajar. Agora ele está se arrumando para ir ao escritório faze umas coisas para ficar livre depois. Quer falar com ele?
– Não, não precisa. Só liguei para desejar boa viagem.
– Vai ser o máximo. Vi um folheto do percurso pelos rios e algumas corredeiras que parecem muito legais. – concluiu animado.
– Bom, tenha cuidado – disse preocupada.
– Mãe, eu não sou mais criança.
– Sei disso. Só tente deixar sua mãe antiquada mais tranquila.
– Está bem, prometo que vou usar colete salva-vidas o tempo todo. – Ele ficou em silêncio por um instante. – Sabe, lá não vai ter telefone, então só vamos poder nos falar quando eu voltar.
– Eu já imaginava. – Afirmou. – Mas vai ser ótimo.
– Vai ser fantástico. – O garoto falava entusiasmado. – Queria que você fosse também. A gente ia se divertir muito.
Ela fechou os olhos por um momento antes de responder – um truque que o terapeuta lhe ensinara -. Sempre que Tommy mencionava algo sobre os três ficarem juntos de novo, ela tentava não dizer nada de que se arrependesse depois. Sua voz soou tão otimista quanto possível quando ela enfim falou:
– Você e seu pai precisam de um tempo juntos. Sei que ele sente muito a sua falta. Vocês têm coisas para botar em dia, ele está tão ansioso por essa viagem quanto você.
Pronto, não foi tão difícil.
– Ele disse isso?
– Disse, sim. Algumas vezes.
Tommy ficou em silêncio.
– Vou ficar com saudades de você, mãe. Posso ligar assim que eu voltar, para contar da viagem? – Perguntou inseguro.
– Claro, pode ligar quando quiser. – asseguro-lhe com carinho. – Vou adorar saber de tudo. Eu amo você, Tommy – acrescentou.
– Também te amo, mãe.
Ela desligou o telefone sentindo-se ao mesmo tempo feliz e triste, como ficava sempre que falava com o filho ao telefone quando ele estava com o pai.
– Quem era? – Perguntou Santana, aparecendo atrás dela.
Tinha voltado do banho, vestindo uma blusa amarela de estampa, short vermelho, e um tênis Reebok.
Seus trajes proclamavam “sou turista”, e Quinn esforçou-se para não rir.
– Tommy. Liguei para ele.
– Ele está bem?
Santana abriu o armário e pegou uma câmera fotográfica para completar o visual.
– Está ótimo. Vai viajar daqui a alguns dias.
– Que bom. – Ela pendurou a máquina no pescoço. – E agora que isso já está resolvido, temos compras a fazer. Vamos transformar você em uma nova mulher.
Quinn deu mais uma olhada em Santana, a medindo dos pés a cabeça e disse:
– Você tem certeza que vai sair vestida assim? – Perguntou arqueando a sobrancelha e sorrindo leve.
– O que tem de errado com a minha roupa, Fabray? – Devolveu franzindo o cenho, e fechando a expressão.
– Nada, Santana. – Disse caminhando para fora de casa. – Você tá bonitinha fantasiada de turista – disse e soltou uma gargalhada da cara que a latina fez em seguida.
Santana bufou insatisfeita, mas Quinn já tinha saído sem lhe dar um direito de resposta, então o jeito foi segui-la porta a fora rumo à exploração da cidade.
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