Mesmos Nomes. Outras Histórias.
6 Acordo ou castigo?
– Pretende ficar a fase inteira dentro do quarto?
– Não me irrite, Rainha! Caso eu saia daqui, você não irá apreciar minha aparência!
– Não sou sua pretendente. – Regina continua olhando a tarde lá fora. E assim ela permanece por quase duas horas. Fica pensativa e relembra os belos traços do pirata, lindo, enfeitado pelo rio como cenário. Não era Magno, mas possuía o mesmo rosto, embora não tivesse o mesmo nome. O livro havia dito sobre os mesmos nomes com histórias diferentes. Ela acha graça, porque o pirata capitão tinha o nome de Rumpelstichen, uma das pronuncias do nome do anão saltador dos contos de fadas.
Ah, aquele pirata! Cínico com seu sorriso de menino travesso! Belos lábios, prontos para serem beijados! E ele não havia refutado seu beijo bêbado.
O som de batidas na porta traz a mulher de volta à realidade. Não era a manifestação de Adam, escondido em seu quarto, mas alguém do lado de fora da casa de pedras.
– Olá, bela senhora! – o pirata sorri ao ver Regina abrir a porta da casa. – Pensei em visitar o macaco cabeludo e trazer-lhe vinho!
Ela abre espaço para que o visitante entre na casa.
– Por que veio? – Regina tenta mostrar-se durona. Cruza os braços.
– Você salvou minha vida por duas vezes. Estou em débito...pode pedir o que quiser, exceto que eu beije os pés da Rainha Monstro, mesmo porque ela tem patas de aves.
– Então, do que você me serviria?
O rosto do pirata torna-se sisudo e ele desce os olhos à meia visão. Coloca o odre com vinho sobre uma mesa e retorna para a porta, segurando o trinco para abrí-la e sendo impedido por Regina.
– Espere! – ela está bem perto dele e pode senti o hálito de canela dele. – Eu acredito que a Rainha não irá cumprir a palavra dela. Sugiro que formemos uma equipe e consigamos outra maneira de ajudar Adam e a mim. Isso é o que quero de você...
– Vim para agradecer-lhe o salvamento. Coloco meu navio e meus serviços à disposição da senhora, para encontrarmos quem realmente poderá ajudar.
Aproximando-se ainda mais do pirata, Regina molha delicadamente os lábios, como se convidasse o homem para um beijo. Na verdade, queria beijar seu marido Magno.
– E quem seria?
– Voivoda*, a Sombria. – o pirata vira o rosto e olha para a porta do quarto, que estava sendo aberta. Sorri ao ver Adam surgir totalmente transformado. – Ei, macaco cabeludo!
Adam não consegue acreditar em seus olhos. Além de ter tolerar aquela maldita mutação por um longo período, teria de suportar a presença do pirata dentro de sua casa? Ele aponta com o dedo indicador na direção do visitante.
– Rumpel irá ajudar-nos, Adam! Isso não é ótimo? – Regina diz sorridente.
– É maravilhoso! É uma sensação sem igual!Olhar meu reflexo no espelho, ver esta coisa horrenda e ainda ter de suportar o escárnio desse pirata, por dias!
O pirata estreita os olhos e inclina-se para frente para observar melhor o novo rosto de Adam.
– Não pense em você como uma pessoa feia. Pense em si mesmo como um macaco bonito.
– Como você é bondoso ... fico tão consolado!
– Você não é feio. Feio é bater na própria mãe. Você é apenas exótico! Esse nariz...esses olhos...a boca... – o pirata caminha até a mesa e mostra o odre. – Sei que gosta de vinho, então, trouxe o melhor da safra. É um mimo!
Adam ri incrédulo.
– Eu acertei você com uma flecha, iria entregá-lo para a Rainha Monstro em troca da minha liberdade, tentei feri-lo numa segunda vez e ainda sou presenteado?
– Não guardo nem moedas de ouro, vou guardar rancores e mágoas?
Adam abre o odre, cheira o vinho e aprecia o aroma. Bebe um gole, saboreia e depois enche novamente a boca com a bebida. O vinho era bom mesmo!
– Eu amassei as uvas com os pés, pessoalmente.
Imediatamente, Adam cospe o vinho que estava em sua boca e encara o pirata como de quisesse encontrar um meio de enviá-lo por algum portal sem volta. Coloca o odre sobre a mesa. Regina não consegue conter o riso. Sentia-se histérica na presença daquele homem que havia assumido o corpo de seu falecido marido.
– Mas eu lavei os pés, antes...
Adam controla-se elegantemente e cruza os braços diante do peito. Encara Rumpelstichen.
– Você falou sobre a Voivoda? Desista, porque eu já a procurei e nunca a encontrei. Ela está desaparecida e descartada!
– Por que descartaria a única chance? Prefere continuar sendo um humano-macaco? Ou um macaco-humano? Ou um macaco-macaco?
– Ele já entendeu, Rumpel. – Regina caminha e fica ao lado de Adam. – Eu penso que é nossa única chance. Mas teremos de encontrar algo valioso para fazermos o acordo com a Vovozinha.
Um riso sarcástico é ouvido e Regina ordena que o pirata controle-se.
– Vovozinha? – o pirata acha graça. — O que você tem de valor, estudioso elegante?
– Tenho meus livros.
– Hummm! Ela vai a-do-rar ganhar livros! – o pirata bate palmas.
– Eu posso criar algum objeto valioso, com meus conhecimentos em magia.
O pirata leva um olhar desdenhoso para Regina e mostra desprezo pela ideia. Levanta uma das sobrancelhas, ironizando a fala da mulher.
– Pensa mesmo que a Sombria irá apreciar seus objetos valiosos? Ela é a mestra das feiticeiras! E aprecia acordos vantajosos para ela!
Aproximando-se vigorosamente do pirata e segura a gola de seu casaco.
– Em meu reino eu era a Rainha Má. Aprendi minhas habilidades com o Dark One e criei uma maldição sobre a Floresta Encantada. Transportei todos os habitantes para um reino novo que criei e roubei as memórias deles por vinte e oito anos! A maldição foi quebrada pela Salvadora e todos me respeitam como a líder da comunidade! Já enfrentei Peter Pan, Dragões, a Rainha de Gelo, Gigantes, portanto, tenho conhecimento suficiente para conseguir negociar com a Sombria!
– Ui... fiquei excitado. — o pirata sussurra com a voz rouca.
Ela se afasta dele e vai sentar-se numa cadeira, junto à mesa. Mostra-se irritada.
– Então, qual é seu plano, pirata?
– Não tenho plano, apenas tenho os meios. Meu navio, minha tripulação e meu conhecimento. A negociação fica a cargo de vocês. Mas sugiro que tenham algo palpável para negociar e nem pensem em usar meu lindo corpo como moeda de troca com a Sombria. Ela fica brava, porque minha bunda é mais bonita que a dela.
Adam derruba os ombros, num sinal de derrota. A mutação mexia com seu estado de humor, provocava muita tristeza em sua alma e o pirata conseguia roubar o resto da sua paciência.
– Poderemos partir amanhã ao amanhecer...
– Não. – o pirata ajeita a gola de seu casaco. – Eu partirei hoje pela noite e organizarei meu navio. Conversarei com minha tripulação e estarei esperando vocês no cais, logo ao cair da noite. Sugiro que Adam não fique transitando durante o dia e exibindo o rosto...
Regina rosna e exibe uma expressão furiosa, chamando a atenção do pirata.
– Não estou dizendo que ele seja feio, mas fraco de feições. – ele se defende. Depois se dirige para a porta e antes de abrí-la, olha por cima do ombro e pisca para Regina, jogando seu charme para provocá-la. — Estejam no cais, amanhã logo ao anoitecer. Por via das dúvidas, mantenham-se na incógnita.
Regina não disfarça o sorriso e o encantamento sentido pelo belo pirata de olhos celestes. Era a chance que o destino estava oferecendo, ao entregar-lhe um homem que certamente era a encarnação de seu falecido Magno.
– Está seduzida pelo pirata?
– Por ele, não. Pela imagem dele. Rumpel é a encarnação de meu falecido marido. Os dois são idênticos em corpo e rosto, mas não na personalidade. Meu Magno era suave e elegante.
– Não se deixe seduzir pelo pirata. Ele não é a gracinha que muitos imaginam ser.
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