Mesmo se não der certo
23 23 – A outra família
A cidade onde chegaram era bem maior que a anterior. Andaram por algumas lojas próximas à rodoviária até dar a hora do almoço. Dessa vez, preferiram esperar até o fim da tarde para ir até a casa onde o possível pai de Sabrina morava, uma vez que era provável não ter ninguém.
Durante a tarde, andaram por lojas da cidade, até encontrarem uma antiga lan house, onde ficaram um tempo jogando vídeos-games antigos. Quando deu o fim da tarde, pegaram um táxi e foram para o endereço que Sabrina havia encontrado.
As casas no bairro em que estavam não pareciam as melhores, mas também não eram assim tão ruins. Provavelmente, casas de famílias de classe média à baixa. Pararam em um aglomerado de casas iguais, com diferença apenas nas cores e muros. Algumas casas era maiores, mas era possível ver que eram iguais as demais. A casa onde bateram tinha uma muro ainda por pintar e um grande portão enferrujando.
— Temos dinheiro não! – Gritou uma voz feminina lá de dentro.
— Não queremos, senhora. – Sabrina respondeu, polidamente. – Aqui é a casa o senhor Marcos Lima?
— Ah! Mais uma então! – A mulher gritou e finalmente abriu o portão. Olhou de cima a baixo para Sabrina e os outros três garotos que se encontravam parados logo atrás da menina. – Os quatro são filhos do peste?
— Hã? Não senhora. – Leonardo respondeu.
— Senhora tá no céu. – A mulher respondeu rispidamente. – Então querem o que aqui? Porque ninguém procura ele se não for pra cobrar ou falar que é filho. Esses meses pra trás chegou um menino aqui, da idade de vocês mais ou menos e falou que era filho dele. Ai fez exame e aquela coisa toda e era filho dele. Agora taí morando com a gente, mais uma boca pra alimentar. Felizmente o outro que apareceu esses dias não era filho dele.
— Ah, tá. – Sabrina ficou sem graça de falar. A mulher ficou encarando os quatro por uns dois minutos.
— Olha só, tenho coisas pra fazer. Se não vão contar porque vieram, não vou ficar aqui olhando pra cara de vocês. O Marcos não tá aqui. Ele mudou de cidade, pra trabalhar, porque não arranjou nada aqui. Mas também, preguiçoso igual é, ninguém mais quer saber de dar emprego pra ele aqui. Se quiserem contar, eu dou o recado. Sou esposa dele, sabe? Bom, é o que tá escrito naquele pedaço de papel que a gente assinou.
— Então, é que estamos procurando o pai da Sabrina. – Leonardo se aproximou, vendo que Sabrina estava sem jeito de começar. – Não sabemos se é o senhor Marcos, seu marido. Tudo que sabemos é que o nome corresponde, então temos algumas perguntas para fazer.
— Hum. Sua mãe só sabia o nome do peste?
— Era. E eu só estou procurando porque gostaria de ter o nome do meu pai na minha certidão. Eu não quero dinheiro nem nada. Só mesmo conhecer ele.
— Meu marido não era um homem santo quando era jovem. Deve ser ele mesmo seu pai. Mas sua mãe devia de ser muito da bonita, pra você ter saindo linda assim, porque aquele lá é feio que dói. Só casei porque fiquei grávida e meu era dois. – Dois garotos, aparentando dois anos mais novos que Denis e Pedro, e com as roupas rasgadas e sujas surgiram do nada. Depois veio também uma menininha, de uns seis anos de idade, que se escondeu arás da mulher, puxando sua blusa. – Já falei pros dois irem tomar banho! – A mulher falou irritada para os meninos e se virou para os visitantes. – Tenho que ir terminar de arrumar a comida das crianças, que já estão com fome. Se quiserem podem entrar. Mas não tem comida que dá para vocês e eu estou cansada demais pra fazer mais.
— Tudo bem. Não precisa se preocupar.
A mulher se retirou para a cozinha, enquanto os quatro se apertavam na sala da casa, com os gêmeos, a menininha e um outro garoto maior, que devia ser o filho descoberto recentemente. Os gêmeos enchiam Denis de perguntas, enquanto que a menininha foi se aproximando de Sabrina, até sentar em seu colo. O outro garoto ficou apenas lá, parado e observando, como se estivesse vigiando os visitantes.
Quando a mulher terminou e as crianças foram para a cozinha jantar, ela se sentou e ouviu a história toda que Sabrina tinha para contar.
— Olha só, você não vai achar que eu tô mentido. Mas a verdade é que não tem como o peste do meu marido ser seu pai não. Ele nunca foi nesse cidade ai. E nem mesmo tentou entrar numa faculdade, porque nem terminar a escola ele terminou. Saiu com uns doze anos.
— Eu entendo. – Sabrina sentiu uma mistura de tristeza com alívio. Certamente, ela queria encontrar o pai, e mesmo que fosse o homem que vivia naquela casa, ela não se importaria. Mas preferiria que seu pai fosse alguém que a recebesse de braços abertos e lhe oferecesse um lar. – Obrigada.
Eles se levantaram e se despediram da mulher, indo em direção ao portão da casa. Logo, as crianças da casa já estavam todas atrás da mãe, vendo os visitantes irem embora.
— Seria bom ter você na família. Tem cara de que é inteligente e vai ter dinheiro quando for adulta. – A mulher falou antes de fechar o portão.
Ligaram para o táxi que pegaram mais cedo, mas o telefone não atendia. Provavelmente o motorista já tinha encerrado o expediente do dia ou estava ocupado com outro passageiro. Resolveram ir caminhando até a rodoviária ou até encontrar outro táxi no caminho.
Denis e Pedro saíram correndo na frente e se esconderam atrás de uma casa ainda em construção. Quando Leonardo e Sabrina se aproximaram, deram um grito, assustando os dois. Sabrina ficou sem cor de susto e Leonardo, vermelho de raiva. Depois disso, caminharam um tempo sem conversarem, com Leonardo com a cara amarrada.
— Você não sabe brincar, Léo. Não sei porque pensei que você estava mais divertido agora. É o mesmo chato de sempre. – Denis se irritou com o silêncio e os passos pesados do irmão. – Estou indo pra rodoviária e vou voltar pra casa. Cansei dessa viagem.
— Denis! – Leonardo gritou o irmão.
— Eu estou indo.
— Para, cara! Tem carro vindo. – Pedro gritou.
Denis já estava no meio da rua, com um carro em alta velocidade a poucos centímetros dele, quando Leonardo deu um empurrão que jogou o irmão no meio fio da rua. Pedro e Sabrina vieram correndo do outro lado da rua. Os dois irmão tinham alguns arranhões nos braços, mas nada grave. Denis tinha a respiração pesada e o coração acelerado.
— Desculpa. – Denis falou para Leonardo. O dois ainda estavam sentados no passeio. Ficaram um tempo em silêncio, enquanto Sabrina e Pedro cuidavam dos machucados nos braços dos outros dois.
— Eu que fiquei estressado demais. Era só uma brincadeira.
— É, mas não foi uma brincadeira legal. Deixei a Sabrina muito assustada. E depois tem essa coisa de não termos encontrado o pai dela ainda. Eu exagerei na brincadeira.
— É, eu também. – Pedro concordou com Denis. – Desculpa a gente.
— Mas a ideia foi minha. E quem saiu andando na frente e quase fez o Léo ser atropelado foi eu. Eu que sempre estrago tudo. Pensa Leonardo, se você fosse atropelado e morresse por minha culpa? A mamãe e o papai iam ficar arrasados. Porque você é o cara legal. – Sabrina puxou Pedro e os dois se afastaram. – Você é o filho obediente, que vai longe na vida. O melhor filho de todos e irmão também. Eu era até maneiro antes, porque eu era bom em futebol e o papai gostava disso. Ele ficava felizão de me ver defender as bolas e ajudar meu time a ganhar os campeonatos. Mas agora, eu sou só o garoto problema, o que exagera nas brincadeiras, que não pode sair por ai sozinho que quase morre ou mata os outros que querem ajudar.
— Denis, não fala isso. Você sabe que não é assim. Sabe que a gente te ama. A mamãe, o papai, eu. Todo mundo. Você ainda é um cara legal, não é um garoto problema.
— Eu sei que sou. Veja você tentando fazer de tudo pra me animar. Se enfiou nessa viagem maluca, junto comigo e o Pedro, só pra ver se eu me animava e desistia de querer morrer. Sabe-se lá o que você teve que fazer pra conseguir que o papai e a mamãe liberassem a viagem. E eu sei de tudo que você teve que desistir nos últimos meses por minha causa. E depois tem a mamãe, que deixou o trabalho dela, pra ficar comigo.
— A gente fez isso porque te ama. Porque quer ver você bem. E quando você se acostumar com tudo isso, a mamãe pode voltar ao trabalho, se ela quiser.
— Vocês não entendem. Eu não quero que desistam das vidas de vocês por minha causa. Por isso eu quero sumir. Morrer. Sei lá. Só não quero dar mais trabalho pra vocês. Não quero ter de ouvir a mamãe chorando. O papai tentando conversar comigo e não falar nada de futebol ou que vai me deixar chateado. Eu vou voltar pra casa, porque é o que eu prometi pra eles. Mas depois, eu não quero continuar lá ou em lugar nenhum e quero que entendam isso.
— Não vamos entender. Não queremos perder você.
Denis não falou mais nenhuma palavra. Leonardo tentou abraçar o irmão, mas foi repelido.
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