A grande final aconteceria só no sábado, mas desde o início da semana os alunos estavam mais agitados que o normal. O Arsenal, time do qual Denis foi goleiro tinha chegado na final, mesmo com todas as dificuldades que enfrentaram para conseguir um bom goleiro quando Denis não estava. Denis não queria ir, mas acabou cedendo aos pedidos dos amigos e foi.

Os garotos do time se reuniram na casa de Pedro na manhã de sábado e Denis se juntou a eles. O jogo foi daqueles tensos, empatado na maior parte do tempo, cheio de faltas e jogadas arriscadas. Os alunos nas arquibancadas gritavam sem parar e Denis estava bem animado. O Arsenal venceu o jogo com um gol feito por Victor nos últimos minutos.

Depois do jogo, todos os garotos do time e alguns amigos deles, foram para a casa de Victor, para uma festa de comemoração. Na euforia, Denis acabou se esquecendo dos problemas e de que não esteve em campo jogando. Esqueceu que estava ficando cego e nunca mais jogaria de novo. E esqueceu de tudo, até deixar cair no chão o copo que ele pensava estar colocando em cima de uma mesa que estava do outro lado de uma porta de vidro.

Na tentativa de pegar o copo, ou melhor, os cacos de vidro que restavam dele, Denis acabou cortando o dedo. Todos que estavam ali o encararam e vários cochichos e conversas paralelas foram surgindo. Denis não viu ou ouviu claramente, mas sabia que riam. Saiu correndo. Pedro pediu para os outros ficarem e foi atrás do amigo.

— Tudo bem, cara. – Pedro encontrou Denis sentado no degrau da porta de entrada da casa. Não tinha como sair, porque o portão estava fechado e precisavam que alguém fosse até o interfone ou pegasse a chave para abrir. – Olha, já está ficando de noite e acordamos cedo hoje. Você deve estar cansado. Eu também estou.

Pedro esperou que o amigo falasse alguma coisa, mas Denis apenas fitava o chão, apertando um pedaço de papel toalha no dedo que sangrava. Nos fundos, onde acontecia a festa, cantavam um hino de guerra do time e comemoravam. Aparentemente já tinham esquecido do que aconteceu.

— A mãe do Victor fez um bolo pra gente. Parece que já estão servindo. Vamos?

— Pode ir. Vou ligar pro meu pai e esperar ele aqui. – Pedro, que estava sentado ao lado de Denis se levantou e começou a puxar o amigo. – Vai lá Pedro, não quero estragar a diversão de vocês. Eu tô bem aqui.

Denis ligou para seu pai. Ele demoraria alguns minutos para chegar, porque estava em um restaurante com a esposa, a mãe do garoto. Relutante, Pedro voltou para a festa que acontecia nos fundos da casa.

— Cansou da festa também? – Era Vitória, a irmã de Victor. Ela era um ano mais nova que os garotos, mas estava sempre por perto, uma vez que o irmão mais velho sentia a responsabilidade de proteger a irmã. Victor era um garoto extrovertido, desatento e bagunceiro, enquanto que a irmã era a típica garota quietinha, que sabia todas as matérias e era educada com todo mundo. Denis conhecia os irmãos desde que entrara na escola, com seus três anos de idade, e desde sempre gostava de Vitória. Quando crianças, dançavam juntos nas festas juninas da escola e quando ele tinha seis anos e ela cinco, diziam que eram “namorados”, mas terminaram porque ela gostava de ver filmes da Barbie e ele gostava mais do Batman.

— Hã? – Denis levantou a cabeça e viu um rosto conhecido, mas meio desfocado. – Cansei... já tô indo embora.

— Queria poder ir embora também. – A menina sentou ao seu lado. – Mas já estou em casa. Então, o jeito é esperar o pessoal ir embora.

— Se quiser, posso ir lá e acabar com a diversão do pessoal. Viu como todos ficaram quando derrubei o copo?

Denis falou em um tom de auto piedade e certamente esperava que Vitória sentisse pena dele. Mas a menina não era assim. Vitória tinha um problema nas pernas, que a fazia andar mancando. Quando criança, usava botas para correção e apesar de ter apresentado grande melhora e não precisar mais das botas, ainda mancava. A menina se acostumou a ser assim e também com os comentários maldosos ou de pena das outras pessoas, aprendendo a ignorar tudo isso.

— E está esperando o que? Estou querendo ler um pouco, mas no meu quarto escuto a música e a conversa do pessoal, e isso me atrapalha. – Vitória sorriu e Denis meio surpreso com o comentário da menina, também sorriu. Ficaram um tempo em silêncio, até que o telefone de Denis tocou e ele se levantou.

— Eu até iria lá, mas meu pai chegou. E... bom, melhor não deixá-lo esperando.

Desde a festa de comemoração da final do campeonato de futebol masculino da escola, Denis se afastava mais dos colegas. Se antes eles conseguiam arrastá-lo pela escola nos intervalos, agora o garoto se limitava a ficar sentado ao lado da porta da sala, esperando o professor retornar.

Denis percebia como as pessoas que o conheciam começaram a tratá-lo diferente. Na escola, os professores estavam sempre atentos à ele e inclusive ajudavam na hora das provas, quando passavam pela sala e paravam em sua mesa pedindo que ele revesse uma resposta ou apontando displicentemente para a opção correta em questões de múltipla escolha. Os colegas eram cheios de cuidado ao se aproximar de Denis, um pouco por medo dele dar alguma má resposta ou brigar com alguém (o que ele fazia com certa frequência nas últimas semanas), mas também porque não queriam magoar o colega. Os garotos do time de futebol tentavam arrumar uma tarefa que Denis gostasse para não ter que sair do time, como juiz ou treinador do time. Mas apesar de todos os esforços dos colegas e de Denis, ao primeiro problema, Denis desistia e ia embora.

Em casa, as coisas também mudaram. O irmão estava o tempo todo perguntando se ele queria alguma coisa e não falava mais sobre o irmão estar fazendo qualquer outra que não estudando ou então dando lições de moral e falando sobre o quanto os pais fazem por eles. Mesmo se dando bem, os dois irmãos eram diferentes, e depois que tomaram certa idade foram se afastando um pouco. O pai fazia de questão de reforçar que ficaria feliz com a profissão que o filho escolhesse e que se ele quisesse, podia arrumar um time de futebol para pessoas com baixa visão, ele poderia até participar das paraolimpíadas, mas Denis sabia que estava desapontando o pai, que sempre sentiu um orgulho enorme do filho que queria ser jogador de futebol e era um goleiro excelente. A mãe parecia a mesma de quando ele era mais novo e quebrou a perna, perguntando o tempo todo se ele queria alguma coisa e levando comida ou refrigerante mesmo que ele não quisesse nada. Denis também notou que o olhar da mãe mudou quando olhava para ele, ela parecia mais triste, e até mesmo quando ficava brava, pedindo que ele arrumasse a cama ou organizasse a própria bagunça, era como se ela se esforçasse muito para mudar o tom de voz.

Um dia, Denis passou mal durante a noite. Provavelmente o sanduíche que havia comido no jantar não caiu bem. Por causa disso, ele não foi à escola, ficando sozinho em casa, pois presumia-se que já tinha idade e responsabilidade suficientes para se cuidar sozinho por algumas poucas horas. O dia amanheceu triste. O sol não apareceu, deixando lugar para um céu nublado e escuro.

Nos dias de chuva, Denis costumava reclamar por estar chovendo justamente quando iam jogar, ou ficar feliz por estar chovendo e poder ficar embaixo das cobertas até tarde e poder jogar o resto do dia. Nesse dia, ele ficou embaixo das cobertas, levantou apenas para pegar um lanche na cozinha. Até que se cansou. Denis nunca parou para observar ou ouvir a chuva caindo, mas dessa vez ele parou. Ficou um tempo olhando para fora, com metade da janela do quarto aberta. Percebeu então que não via nada além de borrões causados por grossos pingos de chuva e entendeu que seria assim que passaria a ver as coisas em algum momento.

“Quanto tempo até tudo ficar escuro para mim?”, pensou. E então sentiu raiva. Uma raiva tão grande de tudo o que estava acontecendo, de não poder ser o jogador que ele queria quando crescesse ou qualquer outra coisa que fosse. Raiva de aquilo tudo estar acontecendo com ele e não ter como fazer nada, não ter uma cura. E então decidiu que não queria mais esperar sua vida acabar.

Saiu de casa decidido a fazer o que ia fazer. Não havia sentido continuar ali perdendo a visão aos poucos, perdendo tudo que ele tinha. E enxergando muito pouco caminhou aos tropeços pela rua de casa até chegar a uma avenida movimentada. Ficou andando para lá e para cá no meio da rua. Ele tinha sido atropelado um dia, podia ser de novo. Talvez não era o modo mais eficiente de suicídio, mas ele não tinha coragem (se é que se pode chamar assim) para tentar outra coisa. Além disso, pessoas morriam atropeladas, e seu objetivo era ser atropelado por algo grande como um caminhão ou um ônibus, para não ter muitas chances de escapar.

Um ônibus parou bruscamente e vário carros atrás dele também. Um garoto magrelo e todo molhado estava caído em frente ao ônibus. O motorista foi ao encontro do garoto em desespero: ele estava bem, apenas alguns machucados devido à queda no asfalto. Uma ambulância que retornava de um chamado falso, parou e socorreu o garoto. Quando retornou ao ônibus, o motorista foi aplaudido pelos passageiros, por mesmo em meio a forte chuva, ter visto alguém à frente e parado o ônibus a tempo.

Os pais não brigaram com Denis ou deram sermões como da última vez em que ele foi atropelado. Na verdade, aconteceu o contrário. A mãe “grudou” no garoto e sempre que o pai o olhava tinha os olhos marejados de água e um grande nó na garganta. Os pais sabiam que a partir dali poderiam perder o filho a qualquer momento. O psicólogo os prevenirá que Denis poderia tentar suicidar, porque na concepção do garoto, ele estava perdendo tudo e era muito resistente para aceitar que as coisas não poderiam melhorar; mas disse também disse que isso poderia não acontecer. Contudo, aconteceu.