A noite já dominava o local e o frio fazia questão de ser seu companheiro. O trio chega a uma aldeia e são recebidos pelo silêncio da falta dos moradores. O clima os havia empurrado para dentro de suas casas.

– Fiquem aqui e vou buscar alimento e bebidas quentes.

– Não! Iremos todos juntos! – Regina toma a dianteira e vai na direção de uma taverna. É acompanhada por Adam.

Abrindo a porta, a mulher depara-se com o típico ambiente das tavernas e por segundos vê a Floresta Encantada diante de seus olhos. Lembra-se da taverna para onde Sininho a havia levado, quando a salvou da queda da sacada de seu quarto. Consegue recordar-se da noite em que não tivera coragem de procurar Robin e apresentar-se a ele.

Quando volta à realidade, percebe olhares gulosos, famintos e raivosos em sua direção. Os homens a devoravam com suas expressões, enquanto as jovens acompanhantes ou funcionárias incomodavam-se com sua beleza e postura.

No momento em que Adam entra, os olhares tornam-se assombrados e alguns homens imediatamente levantam-se e exibem adagas ou outras armas brancas para o ataque contra a fera cabeluda.

– O que querem, forasteiros? O que essa monstruosidade quer aqui? – grita a dona do estabelecimento, apoiada pelos clientes furiosos como se eles fossem as feras.

– Vieram comigo e estamos todos com frio. – uma voz conhecida é ouvida e todos os olhares dirigem-se para sua origem.

– Gancho Negro! – um coro é ouvido. Algumas vozes espantadas, outras assustadas e muitas encantadas com a presença do visitante.

Garboso e elegante como a um cavalo de corrida, o homem leva seu corpo grande e protegido pelo imenso casaco escuro, na direção do balcão e para ali. Seus companheiros buscam proteção junto ao pirata.

– O que o senhor faz aqui? Que surpresa! – a dona do bar gesticula e ordena que todos se acalmem e retomem suas diversões. Ela enche três canecas com cerveja e entrega para os visitantes. – Ainda nem é época de sua visita!

– Vim em outra missão. – ele apanha a caneca e volta-se para os clientes da taverna. Ergue a caneca e saúda a todos. – Obrigado pela acolhida calorosa! Estes são meus amigos e merecem o mesmo respeito que todos têm por mim. Esta é Regina, uma rainha em outro reino, vinda por um portal. Aquela coisa feia cabeluda é o meu irmão Adam.

Todos os clientes e funcionários ficam em silêncio, horrorizados com a aparência do visitante.

– Estamos com frio e fome. Precisamos de alimentos quentes e fortes. – ele bebe um gole generoso da cerveja e volta-se para a dona do local. – Quero um quarto com cama para os três. Vamos pernoitar aqui.

A mulher sorri nervosa. Naquele momento, Regina consegue sentir o cheiro de medo naquelas pessoas e as palavras de Adam sobre a maldade do pirata, retornam para sua mente. Ela olha o belo rosto do homem e mesmo sentindo algo perverso naquele olhar, não consegue expulsar a paixão que sente ao ficar ao lado dele.

Acomodados em uma mesa trazida especialmente para os visitantes, eles recebem uma pequena cesta com pães e uma jarra com vinho.

– Temos um ótimo cozido com legumes e muita carne de porco. – diz o jovem filho da proprietária da taverna. O jovem esfregava as mãos uma contra a outra.

O pirata não demonstra boa vontade ou animação. Prende os cabelos num rabo de cavalo, apoia as costas na cadeira e olha desdenhosamente o jovem de cima para baixo.

– Carne de porco, hein? Porco com o rabo comprido e peludo? E que costuma latir?

– Não, Gancho Negro! Eu garanto ao senhor que é porco de verdade!

Regina percebe imediatamente que o jovem era uma criança especial, com certa deficiência intelectual e que o pirata sabia disso.

– Traga esse cozido para mim e meus amigos. – o pirata inclina-se para frente. – E se eu perceber que você cuspiu dentro do meu prato, corto esses dois feijõezinhos que você chama de culhões. E faço você comê-los com pão.

Os olhos do rapaz arregalam-se e olha para a mãe. Depois fita o pirata, outra vez.

– O senhor sabe que eu nunca fiz e jamais faria isso! Nós respeitamos e gostamos do senhor! — ele se afasta na direção da cozinha.

Um lindo sorriso emoldura a boca do homem moreno e ele levanta o polegar, concordando. Mas ele mostra sua mentira pelos olhos.

– Em meu reino, pessoas como este rapaz são tratadas de maneira especial.

– Por quê?

– Porque ele é uma pessoa com deficiência... – Regina massageia os dedos.

– Todos os seres humanos são portadores de algum tipo de deficiência, queridinha. – o pirata aponta na direção de um velho sentado junto à porta e que gesticulava freneticamente. – Veja aquele cenobita ali, por exemplo, é cego. Ele mora sozinho, pilota carruagem, forja ferraduras e as coloca nos animais, lutava com espada quando era jovem. Devo tratá-lo de forma especial por ser cego ou pelas habilidades dele?

– Não me refiro ao pé da letra...

– Guilhermo! – o pirata grita e chama a atenção de todos. – Sabia que você é uma pessoa com deficiência?

– Pessoa com deficiência é o maldito dragão purulento e com hemorroida inflamada que pariu você, seu saco de merda! Deficiente é essa piada de mau gosto que você carrega dentro das calças! Deficiente é você, filhote leproso de uma vaca sarnenta! Você foi cagado!

Rumpel não contém a gargalhada. Ri descontroladamente, fazendo coro aos outros frequentadores da taverna. Regina não aprecia a brincadeira, enquanto Adam parecia perdido em seus pensamentos.

Um tempo depois, o garoto retorna com a comida quente. Distribui os pratos e aponta o dedo indicador para o pirata. Rosna:

– Não cuspi no seu cozido, mas mijei dentro dele! Espero que se engasgue e morra roxo!

O pirata gargalha. Olha o prato com cozido e não se contém:

– Então, sugiro que cuide de sua alma, gordinho, porque seu corpo já apodreceu. Você está mijando verde! Deveria procurar um curandeiro!

– Vá para o inferno, desgraçado piolhento! — o jovem afasta e deixa o pirata rindo ironicamente, emitindo um som que mais se parecia com um serrote contra a madeira.

Momentos mais tarde, os três estão alimentados e são apresentados ao quarto preparado para recebê-los.

– A senhora gostaria de um banho quente? – pergunta a dona da taverna, colocando cobertores sobre as camas.

– Eu adoraria. – Regina volta-se para o pirata. – Você viria comigo para o banho?

Atordoado pelo teor da pergunta, ele arregala os olhos. Nega com cabeça e vai olhar algo que não existia, pela janela.

Sozinhos no quarto, os dois homens permanecem em silêncio por alguns minutos. Adam arruma a cama e começa a retirar a capa e as roupas maiores.

– Não retire os sapatos, macacão. E durma com sua espada junto ao corpo.

– Está com medo, pirata?

– As pessoas daqui têm respeito e temor por mim, mas eu trouxe pessoas incomuns para dentro da aldeia. Elas não avançaram sobre você, porque sentiram o perigo que está dentro de sua alma. Mas não poderemos vacilar e baixar a defesa.

Tudo silencioso e escuro. As pessoas haviam partido e o estabelecimento estava vazio. Apenas o som de animais noturnos do lado de fora, era ouvido pelos hospedes daquele lugar.

– Deveríamos obstruir a porta para não sermos pegos de surpresa. Podem tentar invadir o quarto. – Adam toca uma cadeira num dos cantos do cômodo. – Vou pôr minha cama obstruindo a entrada.

Com um movimento assertivo, Regina concorda com a ideia. Olha para o pirata deitado de bruços, com o rosto enfiado no travesseiro e silencioso. Ele não parecia importa-se.

– Poderíamos fazer um revezamento na vigilância. – insiste Adam preocupado.

– A Rainha pode colocar um cachorro com três cabeças para vigiar o quarto. – a frase do pirata é feita de maneira displicente. Ele sequer se vira para olhar os companheiros.

Aquela seria a noite mais longa da vida de Adam. Tudo ali o incomodava e tinha de confessar que estava apavorado. Nem o encontro com a Rainha Monstro e sua transformação o havia amedrontado tanto. Todos os barulhos naquele quarto provocavam sobressalto em sua alma a excitavam seu coração.

– Não consigo dormir.

– Tente relaxar, Adam. Relaxe, tente esvaziar sua mente e busque o sono. – sussurra Regina maternalmente.

– Esvaziar a mente não será esforço para você, macacão. – resmunga o pirata. – Agora, durma!

Todos os sons chegavam fora de proporção aos ouvidos de Adam. Tudo vinha forte e poderoso invadir seus sentidos e impedir seu adormecer: o perfume de Regina, o ronronar do pirata na outra cama e, sobretudo, o ronco poderoso daquele cachorro de três cabeças que dormia colado à porta do quarto, trazido por Regina sabe-se lá de onde.