Caminham durante a noite inteira pela margem do rio, onde a água era mais rasa e logo nas primeiras horas do dia, decidem parar para a alimentação. Regina acende uma fogueira e Adam responsabiliza-se por procurar carne para a refeição, afastando-se do grupo.

– Você se apaixonou por Arcuri? – ela se aproxima do pirata e o encontra organizando os alforjes e esvaziando os odres para enchê-los com água fresca.

– Arcuri? – ele acha graça na pergunta e levanta o rosto para ver a morena. – Arcuri, Adam e eu brincávamos juntos quando crianças. Arcuri era uma guerreira! Ela brigou mais, correu mais, lutou mais, namorou mais e era independente! Quando veio a peste, nunca mais a vi.

– E depois que se tornou pirata?

– Eu tive acesso à mulheres requintadas e belas. Por que eu iria procurar uma camponesa?

Regina vai até ele e senta-se num toco de árvore. Sorri.

– Você a seduziu com suas histórias. É o que os piratas fazem.

– Nós seduzimos ouvintes com nossas histórias, sejam homens, crianças ou mulheres. Mas nem por isso levamos todos para nossos leitos. – ele se empertiga. – Não seduzi Arcuri. Ela decidiu que queria o príncipe e conseguiu casar-se com ele.

– Ela foi levada pelo príncipe...

– Levada até ele? Claro que não. Quando ela soube do Capitão, veio até mim e pediu-me ajuda para conhecer o príncipe. Eu não sabia que ela era noiva do macacão e a ajudei. Consegui roupas, joias, um convite e a coloquei no castelo numa noite de baile. O restante ficou por conta dela.

Regina continua ouvindo sem dizer nada. Apenas admirava a beleza do pirata.

– O noivo dela foi atrás para reivindicá-la e acabou virando um macaco. – Rumpel inclina-se e rouba um beijo dos lábios de Regina. – Essas mudanças físicas nele, também provocam alucinações e pessoas como Adam criam fantasias reais, acreditando nelas.

Os olhos escuros de Regina voltam-se para Adam que retorna ao acampamento trazendo a carne conseguida e já limpa. Observa-o por algum tempo, imaginando no homem, a mesma loucura do Chapeleiro Maluco.

Na entrada daquela noite, o pequeno grupo chega à terceira aldeia e de longe consegue avistar as silhuetas escuras dos barcos citados pelo pirata, no final de um longo píer usado como ancoradouro. As construções eram todas em alvenaria, coloridas e com dois andares. Em torno da aldeia, cercados com rebanhos diversos, mostrava parte das atividades comerciais dali.

Na entrada da cidade, um arco em pedra mostrava o limite inicial. Rumpel para e sorri. Aponta o dedo para a colina, mostrando que a casa da Sombria estava bem próxima.

– Vamos procurar um lugar para pernoitar. Vai chover esta noite.

Os três entram numa taverna barulhenta e imediatamente todos os olhos são virados em sua direção. O silêncio toma conta do ambiente.

– Estou farto deste tipo de recepção! Eu preferiria uma garrafa de rum tentando acertar minha cabeça!

O riso explode e muitos homens com aspecto rude aproximam-se do capitão pirata. Ele é praticamente arrastado até uma das mesas. Regina e Adam seguem a certa distância. O homem mantém o capuz sobre a cabeça e os cabelos caindo sobre seu rosto, para esconder sua condição de fera.

– Por que não vimos o seu navio aportar? O que houve com ele?

– Meu navio ficou antes da primeira aldeia. Eu não me arriscaria nas águas destes lados, nesta época do ano. As nereidas estavam parindo e agora estão com filhotes recém-nascidos. A missão poderia ser feita por terra, embora demorasse mais.

– Quem são seus amigos?

O pirata volta-se para os dois e estende a mão, chamando-os para perto.

– Esta linda mulher é uma rainha vinda por um portal. Aquele é meu irmão adotivo, Adam.

Burburinhos surgem quando as pessoas percebem que o homem tinha fisionomia de fera. Alguns começam a ficar exaltados.

– Ele irá ficar aqui? É uma fera!

Adam empertiga-se e retira o capuz, exibindo seu rosto de fera. Sorri ao perceber as reações mais adversas diante de sua imagem.

– Não pretendo fazer mal algum. Meu único desafeto é o pirata. E mesmo assim, estamos juntos. Todo meu ódio está canalizado para ele e pretendo manter assim.

Novos comentários surgem. Regina senta-se numa das cadeiras e expira cansada.

– Poderíamos comer algo decente e descansar um pouco? Esse cheiro de carne bem temperada está aumentando minha fome!

– A rainha está com fome! – grita uma mulher de trás do balcão. – O que estão esperando para cuidarem dela? Tragam vinho e comida! Providenciem um quarto e banho para ela! Tragam os músicos e animem este lugar!

Durante algumas horas, a animação invade a taverna e a notícia da presença do Gancho Negro e de seus companheiros, atrai a atenção dos moradores da aldeia. Todos queriam ver a bela rainha vinda por um portal e o homem com cara de fera.

Lá pelas tantas, eles se recolhem para um dos quartos afastados na taverna. Dali, podiam ver os barcos ao longe balançando suavemente com o mar.

– Adam está ficando depressivo. Caso não encontremos a Sombria em breve, nós o perderemos.

– Não há garantias de que ela irá ajudá-lo. A Sombria é muito ambiciosa e não se comove com qualquer coisa.

– Você garantiu...

– Nunca garanti nada, Rainha. Eu disse que era uma solução mais viável do que fazer um acordo com a Rainha Monstro. Além disso, disse que vocês deveria ter algo valioso para despertar o interesse dela. Vocês têm?

– Durante a jornada, eu pensei muito e conclui que tenho algo valioso para a troca. Como conheceu a Sombria? Como sabe tanto dela?

Rumpelstichen sorri e inclina a cabeça para ver melhor o rosto de Regina. Começa a brincar com os cabelos dela. Parecia apaixonado.

– Eu conheci a Sombria quando ainda era uma jovem filha de um mercador. Ela era ambiciosa e queria muito poder. Fez acordo com coisas perigosas e roubou o poder do Sombrio, matando-o e assumindo seu lugar.

Aconchegando-se no abraço do pirata, Regina beija-lhe o queixo barbado.

– Como se tornou Capitão Gancho Negro?

– Depois de viver com os ciganos, embarquei com piratas. No meio do oceano, fomos atacados pelo medonho Capitão Negro, um homem horrendo e temido, com um gancho no lugar de uma das mãos e uma caveira marcada com ferro, na testa. Ele afundou nosso navio por diversão e foi naquele momento que descobri minha origem de tritão. Lutei para salvar meus companheiros e o pirata encantou-se com meu esforço. Recolheu a todos nós e propôs um desafios em troca da nossa vida.

Regina beija novamente o homem, desta vez o pescoço dele. Ele geme apreciando o contato.

– Na disputa com arco e flecha, eu devo ter matado muitos peixes e não acertei o alvo proposto; na segunda disputa nem sabia empunhar uma espada; mas na terceira disputa tínhamos de nadar duas milhas até uma ilha.Na volta, o pirata e eu ouvimos o som mais lindo que alguém já ouviu: era o canto das nereidas de cauda escura. Elas surgiram ao nosso redor e pude ver como eram horrendas, mas eram minhas tias, primas ou irmãs. Uma delas segurou o Capitão Negro pela cabeça e afundou com ele. Mergulhei inúmeras vezes para resgatá-lo, mas eles se encantaram e sumiram.

– Elas o mataram?

– Não sei. O que sei é que pela regra dos piratas, quem derrota o capitão do navio, assume o lugar dele. A primeira atitude como capitão do navio, foi retirar a caveira de pedra escura, usada como amuleto para anular os poderes de seres mágicos. Depois, mudei o nome do meu navio para Nereidas.

– Passou a aterrorizar os mares...

– Não. Apenas fiquei rico e expandi meu nome e minha frota, roubando os navios da realeza. – ele segura a cintura de Regina e aprofunda o beijo. – Fique em meu quarto esta noite. Vamos nos conhecer mais, antes que vá embora, Rainha. Deixe-me com a lembrança do gosto de sua boca e de seu corpo.