Dor. Era só o que eu conseguia sentir. Nem mesmo as dores no corpo, febre e todos os sintomas da gripe que me derrubaram me fizeram esquecer da dor do meu peito. Meu mundo estava em pedaços. Tudo aquilo que eu amava estava em pedaços. Não sei ao certo quanto tempo havia se passado desde aquele dia. Creio que uma semana. É, devia ser isso. Talvez eu tivesse morrido... Não fosse por Kami. Eu nem sei como ele arranjou uma cópia da chave do meu apartamento, e desde o dia em que ele me encontrou na chuva ele vinha todos os dias cuidar de mim.

Ah sim, Közi também veio me visitar duas vezes. Kami comentou qualquer coisa de que ele viria mais uma vez, mas também não me recordo direito. Mas... Kami estava ali sempre. Fazia os serviços domésticos, cozinhava e ainda cuidava da minha gripe. Eu ficava irritado comigo mesmo por não saber retribuir. Ele tinha muito zelo comigo, e no estado em que eu me encontrava, eu lhe era muito grato.

A porta do quarto se abriu e vi Közi entrando por ela. Sorria normalmente, mas eu sabia que havia acontecido alguma coisa. Sorri internamente, constatando que pela primeira vez Közi me era mais transparente.

- E então, como vai meu doente preferido?

- Você me faz parecer uma criança assim.

- Algum problema com isso?

-...

- Mas então, já está se sentindo melhor?

- Acho que sim.

-...

- Fala, Közi.

- Mas hein?

- Eu sei que você quer me falar alguma coisa, mas não sabe por onde começar. Pode falar.

Közi suspirou, sentando-se na beirada da minha cama.

- Hoje foi a coletiva pra anunciarmos a saída do Gackt da banda. É, eu sei... — ele disse, ao ver que eu iria interrompê-lo — eu proibi Kami de te avisar. Você não poderia ir, de qualquer maneira.

Suspirei, ainda irritado.

- Mas o que vocês falaram então?

- Dissemos que Gackt estava saindo da banda por querer seguir carreira solo. Mas eu sei o verdadeiro motivo. E você também.

- Közi...

Ele me interrompeu, sem a menor cerimônia.

- Mana, por favor só me escute. Eu sempre soube, o tempo todo, de você e do Gackt. Eu só não falei nada porque esperava que você fizesse isso. E Gackt também esperou isso. Nesses últimos tempos em que ficamos mais amigos, ele me contava... Claro que não mencionava o seu nome (mesmo porque não precisava). Entendo a sua opção pelo silêncio. Esse é o sei jeito de ser. Mas como eu uma vez te disse, o silêncio nem sempre é a melhor das alternativas.

Pisquei, recordando de uma conversa que havíamos tido há muito tempo. Sim, ele havia me dito exatamente isso. Na época eu não entendi, mas agora estava começando a fazer sentido pra mim. O pierrot continuou.

- Eu conversei com ele, há uns dois dias. Ele ainda estava muito magoado. Disse que apesar de ainda te amar muito, ele não queria mais se encontrar com você às escondias. Que não queria ter que esconder isso até dos companheiros e banda. Gackt simplesmente se cansou de ficar com você nas sombras.

A menção do nome de Gackt fez com que lágrimas solitárias escorresse pelo meu rosto. Então era isso. Tudo agora me fazia sentido. O olhar triste, a mágoa... A vontade de prolongar a turnê. Até isso fez sentido depois das palavras de Közi. Gackt só queria mais tempo. Mais tempo comigo. Era tão... Óbvio. Como eu não percebi antes? Estava na minha cara o tempo todo... Mas foi preciso que eu o perdesse... E que Közi jogasse isso na minha cara.

Como eu pude ser tão cego?

Sem que eu percebesse, Közi me abraçou, enquanto eu voltava a soluçar. Minha dor só aumentou. Logo veio a crise de tosse, e me afastei de Közi. Ele foi até a cozinha buscar um copo de água e voltou com ele e Kami.

- Mana-san, tudo bem?

Ah, Kami. Sua preocupação sempre fora sincera. Ajeitou os travesseiros de forma que eu ficasse sentado confortavelmente e estendeu uma pílula de alguém remédio antigripal, enquanto Közi me entregava o copo d\\\'água. Tomei o remédio, obediente, e acabei por sorrir.

- Sabe, acho que vocês dois dariam ótimos enfermeiros.

Közi sorriu largamente.

- Ele já está ótimo, Kami. Já até quer nos ver vestidos de enfermeiras... Com cinta-liga branca também, Mana-chan?

Meu olhar fuzilante especial para Közi foi certeiro, apesar de saber que há anos ele não surtia mais efeitos. Kami apenas riu, optando por não opinar nas besteiras de Közi. Enquanto eu tivesse os dois ali, eu estaria bem.

**********

Mais uma semana, e eu já estava de pé. Convenci a mim mesmo de que agora já era tarde demais pra voltar atrás e tentar corrigir as minhas falhas. Agora eu via, com uma clareza ofuscante e deprimente, o quão omisso eu fui.

Tudo sempre escondido. Sempre nas sombras. Essa tinha sido a minha escolha, que Gackt se viu obrigado a aceitar. Eu tinha que me concentrar no presente. Não que eu realmente fosse conseguir esquecer o que eu havia passado com Gackt, mas... o passado deve ser fechado com uma porta de vidro, para que possamos vê-lo, mas jamais retornar à ele.

Kami continuava a me visitar diariamente, para ter certeza de que eu continuaria a tomar os remédios. Sua companhia era um bálsamo para as minhas feridas. Sempre me alegrava com seu jeito espontâneo, tentando ao máximo me fazer senti bem.

Eu não sabia como retribuir. Não que ele tivesse me pedido algo em troca, muito pelo contrário. Mas eu me sentia na obrigação de retribuí-lo. Não sei da onde vinha aquela sensação boa que me preenchia e me fazia esquecer de toda a dor quando estava com ele. O fato é que Kami tornou-se essencial na minha vida.

Ou seria parte da minha vida?

Nem sei direito. Mas sempre que eu precisava, ele estava ali. Claro que eu ganhava Közi de brinde, que sempre esteve comigo. Mas eram sentimentos diferentes...

Közi era o irmão mais novo pentelho, aqueles chatos que fazem piadinhas toscas nas horas mais inapropriadas, mas que sempre ajuda quando necessário. Já com Kami... Eu não sabia definir. Amizade? É, talvez. Ou poderia ser algo mais... ou não. Via-me mais uma vez perdido e confuso. Pelo menos a sensação de confusão me era familiar.

E foi assim, numa tarde qualquer, quase um mês desde a saída de Gackt, Kami estava em minha casa. Estávamos largados no sofá, assistindo um filme qualquer que estava sendo exibido na TV.

- Kami...

- Hai?

-...

-...

-...

- Mana, por que me chamou se você não queria dizer nada?

- Espera, eu estou tentando falar.

- Tudo bem.

-...

-...

- Kami...

- Hai?

- Você... Não quer morar aqui?

Ele arregalou os olhos, devidamente assustado. Pra ser bem sincero, eu também estava um pouco assustado com as minhas próprias palavras. Mas por que não? Por que não tentar de novo com outra pessoa? Tudo dependeria... da resposta de Kami.

- Como assim, morar aqui? Com você?

- Teoricamente sim.

- Não entendi.

- Se você vier morar aqui, vai morar comigo, oras.

- Não precisava dizer o óbvio.

- Foi você quem perguntou. Então, quer morar aqui ou não?

- Eu... não sei, Mana. Quero dizer, nós somos amigos e tal...

- Kami?

- Fala.

- Quer ser... mais que um amigo pra mim?

Virei-me de frente pra ele, tentando ver cada traço de sua reação. Alguns segundos se passaram, onde nós penas nos fitamos, sem nenhuma intenção de qualquer outra coisa. Até que ele sorriu. Aquele sorriso lindo que podia alegrar qualquer dia mais cinzento.

- Você... tem certeza do que está me pedindo?

- Claro que sim.

Ele pulou para o sofá onde eu estava, segurando meu rosto entre suas mãos quentes. Foi o beijo mais doce que eu já havia provado.