Haviam deixado a aldeia nas primeiras horas do dia, antes que todos os habitantes acordassem e pudessem ver com nitidez e sobriedade, os traços de Adam.

Passava da metade do dia, quando atingem a clareira anterior ao território pertencente ao casarão da Sombria. Era uma construção de pedras cinza com duas torres quadradas e uma cilíndrica, de onde os vigias poderiam avistar os visitantes ou invasores. O casarão era cercado por um muro, também em pedras na mesma cor. Embora parecesse perto, teriam de andar mais algumas horas. Atrás da construção, o céu começava a escurecer e precedia uma tempestade, alertando para que acelerassem o passo.

– Como conseguiu cortar a mão da Rainha? – a pergunta de Adam toma a todos de surpresa.

– Usei uma lâmina.

– Sempre tive curiosidade. E quem o colocou dentro do palácio?

– Ladrões não precisam ser convidados. Eu entrei sorrateiro apanhei a Rainha num momento de contemplação. Esperei a chegada dela no quarto, mas quem chegou foi uma imensa gaivota com pés vermelhos, que pousou na cama. Começou a transformação e quase me deixou louco.

– Posso imaginar. – murmura Regina.

– Não pode...surgiram lindos cabelos ruivos que caíram pelas costas nuas, num corpo esguio, um belíssimo e farto par de seios...fiquei em absoluto transe, como se meu corpo todo fosse surtar. Nossa! Estou até com coceira na bunda!

– Posso imaginar a cena...- uma onda de ciúme inunda a alma de Regina.

– E quando a transformação desceu pelas pernas dela, eu saí de meu transe e avancei. Ela não teve chance de reação e eu consegui decepar a pata de macaco. Os pés de gaivota permaneceram. – o pirata parecia viver novamente a cena impressionante para ele.

Algo surge no coração de Regina. Ela olha o casarão ao longe e sente que a pata de macaco estava protegida ali, sob a tutela da Sombria. Rumpel deveria ter negociado alguma coisa em troca da proteção da pata do macaco. Mas o quê? Ela olha para Adam e o encontra embasbacado com a narrativa do pirata.

– Temos de apressar nossos passos. Uma tempestade está bem próxima. – ela diz.

Os dois homens caminham atrás de Regina, com os olhos fixos na grandiosidade da construção.

– Agora nada irá ficar entre nós e a minha cura! – Adam fala alto, exibindo todo o entusiasmo que enchia a sua alma.

– Exceto aquilo. – aponta o pirata na direção de um imenso cachorro cinza, com três cabeças, deitado tranquilamente ao lado de algumas cabras.

Colocando ambas as mãos sobre a boca, Adam contém seu grito de fúria. Por que tudo era tão difícil em sua vida? Por que aquela simples jornada tinha de apresentar tantos obstáculos? A vida queria que ele desistisse ou estava dando um aviso do fracasso na negociação? Estaria o destino testando sua força de vontade? Ele iria surtar, caso não sentisse a mão pesada do pirata empurrando seu ombro e ordenando que saísse do caminho.

– O que há?

– Vou distrair o cachorro e você entra no castelo com Regina. – o pirata movimenta-se suavemente. – Não façam movimentos bruscos e ...

– De forma alguma! Até agora você cuidou dos problemas à sua maneira! – ele grita e percebe a expressão do pirata mudar. – Eu vou matar aquela coisa, caso ela nos ataque!

Levantando as sobrancelhas escuras e colocando o dedo indicador entre os dentes, o pirata faz uma careta de riso. Olha cima do ombro de Adam.

Adam estremece.

– Não me diga que o cachorro acordou e está em pé atrás de mim, com as três bocas abertas.

– O cachorro acordou e está em pé, atrás de você, com apenas duas bocas apertas. A outra está ocupada, mastigando.

– Não era para dizer...dá tempo de corrermos?

Começando a rir da situação, o pirata atrai atenção da criatura para seu riso. A leveza de sua aura naquele momento, sua falta de estresse e o som agradável produzido intriga as três cabeças do animal. Ela caminha com seu corpo gigantesco e passa bem perto das pernas de uma Regina petrificada, indo na direção dos dois homens. Neste momento, Adam ria do próprio azar.

Lenta e curiosa, a criatura inclina as cabeças para o lado e olham os dois homens que riam. Estreitam seus olhinhos escuros e fixam a atenção naqueles dois humanos sem noção do perigo. Do que aqueles dois imbecis estavam rindo? O que era tão engraçado?

– Eu quero acreditar que vocês não estejam rindo da nossa aparência.

– Não, é que...- Adam para imediatamente de falar e de rir. Entreolha-se com o pirata encantado e olha novamente a cabeça falante. – Não...estamos rindo do nosso azar...

– Por que azar? Você tem um corpo para uma cabeça. Não precisa dividir com outras cabeças.

– É. Não deve ser divertido. – diz o pirata sorrindo.

– Não mesmo! Então, não digam que têm azar!

Adam concorda com um movimento de cabeça.

– Não tem o azar de ter três cabeças, mas tem o azar de ter uma cabeça feia. – diz a segunda cabeça do cachorro.

Adam olha incrédulo para seus companheiros e percebe que o pirata começava a andar lentamente. Ele entende a mensagem muda.

– Eu não penso que meu rosto seja tão feio assim.

– Mas acredite: ele é. Nós nascemos com três cabeças três personalidades, mas somos todos bonitos. — a criatura interessa-se em conversar com aquela coisa humana, peluda e com rosto estranho. Caminha ao lado de Adam e lentamente vai aproximando-se do imenso portão que daria cesso ao palácio de pedras. Fazia perguntas, rebatia as afirmações do homem peludo e sem dar conta de que já havia percorrido mais de um quilômetro na caminhada.

Totalmente encantada com a construção, com o cão de três cabeças falantes, Regina toma a iniciativa de segurar o trinco circular da porta e empurrar a madeira para abrir. Não obtém sucesso. Tenta outra vez até sentir a mão grande do pirata sobre a mão dela.

– Bata com o circulo de ferro, por três vezes. A porta irá entender. – ele sussurra tão suavemente, que ela senta o desejo de beijá-lo ali mesmo. – Esse é o código da Sombria.

Os três entram no imenso salão principal e são acompanhados pelo cachorro, completamente apaixonado pelo humano cabeludo, que cheirava bem.

– Você já veio aqui, Rumpel?

– Sim. A Sombria e eu somos bem próximos.

– Amantes?

Os olhos azuis viram-se pesados na direção da bela mulher. A paixão estava estampada naquelas piscinas cristalinas. Ele inspira profundamente.

– Não. – uma voz feminina e rouca é ouvida e todos olham na mesma direção.

Ali, parada sob o batente da porta de uma das salas, uma bela mulher de pele negra e longos cabelos lisos e protegida por um vestido brilhante branco, exibia seus dentes perfeitos num sorriso amplo.

Instintivamente, Regina encara o pirata e o encontra sem expressão, ao contrário de Adam, que quase babava sem controle.

– O Capitão Gancho Negro não foi meu amante. Ele é meu amado.