Mesmo que Houver Amanhã
1 Capítulo Único
Olhos percorriam o salão. Ele havia entrado. Aquele rapaz, aquele mesmo rapaz, que sempre acompanhava a senhorita Rose. Qual era mesmo seu nome?
Ah, sim, Jack. Ele acabara de entrar no salão da primeira classe, como se fosse de lá. Apenas seu terno era um tanto mais precário do que os dos outros homens por ali.
Logo os cochichos começaram. Jack, por alguma razão, adorava aquilo. Que falassem.
Rose logo o viu, correndo em sua direção, empolgada. Seu noivo semicerrou os olhos, talvez se segurando para não fazer um vexame. Ah, sim. Se pudesse, realmente iria afastá-la dele bruscamente e tirar o revólver do bolso para matá-lo, tal como merecia.
Jack era educado, fora criado para isso. Um trapaceiro educado. Não soa irônico? Mas, na verdade, é brilhante.
A festa começa apenas quando o champagne é servido, lembrem-se bem disso.
Jack pegou uma taça desajeitado, continuava ao lado de Rose, mesmo na mesa e, constantemente, contava alguma piadinha em seu ouvido, que quase a fazia engasgar de rir.
Estava errado! Era errado! Como noivo dela, ele não podia aceitar isso!
Parecia que pouco importava.
- Rose – finalmente proclamou-se ele, tirando uma caixa do bolso. Uma grande caixa revestida de veludo.
Ah, não. Foi a única coisa que ela pôde pensar.
- Como seu noivo, acho que me vejo no direito de te dar isso como presente – sorriu.
A moça pegou a caixa com delicadeza, abrindo-a devagar. Era o colar mais lindo que já havia visto, diamantes azuis o cobriam inteiramente. Ah, e agora? Todos na mesa esperavam um beijo do casal.
Jack arregalou os olhos. Era mesmo um choque de realidade. Ver o que o outro podia oferecer a ela, comparado com o que ele podia dar. Engoliu em seco. Não podia dar nada além de seus desenhos, que não valiam nem 50 cents nas ruas onde sempre tentara vendê-los.
Sim, ele devia colocar-se em seu lugar.
Mas algo apareceu para salvá-los. Repentinamente, algo aconteceu. Todas as luzes se apagaram. Rose procurou a mão de Jack, apertando-a com força.
- Vamos – murmurou ele no ouvido dela. Era uma fuga, um sinal.
Ambos saíram correndo, esbarraram em alguma coisa, pois puderam ser ouvidos os cacos de vidro caindo no chão. Provavelmente algumas taças... Não ligaram, continuaram a correr.
- E aonde vamos? – perguntou ela, o sorriso estampado em seu rosto. Jack era tão mais divertido e imprevisível. A salvara já tantas vezes. Ele riu.
- Para onde a dama quiser ir – respondeu ele.
As luzes não tardaram a acenderem-se novamente. E logo todos estavam procurando os dois, os únicos que haviam corrido sem rumo por aquele imenso navio.
Mas ele e ela realmente não ligavam.
Sim, ele podia não ser um nobre, mas com certeza era um cavalheiro. E ela podia não ser a mais bonita, mas era, sem dúvida, o que lhe faltava.
Rose percebeu que era nele, sim, nele, naquele homem que entrara por causa de uma aposta no maior navio, e também mais luxuoso, de toda a história. Era nele que, em algum lugar, talvez em seu sorriso misterioso, ou na sua arte de fazê-la rir, que estava escondida sua verdadeira felicidade.
Mesmo que houvesse amanhã, ela desejaria o hoje.
Era ali que estava, afinal, sua verdadeira felicidade.
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